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quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Uma História da Pedra


A História, como forma de entendimento do mundo, tem lutado nos últimos duzentos anos para se tornar uma “ciência”, com verdade e método. Os fatos, as ações humanas, assim como as pedras, teriam o seu mistério a ser desvelado. Sim, pois o curso da história, escrita e não escrita, tem conduzido os homens a se arrogarem de preencher de sentidos precisos o desconforto do silêncio universal. Para o cientista, uma pedra deve ter um lugar em algum catálogo. Para o poeta, deliberadamente mais ambíguo, a pedra também deve portar algumas palavras ocultas e bem-vindas, ainda que imprecisas. Disto podemos dizer que o poeta e o cientista encontram-se assim na mesma ambição de revelar uma luz universal, transmissível a todos os homens do presente e do futuro. Uma luz mais eterna que o tempo.Ainda bem que o mundo não é só o Ocidente com seus artistas e cientistas, e seu deserto de palavras e símbolos. Ainda bem que temos o Oriente, ainda que um Oriente mítico, criado por nosso estupor ocidental, para nos reportarmos sempre que se renova nossa sede de mistério. Lembro-me, por exemplo, de algumas práticas orientais, em que um iogue coloca-se diante de uma pedra para meditar, como uma das últimas etapas de iniciação aos mistérios universais. A este homem é dada uma única instrução mestra: fique aí, até descobrir que você e a pedra são uma coisa só. Tarefa fácil, deve responder o homem ocidental, afinal, a pedra também é feita de átomos, como se o verbo descobrir implicasse tão somente a elaboração de uma interpretação racional; como se a essência do homem fosse esta razão criadora que o torna deus. Um poeta poderia argumentar: esta pedra dura, inerte, eterna, compartilha comigo o segredo de minha morte. De fato, o estupor diante da morte é universal, e nos insere num campo de experiência comum, na história de desejos e angústias comuns, ainda que de aparências sempre diferentes. Mas, seria uma “verdade universal” o que esses iogues querem encontrar? Sua jornada com a pedra, tecendo um tempo paciente, seria para descobrir verdades? O que deseja descobrir o iogue e sua pedra?Sabemos que o objetivo último de muitas técnicas de meditação é atingir o silêncio bruto da pedra, e não uma lapidação de suas propriedades concretas e abstratas. Podemos supor, então, que ainda deve haver algo de humano para além das palavras, e isto não é nenhuma novidade, embora também não possamos dizer que exista o óbvio. Podemos facilmente aludir a momentos em que o silêncio foi uma das experiências mais plenas do estar vivo, e sabemos que tais experiências são intransferíveis e assim devem permanecer, como prova de nossa individualidade, esta sim, universal. Pois o silêncio, talvez fenômeno mais universal que o próprio universo observável onde habita, nunca é igual, como também os fatos singulares que formam a universalidade da ciência histórica. Atingir um contato renovado e constante com esses silêncios tão desiguais, talvez seja o objetivo do iogue com sua pedra. Seria outra obviedade necessária notar que é só no silêncio universal de uma pedra, de uma estrela, que encontramos nossa individualidade, e que só por esta originalidade de cada ser o silêncio se repete. Entretanto, isto não seria tão óbvio de se dizer se o homem ocidental não confundisse já há alguns séculos a afirmação da individualidade com a negação do outro, no fenômeno mais que conhecido do individualismo moderno. Ser original parece ainda assumir uma luta contra outras individualidades, ao invés de, no destaque de uma originalidade, celebrar as experiências comuns. Muitos historiadores, por exemplo, apelam a valores universais para se contraporem a outros historiadores, seja por vaidade, seja por assumirem um partido específico na luta pela verdade da justiça e da liberdade.Não estou sendo original ao destacar essas questões. Diante desta pauta em branco – minha pedra de hoje – vejo-me profundamente imerso na história: anoto verdades, defendo palavras, levanto meus olhos ao céu, convido os homens a celebrar mistérios e a fazer desta celebração uma crença quase religiosa. Mas quem, pergunto, juntou tais obviedades nesta mesma combinação de palavras? Não pretendo com esta questão afirmar minha individualidade, mas sim destacar que, se realmente não há nada de novo sob o sol, que festejemos com uma humildade quase idiota nossas repetições reelaboradas, provisórias, pretensamente universais, pois o que vale ainda é o processo, a tentativa de cada um e de todos, de cada pedra enterrada ou transformada, ainda que numa lâmina pré-histórica. O que vale não é o que fazemos com a pedra, mas o que fazemos com a observação que dela fazemos; o que fazemos, enfim, com o tempo.A história usa o tempo para descrevê-lo e empresta a filosofia para interpretá-lo. E ambas as ciências – este modo provisório, histórico, de apreensão do mundo – se unem à poesia e à meditação no que talvez seja a experiência humana mais universal: a própria invenção do tempo, esta dimensão onde destacamos nosso ser atônito. Provisoriamente universal. Pois a folha desta impressão, reciclável, também voltará a ser uma pedra, umas tantas vezes, ao menos. Mas sempre é bom ressaltar: talvez. Quem sabe mais é uma pedra.

Se o nariz de Cleópatra...


Nem sempre a escrita da História é composta de asserções de intenção esclarecedora; às vezes a humanidade soma também a este legado alguns enigmas divertidos, como o que nos deixou Pascal, sem qualquer explicação adicional, em meio aos seus mais edificantes Pensamentos. Ele nos diz, no fragmento 162 de seu mais famoso livro: se o nariz de Cleópatra tivesse sido menor, a face da terra teria sido outra. E nos sentimos tentados a especular, numa atitude contradicente a dos cautelosos cientistas da História: se o rosto de Cleópatra fosse um outro, talvez menos belo, teria conquistado os corações dos donos do mundo, Júlio César e Marco Antônio? O destino do mundo estaria impresso no acaso de um traço físico, e a inteligência da rainha do Egito contaria pouco neste caso? E os senhores de Roma, livres da sinuosidade irresistível da exótica soberana, teriam tido mais força para contribuir para a manutenção de uma permanência maior do grande império, livrando-nos da Idade das Trevas e outras conseqüências mais drásticas?
Os historiadores de hoje, analistas de grandes movimentos estruturais das sociedades antigas, nos diriam que poucos fatos isolados poderiam alterar decididamente tendências históricas de longa duração. Sob essa perspectiva, o declínio de Roma não seria de responsabilidade de alguns de seus administradores, mas sim um fruto necessário de estruturas sociais difíceis de mudar, como a constatação de que o poder dos romanos foi secularmente calcado numa administração de cunho militar, dependente de uma expansão e exploração colonial sempre ativas. Soma-se a esta característica mais geral uma distribuição de títulos meritórios, geradora de uma inflada classe de parasitas improdutivos e escravos. Deste modo, sendo o nariz de Cleópatra um outro ou o mesmo, o Egito, afamado celeiro do mundo antigo, teria sido conquistado de uma forma ou de outra e, do mesmo modo, se esgotaria sem suprir as crescentes necessidades dos romanos. Assim, podemos pensar que há um limite razoável para as espetaculares especulações que nos sugerem os enigmas como o que nos provocou o pensador francês.
Uma questão similar a esta de Pascal, freqüentemente repetida pelos brasileiros é: seria o Brasil um país melhor se tivesse sido colonizado pelos ingleses? A resposta geral dos brasileiros ressentidos é que sim. Interroguemos esta possibilidade. Em primeiro lugar, o Brasil jamais receberia o mesmo modelo colonizador das Colônias Inglesas do Norte, grandes responsáveis pela formação da democracia norte-americana, já nossas condições geográficas eram propícias à exploração de produtos tropicais, mais valorizados no mercado europeu e mais compensadores para os comerciantes de alto escalão, os únicos que podiam arriscar-se numa empreitada tão dispendiosa quanto a travessia transoceânica. Assim, se os ingleses tivessem chegado aqui primeiro que os portugueses, possivelmente adotariam a mesma estrutura exploratória que condicionou nossa história. E se assim fosse, os ingleses não sofreriam concorrência com os países ibéricos e talvez não tivessem investido na produção de algodão, menos valorizada que o açúcar e, com isto, não teriam a necessidade de otimizar a produção de tecidos com a invenção das máquinas que abriram as portas da revolução industrial e conduziriam o mundo para o capitalismo industrial. Além disso, se os ingleses tivessem se tornado grandes proprietários de terra, como foram os ibéricos, sua nobreza de terra permaneceria quem sabe ainda fortemente ligada às antigas estruturas medievais, permanecendo católicos como a maior proprietária de terras da Europa, a Igreja. Na Inglaterra dos Tudor, a nobreza de terra aliou-se à burguesia mercantil por não poder concorrer com os grandes proprietários europeus, tornando assim necessária a criação de uma religião mais livre dos interesses hegemônicos no continente. É sabido que a revolução protestante aconteceu em mãos de comerciantes inimigos do clero feudal, e foram esses protestantes, aliás os mais radicais entre os ingleses, que foram banidos para o mundo novo, fundando as colônias do norte nos atuais EUA, uma região sem grandes interesses econômicos para a coroa, mesmo porque esta terra de segregados, geograficamente similar a Europa, não podia produzir algo que o velho mundo já não produzisse, com menor custo. E foi devido a este quase abandono que os colonos protestantes puderam organizar-se em pequenas propriedades independentes que estimularam a ética individualista necessária às novas formas predatórias de capitalismo, como bem descreveu o sociólogo Max Weber. Finalmente, os apelos revolucionários vindos da França empobrecida, jamais gerariam um eco tão forte no Brasil como aconteceu nos EUA, uma vez que os senhores daqui viviam ainda muito bem com sua economia baseada na antiga estrutura agrária e predatória, apesar das frotas inglesas terem já dominado o comércio marítimo à época das revoluções.
Mas, como os enigmas debatidos acima, essas análises também não passam de especulações. E não pretendem, de modo algum, desvalorizar a importância das instigantes inquisições das mesas de bar, taxistas e pescadores. Se, por um lado, esses enigmas nos fazem incorrer em preconceitos, por outro ativam nossa imaginação para a renovação das utopias. Pois não seriam com perguntas semelhantes que os historiadores abordam o passado, questionando-o com perguntas do tipo “por que não somos diferentes do que somos”?
Lembro-me do país ideal imaginado por Thomas More em sua obra-prima Utopia, que nos deu o conceito para a imaginação de paraísos modernos. Teria este pensador, aliás um crítico dos interesses ingleses, criado o grande sonho das repúblicas modernas, em forma sábia e ao mesmo tempo divertida, se não valorizasse igualmente as críticas prudentes dos nobres analistas de sua época e as fantasias insensatas de um mundo melhor, de ilhas maravilhosas, sonhadas nas cabeças dos marinheiros mais ingênuos?
Se essas inquisições acerca dos rumos do tempo são lícitas ou ilícitas, não nos cabe julgar, desde que continuem a provocar nossa imaginação para relativizar com mais leveza a concretude de nossas necessidades presentes, estas sim grandes enigmas a serem resolvidos com o melhor dos humores possível.