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quarta-feira, 16 de junho de 2010

Haruki Murakami entre aventuras juvenis e silêncios extemporâneos


William Blake, em seu livro Canções da Inocência e da Experiência nos devolve sempre à encruzilhada entre os mitos "ocidente" e "oriente". Mito ocidental é o da experiência da razão, da ciência da palavra que é magicamente lógica, científica, histórica, explicativa. Mito oriental é o de um misticismo inocente, de um paraíso perdido, de uma palavra que é, no anverso da história e do tempo, logicamente mágica, revelada. A graça deste livro de Blake, que tomamos como exemplo de uma problemática, é exatamente justapor os mitos sem hierarquizá-los, é transmitir em cada metade de seu livro o mesmo conjunto de experiências por duas chaves; aquela que abre um quarto de adulto para que uma criança o veja e ali sinta os aromas de putrefação animal que a palavra esconde, e aquela outra chave posta na mão do adulto que espera encontrar no quarto da criança  um mistério que ele se esqueceu de sonhar, e que talvez nunca soube.
É nesta encruzilhada que o escritor japonês Haruki Murakami constrói sua obra trans-hemisferial Kafka à beira-mar. Ali, um oriente ocidentalizado tem nostalgia de sua própria inocência no olhar do outro, bem como um ocidente orientalizado vê a si mesmo em suas experiências com o mistério, a escuridão, o oculto, ou, em outras palavras, com o deslumbre iluminado da fantasia. Este livro é eruditamente irônico e melancólico e popularescamente palhaço e triste. Em Kafka à beira-mar, os extremismos de um paraíso perdido e de um inferno presente são tão pitorescos quanto burlescos, e o que nos resta - se cabe-nos buscar um substrato, uma síntese - é um limbo criado entre os universos fantásticos de Alice no País das Maravilhas e Cem Anos de Solidão.
Nesta impressiva obra de Murakami, a infância e a velhice do mundo tentam se encontrar entre fantasias extremas (ou extremistas), justapostas como a inocência e a experiência, entre o menino de quinze anos Kafka Tamura e o ancião Satoru Nakata. O menino, que foge de casa enfeitiçado por uma profecia edipiana, nos representa a descoberta do mundo como uma aventura desencantada. Kafka Tamura é já um velho que sabe. Nakata, o velho imbecilizado por um evento misterioso da natureza inexplicável, é o Quixote, o Idiota de Dostoiévski. Tem a inocência da ignorância que não deixa de ser ética. Essas duas trajetórias paralelas, que só convergem num infinito fora deste mundo, mas pleno de sentido, nos levam a devorar o tempo de cada página como se a eternidade pudesse enfim ser retida, mesmo ao ser abandonada por nossas desilusões. De que lado está a verdade? Na canção do Radiohead repetidamente ouvida em silêncio pelo menino Kafka? Na língua dos gatos que Nakata domina e depois esquece? Nesta obra fantástica (nos dois sentidos), a fantasia é refúgio e ao mesmo tempo desilusão.
De Tóquio a uma floresta encantada na ilha de Shikoku, o inocente ancião e o experiente menino só encontram fantasmas, mas é no limbo da busca que o humano deixa o testemunho mínimo de sua dignidade. Murakami não cai na cilada de explicar os mistérios. São muitas as imagens que se sucedem freneticamente nesta ficção contudo tão mortalmente silenciosa quanto a realidade mais dura: uma chuva de peixes, uma pedra que fala, um menino chamado corvo, um velho que fala com gatos, uma flauta de almas, uma profecia edipiana, as sombras da guerra, os labirintos da cidade e da mata e, sobretudo, os prazeres simples e intensos, de um prato de arroz ao sexo cru. 
A pretensão de Murakami parece ser um compêndio das ilusões humanas, de tabus primitivos, como o incesto e o assassinato, à elaboração mais intricada de um suposto mundo espiritual, visando paradoxalmente pelo excesso um esvaziamento da memória do mundo. É de um conforto incômodo. É a certeza do poder da incerteza do sonho em que o poder deixa de se impor.
A busca por identidade, que conduz as personagens, se torna mais importante quanto menos elas buscam se afirmar. Só importa a busca, que nesse universo ficcional tão rico e imaginativo, não pretende nos levar a nenhum lugar conhecido, embora se construa com imagens deliberadamente familiares. Finalmente, a consciência de si só ganha densidade ao se reconciliar com  a presença inominável do mundo:

"- Mas ainda não sei o que significa viver - digo.
- Olhe o quadro - diz ele - Ouça o vento.
Aceno a cabeça positivamente.
- Durma um pouco - diz o menino chamado Corvo - E, quando acordar, será parte de um novo mundo.
E então, você adormeceu. E, quando acorda, é parte de um mundo novo."

Um livro para todos.

domingo, 6 de junho de 2010

KAFKA À BEIRA-MAR - Haruki Murakami


"Nakata descontraiu os músculos, desligou o comutador da cabeça e transformou-se numa espécie de sensor vivo. Isso era natural para ele. Nakata o fazia cotidianamente desde criança. Logo, as bordas da consciência começaram a esvoaçar como borboletas. Do outro lado da borda estendia-se um vasto e escuro abismo.  Por vezes, ele estrapolava a borda e sobrevoava esse abismo de estonteante profundidade. Mas Nakata não temia nem a escuridão nem a profundidade. Por que haveria de temê-las? Esse mundo escuro cujo fundo não avistava, assim como o pesado silêncio e o caos, há muito constituíam uma entidade amiga e repleta de nostalgia e eram agora parte dele mesmo. Nakata sabia disso muito bem. Nesse mundo não havia letras, dias de semana, temíveis governadores, óperas, nem BMWs. Nem tesouras, nem chapéus de copa alta. Mas ao mesmo tempo não havia também enguias nem pão doces. Ali havia tudo. Mas ali não havia partes. Como não havia partes, não precisava substituir certas coisas por outras. Nem tirar nem acrescentar. Não era preciso pensar em coisas difíceis, bastava apenas deixar-se impregnar por tudo. E Nakata achava que isso era mais gratificante do que qualquer outra coisa no mundo.
Às vezes, Nakata caía em leve modorra. Ele podia adormecer, mas seus cinco sentidos estavam alertas, vigiando o terreno baldio. Se algo acontecesse, se alguém ali surgisse, Nakata despertaria num átimo e entraria em ação em seguida."

Tradução do japonês de Leiko Gotoda
Editora Objetiva/Alfaguara 2008

Este é o segundo livro que leio deste grande autor contemporâneo de origem japonesa. Sua mistura de referências eruditas e pop nos levam a imersões em experiências impressionantes como a deste trecho, em que uma experiência digna de um guru oriental é vivida por Nakata, um senhor "idiota" no mesmo sentido do Quixote ou do príncipe Mishkin em Dostoiévski. A capacidade deste autor de expor com clareza, simplicidade e naturalidade as experiências mais tabu e limítrofes da vida, as mais inexplicáveis, é um assombro para o leitor. Este autor tem a rara capacidade de popularizar sem perder a profundidade e os detalhes, ao mesmo tempo em que "eruditiza" experiências cotidianas sem nome, imprimindo-lhes um significado transcendental, à la Clarice. Quando terminar a leitura volto para contar mais. Para quem quiser, dê uma uma olhada no escrevi sobre o outro livro de Marakami que li, Norwegian Wood:
http://alerabelo.blogspot.com/2009/05/norwegian-wood-haruki-murakami-e.html

sábado, 12 de setembro de 2009

As Cidades Invisíveis de Italo Calvino

Terminei de ler AS CIDADES INVISÍVEIS de Italo Calvino (1923-85), considerado o maior escritor italiano do século XX, mas que é cubano. Nacionalidades à parte, é grande decerto. Para defender valores novos ou ancestrais para uma humanidade corrompida, ele não se apóia em intelectualismos arrogantes, mas faz da base de sua literatura tudo aquilo que é popularesco, pitoresco, burlesco. Isso é italiano sim, como o cinema de Fellini ou Pasolini, mas latino em geral, na essência, tendo como paradigma o Quixote. Talvez seja preciso uma imagem para ilustrar seu truque genial: todos sabem que não é fácil engolir uma alga marinha, ainda que mesclada em alguma iguaria da culinária japonesa. No mar, entretanto, sendo uma vez levado pelas ondas fáceis, recebendo o sol compensador, tolera-se e mesmo ama-se a estranheza de ter as pernas batidas e alisadas pelas algas em seu estado natural e vivo. Pois bem: vejamos o mar como o infinito compêndio de mitos que preenchem de graça nossas histórias, e as algas como as difíceis verdades que entrementes se anunciam. Assim é a literatura "fácil" de  Calvino.
Com muitos sorrisos agradecidos cheguei ao fim desta leitura que não se quer esgotar, só para recair no núcleo de tensão que me acomete há anos exigindo-me coragem; Calvino, generoso, coroa sua obra, ou dela dá cabo, deixando um conselho óbvio - pois nada é óbvio - a quem busque a coragem da expressão:
O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.
Que o céu exista e Italo Calvino traga-lhe algum riso e lhe amplie o horizonte imaginário.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Norwegian Wood - Haruki Murakami e Beatles

Levei quatro anos para terminar de ler Norwegian Wood, romance aclamado por crítica e público, obra do escritor japonês Haruki Murakami. Tinha parado num trecho que refletia minha próprias angústias com a juventude. A leitura e fácil e fluída. A complexidade das relações é que embrutece ou faz viver.

A história é narrada por Toru Watanabe, dos dezessete anos aos vinte e poucos, desde 1968, quando chega em Tóquio para estudar teatro numa universidade. Mas o que dá base à história de experimentação numa megalópole nos anos sessenta são as relações prévias que Toru tinha com seu melhor amigo suicida e a namorada deste, Naoko, que entra em processo de degeneração constante desde a morte de seu amor adolescente, e com quem Toru vai desenvolver um laço tenso entre o carnal - a busca de um desejo possível no instante presente - e o espiritual - a busca de identidade e alteridade.

Publicado originalmente em 1987, este livro é uma interessante reverberação das pulsões beatniks, com seus ambientes jazzísticos, a presença dos silêncios orientais pontuando as conversas sobre música, arte, amor, as cartas para pessoas distantes, além de expressar a universalidade do despertar, este "estar atento e ter de escolher" entre tantos caminhos de corpo e alma - a escolha difícil entre o prazer inédito, atual, e o que a lucidez ordena com pitadas de lembranças.

Os detalhes sexuais, mais que descrições cruas, são envolventes e imprimem ao texto uma densidade plausível, que dosa bem o turbilhão de angústias, dúvidas, medos, festas, sonhos, lugares e pessoas de mundos desconhecidos e vagamente familiares.

Este livro tem cheiro daqueles clássicos de voz única. A quase estúpida placidez de Toru, bem como sua resignada melancolia, servem de apoio para que transitemos como pluma pelo belo e trágico final da década de sessenta. Sem morrer em nenhuma praia, nenhuma tribo.

Um momento luminoso se passa quando Toru sai para jantar com Nagasawa, seu amigo rico e garanhão, e com Hatsumi, namorada deste amigo e uma das muitas personagens fugazes que fazem sua aparição, brilham e fenecem, marcando para sempre Toru, que expressa uma boa frase para resumir a história: [o sentimento que ela me provocava] era algo como uma aspiração infantil que nunca havia sido saciada, e que jamais o seria.

***

Aqui tem o vídeo da música dos Beatles que dá nome ao livro. Abaixo do vídeo, a letra. Preste atenção na mistura de rock e cítara, uma das primeiras sínteses entre oriente e ocidente na cultura pop, resultado do encontro entre George Harrison e Ravi Shankar.

Norwegian Wood é do álbum Rubber Soul, de 1965, cheio de canções de amor quase desencantadas, mais sombrias, em comparação a sucessos anteriores dos Beatles, como Love me do e I want to hold your hand.


I once had a girl, or should I say, she once had me...
She showed me her room, isn't it good, norwegian wood?*
She asked me to stay and she told me to sit anywhere,
So I looked around and I noticed there wasn't a chair.
I sat on a rug, biding my time, drinking her wine,
We talked until two and then she said, "It's time for bed"
She told me she worked in the morning and started to laugh.
I told her I didn't and crawled off to sleep in the bath
And when I awoke, I was alone, this bird had flown
So I lit a fire, isn't it good, norwegian wood.
__________________
*Norwegian Wood é um tipo de madeira nobre para fazer móveis, artigo de luxo estrangeiro desejado pelos pobres com móvei de pinho.


sexta-feira, 10 de abril de 2009

A Invenção de Morel e Marienbad

Finalmente! Li A Invenção de Morel , de Adolfo Bioy Casares, escritor argentino, parceiro entranhado de Borges. Este livro me rondava há meses, recomendado por uma amiga, enquanto falávamos de Jorge Luis. Já o filme Ano Passado em Marienbad, de Alain Resnais, também me fora altamente indicado na mesma época, por outro amigo. Mas, eu não sabia que o filme vinha do livro e só o soube depois de assistí-lo, semana passada, quando decidi encarar a obra original, que li ontem numa sentada. Feliz coincidência, lapso de tempo, fruto do acaso ou sábia sincronicidade, ainda mais por essas obras refletirem tão profundamente essas temáticas temporais.

Do livro, tenho uma edição em espanhol, mais barata que a tradução. Até me emprestaram a tradução, mas devolvi sem ler. Não queria me aventurar ainda. Dava medo a afirmação de Borges de que "não parece uma imprecisão ou uma hipérbole qualificá-la [a obra] de perfeita." Seu julgamento apoia-se no fato de Adolfo Bioy produzir uma história intricada com enredo mínimo, e assim temos as descrições mais ou menos fragmentadas segundo a acuridade de visão do narrador-personagem, o "fugitivo da lei".

Outro atributo ressaltado por Borges é a capacidade de seu amigo em sintetizar de forma harmômica as querelas eternas entre clássicos e modernos. O narrador caótico reencontra a civilização na ilha em que se refugia, sobretudo encontra um enorme museu, ou hotel, onde vários franceses snobs desfilam sua frieza intencional uns para os outros numa grande encenação. A trama foi construída como num romance policial (como os muitos que escreveria com Borges, ambos sob o pseudônimo de H. Bustos Domecq); um estilo já clássico, e neste caso as peripécias são dadas pelas nuances interiores do narrador. Com sentido de urgência e surpresa, seguimos atentos suas paranóias, como a de ser descoberto, seu amor nunca suficientemente declarado, ao que presume, pela bela e fria Faustine, e acima de tudo, suas descobertas em torno da invenção de Morel, o "tenista barbudo". Este segredo máximo, limite do mistério nesta narrativa, é o que nos simboliza, afinal, o propósito do sutil jogo de realidades repetidas, sóis duplos, estações do ano sobrepostas, fusão entre memória e desejo, fenômenos que tornam cada vez mais movediça a realidade. Basta dizer que a resolução antecipa cinquenta anos de história... Talvez porque Buoy Casares também seja um desses autores preocupados com a eternidade. E o que seria de nós vivendo numa eternidade apenas imaginada pelo homem? Responde Morel: "eu poderia ter-lhes dito, ao chegar: viveremos para a eternidade. Talvez tivéssemos arruinado tudo forçando-nos a manter uma contínua alegria. Pensei: Qualquer semana que passemos juntos, se não sofrermos a obrigação de ocupar bem o tempo, será agradável."

Fazendo humor da angústia, construindo uma eternidade possível e comovente, esta obra nos leva a buscar por Morel, o gênio louco cuja lógica é tão insana quanto perfeita, e por Faustine, seu pólo oposto, a pura e silenciosa voz do mistério, com sua frieza sorridente, estabelecida à força entre prazeres cansativos e tédios inevitáveis. E nossa busca é a do narrador, que constrói a história enquanto a inventa ou tenta explicar, entender, amar, sobreviver, escolhendo memórias, projetando desejos.

O filme de Alain Resnais foi feito quase vinte anos depois da publicação do livro, e é a própria obra-prima idealizada por Morel em sua invenção. Na tela, acompanhamos a repetição da perfeição calculada, vemos dissolverem os limites entre memória, desejo, realidade, sonho, ilusão, alucinação, lucidez, perdidos entre o que de fato teria acontecido ano passado em Marienbad, o que se passa agora, a gente parada em desejos do que é possível e impossível de ser feito, planejando uma eternidade enquanto se teme a morte.

No livro, temos ainda a vantagem de ver a história pela perspectiva do fugitivo da lei, observando à distância este palácio encantado, tentando até se envolver, mas preso à sobrevivência, obrigado a revelar sua própria história e identidade ocultas no exercício de desvendar a invenção de Morel/Resnais. Sua descoberta da eternidade sonhada torna-se cada vez mais claramente um aprendizado da morte.

O filme é mais sombrio, seu labirinto não tem ponto de fuga, nem após os créditos finais. No livro, a jornada é mais esperançosa, como, por exemplo, quando o narrador conclui, para fazer calar suas angústias: "Está ese camino: vivir, ser el más feliz mortal."

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

ORGIA PARISIENSE OU PARIS SE REPOVOA

Foto: David Wojnarowicz - Rimbaud in New York


Em maio de 1871 o tempo devia estar bom em Paris. Era a esperada primavera, assim como aguardamos o verão. Rimbaud, dezesseis anos, chega pela terceria vez na cidade, fugido de sua cidadezinha rural, centenas de quilômetros depois, a pé. Instala-se com os poetras contestadores e jovens na Comuna, no bairro revolucionário do Quartier Latin, fechado por barricadas, onde se preparavam para viver na liberdade de um mundo sem posse.
Nesta época, Rimbaud explode seu gênio, pensa seu método de vidência, baseado no desregramento de todos os sentidos. E é quando escreve esse poema que resolvi traduzir hoje. Lembrou-me muito São Paulo, minha relação com esta cidade, de crítica mas amor, esperança, prazer e luta, em escala titânica.
Optei por manter o mesmo esquema de rimas, a alternância entre as imagens populares e as eruditas, o jogo entre as evocações vulgares, profanas, e as sagradas, mitológicas. Ser literal com Rimbaud é preservar sua ambigüidade, suas repetições calculadas e seus preciosismos, seu ímpeto apaixonado e seu distanciamento frio.


A Orgia Parisiense
Ou
Paris se Repovoa


Ah covardes, olhem lá! Desemboquem nas estações!
O sol enxugou com seus pulmões ardentes
Os bulevares que uma noite ficaram de Bárbaros aos milhões.
Vejam a Cidade santa, sentada no ocidente!

Vão! Previnirão os refluxos do que se incendia,
Vejam as marginais, os bulevares, olhe ou
As casas sobre o azul leve que se irradia
Que uma noite o vermelhão das bombas estrelou!

Fechem os palácios mortos nos nichos das hortas!
O indignado dia ancestral refrescou seus olhares.
Olha ali a trupe ruiva torcendo as ancas tortas:
Sejam loucos e serão engraçados, com indignados ares!

Tais as cadelas em cio comendo cataplasmas,
O grito das casas de ouro lhes reclamam. Roubem por todo lado!
Comam! Eis a noite da alegria em profundos espasmos
Que desce a rua. Ó bebedores desconsolados,

Bebam! Quando a luz chega intensa e louca,
Revistando ao lado de vocês os luxos farfalhantes,
Você não babarão, sem atitude, de palavra pouca,
Dentro de seus copos, os olhos perdidos em clarões distantes?

Engulam, pela Rainha de bundas cadentes!
Escutem a ação dos estúpidos soluços
Dilacerantes! Ouçam saltar nas noites ardentes
Os idiotas mal humorados, velhacos, volúveis, lacaios!

Ó corações de sujeira, bocas de horríveis lesmas,
Funcionem mais forte, bocas de fedores!
Um vinho para esses torpes ignóbeis, nessas mesas...
Suas barrigas são fundidas por vergonhas, ó Vencedores!

Abram as narinas para as soberbas náuseas!
Embebam de venenos fortes as cordas de seus pescoços!
Sobre as nucas de criança as mãos cruzadas baixam cada veia
O Poeta diz a vocês: “Ó covardes, sejam loucos!”

Pois vocês cavam o ventre da Fêmea,
Dela temem ainda outra convulsão
Que grita, asfixiando sua ninhada sem fama
Sobre o peito dela, numa horrível pressão.

Sifilíticos, loucos, reis, fúteis, ventríloquos,
O que podem fazer a Paris emputecida
Suas almas e corpos, venenos e cacos?
Ela sacudirá vocês dela, rancorosos apodrecidos.

E quando estiverem no chão, gemendo entranhas e costelas,
De flancos mortos, reclamando dinheiro, perdidos
A vermelha cortesã de seios fartos de batalhas,
Longe do estupor de vocês, cerrará os punhos ardidos!

Quando teus pés dançaram tão forte nos momentos de cólera
Paris! quando tantas lâminas te esfaquearam,
Quando você caiu, retendo nas pupilas claras
Um pouco da bondade dos selvagens que se renovaram,

Ó cidade dolorosa, ó cidade quase morta
A cabeça e os dois peitos lançados ao que só o Devir pode dizer
Abrindo sobre tua palidez milhares de portas,
Cidade que o Passado sombrio poderia bendizer:

Corpos remagnetizados por dores que enchem aldeias,
Tu bebes de novo da vida espantosa! Tu sentes
Silenciar o fluxo de versos lívidos em tuas veias,
E sobre teu claro amor roçarem dedos nada quentes!

E isto não é mau. Os versos, os versos lívidos
Não perturbarão mais teu sopro de Progresso
Pois os Estriges não apagaram os olhos das Cariátides
Onde as lágrimas de ouro astral caiam de azuis degraus.”

Ainda que seja aflitivo te rever coberta por esta rede
Assim; ainda que não tenham feito jamais em outra cidade
Úlcera mais fedorenta na Natureza verde,
O Poeta te diz: “Tua Beleza é radiante!”

A tempestade te sacrou suprema poesia:
O imenso revolver de forças te sacode fluido,
Tua obra combate, a morte gonga, Cidade da escolhida fantasia!
Recolhe estrondos do coração do clarão surdo.

O Poeta tomará o fôlego convulsivo dos Sem Fama,
O ódio dos Forçados, o clamor dos Malditos;
E seus raios de amor flagelarão as Fêmeas.
Suas estrofes bendirão: Olhem lá! olhem lá! bandidos!

- Sociedade, tudo está restabelecido: - as orgias
Choram seus velhos gemidos aos bordéis antigos:
E o gás em delírio nas avermelhadas muralhas,
Queima sinistramente contra os azuis esmaecidos!

Maio de 1871/Dezembro 2008
Link para o original:

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Um Poema de Anne Sexton

Esta tradução é dedicada a Antonio Ferah, que me apresentou essa poeta americana, aparentada de Sylvia Plath no estilo confessional, inédita no Brasil. Intriguei-me na força quase sexual com que ela luta contra a degeneração e a morte em geral, quase como um estupor plácido. Será? Bom... Deve valer tudo para explicar a atitude dos poetas, mais até que as patologias que a ciência inventa. Principalmente, porque aqui a sensibilidade feminina, incoercícel às palavras, se resguarda, cumulando vozes fúteis da algazarra civilizatória masculina.
A escolha desse poema em específico também se deu por razões que a ciência não explica.

Music Swims Back to Me
by Anne Sexton


Wait Mister. Which way is home?
They turned the light out
and the dark is moving in the corner.
There are no sign posts in this room,
four ladies, over eighty,
in diapers every one of them.
La la la, Oh music swims back to me
and I can feel the tune they played
the night they left me
in this private institution on a hill.

Imagine it. A radio playing
and everyone here was crazy.
I liked it and dance in a circle.
Music pours over the sense
and in a funny way
music sees more than I.
I mean it remembers better;
remembers the first night here.
It was the strangled cold of November;
even the stars were strapped in the sky
and that moon too bright
forking through the bars to stick me
with a singing in the head.
I have forgotten all the rest.

They lock me in this chair at eight a.m.
and there are no signs to tell the way,
just the radio beating to itself
and the song that remembers
more than I. Oh, la la la,
this music swims back to me.
The night I came I danced a circle
and was not afraid.
Mister?

a música nada de volta a mim

Espere Senhor. Qual caminho leva ao lar?
Eles apagaram as luzes
E o escuro se move no canto.
Não há nenhum sinalizador neste cômodo,
Quatro senhoras, pra lá dos oitenta,
De fraldas, cada uma delas.
Lalala, Ó a Música nada de volta para mim
E posso sentir o compasso que tocaram
Na noite em que me deixaram
Nesta instituição privada em uma colina.

Imagine. Um rádio tocando
E todo mundo aqui estava louco.
Gostei disso e dancei num círculo.
A música verte sobre os sentidos
E de um modo esquisito
A música vê mais do que eu.
Digo, ela se lembra melhor;
Lembra da primeira noite aqui.
Era o frio estrangulador de Novembro;
Mesmo as estrelas estavam amarradas ao céu
E a lua tão brilhante
Ramificando-se pelas fechaduras para me espetar
Com um cantar na cabeça.
Eu tenho esquecido todo o resto.

Trancam-me neste assento às 8 da manhã,
E não sinais para contar um caminho,
Apenas o rádio batendo-se para si mesmo
E a canção que lembra
mais do que eu. Ó, la la la,
essa música nada de volta para mim.
À noite eu cheguei e dancei um círculo
E não tive medo.
Senhor?