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sábado, 23 de julho de 2011

luz de fogo



um canto aos que morrem jovens

Eu choro até por quem me traiu
Eu traio meu próprio conceito
Eu xingo até quem já me pariu
Eu rodo o pé no que ninguém conseguiu

Intenso
Mesmo que um instante valha o resto da vida
Não quero o resto, quero a vida
Me acabo no pouco que ela me dá
Quero todas as vozes
Todas as pazes
Cada uma de suas fases
Amanheço no desejo e anoiteço num sorriso
Rejuvenesço enquanto latejo
Aconteço num canto incisivo

O resto é treino para a guerra
Rezo atrás do reino da grana certa
A peste é ponto para a terra
O caos natural é a única oferta

Intenso
Mesmo que o encanto falhe o teste da vida
Não quero protesto, cara comprida
Quero todas as vozes
Mesmo as atrozes,
Cada uma de suas poses
Amanheço no desejo e anoiteço num sorriso
Envelheço num quadro que não vejo
Aconteço enquanto brado o paraíso

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Estrangeiro



Na cidade dos milagres concretos,
Prédios de pedra erguem-se ao céu tal foguetes abortados.
E nada há que consagre por completo
Um remédio contra o tédio dos banquetes e bailados.

Onde vão seus pares agora, estrangeiro,
Depois que tomou por fama todos os prazeres?
Só lhe resta esses ares de carniceiro,
E pra comer a fome que sobrou não tem talheres.

Volte para onde finda seu lar,
Esqueça que cuspiu no prato que te dei;
Se revolte pelo que ainda tem de dar,
Já que é difícil ser grato, eu bem sei.

Quem te acredita agora além de um cego
Que se enrola na malha perdida da beleza ultrapassada?
Quando for embora deixe que me encarrego
De tirar da mesa a migalha de tua última risada.

Não ligo de recolher outra vez tua sujeira;
Já visitei o inferno da dor que você tem.
Nem digo dos inimigos que fez por coisas rasteiras;
Enfermo, voltei com olhos de amor que teus olhos não vêem.

Pare de seduzir em nome do amor aos pobres,
Tentando se amar ao amar quem dói mais que você.
Aprenda a ser feliz sozinho com teus sentimentos nobres,
Pois quem conhece a rua não quer a arte do teu buquê.

Só quem vive de culpa e inveja precisa chorar a pobreza,
E por esse discurso de horrível caridade torce.
Mas quem sorri cúmplice ao mendigo a humana grandeza,
Ri do teu riso que a cárie doída do orgulho ferido distorce.

Saia bradando: "olha a música que me fizeram cheia de elipses".
Corra para encontrar a linha simples entre o céu e o mar nessas ruas,
Então verá que é por irmandade que te conto o apocalipse,
E amargará a inocência perdida em línguas que não eram tuas.

Hoje as ruas estão belas no olhar vadio que me crio.
Sou um, sou todo cheiro, sou qualquer caminho;
Sinto até um arrepio de gozo ligeiro no ar frio,
Pois já aprendi, estrangeiro, já aprendi a ser sozinho.

domingo, 19 de dezembro de 2010

4 ELEMENTOS


Alegoria dos quatro elementos, Louis Finson

AR

O ar pra quem voa é lucro,
pra quem parte é pouco,
pra quem fica é luto,
pra quem respira é oco,
pra espaçonave é um lustro,
pro recém nascido é um chute;
e quem pensa o ar com custo é louco.

FOGO

O fogo mais brilhante é o incêndio;
o olho mais ardente é traiçoeiro;
beijo quente é imitação que não ofende-o;
tem fogo até nos pulsos de um coveiro.
Explode uma faísca no rosto mais cândido;
no centro desta festa em chama me desviro.
O fogo é puro no escuro como o sorriso do bandido.

TERRA

O chão bate seco na estrada real;
escorrega o deserto na superfície de areia;
O dente que morde, a pedra fatal;
De pó também se ergue quem viaja na beira.
Terra batida, terra mexida no temporal,
 terra de todos os nomes, terra só de poeira.
Mãe de todos, pai de cada funeral,
Engole o orgulho de ser tão astral quando é só rasteira.

ÁGUA

Onda que leva e engole,
gota que seca e vira céu,
mistério do fundo mais mole,
na fossa abissal o último véu.
Saliva que azeita a nota do fole,
chuva que campassa o galope do corcel,
mar que se enrola, nuvens ao léu.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Devaneios de Don Juan



Sob feitiço. Submetido nos vãos em que a palavra não.
Não me ofereça tal lânguida delicadeza. Ao invés, parta comigo para a guerra. Sim, é da terra que falo, apesar desta sua seda que enrolo entre meus dedos, entre meus deuses.
Prometa. Mas não aconteça. Guarde o fogo no olhar, guarde os lábios devastadores no silencioso vinho. Venha, mas não se entregue mais; eu sou todo mal, sou infame, sou desses matadores de ninho. Não me diga seu nome, seu mar; não me conte um segredo. Já sei de tudo; sou só escudo, sou só degredo.
Sou frio, mas como iceberg no degelo, oculto aos olhos dos céus, dos homens. Eu invado e mato. Cuidado, sou só um albergue, sou de passagem. Eu imundo e invado. Sou pássaro de rés, sou viagem de ré, sou o que ninguém quer, sou todo réu. Não sou um homem; sou um seu dia. Também sou ninguém; sou, por enquanto, sua cria. Sim, eu sou o amor, por isso não me apaixono. Sim, sou o cortiço da dor, e assim é que funciono.
Isso não é um conselho; não sou seu pai. O que você quer? Haverá o tempo em que não precisaremos mais de um pai, de um espelho, de um ai sequer. Então, nos encontraremos nas praias, filhos do sol desperto, quentes depois da febre, lúcidos depois das pragas, idiotas ao certo.
Por enquanto, o desejo. A carne que tateia no escuro, o ensejo impuro. Amanhã será talvez, e deste vazio de incerteza bem-vinda, saberemos dar vez ao beijo mais justo - a palavra mais linda. Seremos um a todo custo.
Eu quero estar alerta depois do gozo de ser, como se fosse o fim do mundo e pudéssemos enfim - ouso dizer - rir de toda esperança, dançar como bichos toda ilusão de um suposto fundo. Não ser belos, mas rosto imundo.
Pois quero o amor que ninguém ainda inventou, quero a irmandade. Quero a verdade que a mão de nenhum amante matou, não quero a saudade.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

ode ao ignorante

Não existe pior maneira de suportar o silêncio da solidão construída ao redor de si, que extrairmos um sombrio conforto ao assistir a desgraça dos outros. Ó ser ignorante e perdido que é o homem que não se adoça de poesia quando velhice o persegue.

Eu quisera não ter o estômago a arder para não ter de chorar minha dor aos cegos de quem só vê as próprias dores, insultando a natureza, desmerecendo a vida. Calem-se os palhaços e rufiões! Deixem o ignorante morrer no medo de seu coração negro! Aqui a vida é paz, meu senhor.

Pudesse a madrugada fria e a aurora que a segue confundirem-se na mais pesada tempestade e nem assim estas almas seriam lavadas, senão por breve relâmpago. Os ignorantes tem medo até da própria merda, e nunca ousaram ver às claras o olho do próprio cu; dão a palavra de morte à carne de seus prazeres, e o prazer fácil é única esperança que gastam em sua preguiça de pedra.

É bom revoltar-se contra o mau-humor, mesmo à custa de mais estômago. O claro estalar dos terremotos ainda acorda nossos mortos. Não é novidade. Não é desgraça alheia que nos possa confortar. É o inferno do egoísta que dá as mãos e os olhos, mas nunca o coração e o estômago. Gulosos de si, morrerão secos, no desespero de um primeiro e último momento de lucidez. Eu também morrerei, mas terei sabido, ainda que numa defesa arrogante, saudar enquanto jovem a eternidade antes da hora. Eu sou antes, eu sou sempre, eu sou aquele que o acaso permite adivinhar, filho e senhor do tempo. Sou bruxo do sonho e alquimista da pedra; sou meu espelho nesta face concreta. Sou a rosa, a multidão, sou ninguém. Já você, irmão ignorante, é tão "você" que não não ri nem chora a não ser por imitar o que a desgraça lhe ensinou de mãos dadas com o medo. Ó ignorantes! Serieis sobreviventes se já não fosseis mais que mortos. Pois os mortos são chorados, e os vivos, estes como tu, só fazem chorar, inspirando nada além de ódio e dó.

- Pior que ainda tenho fé que o amor ajustará suas contas.

(janeiro/2010)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

viniciano

Amor, palavra primeira, reza despreocupada, aguçamento do sentido amor. Medo da morte, da pressa, do fim da liberdade. Até longe, amor bem-vindo! Até a eternidade, caro capricho! A onda agora ainda está na maré que desce e sobe. Falamos de sexo, esquecemos a palavra sexo. Prazer em conhecê-lo.

Só ama quem suporta o silêncio da espera, quem conhece a hora da partida. Aos outros, os meus respeitos. A todos nós, a paciência de quem sabe que vive e por isso mesmo esquece de viver. É preciso ter a paciência do cego para viver.

Seria lindo se todo mundo estivesse presente no quarto do adeus, na partida das horas, no fim do mundo. Por enquanto, crescer e multiplicar, e eu querendo a simplicidade do que não se pode dizer. O fim do mundo. Os olhos abertos ao espanto primeiro, entre a dor de nascer e o prazer de sorrir. Lá e cá, sempre assumir-se antes da morte. Há sua graça.

Nada é fatal na beira do mundo, na praia, no céu, no espaço infinito. A vida é doce que rebate no estômago, e eu acredito nos sonhos mais lindos. Por que não? Também sou rebelde, sou bicho do mato que sabe cruzar um deserto, onde as palavras calam.

Gosto do silêncio da certeza de sentir. Gosto da paz dos caminhos. Gosto do encanto do instante, da rima fácil, do ritmo de qualquer um. Cada um no seu reino de amor. Cada um no seu veneno de orgulho. Quem ama mais, chora mais; quem sofre mais, tem que aprender os truques de todos os sorrisos, de todos os corpos. Pra que sofrer, minha gente? Pra que amar? Para que perguntar? O amor é a única vida em que meu ser não pensa. Por isso só dá para amar recebendo cuidados, como a criança que nada aprendeu. O resto é praga, teste de sobrevivência, castigo imposto e aceite. O amor não sei. É mistério solvente, luz movente, morte contente.

Mas, por enquanto, vai ficando a eternidade.

(janeiro/2010)

domingo, 31 de janeiro de 2010

Esfinge

Eu sou seu outro sem nome. Se você vir em mim o deserto, é deserto que devolverei no olhar quente demais, frio demais. Se você tiver medo, eu parecerei indomado; se tiver desejo, eu só devolvo desejo. Se oferecer um beijo sincero, eu devolvo mais que sinceridade, eu dou a verdade. Se você fugir, é porque eu fugi antes. Quero estar com quem saiba atravessar a noite e alcançar a manhã com alegria e celebração, com o prazer constante que nao morre na espera de momentos breves de êxtase e nao se ressente dos momentos breves de sombra, dúvida e tristeza. Eu sou aquele que saberei amar olhos amavéis, ardentes, delicados e vulneráveis. Eu saberei amar a boca que se cala quando a atração dos corpos é simples. Eu sou aquilo que existe entre a razão deste dia e a ilusão daquela noite.

sábado, 9 de maio de 2009

Parceria

Há dez anos ou mais, eu e a Cláudia (http://inkuts.blogspot.com/), amiga de alma e arte, brincamos seriamente de fazer uns trabalhos em conjunto, um mix de desenho e poesia. Ela começou desenhando; usou algumas de suas múltiplas armas expressivas para dar luz a certas urgências do inconsciente, e eu tentei registrar as palavras que as musas sugeriram a partir dos desenhos. Até deu orgulho ver o que fizemos aos 19, 20 anos.... Ei-los:


Eu, que fui tão somente um giro de sol.....
de talões desnudos, transpus campos de coroas de cristo;
e um passo adiante, pisoteando bolas de algodão em flor,
criei barbas ruivas nas solas sangrentas....
no meio das mil dunas, tomei da ampulheta apenas,
tornando-me também um senhor do tempo ao fiar linha arenosa
por minha laringe tal couro esticada.... trespassei fantasmas moluscais com lâminas de prata,
incandescentes. Passantes, amantes; todos eles....
alentei, em mãos molhadas de oceano, meu umbigo febril,
convulsionado. Linhas frígidas sobre as lesmas de dor....
emaranhei os cachos da sereia, e vi que teia ainda é seda.
Nas caudas limbosas dos tritões, esfreguei o breu,
até que o atrito se fizesse um sustenido....
nos olhos fui gotejado de saliva cancerosa. Espessa,
rompendo camadas do céu. Sempre fui um cego....
enroscando nas próprias lãs, cocei o queixo num pêssego caído.
As manchas da queda eram úmidas como olhos vazados....
sufoquei a fome com asas de borboleta. tantas quantas pude encontrar....
tive o rosto a borbulhar, passivo a ventos devassos;
e, escondendo-me sete palmos abaixo das águas,
vi o sol correr de novo de um fim a outro enquanto esperava.
Eu, que soube de cada cicatriz da Natureza,
até a chegada da noite, com as falanges trêmulas,
vesti de pergaminhos as mamilas de alguém.


Se há de haver uma gota, se for uma gota,
que role então - acanhada pêra às pressas colhida -
de pêlo a pêlo rastreando tatos em abandono.
De pêlo a pêlo a alegoria de mineiros caindo em séquito.
- Que caia negra.Que seja negra e negros sejamos nós.
Se há de haver o artista da multidão,
que crie então - deliberado e conciso, de olhos trêmulos -
de nuca a nuca edifique um frontispício.
De fronte a fronte - as frescas, as cansadas, as machucadas, as aureoladas.
Que crie e tão somente crie. Criar ainda é movimento.
E frágeis de veias a estourar, que sejamos nós
sua obra de arestas mal polidas, inacabadas.
Ainda se arde na terra - calvário luxuoso de nossas torres.
Ainda a terra arde, e com ela nossos tendões - seda dos pés-calcário.
A sombra ainda alenta e tão lenta passa erigindo novos mapas
sobre nós, sobre os convites entregues, sobre o dia. Sobre a terra.
E no fim , refaz sua paz com a lua, seja esta a meretriz.
À noite, a sombra faz as pazes com a lua - fazem seu entoar
de ninar sobre a pele que dissimula os olhares da seda.
Que sejamos para o sol só o que se vê. Só o que se vê.
Como sempre, que sejamos mineiros caídos em diamantes de arestas e brilho primatas -
Feito o sol para a antiguidade.
Para os sequazes os olhos do dia, que sejamos apenas um detalhe.
E para o resto do tempo, que sejamos o resto de nós.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008


Aí vai um experimentação com vídeo tbm... Sempre gostei de ver as pessoas lendo seus próprios textos... Pra quem gosta tbm, aí vai um meu. Obviamente, já que me abri tanto, estou ainda mais aberto à críticas e comentários.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Um Poema de Anne Sexton

Esta tradução é dedicada a Antonio Ferah, que me apresentou essa poeta americana, aparentada de Sylvia Plath no estilo confessional, inédita no Brasil. Intriguei-me na força quase sexual com que ela luta contra a degeneração e a morte em geral, quase como um estupor plácido. Será? Bom... Deve valer tudo para explicar a atitude dos poetas, mais até que as patologias que a ciência inventa. Principalmente, porque aqui a sensibilidade feminina, incoercícel às palavras, se resguarda, cumulando vozes fúteis da algazarra civilizatória masculina.
A escolha desse poema em específico também se deu por razões que a ciência não explica.

Music Swims Back to Me
by Anne Sexton


Wait Mister. Which way is home?
They turned the light out
and the dark is moving in the corner.
There are no sign posts in this room,
four ladies, over eighty,
in diapers every one of them.
La la la, Oh music swims back to me
and I can feel the tune they played
the night they left me
in this private institution on a hill.

Imagine it. A radio playing
and everyone here was crazy.
I liked it and dance in a circle.
Music pours over the sense
and in a funny way
music sees more than I.
I mean it remembers better;
remembers the first night here.
It was the strangled cold of November;
even the stars were strapped in the sky
and that moon too bright
forking through the bars to stick me
with a singing in the head.
I have forgotten all the rest.

They lock me in this chair at eight a.m.
and there are no signs to tell the way,
just the radio beating to itself
and the song that remembers
more than I. Oh, la la la,
this music swims back to me.
The night I came I danced a circle
and was not afraid.
Mister?

a música nada de volta a mim

Espere Senhor. Qual caminho leva ao lar?
Eles apagaram as luzes
E o escuro se move no canto.
Não há nenhum sinalizador neste cômodo,
Quatro senhoras, pra lá dos oitenta,
De fraldas, cada uma delas.
Lalala, Ó a Música nada de volta para mim
E posso sentir o compasso que tocaram
Na noite em que me deixaram
Nesta instituição privada em uma colina.

Imagine. Um rádio tocando
E todo mundo aqui estava louco.
Gostei disso e dancei num círculo.
A música verte sobre os sentidos
E de um modo esquisito
A música vê mais do que eu.
Digo, ela se lembra melhor;
Lembra da primeira noite aqui.
Era o frio estrangulador de Novembro;
Mesmo as estrelas estavam amarradas ao céu
E a lua tão brilhante
Ramificando-se pelas fechaduras para me espetar
Com um cantar na cabeça.
Eu tenho esquecido todo o resto.

Trancam-me neste assento às 8 da manhã,
E não sinais para contar um caminho,
Apenas o rádio batendo-se para si mesmo
E a canção que lembra
mais do que eu. Ó, la la la,
essa música nada de volta para mim.
À noite eu cheguei e dancei um círculo
E não tive medo.
Senhor?

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

HÁ O MUNDO AINDA

Tem que ser doce. Tem que ser coca-cola.
Mas o que dizem as estrelas?
Você vestiu todas as ilusões da lua,
como ela, está seco para o choro.
Crateras que você não põe no poema com o nome de dor.
Há que ser como um livro de viagens.
Há que se respirar no trânsito.
Desde quando sou esta pedra fria que ouve as histórias de fogo nesses olhos?
Eu os vi, reconheci as dores que perdi e as que nunca terei.
Inventamos histórias de almas, melodias.
É doce. Tem que.
Há também o lado das sombras.
Diferenças, incertezas, inseguranças,
ciúmes, apatia, dúvida, euforia, angústia.
Espera. Escolher entre bom e mau, espontâneo e medido.
Cada um com sua vida, em comum uma aventura.
- O que mais? - eu rezo a não sei quem para saber.
Será verdade. Sonho, dôo de saudades. Amor. Eu sinto você desde antes do mundo.
Se é para usar as palavras grandes, usemo-las todas, sem distinção nem caráter.
Escolha nova cidade, novo amor,
quem sabe lar, quem sabe quem,
estudar para saber, fazer, expressar,
deixar para a eternidade o registro de umas vidas.
Espero que me soprem sempre as palavras certas com amor,
Mas às vezes quero as ordens de um pai para recusar.
- A rebeldia será sempre o meu frisson.
E o sexo? Haverá tanto, a descoberta incessante de todas as portas e janelas.
Que bicho você será dessa vez, marinheiro?
Abençoadas sejam nossas presenças no zoológico cosmopolita.
É preciso conhecer um mundo.
É preciso correr, sobreviver,
afundar-se na onda de novos mergulhos, viagens, a que chamaremos loucura, revelação,
palha e agulha.
É preciso rir.
É uma paixão que convida, uma curiosidade que espeta, uma razão que comanda,
uma entrega do prazer ao destino. Radical, rebelde, lúcido e confuso.
Iluminado e sombrio.
Acho que já me acostumei a carregar um certo peso,
às vezes minha preguiça dirige sozinha a minha vida.
Mas estarei onde me chama o prazer, o mistério, a arte.
Não quero promessas, quero o desejo que há no corpo,
a escolha do razoável,
a redenção de todas as saudades,
de todo mundo neste Brasil tanto,
que hei de circular para não perder os laços.
Há o mundo ainda.
Há o mundo ainda.
E todos virão para a festa da grande alegria,
em meu lar,
sob o olhar ciente dos gatos. Tantos.
Silêncios agora.
Incrível como a música é sempre outra.
Guarde bem todas as chaves. Seja triste por um minuto.
Assim não se desaprende de amar.
Se não der certo, a gente faz uma banda.

domingo, 30 de novembro de 2008

DESCANTO

Vamos, vamos! Continuemos.
Alguém inventou que é preciso.
Embora meu corpo queira se acomodar como uma estrela de morte,
tragando toda a luz numa fome que é também preguiça.
Mas nem isso, irmãos!
Nem a inveja dos astros, esta carniça.
Só umas palavras pelo vício humano de entender
o que a carne come, porque come e quando.
Ah, tempo! Como ando?
As palavras de ordem querem me tirar do se de uma hora que dorme.
Minha sede vagabunda de não ser além,
de ser um aqui puro e tão somente,
uma semente de possíveis que reste quieta em seu retiro,
um número primo sem rima, uma réstia contra o vampiro.
Vamos, vamos! Leve-me então, amigo.
Seja um convite da espécie,
seja um alvite de estrela.
Queira-me aqui, só por dizer, sem querer.
Leve-me, leve-me!
Meu descanso é negro,
meu descanto, pleno.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

DEPOIS DO PARAÍSO


Eu sufoco esse coração que bate até ranger a porta dos olhos.
Eu inspiro fundo a angústia da noite após o prazer.
Eu treino a paciência como um beduíno que enfaixa de tiras negras a cabeça que cruza o deserto.
Eu esculpo a quietude da beleza na casca frágil que tenta conter a tempestade de uma alma.
Eu crio novas orações quando todas as palavras parecem mortas.
Eu olho como um deus para fraqueza de minha humanidade.
Eu expulso os demônios dos quartos trancados dos filhos de boa família.
Eu danço como um macaco santo para pisotear a infâmia dos bons costumes.
Eu ressuscito das trevas para trazer o sorriso da manhã aos jovens que temem tudo, menos o sexo.
Eu invoco os punhos dos escravos que construíram a pirâmide de Gizé para exigir piedade dos céus.
Eu venço as horas como quem se deixa vencer pelo amor.
Eu treino a disciplina do ferro e do fogo na entrega total.
Eu retorno para contar uma história de todo mundo e merecer a amizade de um só senhor a todo custo,
Ao custo de uma vida.
Cuspida no barro.
Escarrada no acaso de uma estrela.

23SET08

BONDE DA CHARADA


Vamos lá amiguinhos, esse é o bonde da charada,
que já não me levo a sério num país que não se leva.
Mas sou solidário, porra. Brasileiro-palavrão.
Embora eu pegue carona na piada de um silêncio.
Porque charada é assim: não se sabe de que lado o céu se abre.
(Pegou o bonde andando e quer sentar na janelinha?)
O tempo que lhe abro está nublado?
Recomeço-me para seu entendimento:
Não sou nenhum nome do amor e da morte.
Não sou nem o que escolhe a sorte.
Excesso de subjetividade é medo das horas.
Além de porra,
Sou agora.

06set08