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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Fragmentos de um evangelho apócrifo


Tradução de Alexandre Rabelo

3. Desditado o pobre de espírito, porque debaixo da terra será o que é agora na terra.
4. Desditado o que chora, porque já tem o hábito miserável do pranto.
5. Ditosos os que sabem que o sofrimento não é uma coroa de glória.
6. Não basta ser o último para ser alguma vez o primeiro.
7. Feliz o que não insiste em ter razão, porque ninguém a tem ou todos a tem.
8. Feliz o que perdoa os outros e o que perdoa a si mesmo.
9. Bem aventurados os mansos, porque não condescendem à discórdia.
10. Bem aventurados os que não tem fome de justiça, porque sabem que nossa sorte, adversa ou piedosa, é obra do acaso, que é inescrutável.
11. Bem aventurados os misericordiosos, porque sua dita está no exercício da misericórdia e não na esperança de um prêmio.
12. Bem aventurados os de limpo coração, porque vêem a Deus.
13. Bem aventurados os que padecem perseguição por causa da justiça, porque lhes importa mais a justiça que seu destino humano.
14. Ninguém é o sal da terra, ninguém, em algum momento de sua vida, não o é.
15. Que a luz de uma lâmpada se acenda, ainda que nenhum homem a veja. Deus a verá.
16. Não há mandamento que não possa ser infringido, e também os que digo e que os profetas disseram.
17. Aquele que mata por causa da justiça, ou pela causa que ele crê justa, não tem culpa.
18. Os atos do homem não merecem nem o fogo nem os céus.
19. Não odeia teu inimigo, porque se o fazes, é de algum modo seu escravo. Teu ódio nunca será melhor que tua paz.
20. Se te ofender tua mão direita, perdoa-na, és um corpo e és uma alma e é árduo, ou impossível, fixar a fronteira que os divide.
24. Não exagera o culto da verdade; não há homem que ao cabo de um dia não tenha mentido com razão muitas vezes.
25. Não jura, porque todo juramento é uma ênfase.
26. Resiste ao mal, porém sem assombro e sem ira; a quem te ferir na face direita, podes virar-lhe a outra, sempre que não te mova o terror.
27. Não falo nem de vinganças nem de perdões; o esquecimento é a única vingança e o único perdão.
28. Fazer o bem a teu inimigo pode ser obra de justiça e não é árduo; amá-lo, tarefa de anjos e não de homens.
29. Fazer o bem a teu inimigo é o melhor modo de comprazir tua vaidade.
30. Não acumules ouro na terra, porque o ouro é pai do ócio, e este, da tristeza e do tédio.
31. Pensa que os outros são justos ou o serão, e se não é assim, não é teu o erro.
32. Deus é mais generoso que os homens e os julgará com outra medida.
33. Dá o santo aos cães, deixe tuas pérolas aos porcos; o que importa é dar.
34. Busca pelo agrado de buscar, não pelo de encontrar...
39. A porta é quem escolhe, não o homem. 
40. Não julgue a árvore por seus frutos nem o homem por suas obras; podem ser piores ou melhores.
41. Nada se edifica sobre a pedra, tudo sobre a areia, mas nosso dever é edificar como se fosse pedra a areia...
47. Feliz o pobre sem amargura e o rico sem soberba.
48. Felizes os valentes, os que aceitam com ânimo parecido a derrota ou as palmas.
49. Felizes os que guardam na memória as palavras de Virgílio ou de Cristo, porque estas darão luz a seus dias.
50. Felizes os amados e os amantes e os que podem prescindir do amor.
51. Felizes os felizes.

texto publicado em "Elogio da Sombra" (1969)

quinta-feira, 26 de março de 2009

A BIBLIOTECA DE BABEL - Jorge Luis Borges

By this art you may contemplate the variation of the 23 letters...
The Anathomy of Melancholy,part. 2, sec. ii, mem. iv
***
O universo (que outros chamam a Biblioteca) se compõe de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no meio, cercados por varandas baixíssimas. De qualquer hexágono se vêem os pisos inferiores e superiores: interminavelmente.
A distribuição das galerias é invariável. Vinte prateleiras, sendo largas cinco por parede, cobrem todos os lados menos dois; sua altura, que é a dos andares, excede apenas a de um bibliotecário normal. Uma das faces livres dá para um apertado saguão, que desemboca em outra galeria, idêntica à primeira e a todas. À esquerda e à direita do saguão há dois gabinetes minúsculos.
Um permite dormir de pé; outro, satisfazer as necessidades finais. Por aí passa a escada espiral, que se abisma e se eleva até o remoto. No saguão há um espelho, que fielmente duplica as aparências. Os homens pretendem inferir deste espelho que a Biblioteca não é infinita (se fosse realmente, para quê esta duplicação ilusória?); eu prefiro sonhar que as superfícies polidas figuram e prometem o infinito... A luz procede de umas frutas esféricas que levam o nome de lâmpadas. Há duas em cada hexágono: transversais. A luz que emitem é insuficiente, incessante.
Como todos os homens da Biblioteca, viajei em minha juventude, peregrinei em busca de um livro, acaso o catálogo dos catálogos; agora que meus olhos quase não podem decifrar o que escrevo, me preparo para morrer a umas poucas léguas do hexágono em que nasci. Morto, não faltarão mãos piedosas que me atirem pela varanda; minha sepultura será o ar insondável; meu corpo submergirá profundamente e se corromperá e dissolverá no vento engendrado pela queda, que é infinita.
Afirmo que a Biblioteca é interminável. Os idealistas argumentam que as salas hexagonais são uma forma necessária do espaço absoluto ou, pelo menos, de nossa intuição do espaço. Raciocinam que é inconcebível uma sala triangular ou pentagonal. (Os místicos pretendem que o êxtase lhes revela uma câmera circular com um grande livro circular de lombada contínua, que dá toda a volta das paredes, porém seu testemunho é suspeito; suas palavras, obscuras. Este livro cíclico é Deus.) Basta-me, por ora, repetir o ditado clássico: A Biblioteca é uma esfera cujo centro cabal é qualquer hexágono, cuja circunferência é inacessível.
A cada um dos muros de cada hexágono correspondem a cinco prateleiras; cada prateleira encerra trinta e dois livros de formato uniforme; cada livro é de quatrocentas e dez páginas; cada página quarenta linhas, cada linha umas oitenta letras de cor negra. Também há letras no dorso de cada livro. Essas letras não indicam ou prefiguram o que dirão as páginas. Sei que esta inconexão, algumas vezes, pareceu misteriosa. Antes de resumir a solução (cujo descobrimento, apesar de suas trágicas projeções, é quiçá o fato capital da história) quero rememorar alguns axiomas.
O primeiro: A Biblioteca existe ab aeterno. Desta verdade, cujo corolário imediato é a eternidade futura do mundo, nenhuma mente racional pode duvidar. O homem, o imperfeito bibliotecário, pode ser obra do acaso ou de demiurgos malévolos; o universo, com sua elegante dotação de prateleiras, de tomos enigmáticos, de infatigáveis escadarias para o viajante e de latrinas para o bibliotecário sentado, só pode ser obra de um deus. Para perceber a distância que há entre o divino e o humano, basta comparar estes rudes símbolos trêmulos que minha falível mão garatuja na capa de um livro, com as letras orgânicas do interior: pontuais, delicadas, negríssimas, inimitavelmente simétricas. [1]
O segundo: O número de símbolos ortográficos é vinte e cinco. Essa comprovação permitiu, há trezentos anos, formular uma teoria geral da Biblioteca e resolver satisfatoriamente o problema que nenhuma conjectura havia decifrado: a natureza informe e caótica de quase todos os livros. Um, que meu pai viu em um hexágono do circuito quinze noventa e quatro, constava das letras MCV perversamente repetidas desde a linha primeira até a última. Outro (muito consultado nesta zona) é um mero labirinto de letras, porém a página penúltima disse Oh tempo tuas pirâmides. Já se sabe: por uma linha racional ou uma reta notícia há léguas de insensatas cacofonias, de miscelâneas verbais e de incoerências. (Eu sei de uma região cerrada cujos bibliotecários repudiam o supersticioso e vão costume de buscar sentido nos livros e o equiparam ao de buscá-lo em sonhos ou em linhas caóticas da mão... Admitem que os inventores da escritura imitaram os vinte e cinco símbolos naturais, porém sustentam que esta aplicação é casual e que os livros nada significam em si. Esse ditame, já veremos não é de todo falaz.)
Durante muito tempo se acreditou que esses livros impenetráveis correspondiam a línguas pretéritas ou remotas. É verdade que os homens mais antigos, os primeiros bibliotecários, usavam uma linguagem bem diferente da que falamos agora; é verdade que umas milhas à direita a língua é dialetal e que noventa pisos acima, é incompreensível. Tudo isso, repito, é verdade, porém quatrocentas e dez páginas de inalteráveis MCV não podem corresponder a nenhum idioma, por mais dialetal ou rudimentar que seja. Alguns insinuaram que cada letra podia influir na subseqüente e que o valor de MCV na terceira linha da página 71 não era o que pode ter a mesma série em outra posição de outra página, porém esta vaga tese não prosperou. Outros pensaram em criptografias; universalmente essa conjectura foi aceita, ainda que não no sentido em que a formularam seus inventores.
Há quinhentos anos, o chefe de um hexágono superior [2] deu com um livro tão confuso como os outros, mas que tinha duas folhas de linhas homogêneas. Mostrou seu achado a um decifrador ambulante, que disse que estavam redigidas em português;outros disseram que em iídiche. Antes de um século pôde-se estabelecer o idioma: um dialeto samoiedo-lituano do guarani, com inflexões de árabe clássico.
Também se decifrou o conteúdo: noções de análise combinatória, ilustradas por exemplos de variações com repetição ilimitada. Esses exemplos permitiram que um bibliotecário de gênio descobrisse a lei fundamental da Biblioteca. Este pensador observou que todos os livros, por mais diversos que sejam , constam de elementos iguais: o espaço, o ponto, a vírgula, as vinte e duas letras do alfabeto. Também alegou um fato que todos os viajantes confirmaram: Não há na vasta Biblioteca, dois livros idênticos.
Dessas premissas incontroversas deduzo que a Biblioteca é total e que suas prateleiras registram todas as possíveis combinações dos vinte e tantos símbolos ortográficos (número, ainda que vastíssimo, não infinito) ou seja, tudo o que é dado expressar: em todos os idiomas. Tudo: a história minuciosa do porvir, as autobiografias dos arcanjos, o catálogo fiel da Biblioteca, milhares e milhares de catálogos falsos, a demonstração da falácia desses catálogos, a demonstração da falácia do catálogo verdadeiro, o evangelho gnóstico de Basilides, o comentário deste evangelho, o comentário do comentário deste evangelho, a relação verídica de tua morte, a versão de cada livro em todas as línguas, as interpolações de cada livro em todos os livros, o tratado que Beda pôde escrever (e não escreveu) sobre a mitologia dos saxões, os livros perdidos de Tácito.
Quando se proclamou que a Biblioteca abarcava todos os livros, a primeira impressão foi de extravagante felicidade. Todos os homens se sentiram senhores de um tesouro intacto e secreto. Não havia problema pessoal ou mundial cuja eloqüente solução não existisse: em algum hexágono. O universo estava justificado, o universo bruscamente usurpou as dimensões ilimitadas da esperança. Naquele tempo se falou muito nas Vindicações: livros de apologia e de profecia, que para sempre vingavam os atos de cada homem do universo e guardavam arcanos prodigiosos para seu provir. Milhares de ambiciosos abandonaram o doce hexágono natal e se lançaram escadarias acima, urgidos pelo vão propósito de encontrar sua Vindicação. Esses peregrinos disputavam nos corredores estreitos, proferiam obscuras maldições, se estrangulavam nas escadarias divinas, lançavam os livros enganosos ao fundo dos túneis, morriam despenhados por homens de regiões remotas. Outros se enlouqueceram... As Vindicações existem (eu cheguei a ver duas que se referem a pessoas do futuro, a pessoas talvez não imaginárias) mas os buscadores não recordavam que a possibilidade de que um homem encontre a sua, ou alguma pérfida variação da sua, é computável em zero.
Também se esperou então o esclarecimento dos mistérios básicos da humanidade: a origem da Biblioteca e do tempo. É verossímil que esses graves mistérios possam explicar-se em palavras: se não bastar a linguagem dos filósofos, a multiforme Biblioteca produziria o idioma inaudito que se requer e os vocábulos e gramáticas desse idioma. Faz já quatro séculos que os homens fatigam os hexágonos... Há buscadores oficiais, inquisidores. Eu os vi no desempenho de sua função: chegam sempre rendidos; falam de uma escadaria sem degraus que quase os matou; falam de galerias e escadarias com o bibliotecário; vez por outra, tomam o livro mais próximo e o folheiam, em busca de palavras infames. Visivelmente, ninguém espera descobrir nada.
À desaforada esperança, sucedeu, como é natural, uma depressão excessiva. A certeza de que alguma prateleira em algum hexágono encerrava livros preciosos e de que esses livros preciosos eram inacessíveis, pareceu quase intolerável. Uma seita blasfema sugeriu que cessaram as buscas e que todos os homens embaralhavam letras e símbolos, até construir, mediante um improvável dom do acaso, esses livros canônicos. As autoridades se viram obrigadas a promulgar ordens severas. A seita desapareceu, mas em minha infância cheguei a ver homens velhos que largamente se ocultavam nas latrinas, com uns discos de metal em um cubículo proibido, e debilmente imitavam a divina desordem.
Outros, inversamente, creram que o primordial era eliminar as obras inúteis. Invadiam os hexágonos, exibiam credenciais nem sempre falsas, folheavam com fastio um volume e condenavam prateleiras inteiras: a seu furor higiênico, ascético, se deve a insensata perdição de milhões de livros. Seu nome é execrado, porém aqueles que deploram os “tesouros” que seu frenesi destruiu, negligenciam dois fatos notórios. Um: a Biblioteca é tão enorme que toda redução de origem humana resulta infinitesimal. Outro: cada exemplar é único, insubstituível, mas (como a Biblioteca é total) há sempre várias centenas de milhares de fac-símiles imperfeitos: de obras que não diferem senão por uma letra ou uma vírgula. Contra a opinião geral, me atrevo a supor que as conseqüências das depredações cometidas pelos Purificadores, têm sido exageradas pelo horror que esses fanáticos provocaram. Urgia neles o delírio de conquistar os livros do Hexágono Carmim: livros de formato menor que os naturais; onipotentes, ilustrados e mágicos.
Também sabemos de outra superstição daquele tempo: a do Homem do Livro. Em alguma prateleira de algum hexágono (raciocinaram os homens) deve existir um livro que seja a cifra e o compêndio perfeito de todos os demais. Algum o teria percorrido e seria análogo a um deus. Na linguagem desta zona persistem ainda vestígios do culto desse funcionário remoto. Muitos peregrinaram em busca d’Ele.
Durante um século cansaram-se em vão pelos mais diversos rumos. Como localizar o venerado hexágono secreto que o hospedava? Alguém propôs um método regressivo: Para localizar o livro A, consultar previamente um livro B que indique a localização de A; para localizar o livro B, consultar previamente um livro C, e assim até o infinito... Em aventuras dessas, tenho prodigado e consumido meus anos. Não me parece inverossímil que em alguma prateleira do universo haja um livro total [3]; rogo aos deuses ignorados que um homem – um só, ainda que tenha sido há mil anos! – o tenha examinado e lido. Se a honra e felicidade não são para mim, que sejam para outros. Que o céu exista, ainda que meu lugar seja o inferno. Que eu seja ultrajado e aniquilado, porém que em um instante, em um ser, Tua enorme Biblioteca se justifique.
Afirmam os ímpios que o disparate é normal na Biblioteca e que o racional (e mesmo a humilde e pura coerência) é quase uma milagrosa exceção. Falam (eu sei) da “Biblioteca febril, cujos aleatórios volumes correm o incessante destino de transformar-se em outros e que tudo o que afirmam, negam e confundem como uma divindade que delira.” Essas palavras que não só denunciam a desordem mas também a exemplificam, notoriamente provam seu gosto péssimo e sua desesperada ignorância.
Com efeito, a Biblioteca inclui todas as estruturas verbais, todas as variações que permitem os vinte e cinco símbolos ortográficos, porém nem um só disparate absoluto. Inútil observar que o melhor volume dos muitos hexágonos que administro se intitula Trovão penteado, e outro A câimbra de gesso e outro Axaxaxas mlö. Essas proposições, à primeira vista incoerentes, sem dúvida são capazes de uma justificação criptográfica ou alegórica; essa justificação é verbal e, ex hypothesi, já figura na Biblioteca. Não posso combinar uns caracteres
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que a divina Biblioteca não tenha previsto e que em alguma de suas línguas secretas não encerrem um terrível sentido. Nada pode articular uma sílaba que não esteja plena de ternuras e temores; que não seja em alguma dessas linguagens o nome poderoso de um deus. Falar é incorrer em tautologias. Esta epístola inútil e faladeira já existe em um dos trinta volumes das cinco prateleiras de um dos incontáveis hexágonos – e também sua refutação. (Um número n de linguagens possíveis usa o mesmo vocabulário; em algumas, o símbolo biblioteca admite a correta definição ubíquo e perdurável sistema de galerias hexagonais, mas, biblioteca é pão ou pirâmide ou qualquer outra coisa, e as sete palavras que a definem têm outro valor. Tu, que me lês, estás seguro de entender em minha linguagem?)
A escritura metódica me distrai da presente condição dos homens. A certeza de que tudo está escrito nos anula ou nos afantasma. Eu conheço distritos em que os jovens se prosternam diante dos livros e beijam com barbárie as páginas, porém não sabem decifrar uma só letra. As epidemias, as discórdias heréticas, as peregrinações que inevitavelmente degeneram em banditismo, têm dizimado a população. Creio haver mencionado os suicídios, cada ano mais freqüentes. Quiçá me enganem a velhice e o temor, mas suspeito que espécie humana – a única – está por extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta.
Acabo de escrever infinita. Não interpolei este adjetivo por um costume retórico; digo que não é ilógico pensar que o mundo é infinito. Aqueles que o julgam limitado, postulam que em lugares remotos os corredores e as escadarias podem inconcebivelmente cessar – o que é absurdo. Aqueles que o imaginam sem limites, esquecem que contém o número possível de livros. Eu me atrevo a insinuar esta solução do antigo problema: A Biblioteca é ilimitada e periódica. Se um eterno viajante a atravessasse em qualquer direção, comprovaria ao cabo dos séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem (que, repetida, seria uma ordem: a Ordem). Minha solidão se alegra com esta elegante esperança. [4]

Mar del Plata, 1941

[1] O manuscrito original não contém algarismos ou maiúsculas. A pontuação está limitada à vírgula e ao ponto. Esses dois signos, o espaço e as vinte e duas letras do alfabeto são os vinte e cinco símbolos suficientes que enumera o desconhecido. (Nota do Editor).

[2] Antes, para cada três hexágonos havia um homem. O suicídio e as enfermidades pulmonares destruíram essa proporção. Memória de indizível melancolia: Às vezes viajei muitas noites por corredores e escadarias polidas sem achar um só bibliotecário.

[3] Repito: basta que um livro seja possível para que exista. Só está excluído o impossível. Por exemplo: nenhum livro é também uma escadaria, ainda que sem dúvida haja livros que discutem e negam e demonstram essa possibilidade e outros cuja estrutura corresponde a de uma escada.

[4] Letizia Alvarez Toledo observou que a vasta Biblioteca é inútil; em rigor, bastaria um só volume, de formato comum, impresso em corpo nove ou corpo dez, que constaria de um número infinito de folhas infinitamente grandes. (Cavalieri, no início do século XVII, disse que todo corpo sólido é a superposição de um número infinito de planos.) O manejo desse vademecum sedoso não seria cômodo: cada folha aparentemente se desdobraria em outras análogas; a inconcebível folha central não teria reverso.


Tradução: Alexandre Rabelo
Agosto de 2008

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

ORGIA PARISIENSE OU PARIS SE REPOVOA

Foto: David Wojnarowicz - Rimbaud in New York


Em maio de 1871 o tempo devia estar bom em Paris. Era a esperada primavera, assim como aguardamos o verão. Rimbaud, dezesseis anos, chega pela terceria vez na cidade, fugido de sua cidadezinha rural, centenas de quilômetros depois, a pé. Instala-se com os poetras contestadores e jovens na Comuna, no bairro revolucionário do Quartier Latin, fechado por barricadas, onde se preparavam para viver na liberdade de um mundo sem posse.
Nesta época, Rimbaud explode seu gênio, pensa seu método de vidência, baseado no desregramento de todos os sentidos. E é quando escreve esse poema que resolvi traduzir hoje. Lembrou-me muito São Paulo, minha relação com esta cidade, de crítica mas amor, esperança, prazer e luta, em escala titânica.
Optei por manter o mesmo esquema de rimas, a alternância entre as imagens populares e as eruditas, o jogo entre as evocações vulgares, profanas, e as sagradas, mitológicas. Ser literal com Rimbaud é preservar sua ambigüidade, suas repetições calculadas e seus preciosismos, seu ímpeto apaixonado e seu distanciamento frio.


A Orgia Parisiense
Ou
Paris se Repovoa


Ah covardes, olhem lá! Desemboquem nas estações!
O sol enxugou com seus pulmões ardentes
Os bulevares que uma noite ficaram de Bárbaros aos milhões.
Vejam a Cidade santa, sentada no ocidente!

Vão! Previnirão os refluxos do que se incendia,
Vejam as marginais, os bulevares, olhe ou
As casas sobre o azul leve que se irradia
Que uma noite o vermelhão das bombas estrelou!

Fechem os palácios mortos nos nichos das hortas!
O indignado dia ancestral refrescou seus olhares.
Olha ali a trupe ruiva torcendo as ancas tortas:
Sejam loucos e serão engraçados, com indignados ares!

Tais as cadelas em cio comendo cataplasmas,
O grito das casas de ouro lhes reclamam. Roubem por todo lado!
Comam! Eis a noite da alegria em profundos espasmos
Que desce a rua. Ó bebedores desconsolados,

Bebam! Quando a luz chega intensa e louca,
Revistando ao lado de vocês os luxos farfalhantes,
Você não babarão, sem atitude, de palavra pouca,
Dentro de seus copos, os olhos perdidos em clarões distantes?

Engulam, pela Rainha de bundas cadentes!
Escutem a ação dos estúpidos soluços
Dilacerantes! Ouçam saltar nas noites ardentes
Os idiotas mal humorados, velhacos, volúveis, lacaios!

Ó corações de sujeira, bocas de horríveis lesmas,
Funcionem mais forte, bocas de fedores!
Um vinho para esses torpes ignóbeis, nessas mesas...
Suas barrigas são fundidas por vergonhas, ó Vencedores!

Abram as narinas para as soberbas náuseas!
Embebam de venenos fortes as cordas de seus pescoços!
Sobre as nucas de criança as mãos cruzadas baixam cada veia
O Poeta diz a vocês: “Ó covardes, sejam loucos!”

Pois vocês cavam o ventre da Fêmea,
Dela temem ainda outra convulsão
Que grita, asfixiando sua ninhada sem fama
Sobre o peito dela, numa horrível pressão.

Sifilíticos, loucos, reis, fúteis, ventríloquos,
O que podem fazer a Paris emputecida
Suas almas e corpos, venenos e cacos?
Ela sacudirá vocês dela, rancorosos apodrecidos.

E quando estiverem no chão, gemendo entranhas e costelas,
De flancos mortos, reclamando dinheiro, perdidos
A vermelha cortesã de seios fartos de batalhas,
Longe do estupor de vocês, cerrará os punhos ardidos!

Quando teus pés dançaram tão forte nos momentos de cólera
Paris! quando tantas lâminas te esfaquearam,
Quando você caiu, retendo nas pupilas claras
Um pouco da bondade dos selvagens que se renovaram,

Ó cidade dolorosa, ó cidade quase morta
A cabeça e os dois peitos lançados ao que só o Devir pode dizer
Abrindo sobre tua palidez milhares de portas,
Cidade que o Passado sombrio poderia bendizer:

Corpos remagnetizados por dores que enchem aldeias,
Tu bebes de novo da vida espantosa! Tu sentes
Silenciar o fluxo de versos lívidos em tuas veias,
E sobre teu claro amor roçarem dedos nada quentes!

E isto não é mau. Os versos, os versos lívidos
Não perturbarão mais teu sopro de Progresso
Pois os Estriges não apagaram os olhos das Cariátides
Onde as lágrimas de ouro astral caiam de azuis degraus.”

Ainda que seja aflitivo te rever coberta por esta rede
Assim; ainda que não tenham feito jamais em outra cidade
Úlcera mais fedorenta na Natureza verde,
O Poeta te diz: “Tua Beleza é radiante!”

A tempestade te sacrou suprema poesia:
O imenso revolver de forças te sacode fluido,
Tua obra combate, a morte gonga, Cidade da escolhida fantasia!
Recolhe estrondos do coração do clarão surdo.

O Poeta tomará o fôlego convulsivo dos Sem Fama,
O ódio dos Forçados, o clamor dos Malditos;
E seus raios de amor flagelarão as Fêmeas.
Suas estrofes bendirão: Olhem lá! olhem lá! bandidos!

- Sociedade, tudo está restabelecido: - as orgias
Choram seus velhos gemidos aos bordéis antigos:
E o gás em delírio nas avermelhadas muralhas,
Queima sinistramente contra os azuis esmaecidos!

Maio de 1871/Dezembro 2008
Link para o original:

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Um Poema de Anne Sexton

Esta tradução é dedicada a Antonio Ferah, que me apresentou essa poeta americana, aparentada de Sylvia Plath no estilo confessional, inédita no Brasil. Intriguei-me na força quase sexual com que ela luta contra a degeneração e a morte em geral, quase como um estupor plácido. Será? Bom... Deve valer tudo para explicar a atitude dos poetas, mais até que as patologias que a ciência inventa. Principalmente, porque aqui a sensibilidade feminina, incoercícel às palavras, se resguarda, cumulando vozes fúteis da algazarra civilizatória masculina.
A escolha desse poema em específico também se deu por razões que a ciência não explica.

Music Swims Back to Me
by Anne Sexton


Wait Mister. Which way is home?
They turned the light out
and the dark is moving in the corner.
There are no sign posts in this room,
four ladies, over eighty,
in diapers every one of them.
La la la, Oh music swims back to me
and I can feel the tune they played
the night they left me
in this private institution on a hill.

Imagine it. A radio playing
and everyone here was crazy.
I liked it and dance in a circle.
Music pours over the sense
and in a funny way
music sees more than I.
I mean it remembers better;
remembers the first night here.
It was the strangled cold of November;
even the stars were strapped in the sky
and that moon too bright
forking through the bars to stick me
with a singing in the head.
I have forgotten all the rest.

They lock me in this chair at eight a.m.
and there are no signs to tell the way,
just the radio beating to itself
and the song that remembers
more than I. Oh, la la la,
this music swims back to me.
The night I came I danced a circle
and was not afraid.
Mister?

a música nada de volta a mim

Espere Senhor. Qual caminho leva ao lar?
Eles apagaram as luzes
E o escuro se move no canto.
Não há nenhum sinalizador neste cômodo,
Quatro senhoras, pra lá dos oitenta,
De fraldas, cada uma delas.
Lalala, Ó a Música nada de volta para mim
E posso sentir o compasso que tocaram
Na noite em que me deixaram
Nesta instituição privada em uma colina.

Imagine. Um rádio tocando
E todo mundo aqui estava louco.
Gostei disso e dancei num círculo.
A música verte sobre os sentidos
E de um modo esquisito
A música vê mais do que eu.
Digo, ela se lembra melhor;
Lembra da primeira noite aqui.
Era o frio estrangulador de Novembro;
Mesmo as estrelas estavam amarradas ao céu
E a lua tão brilhante
Ramificando-se pelas fechaduras para me espetar
Com um cantar na cabeça.
Eu tenho esquecido todo o resto.

Trancam-me neste assento às 8 da manhã,
E não sinais para contar um caminho,
Apenas o rádio batendo-se para si mesmo
E a canção que lembra
mais do que eu. Ó, la la la,
essa música nada de volta para mim.
À noite eu cheguei e dancei um círculo
E não tive medo.
Senhor?

segunda-feira, 30 de julho de 2007

LILIANA CHORANDO - Julio Cortázar em tradução minha

Menos mal que é o Ramos e não outro médico, com ele sempre houve um pacto, eu sabia que chegado o momento ele me diria, ou pelo menos me deixaria compreender sem dizê-lo por inteiro. Isto custou ao pobre quinze anos de amizade e noites de pôquer e finais de semana no campo, o problema de sempre; mas é assim, na hora da verdade e entre homens isto vale mais que as mentiras de consultório coloridas como as pílulas ou o líquido rosa que gota a gota me entra nas veias.

Três ou quatro dias, sem que ele me diga eu sei que ele se ocupará para que não haja isso que chamam agonia, deixar morrer como um cão, para quê; posso confiar nele, as últimas pílulas serão sempre verdes ou vermelhas mas dentro haverá outra coisa, o grande sonho que desde já o agradeço ainda que Ramos fique olhando para os pés da cama, um pouco perdido porque a verdade lhe vacilou, pobre velho. Não diga nada a Liliana, por que a faremos chorar antes do necessário, não te parece? Para Alfredo sim, para Alfredo pode dizer para que vá fazendo um pouco de trabalho e se ocupe de Liliana e de mamãe. Che, e diga a enfermeira que não me tire aquele remédio, é o único que me faz esquecer o cheiro além de tua eminente farmacopéia, claro. Ah, e que me tragam um café quando eu pedir, esta clínica leva coisas tão a sério.

É certo que escrever me acalma um tempão, talvez seja por isso que tem tanta correspondência de condenados à morte, vai saber. Inclusive me diverte imaginar por escrito coisas que só foram pensadas nessas que se atolam na garganta, sem falar das lágrimas; vejo-me nas palavras como se fosse outro, posso pensar qualquer coisa desde que em seguida a escreva, deformação profissional ou algo que se empenhe em abrandar as meninges. Somente me interrompo quando chega Liliana, com os demais sou menos amável, como não querem que eu fale muito eu deixo para eles contarem se faz frio ou se Nixon vai vencer McGovern, com o lápis na mão os deixo falar e até Alfredo se dá conta e me diz para continuar, agir como se ele não estivesse, pegar o diário e ficar quieto um tempo. Mas minha mulher não merece isso, ela eu escuto, para ela sorrio, e me dói menos, aceito-lhe esse beijo um pouquinho úmido que volta uma vez ou outra ainda que a cada dia eu me canse mais que se aproximem de mim e devo lastimar-lhe a boca, pobre querida. Há que dizer que a coragem de Liliana é meu melhor consolo, ver-me já morto em seus olhos me tiraria o resto da força com a qual posso falar e devolver algum de seus beijos, com a qual sigo escrevendo apenas se ela já foi e apesar da rotina das injeções e das palavras simpáticas. Nada se atreve a meter-se com meu caderno, sei que posso guardá-lo debaixo da almofada, ou na mesa à noite, é o meu capricho, tenho que deixá-lo já que o doutor Ramos, claro que tenho que deixar, assim se distraí.

Ou será segunda ou terça, e o lugarzinho entre de quarta ou quinta. Em pleno verão a Chararita estará um forno e os rapazes vão passar mal, vejo Pincho com essas calças cruzadas e com as ombreiras que tanto divertem o Acosta, que por sua vez terá que vestir terno ainda que lhe custe e o rei do campo pondo-se gravata e paletó para acompanhar-me, isso será grande. E Fernandito, o trio completo, e também Ramos, claro, até o final, e Alfredo levando pelo braço Liliana e mamãe, chorando com elas. E será mesmo, sei como me amam, como lhes vou faltar; não irão como fomos ao enterro do gordo Tresa, a obrigação partidária e algumas férias compartilhadas, cumprir rápido com a família e mudar-se de volta para a vida e o esquecimento. Claro que terão uma fome bárbara, sobretudo o Acosta, que para guloso não lhe falta nada; ainda que lhe doa e maldigam o absurdo de morrer-se jovem e em plena carreira há a reação que todos conhecemos, o gosto de voltar a entrar no metrô ou no carro, de tomar uma ducha e comer com fome e vergonha ao mesmo tempo, como negar a fome que segue pelas noites, o cheiro das flores do velório e os intermináveis cigarros e passeios pela vereda, uma espécie de desquite que sempre se sente nesses momentos e que nunca me neguei porque teria sido hipócrita. Gosto de pensar que Fernandito, o Pincho e Acosta vão juntos a um bar, é seguro que irão juntos porque também o fizemos quando o gordo Tresa, os amigos têm que seguir um tempo, beber um litro de vinho e acabar com umas besteiras; caralho, é como se eu os estivesse vendo, Fernandito será o primeiro a fazer uma piada e tragar um peixe com meio filé, arrependido porém tarde demais, e Acosta o olhará de relance, mas o Pincho já terá soltado o riso, é uma coisa que não sabe agüentar, e então Acosta que é um cordeiro de deus se dirá que não tem porque se passar por um exemplo diante dos rapazes e se rirá também antes de prender um cigarro. E falarão muito de mim, cada um se lembrará de tantas coisas, a vida que nos foi juntando os quatro apesar de sempre cheia de buracos, de momentos que não compartilhamos e que assomaram na memória de Acosta ou do Pincho, tantos anos e broncas e amurros pesados. Custará a eles se separarem depois do almoço porque é nesse momento que o outro voltará, é hora de ir para suas casas, o último, definitivo enterro. Para Alfredo será distinto e não porque não seja duro, ao contrário, porém Alfredo vai se ocupar de Liliana e de mamãe e isto nem Acosta nem os demais podem fazê-lo, a vida vai criando contatos especiais entre os amigos, todos tem vindo sempre em casa mas Alfredo é outra coisa, essa cercania que sempre me fez bem, seu prazer de ficar conversando com mamãe sobre plantas e remédios, seu gosto de levar o Pocho ao zoológico ou ao circo, o solteirão disponível, pacote de masitas e sete e meio quando mamãe não estava bem, sua confiança tímida e clara com Liliana, o amigo dos amigos que agora terá que passar por esses dois dias engolindo as lágrimas, no melhor caso levando Pocho para seu quintal e voltando em seguida para estar com mamãe e Liliana até o último. Ao fim e ao cabo ele vai tocar, ser o homem da casa e agüentar todas as complicações começando pela funerária, isto tinha que passar justo quando o velho anda pelo México ou Panamá, vai saber se chega a tempo para agüentar o sol das onze na Chacarita, pobre velho, de maneira que será Alfredo quem levará Liliana porque não creio que a deixem ir com mãe, a Liliana do braço, sentindo-a tremer contra seu próprio tremor, murmurando tudo que murmurei para a mulher do gordo, a inútil necessária retórica que não é consolo nem mentira nem sequer frases coerentes, um simples estar aí, que é tanto.

Também para eles o pior será a volta, antes há a cerimônia e as flores, há todavia o contato com esta coisa inconcebível cheia de alças e dourados, da frente alta à cava, a operação limpidamente executada pelos do ofício, porém depois é o carro de volta e sobretudo a casa, voltar a entrar em casa sabendo que o dia vai estancar-se sem telefone nem clínica, sem a voz de Ramos alargando a esperança para Liliana, Alfredo fará café e dirá que o Pocho está feliz no quintal, que ele gosta dos filhotes e joga com os peõezinhos, terá que ocupar-se de mamãe e de Liliana porém Alfredo conhece cada rincão da casa e é seguro que ficará velando no sofá de meu escritório, ali mesmo onde uma vez estendemos Fernandito, vítima de um pôquer no qual não tirou nenhuma carta, sem falar dos cinco conhaques compensatórios. Faz tantas semanas que Liliana dorme só que talvez o cansaço possa mais que ela, Alfredo não se esquecerá de dar sedativos a Liliana e a mamãe, estará a tia Zulema repartindo os lençóis, Liliana se deixará ir pouco a pouco ao sonho nesse silêncio da casa que o Alfredo terá fechado conscientemente antes de ir atirar-se no sofá e prender outro dos cigarros pois não se atreve a fumar diante de mamãe pela fumaça que a faz tossir.

Enfim, há isso de bom, Liliana e mamãe não estarão tão sós ou estarão nessa solidão entretanto pior que a parentela orelhuda invadindo a casa; falará tia Zulema que sempre viveu no piso de cima, e Alfredo que também tem estado entre nós como se não estivesse, o amigo com chave própria; nas primeiras horas talvez não será menos duro sentir irrevogavelmente a ausência que suportar um tropel de abraços e de grinaldas verbais, Alfredo se ocupará de pôr distâncias, Ramos virá um tempo para ver mamãe e Liliana, as ajudará a dormir e deixará pílulas para tia Zuleima. Em algum momento será o silêncio da casa às escuras, apenas o relógio da igreja e a buzina distante porque o bairro é tranqüilo. É bom pensar que será assim, que abandonando-se pouco a pouco a um torpor sem imagens, Liliana vai estirar-se com seus lentos gestos de gata, uma mão perdida na almofada cheia de lágrimas e água de colônia, a outra junto à boca em uma recorrência pueril antes do sonho. Imaginá-la assim faz tanto bem, Liliana dormindo, Liliana no fim do túnel negro, sentido confusamente que hoje está cessando para voltar depois, que essa luz não será a mesma que golpeava em pleno peito, enquanto a tia Zulema abria o guarda-roupa de onde saía o negro em forma de roupa e de dobras mesclando-se sobre a cama como um rabo de pranto, um último, inútil protesto contra o que ainda teria que vir. Agora a luz da janela chegaria antes de nada, antes que as lembranças soltas no sonho e que só confusamente se abririam até a última masmorra. Sozinha, sabendo-se realmente sozinha nesta cama e neste cômodo, neste dia que começava em outra direção, Liliana poderia chorar abraçada à almofada sem que viessem acalmá-la deixando-a gotejar o pranto até o final, e só muito depois, com um semisonho de engano retendo-a no útero dos lençóis, o buraco do dia começaria a encher-se de café, de cortinas corridas, da tia Zulema, da voz do Pocho telefonando do quintal sobre os girassóis e os cavalos, um bagre pescado depois de rude luta, um espinho na mão mas não era grave, lhe haviam posto o remédio de don Contreras que era o melhor para essas coisas. Já Alfredo esperando na sala com o diário na mão dizendo-se que mamãe havia dormido bem e que Ramos viria à doze, propondo-lhe de ir à tarde ver o Pocho, com esse sol valia a pena correr até o jardim e numa dessas podiam até levar mamãe, faria-lhe bem o ar do campo, o melhor seria passar o final de semana no jardim, e por que não todos, com o Pocho que estaria tão contente tendo-os ali. Aceitar ou não dava na mesma, todos sabiam e esperavam as respostas que as coisas e o passo da manhã iam dando, entrar passivamente num almoço ou em um comentário sobre as verduras, pedir mais café e contestar o telefone que em algum momento tiveram que conectar, o telegrama do sogro no estrangeiro, um choque estrepitoso na esquina, gritos e apitos, a cidade aí fora, às duas e meia ir com mamãe e Alfredo ao quintal porque numa dessas um espinho na mão, nunca se sabe com os meninos, Alfredo tranqüilizando-as no volante, don Contreras era mais seguro que um médico para essas coisas, as ruas de Ramos Mejía e o sol como uma chapa fervendo até o refúgio nos grandes cômodos e corredores, o mate das cinco e o Pocho com seu bagre que começa a cheirar porém tão lindo, tão grande, que pelejou tirar-lhe do arroio, mamãe, quase me corta a cabeça, te juro, verá que dentes. Como estar folheando um álbum ou vendo um filme, as imagens e as palavras umas atrás das outras remexendo o vazio, agora verá que é o assado de tira de Carmem, senhora, levezinho e tão saboroso, uma salada de lentilhas e pronto, não falta mais nada, com o calor mais vale comer pouco, trarei o inseticida porque é a hora dos mosquitos. E Alfredo aí calado mas o Pocho, sua mão palmeando o Pocho, os vejo a sós o campeão de pesca, amanhã vamos juntos e numa dessas quem te disse, me contaram de um camponês que pescou um de dois quilos. Aqui embaixo o ar está bem, mamãe pode dormir um pouco no sofá se quiser, don Contreras tinha razão, e já não tem nada na mão, mostra-nos como sabe montar no filhote, olhará mamãe, olha-me quando galopo, por que não vem conosco pescar amanhã, eu te ensino, vai ver, um sol vermelho e os bagrezinhos, a correria entre o Pocho e o menino de don Contreras, o puchero ao meio-dia, e mamãe ajudando de qualquer jeito a pelar os frangos, aconselhando sobre a filha de Carmem que estava com essa tosse rebelde, a siesta nos cômodos desnudos que cheiravam verão, a obscuridade contra as persianas um pouco ásperas, o entardecer debaixo do guarda-sol e a bomba contra os mosquitos, a cercania nunca manifesta de Alfredo, essa maneira de estar aí e ocupar-se de Pocho, de que em tudo fora cômodo, até o silêncio que sua voz rompia sempre a tempo, sua mão oferecendo um jarro de refresco, um pãozinho, ligando o rádio para escutar o noticiário, as plantações e Nixon, era previsível, que país. O fim de semana e na mão de Pocho apenas uma marca de espinha, voltaram a Buenos Aires numa segunda muito temperada para evitar o calor, Alfredo os deixou na casa para ir receber o sogro, Ramos também estava em Ezeiza e Fernandito, que ajudou nessas horas do encontro porque era bom que tivesse outros amigos na casa, Acosta à nove com sua filha que podia jogar com o Pocho no andar da tia Zulema, tudo se ia dando mas amortigado, voltar atrás mas de outra maneira, com Liliana obrigando-se a pensar nos velhos mais que nela, controlando-se, e Alfredo entre eles com Acosta e Fernandito desviando os tiros diretos, cruzando-se para ajudar Liliana, para convencer ao velho de que descansasse depois de tamanha viagem, indo-se de um a um até que somente Alfredo e a tia Zulema, a casa calada, Liliana aceitando uma pílula, deixando-se ir à cama sem haver aflorado uma só vez, dormindo quase de golpe como depois de algo cumprido até o fim. Pela manhã eram as correrias de Pocho na sala, arrastar as sandálias do velho, a primeira chamada telefônica, quase sempre Clotilde ou Ramos, mamãe queixando-se do calor ou da umidade, falando do almoço com a tia Zulema, às seis Alfredo, às vezes Pincho com sua irmã ou Acosta para que o Pocho jogue com sua filha, os colegas do laboratório que reclamavam a Liliana, tinha que voltar a trabalhar e não ficar encerrada na casa, que o fizesse por eles, estavam com falta de químicos e Liliana era necessária, que viesse ao meio-dia em todo caso até que se sentisse com mais ânimo; Alfredo a levou pela primeira vez, Liliana não tinha vontade de dirigir, depois não quis ser incômoda e sacou o carro, às vezes saía com o Pocho à tarde, o levava ao zoológico ou ao cinema, no laboratório lhe agradeciam que lhes tivesse dado uma mão nas novas vacinas, um surto epidêmico no litoral, ficar até tarde trabalhando, tomando gosto, uma correria em equipe contra o relógio, vinte caixonas de ampolas para Rosário, conseguimos, tarefa, o Pocho no colégio e Alfredo protestando, ensinam a aritmética de outra maneira a esses meninos, me faz cada pergunta que me deixa tenso, e os velhos com o dominó, nos nossos tempos era diferentes, Alfredo, nos ensinavam caligrafia e olhe a letra que tem esse menino, aonde vamos parar. A recompensa silenciosa de olhar para Liliana perdida em um sofá, uma simples olhada por cima do diário e vê-la sorrir, cúmplice sem palavras, dando a razão aos velhos, sorrindo desde as orelhas. Mas pela primeira vez um sorriso de verdade, desde dentro como quando foram ao circo com o Pocho que havia melhorado no colégio e o levaram para tomar sorvete, para passear pelo porto. Começavam os grandes frios, Alfredo ia com menos freqüência à casa porque havia problemas sindicais e tinha que viajar às províncias, às vezes vinha Acosta com sua filha e aos domingos o Pincho ou Fernandito, já não importava, todo mundo tinha tanto a fazer e os dias eram curtos, Liliana voltava tarde do laboratório e dava uma mão ao Poncho perdido entre os decimais e a bacia do Amazonas, ao final e sempre Alfredo, as regalias para os velhos, essa tranqüilidade nunca dita de sentar-se com ele perto do fogo já tarde e falar em voz baixa dos problemas do país, da saúde de mamãe, a mão de Alfredo apoiando-se no braço de Liliana, te cansas demasiado, não está com a cara boa, o sorriso agradecido negando, um dia iremos ao jardim, este frio não pode durar toda a vida, nada podia durar toda a vida ainda que Liliana lentamente retirasse o braço e buscasse os cigarros na mesinha, as palavras quase sem sentido, os olhos encontrando-se de outra maneira até que de novo a mão escorregando pelo braço, as cabeças juntando-se e o largo silêncio, o beijo na testa.

Não havia nada a dizer, havia ocorrido assim e não havia nada a dizer. Inclinando-se para lhe acender o cigarro que lhe tremia entre os dedos, simplesmente esperando sem falar, acaso sabendo que não haveria palavras, que Liliana faria um esforço para tragar o fumo e o deixaria sair com um queixar, que começaria a chorar afogadamente, desde outro tempo, sem separar a cara da cara de Alfredo, sem negar-se e chorando calada, agora somente para ele, desde tudo o outro que lhe compreenderia. Inútil murmurar coisas tão sabidas, Liliana chorando era o término, o limite de onde ia começar uma outra maneira de viver. Se acalmá-la, se devolvê-la à tranqüilidade fosse tão simples como escrevê-lo com as palavras alinhando-se num caderno como segundos congelados, pequenos caroços do tempo para ajudar o passo interminável da tarde, se somente fosse isso mas a noite chega e também Ramos, incrivelmente a cara de Ramos observando os exames recém terminados, buscando-me o pulso, de uma hora para outra, incapaz de dissimular, arrancando-me os lençóis para olhar-me desnudo, apalpando-me o lado, com uma ordem incompreensível à enfermeira, um lento, incrédulo reconhecimento que assisto atento, quase divertido, sabendo que não pode ser, que Ramos se equivoca e que não é verdade, que só é verdade o outro, o prazo que não me havia ocultado, e irritação de Ramos, sua maneira de apalpar-me como se não pudesse admiti-lo, sua absurda esperança, isto não me fará crer nada, velho, e eu forçando-me a reconhecer que o melhor é assim, que numa dessas vai saber, olhando para Ramos que se endireita e volta a rir e solta ordens com uma voz que nunca lhe havia ouvido nesta penumbra e nesta masmorra, tendo que convencer-me pouco a pouco de que sim, de que então vou ter que pedi-lo, apenas se for até a enfermeira vou ter que pedir-lhe que espere um pouco, que espere pelo menos que seja de dia antes de dizer a Liliana, antes de arrancá-la deste sonho no qual pela primeira vez não está mais só, nesses braços que a apertam enquanto dorme.

Tradução: Alexandre Rabelo