quarta-feira, 25 de abril de 2007

INCÊNDIO NO CIRCO



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Sim, eu juro, eu só queria gozar, mas foi outra coisa que aconteceu. Acordei sentindo ameaças de prazer, de baixo pra cima, de dentro pra fora, e todo ‘vice-versa’ verificado em qualquer corpo são ou só. O tesão acumulado da noite anterior, melhor esquecer. Ninguém te deixou de pau duro e você diz que é porque ninguém te interessou. Agora acorda sem se caber. E você se toca. Mas antes de se tocar, se toca de que você foi egoísta pra caralho. E o caralho tá morto. Quanto amor pra dar, você queria que dissessem, mas ninguém fala de amor numa segunda-feira, pobrezinho. Sim, você quer se acreditar especial, pensar em coisas nobres, mas só sabe arder. O amor não combina com sua respiração sufocada. Foi fumaça demais na pista de dança. Você se espreguiça para relaxar e provar para si mesmo que dormiu bem, mas sente quando o corpo retorce como só faz com outro corpo. O amor. Meu saco.

Batem na porta. Que bom, alguém te salva dos pensamentos tortos que só o desejo traz. Essas coisas meio abstratas que a gente tem pressa de ler. Entra a atriz loira. A atriz morena dorme no quarto ao lado. De camisola rosa, ela se entrega e diz: quem é o meu palhaço? Preciso de uma música, um poema e uma dança para dizer o ‘quem sou eu’ do meu palhaço. Limpo a sujeira dos olhos na frente dela para deixar claro que achei o problema difícil e que sou apenas bicho. O palhaço sou eu, penso. Ela abre um livro de Carlos Drummond e derrama aquela melancolia de ladeira mineira. Ouço as buzinas lá fora. Não consigo rir nem sorrir. Disse que preferia Vinícius, mais dionisíaco, eu chutei. Não chegamos a uma conclusão. Ela arriscou Cecília, pura, mas consciente demais para um palhaço. Insisti em Manuel Bandeira e Mário Quintana, tão bobinhos e profundos. Não chegamos a uma conclusão. E eu pensei: ai meu saco, eu só queria gozar, ser desejo sem forma nem definição, e lá me vem você, pra te fazer lembrar uns poemas que só falam de amor, pra achar o amor do teu palhaço quando o palhaço aqui sou eu, já bravo, meio chato, monossilábico, com tesão demais pra ser sábio em alguma coisa a essa hora.

Você fala do amor como se fosse descartável, mas todas as poesias eram boas mesmo, e competem o amor entre si, é o que você descobre. E se lembra de ontem à noite: primeiro sentiu o amor banido dos corpos urgentes quando te puxaram os quadris com fúria e te disseram no ouvido coisas que um homem não diz. Era amor, mas você se lembra de outros corpos e umas almas até. E seu desejo foge do amor. Vai para dois lábios úmidos, doce criança suspira que sonhos juvenis de música e sucesso.Você já ouviu isso antes, mas não hoje, pensa, não desta boca sem fim. Era amor, mas você descarta essa possibilidade porque nessa hora da noite e nesse estado de estômago, não vale a pena lutar pra descobrir. Você só quer gozar com quem saiba rir quando falta um sonho juvenil. Viu só como você sabe o que quer? E isto é amor, respira aliviado. Tolo, você se diz, você respirou aliviado dizendo amor. E se justifica: sou obrigado a ouvir historinhas coloridas desta boca bonita quando eu já sei que é amor. O amor é o fim da boca. Cala a boca, por favor.

E a passos largos, você escorrega pra um outro drink que te lembrará daquele dia especial de anos atrás, quando jurou amor eterno para alguém que você já sabia que estaria longe demais para o amor. Foi mais fácil assim, você diz, e mais bonito até. Tenho algo puro, constante, marcado na certeza da memória. Que lixo! Olha onde eu estou. As pessoas se aglomeram em frente aos garçons atrás do balcão. Isso é o amor hoje à noite, você assume e cai na pista. Cruza com um sorriso que te repetem já faz meses, sempre o mesmo. Aquela afirmação tensa nos lábios, entre o desejo e a linda dúvida que mascara o medo e dá algum tesão. Você sorri de volta a dúvida, mas fecha os olhos como quem diz: eu só quero gozar. E o que tá te impedindo? O amor? O que eu tenho é maior, você se afirma e passa reto.

Você vai para o centro da pista para ter certeza de que sua dança de amor fique visível, e se não for amor, que seja o que vocês quiserem chamar, você já não se importa mais a essa hora da noite. Por fim, dá de cara com aquela pessoa que você tinha até esquecido que iria encontrar, aquela pessoa que lhe ofereceu várias possibilidades de amor, inclusive as já citadas. Beija porque tem que beijar, porque é assim que se faz quando o amor tem muitas faces ou é louco demais pra ser apenas essa coisinha chamada amor, como diz o rock’n roll. O beijo pergunta: cadê o desejo nesse amor todo? Sem palavras, duas bocas entram em combate. Sai a sentença: cadê o amor nesse desejo pouco? Depois olham-se com olhos de quem diz: porco velho! Você vai ao banheiro e vomita o beijo. Hora de escapar: o amor está vazando.

Você foge para a saída, não sem antes cruzar, estratégica e friamente, o caminho de cada um dos amores possíveis desta noite que já virava ontem. Hoje você acorda de saco cheio e reclama porque a atriz loira veio te consultar para questões amorosas. E deu a ela todos os poemas de amor que você vivera antes de dormir. Poemas contraditórios e verdadeiros como a noite insana. Drummond, Vinícius, Cecília, Mário e Manuel. Cada qual num canto da pista de dança. Mesmo na música eletrônica Vinícius samba miúdo de braços abertos. Mário e Manuel fazem gracinhas ao longe para duas irmãs até que bonitinhas. Cecília fixa o olhar num rodopiante foco de luz azul, desafiando a criação, muito além do amor. Drummond bate os pés, de cabeça pensa, concentrado no chão rasteiro. Esta noite os poetas não se deixam ouvir.

Se Rimbaud estivesse lá, estrangeiro que é, acenaria de longe e, com o olhar de quem viu algum deus solar, repetiria: é preciso reinventar o amor. Mas ninguém sabe por onde anda o francês ultimamente. Deve estar perdido no bolso de algum jovem insensato. Um dia você lerá Rimbaud sem amargar, você sonha, então encontrará o tal do palhaço nessa experiência que é o amor reinventado - e entre mágicos e palhaços, o circo pegará fogo e os bichos sairão à solta. Os macacos subirão nos prédios e de lá atirarão merda na cara dos desatentos e preocupados. Os elefantes pisotearão a cabeça dos atrasados e preguiçosos. Belo sonho, mas não faz o seu desejo secar.

À tarde, a atriz morena aparece. Também precisava de um texto para a sua personagem. Mulher da vida. E quem sou eu para saber disso? Sou homem trancado no quarto, e não mais. Ontem estive na rua, hoje quero esquecer. Não encontrei o amor que gera. Encontrei-me homem mais uma vez, sucumbido ao desejo infértil do mais fraco. Porco velho! E ainda me fiz de santo numa pista de dança. E hoje duas atrizes me enredam para a tal da profundeza das palavras...

Do fundo da estante acho Hilda Hilst. Velha, louca, trancada num sítio com dezenas de cães uivando pra ela. Mais que homem e mulher, Hilda foi o turbilhão que me salvou das palavras que me tirava a liberdade de amar sem objeto, cegamente. Achei um texto que ela escreveu numa segunda-feira: e se eu ficar lúdica, pastosa, permissiva, sonora, casta e contundente e não disser mais nada congruente, se eu ficar esmolando pelas ruas, lúcida espirocando, se eu levitar enquanto sobre o meu texto tu flutuas...

Mudei o gênero para o masculino e me encaixei: e seu ficar moleque, ereto, invasivo, conquistador, tímido e contundente e não disser mais nada congruente, se eu ficar esmolando pelas ruas, lúcido espirocando, se eu flutuar sobre as tuas palavras enquanto tentas levitar...

Assim, guiado pela louca, insensato com as palavras, puro com o desejo, esqueço todas essas palavras que transformei na historinha de antes e depois de uma noite de sono e volto para o começo, que é onde eu queria chegar, afinal: sim, eu juro, eu só queria gozar, mas foi outra coisa que aconteceu.

Dos quatorze aos catorze

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Aos quatorze anos, decidi fazer da palavra o meu meio de vida, sentia uma necessidade imperiosa de registrar o que eu julgava ser o meu olhar original, distorcido, diferente, deformado, decadente sobre as coisas e abaixo delas. Também acreditei ser capaz de olhar para as coisas sem afetá-las nem por fora, nem por dentro. E procuro escrever apenas o que vejo, fora e dentro. Sempre tive dificuldade em me sentir original, como quer a moda, mas julgava-me talentoso, como quer a arte, sim, eu me julgava talentoso em viver escondido nas palavras, manuseando o sentido das coisas, o sentido de Deus. Eu sentia-me pleno na palavra homem. Às vezes, ainda hoje, torno-me o animal que sou e julgo-me mago, possuído de um egoísmo feroz, orgulhoso de esconder meus talentos para o momento certo, de revelá-los apenas para os iniciados. Mas, ultimamente, na maior parte do tempo eu apenas projeto e escrevo, lento demais para o meu gosto. Enquanto isso vivo, e apenas vivo. Quero acreditar que meu trabalho está bom, e sei acreditar e desacreditar se for preciso quantas vezes forem, mas dependo dos mais nobres sonhos para realizar o trabalho, e tenho medo de que a nobreza de meus sonhos se desfaleça cada vez mais em loucura, e não sei se rio ou se choro, mas sei que a Razão, a Luz, o Sol, Deus e minha dor de falta de amor me orientam na jornada gélida às sombras da noite, da alma, do Ser, do mais remoto passado, do mais longínquo futuro. Sou um religioso de tradições simplistas. Sou grosseiro como só o corpo sabe ser. Sou pretensioso, sim, por querer ser uma voz da humanidade posso ser considerado um perfeito capitalista ocidental com minha arrogância de concreto armado, e pareço ainda mais tolo por assumir com antecedência esta sombra. Eu prevejo a sombra para manter um sorriso, nem que isto doa a alma. Meu nome está protegido no segredo das estrelas, não falo dessas celebridades de plástico, mas das estrelas verdadeiras, as supremas, aquelas que os amantes trazem para o beijo, aquelas que calam um cientista, aquelas que um poeta ousa descrever. Disseco meu ego-santo-sonho e sei sentir-me humilde, quando é preciso. Só quero sobreviver, e no fundo sinto-me protegido apenas pelo meu medo, desde o mais instintivo impulso de sobrevivência até as esferas mais celestiais que o futuro do homem não pode alcançar. Quero para o alto, para os lados e para baixo. Quero um cigarro antes e depois de meu desejo. Tenho vícios, burrices, erros e os admito com o mesmo alívio reprimido dos depoentes de grupos de ajuda.
Sinto que aos poucos perco o medo de ter medo. Sei que daqui para frente terei menos medo, mas tenho medo da quantidade de medo que terei de enfrentar até a morte, e tenho tanto medo que a morte me alcance antes de cumprir minha missão de vida que nem sei falar disso sem parecer piegas, brega, cafona, como quiser me escrachar. Por isso, paro por aqui. Só seguirei, como sempre, para dizer uma última coisa:
No começo dessa soma de frases, eu queria escrever uma carta para meu pai, para lhe dizer que já faz anos que eu quero dizer e não consigo, vinte e oito para ser exato, duas vezes 14, mas, como sempre, saio da escrita com outra coisa, insatisfeito com o que meu pai possa entender de mim.
Não vou dizer que chorei, porque chorei, guardo essa informação para os iniciados... Sou obrigado a disfarçar: perdoe-me pai, mas essa carta vai para nossa cachorrinha Nica, que ainda existe, que vive a 14 anos, que caminha para a morte com a alegria inconsciente daqueles que não estão presos em sua memória, neste dia catorze de novembro de dois mil e seis, véspera desta república que me faz rir, e que ri de mim.

terça-feira, 24 de abril de 2007

Daniela Duarte, acho que sempre me reconhecerei neste 'sou eu' que você viu em mim. Este texto tinha que sair da parede do meu quarto e cair aqui...
Será simples e sem complicação.

Para Alexandre Rabelo
Escultor de palavras
Imaginação que assusta

Era essa a frase.
Mas como?
Como poderia dizer...Pensei que a pergunta correta a ser feita seria: Quando?
Quando poderia dizer?
Na velhice eu tentaria o simples...
Arrisquei: Eu sou simples, tu és simples, mas ele não é simples, nós nunca fomos simples...
Parece que tudo no mundo, tudo, tudo, tudo...
Tudo o que arquitetamos não tem profundeza.
Não para quem não agüenta o impacto de sentir no corpo o veneno das metrópoles.
É estou amargando por aí, já há algum tempo... Acabei de assumir minha clandestinidade.
E lembrei de um momento...
Quando eu parei de conter, quando eu parei de procurar, quando eu parei de querer, quando eu parei.
Parado ali...Ali mesmo, no tempo, e o tempo parou comigo, o tempo não prosseguiu, o tempo era meu aliado.
Eu tinha um tempo só meu... Enquanto as pessoas viviam aquele outro tempo, eu simplesmente entendi o meu próprio ritmo no tempo...
Isso me calou e comoveu.
Pude por um longo período me encantar com a idéia...
Eu teria que mudar-relaxar na vida, principalmente uma coisa: Eu não teria que me adaptar a nada e a ninguém... Não sentiria solidão, porque estaria completo, seria um dentro do próprio tempo.
Mas o ser bucólico que me condena a margem se pôs a falar...
E se eu não te amar?
Retalhado
A beira da cidade
Introspectivo
Esperando respostas
Colapsado
Foge de medo
Eu quis
Eu
Ser amado
Eu queria ser
Eu
e Eu não estão se dando muito bem.
Procuro o que?
Fui afundado
Não pude ir além
Tremi até os ossos
Vi o tamanho do corpo fora do corpo
Vaguei um bom tempo não sendo
Eu sendo outro
Perdi os contornos os sentidos a profundidade
Procurei meus aliados
Mas estava completamente só
Estava assim
Não-definido
Sem comando
E disse com a voz
Tudo bem
Estava vivo porque respirava
Mas não me comportava como se estivesse dentro do corpo
Não me comportava
Deslizei os olhos na boca a boca na testa a testa nos cabelos
Os cabelos escureceram meu peito
Do meu íntimo um leque entrava e saia
Fatiando a minha carcaça me mostrando órgãos
Eu procurava a língua os dentes
As texturas
Superfícies de apoio
Qualquer concreto
O teto não segura a noite lá fora
O teto se evapora junto com pessoas
Eu não evaporo
Eu embaralho
Enquanto não penso posso voar
Vejo de longe os emaranhados da vida
Da minha vida
Mudarei
Mudarei agora antes antes de desistir
Mas o vento sopra...
Eu ainda débil permaneço em suspensão...tempo
E descubro que não estou sendo
E te deixo ir embora assim... Deixo-te ir seja lá quem estiver te deixo
Não quero fazer parte dos que procuram eternamente
Eu posso aportar?