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quarta-feira, 28 de julho de 2010

PRETENSO MINI-CONTO CLARICIANO

O garoto olhou assustado, ansioso: ali atrás da cerca era um hipopótamo, dizia a placa de identidade. Tinha boca grande de desvirar homem em troço, mas só mascava um tempo de coisa já degustada; tinha peso de cair por cima, mas se punha debaixo d'água, deixando pra fora só duas orelhas rebaterem leves como as mãos de uma criança que não sabe falar. O garoto viu tudo isso, respirou fundo com prazer onde antes era duro de sentir, e soube, assim parado: era amor. Então, vomitou. Rápido, seco, num jato. Porque precisava sentir-se menino de novo.

domingo, 6 de junho de 2010

KAFKA À BEIRA-MAR - Haruki Murakami


"Nakata descontraiu os músculos, desligou o comutador da cabeça e transformou-se numa espécie de sensor vivo. Isso era natural para ele. Nakata o fazia cotidianamente desde criança. Logo, as bordas da consciência começaram a esvoaçar como borboletas. Do outro lado da borda estendia-se um vasto e escuro abismo.  Por vezes, ele estrapolava a borda e sobrevoava esse abismo de estonteante profundidade. Mas Nakata não temia nem a escuridão nem a profundidade. Por que haveria de temê-las? Esse mundo escuro cujo fundo não avistava, assim como o pesado silêncio e o caos, há muito constituíam uma entidade amiga e repleta de nostalgia e eram agora parte dele mesmo. Nakata sabia disso muito bem. Nesse mundo não havia letras, dias de semana, temíveis governadores, óperas, nem BMWs. Nem tesouras, nem chapéus de copa alta. Mas ao mesmo tempo não havia também enguias nem pão doces. Ali havia tudo. Mas ali não havia partes. Como não havia partes, não precisava substituir certas coisas por outras. Nem tirar nem acrescentar. Não era preciso pensar em coisas difíceis, bastava apenas deixar-se impregnar por tudo. E Nakata achava que isso era mais gratificante do que qualquer outra coisa no mundo.
Às vezes, Nakata caía em leve modorra. Ele podia adormecer, mas seus cinco sentidos estavam alertas, vigiando o terreno baldio. Se algo acontecesse, se alguém ali surgisse, Nakata despertaria num átimo e entraria em ação em seguida."

Tradução do japonês de Leiko Gotoda
Editora Objetiva/Alfaguara 2008

Este é o segundo livro que leio deste grande autor contemporâneo de origem japonesa. Sua mistura de referências eruditas e pop nos levam a imersões em experiências impressionantes como a deste trecho, em que uma experiência digna de um guru oriental é vivida por Nakata, um senhor "idiota" no mesmo sentido do Quixote ou do príncipe Mishkin em Dostoiévski. A capacidade deste autor de expor com clareza, simplicidade e naturalidade as experiências mais tabu e limítrofes da vida, as mais inexplicáveis, é um assombro para o leitor. Este autor tem a rara capacidade de popularizar sem perder a profundidade e os detalhes, ao mesmo tempo em que "eruditiza" experiências cotidianas sem nome, imprimindo-lhes um significado transcendental, à la Clarice. Quando terminar a leitura volto para contar mais. Para quem quiser, dê uma uma olhada no escrevi sobre o outro livro de Marakami que li, Norwegian Wood:
http://alerabelo.blogspot.com/2009/05/norwegian-wood-haruki-murakami-e.html

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O Espelho no Escuro - 4

ALEGRIA

A alegria é suspeita. Às vezes ela peida, às vezes ela ri. A alegria só é possível se equibrada e atenta entre os dois lados da moeda; sim, entre a morte e a vida. Evitar falar da morte é caminhar para ela do mesmo jeito. Então, que nos atrevamos a ser alegres até quando o assunto é morte. Quem alcança isso nunca mais ficará triste de doer, mas, quando muito, triste de se divertir, de chorar de alegria.
Até conversando me sinto alegre, mesmo sabendo que é difícil concordar universalmente por sermos únicos, por isso as pessoas só se encontram na alegria, que é mais um humor que um pensamento.
A alegria é um sentimento que nasce espontaneamente, mas que também pode ser cultivado. Por exemplo: quando falta alegria, sempre queremos um beijo, mesmo dos mais idiotas e fora de contexto. Observe também que quando a alegria é suficientement constante, nenhum desejo é tão sedutor a ponto de nos arrastar. Pois quem está alegre, escolhe com coragem. E coragem não é ausência de medo, mas o medo sob o domínio da alegria de viver, de la joie de vivre.
Tudo é ambíguo, inclusive a alegria. Essa é a graça e o sistema de pensamento de diversas culturas em vários lugares da história, desde sempre. É uma alegria difícil; Clarice já disse isso e mostrou o que acontece quando a vida perfeita se reconhece na face de uma barata. Como eu disse, a alegria tem sua graça, que é muito específica.
Contrário de alegria? Certeza. A alegria tem a curiosidade de querer conhecer tudo, até o segredo do bem e do mal que - ela descobre - não existe. Ou seja, a alegria é tão absurda quanto necessária; é contraditória, chocante e, ainda assim, serena e pacífica.
Também não custa notar que gente alegre respira bem, mas eu garanto que até um cigarro pode favorecer certo sentido de alegria. Por que não? A alegria é o direito de, quando tudo é sério, dizer "por que não?". É a abertura das possibilidades, a purificação das palavras, a transformação do corpo que dói e envelhece em corpo que aceita o prazer possível de cada fase da vida. Afinal, reclamar é tempo perdido; e tempo perdido não pode ser alegria. Como o trabalho, a alegria é atenta.   

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

clariciano

Eu procuro algum traço de sentimento com que possa me contar, mas não encontro nada. Nem frieza, nem indiferença. Antes, quando tinha preguiça de escrever-me, de inventar-me, procurava nas paixões juvenis alguma raiva que me energizasse para, enfim, vencer a dureza do papel, da caneta, da tela reluzente e do teclado. É que eu acreditava que a matéria das coisas era contra a fluidez do ser, como se o ser fosse coisa vácua, só de palavras. Agora, nem isso sinto ou faço. Talvez no fundo eu escreva para me afirmar, mas para dar voz a um instinto de bicho, uma verdade subrreptícia, e não essas verdades de palavras, essas vaidades.
E eis que, neste instante, tendo-me improvisado em um parágrafo satisfeito de si, não me vejo ainda pronto para tudo o que haja, embora me sinta a partir do coração - este mito que agora também me bate satisfeito e insatisfeito, apaixonado e subaquático. Claro que alguma lucidez me comanda também, mas esta luz não é de palavras, mas de observar, como bicho, se o ar que entra e o que sai é proporcional ao corpo que minha alma veio construindo.
Penso que se eu me identificar demais com minhas palavras, julgando-as tão minhas, estarei cansado de mim, e isto não quero nunca. Não por me amar egocentricamente, mas para amar a vida que possa desabrochar de mim. Todo mundo tem suas palavras e delas se arroga, fixando-se em imagens passadas, mortas; e percebo milagrosamente que, conforme me assoma o conhecimento da morte, prefiro cada vez mais a vida. No limite, qualquer palavra já dita é coisa morta, que só vale reavaliada, reapropriada, ainda que haja palavras vivas de homens mortos capazes de mostrar-me na atualidade do ser, de mostrar-me este "quem sou" que é apenas um "ninguém que cabe em qualquer um."
Tenho receio de palavras movidas por paixões. Pensemos. Um beijo deve durar o tempo justo do confronto. Alongar o desejo é matar o amor, desconfiar de seu poder e tentar extraí-lo no bagaço da carne, e não na carne intumescida de amor. E quero ser sempre jovem para convencer-me na busca desta inominável palavra. Para ser jovem e amar com a renovada inocência de jogos infantis, sem alongar os desejos de uma juventude sempre em fuga, tenho de me fazer de velho, e assim o faço desde criança, obstinado em vencer as idades, sem a covardia de não enfrentar o espelho, este espaço infinito onde cada ruga, ao invés de me envelhecer, me renova, mostra o novo insuspeitado, me rejuvenesce de tanta curiosidade com minhas coisas ínfimas. Talvez eu só esteja querendo dizer que tenho respirado melhor no enfrentamento da morte. Sim, não me culpo mais em temer a morte, é assim com todo bicho e me alegro cada vez mais de ser bicho antes de ser homem. Sim, não me culpo mais em aceitar a morte: existe uma indiferença de pedra em todo ser, e bicho veio da pedra também.
Talvez seja isto o que quis dizer quando quis dizer que para escrever-me, para inventar-me, não posso e nem consigo mais me agarrar desesperadamente a um "sentimento", a um logos qualquer, a uma razão que vem do fundo de uma taquicardia a que chamamos paixão, uma ansiedade sem propósito e cuja origem duvido que parta de mim, mas de nossos modernos costumes sobre o que seja o feliz. Como diria Rimbaud, o êxtase não é mais meu amigo.
Tenho o vício do cigarro, decerto. E se for possível explicar o vício como um desvio do ser em relação a seu ambiente, sim, digo que estou demasiadamente saciado desta cidade, embora nela tenha tanto me divertido, diariamente, religiosamente. É que não gosto muito de seguir uma única religião, por isso preciso partir. Não porque a cidade seja pequena de pequenez, mas porque o mundo é grande de mistérios. E quando não tenho meu mistério, que adoro encontrar nos olhos de um cão de rua, acendo meu cigarro. Mais não quero justificar. As justificativas nascem do medo não assumido, e prefiro ser inseguro com coragem. Dói menos. Já disse isso, sim. Estou tão contentamente vazio que me preencho e me atravesso até por repetições bem vindas. Às vezes repetir é necessário para aprender a sofrer menos, para aprender a aprender, para dar nomes melhores às coisas piores.
Se tem algo que me interessa de fato, que me engaja na realidade suposta, é a manhã transparente, cheia de possíveis, esta que nasce agora lá fora, no ar, no azul mutando mais rápido que a minha atenção sobre ela, no azul mutando mais devagar que esta minha aberrante transformação.
Antes eu escrevia com fome no estômago vazio, duro de certezas. Para aprender a chorar. Agora escrevo de barriga cheia, sim senhor, pois o pão deve me nutrir antes que a palavra. Sem bicho não há homem, e antes eu só queria ser homem, sem assumir o bicho. Quanta inversão de valores! Sim, sobrevivo com pão e palavra, nesta ordem. Não é para glamurizar a pobreza, estamos acostumados demais com a pobreza, e quero que esta sempre me entristeça. Até já houve um tempo sem uma coisa nem outra, sem pão e sem palavra, só de escuridão e um inseto de esperança, mas nunca fui bobo de arrogâncias, como os mendigos que impõem sua dor com ódio. Quis mais é saber-me mínimo, fazer um experimento contra minha soberba, e também porque tenho um corpo que não pega nem gripe - salve! - mas agora gosto de trabalhar simplesmente para ingerir e expelir coisas, seguindo a natureza de minha espécie, evoluindo-a, depurando-a no amor ao trabalho e no trabalho do amor, invejoso apenas das árvores, que tocam os extremos da terra e do céu com absoluta paciência.
Veja como minha escrita é perniciosa mesmo, e se a desdigo não é por charme de poeta que não pretendo ser: escrevendo aqui, pouco a pouco, bateu-me um sentimento sim, bateu-me um sim. Um amor pela minha mãe, pelo meu pai, pelos amigos e irmãos, pelos mortos e vivos, até pelos inimigos, se estes eu tiver. Está certo: foi um amor quieto, disfarçado, fugaz mas quase tátil enquanto durou, e que paro de proclamar aqui e agora. Mas que é sentimento ou ato mais valioso que as palavras que me chamaram daquele vazio com que comecei, com que tudo começa. E agora sim, posso retirar-me em paz e voltar a ser ninguém e nada. E é feliz assim, dizem meus olhos para o espelho transparente da manhã.