Mostrando postagens com marcador crônica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crônica. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

carta a jovens rebeldes

David e Golias - Caravaggio


Tenho conversado cada vez mais com jovens rebeldes, dos mais diversos tipos de inadequação. Quanto mais conheço suas necessidades, mais percebo que o que desejam é um ouvido paciente para exercitarem o galope selvagem de suas contradições, sem censura. Por outro lado, procuram corpos como se estes fossem apenas ouvidos.
Todos assumem ser a arte o interesse mais verdadeiro. E todos têm medo e buscam em minhas palavras, na boca que as emite, uma razão corajosa e louca para realizarem seus sonhos inconfessáveis de expressão, prazer, poder, paz. Sabem-me como alguém que lhes incentivará o desvario calculado, com o benefício da dúvida, da ambigüidade, do mistério, magia, todas as palavras grandes que os homens se inventam para se cercar de importâncias. Comigo querem falar sobre o amor, começo e meio e fim. Querem falar sobre loucura, responsabilidade, impulso, sexo, pessoas, bichos, poesia, tempestade, festas, filmes, dramas, mantras. Sobre terra, céu e mar. Revelam-se como eu, tímidos, inseguros, covardes, melancólicos, tristes, sombrios. Uns desdenham a palavra deus, outros a palavra amor. Armam-se de palavras para alcançar algum gozo, preenchido de idealidades outras, sonhos de carne inconfessáveis, nos mais diversos estilos musicais.
Pensei em escrever uma carta a todos estes jovens rebeldes, com a intenção de expressar possíveis relações sobre assuntos que vejo serem mais repetidamente evocados. Também falo com a intuição de que lhes fará algum bem sentir que suas questões mais presentes são reais para uma coletividade maior, embora eu me dirija a uns tantos rebeldes em específico, mas sem ferir suas individualidades, e sim tentando desvendar o que possa ser superior à nossa solidão, dita existencial.
Reparo que quanto mais tomamos parte em experiências extremas, segundo nossos próprios critérios, mais dizemos, sentidamente, a palavra solidão. Pois conhecer abismos nos individualiza. E sigo dizendo que é uma questão de tempo, paciência, delicadeza, segurando nos dentes as rédeas dos próprios impulsos, sabendo que todos queremos convencer ou confundir nossos pares, cheios demais de desejo para já trabalharmos na disciplina consciente do equilíbrio justo entre dor e prazer. Todos queremos confessar algum grande crime de amor, para nos sentirmos superiores a nossas próprias palavras.
Os mais ousados expressam-se através das artes. Plásticas, literárias, teatrais, cinematográficas, musicais. Primitivas e ancestrais, futuristas e cósmicas. Arrogam-se de conhecer a realidade dura da pedra, do dinheiro, do poder e do interesse. Afirmam sentimentos fugazes em nome das últimas verdades de que se armaram, em sua leitura convulsiva do mundo. Eu sigo dizendo: a arte mais básica é a da respiração, mas, sendo jovens, conscientizamo-nos disto apenas durante um beijo.
No fundo, o que eu poderia dizer de verdadeiro, com valor de lei, de acordo com minhas reais atitudes? Este parece ser nosso problema mais crucial ainda. A medida entre palavras e atos. Ora sou incerteza, ora homem, ora coisa. Não quero dizer que o consolo da razão garante a felicidade, mas saber escolher é sobreviver melhor.
E há que se ouvir os sonhos, onde estão as conexões mais antigas, mais próximas de nosso ser primordial, as conexões mais comuns, mesmo as que um sonho faz crer que sejam inéditas. Há que se navegar pelos sonhos, no medo, na idéia de que há luz e escuridão. Mas, acautelem-se na hora de brincar com fogo! Quem brinca com fogo realmente faz xixi na cama. E já acorda com medo, um pouco mais queimado, com a pele mais insensível e a vista mais ofuscada. O fogo é para ser reverenciado, mas não como um ídolo, e sim como o emblema mesmo do mistério superior à vida de um homem, este ser nascido no tempo. Cada elemento simples e eterno deve emanar constantemente seu poder sobre a fraqueza e força de um homem.
Devemos nos entregar ao simples jogo de crer que há um mistério para fora de nós mesmos, deve haver um mistério maior que este que enxergamos em outro homem ou mulher. Deve haver algo além das palavras amor e deus, um outro sopro sutil indefinido e quase inaudível. Senão, a matéria e suas leis, sempre tediosamente arbitrárias, mortais...
A revolta é a atitude de imaginar uma realidade superior à nossa, pela leitura intencional dos sinais que nossa realidade mais concreta parece apresentar. Pois se toda crença é vã, que possamos estar ao menos conscientes de que construímos nossas vidas como uma ficção, uma história para se contar, e ainda assim que possamos dar cada vez mais crédito a nós mesmos. Devemos ser honestos e assumir quem são os homens de quem roubamos nossos argumentos. Se não dermos forma à revolta, ela nos mata.
Meu partido é a capacidade de criar histórias, ficções, fantasias onde o cotidiano se revele sobrenatural, convidando-nos a mergulhar até o fundo da ilusão para perceber seu caráter de máscara, simulacro, pele morta. A magia dos fogos universais não pode ocultar senão um silêncio, que é de cada um e de todos. Para estarmos atentos a nossas relações com o mundo, para aventurarmo-nos com certa segurança, é preciso termos como porto este silêncio incognoscível, esta curiosidade franca e latente.
Toda história, em nossas vidas ou fora delas, sempre retorna ao silêncio que a originou. Não há verdade mais eterna que o silêncio. Há apenas testemunhos aos quais podemos nos agarrar com a justificativa da fé, sejam esses testemunhos obras de pastores ou poetas, criadores de sons e imagens, cientistas ou feiticeiros.
Se nossa revolta nos impele às vezes a desdizer os mestres antigos, sejam estes professores, amantes, poetas ou estrelas, sejam velhos amigos solitários, por que então gastamos nosso tempo e palavras em desdizê-los? Por que não dizemos, enfim, apenas o que desejamos? Eu sei... Porque não há nome que nos emule... Ainda queremos viver de segredos, mesmo quando sabemos ser mais saudável e divertido expor com coragem nossas contradições. Eu sei, temos de nos mostrar como soldados, fortes, preparados, inocentes da própria hipocrisia.
O fato é que estamos sempre fazendo jogo duplo, triplo, quádruplo, como acrobacia que nos permitisse atender a nós mesmos, de um lado, e aos nossos desejos, tão estranhos a nós mesmos. Somos livres, mas queremos possuir a liberdade do outro, se possível. Seria melhor assumirmo-nos frágeis, selvagens, flexíveis, úmidos. Melhor seria respirar e rir. Melhor seria criar ou calar.
Já no fim desta carta, tendo dado forma ao que a observação mostrou ser o mais urgente, sinto alguma rebeldia se lançar estômago acima, tentando caluniar inutilmente o que acabo de escrever. Mas uns outros lados meus, chiaroscuros, se contentam, sem auto-complacência, implacavelmente.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

INSEGURANÇAS


Haverá alguém que achará profundo não falar de coisas profundas num blog, quando todo mundo é profundo demais. Haverá alguém que saberá revelar uma vulnerabilidade sujinha, fora da hora, fora da idade. Haverá alguém que depois de tanta convicção, não saberá ser senão poético. Haverá algum jovem velho, que não defenderá, que não acusará, que não quererá ser budista vegetariano anarquista. Haverá algum jovem que deixará de ser iconoclasta ao compreender como sua uma dor universal, que não tem graça mesmo. Haverá algum jovem belo e inteligente que não será rebelde e engraçado só porque tem um quarto protegido numa boa família. Haverá algum jovem belo e inteligente que saberá rir de compaixão, sem saber que esta é sua natureza fatal. Haverá alguém que se tornará rico por odiar o mercado de trabalho. Haverá alguém a quem o rock n’ roll não salvará às pressas de um desejo insatisfeito. Haverá o meu sonho, idiota, franco, por determinação da esperança vã, defendida com petulância, fora de idade, fora dos sonhos, fora das graças de um belo rosto defendido no escárnio da juventude. Não haverá mais a repetição, o verso vazio. Haverá apenas o ato falho da espontaneidade. Haverá um dia em que os jovens perceberão que os conceitos são provisórios e que só brincam como crianças mimadas de serem verborrágicos. Haverá um fim do meu rancor. Haverá um fim do meu ciúme. Haverá dois olhos furados pela inveja. Haverá meu ódio me condenando mais uma vez, como se eu desconhecesse a paz. Haverá cada vez mais essa sublime humanidade superpopulando os vãos do universo conhecido. Haverá alguém que rirá deste dia anotado num blog e me salvará de mim. Haverá alguém que acredita em salvação. Eu tentei acreditar em tudo: de Cristo a Marilyn Manson. Amo muito tudo isso, como um idiota. E gosto de ser idiota, apesar de detestar outros idiotas como eu. Ao menos sou sincero. Mas isso é o que todos dizem. Coitadinho de mim. Haverá alguém que reconhecerá que minha revolta universal é um amor que está para ser inventado sem mais palavras. Haverá quem saberá que aqui só se pretende mostrar a inutilidade de expor uma dor que já não nos faz justiça. Haverá quem saberá calar quando descobrir que tenho encontrado a fonte da felicidade suprema, sem sorrisos de encanto. Haverá quem rirá de minha arrogância tardia. Haverá quem me julgar de um dicionário inteiro, por eu pretender ser além. Hoje eu quero a violência de mandar a juventude calar a boca, junto com os capitalistas que adoram criticar. Hoje eu quero que esta dor rasgada, imoral, anti-literária, entorte a cara das pessoas de bom gosto. Hoje eu sou um bicho egoísta cavando espaço para amar sem a interferência de algum filho de pai melhor que eu. Vão todos tomar no cu. Vão todos rir do meu ódio. Vão todos me ignorar, pois não mereço nem ser crucificado. Vão todos rir ou se compadecer do meu lamento, mal sabendo que me curo, que me fortaleço, que tenho demônios da madrugada sim, e que sei que vai passar, mas hoje não quero pensar duas vezes antes de cuspir na cara de quem me mostra que não consigo ser seguro o tempo todo. Haverá quem se calará por saber que eu já sei que essa falta de humor, essa dor, é de minha responsabilidade, mas o mundo anda uma merda mesmo. Mas eu amo o mundo. Eu amo o Minhocão e amo Paris. Eu amo os assaltantes que me apontaram uma arma na minha cabeça deitada no travesseiro, pois também me ensinaram a viver. Eu amo até quem me quer tirar o amor, pois sei que ainda tem muito a aprender e seu aprendizado salvará o mundo. E agora, por favor, deixem-me amar, deixem-me amar uma só pessoa, só uma. Deixa eu te amar, só você e mais ninguém. Veja que me torno bicho e canto e elevo penas sagradas como um tolo pavão só para não te perder para alguém mais ou menos idiota como eu. Fique em paz em meu peito. A juventude do mundo apenas começou. As festas da consagração, as novidades dos vinte anos são todas velhas já, mas você não saberá, não saberá, pois tem que experimentar o próprio erro, como uma profecia maldita que se colhe em lábios lindos de quem queremos beijar por sabermos que irá nos esnobar. De quem ousamos beijar porque temos quem nos acolha depois em casa, como se as traições fossem justas. E muitas vezes são. Devo escolher a dor de um novo amor? Deste amor? Destas mãos de poucas linhas que me solicitam, sem ter certeza se outras mãos são como as minhas? Deste meu ciúme infernal de saber que o amor tem fim e que já começo a ficar careca? Pobres homens, pobres pintos... Mas eu direi, mesmo velho, como Joyce: eu quero sim, eu digo sins. Sim! Haverá o fim das reflexões, das convicções, das palavras. Como se pudéssemos, enfim, acreditar na fé. Como se esta história toda, que é humana e não mais, pudesse terminar com a emoção de uma poesia que tivemos a ilusão de compreender. Mais ou menos como quando se diz: e foram felizes para sempre.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Uma História da Pedra


A História, como forma de entendimento do mundo, tem lutado nos últimos duzentos anos para se tornar uma “ciência”, com verdade e método. Os fatos, as ações humanas, assim como as pedras, teriam o seu mistério a ser desvelado. Sim, pois o curso da história, escrita e não escrita, tem conduzido os homens a se arrogarem de preencher de sentidos precisos o desconforto do silêncio universal. Para o cientista, uma pedra deve ter um lugar em algum catálogo. Para o poeta, deliberadamente mais ambíguo, a pedra também deve portar algumas palavras ocultas e bem-vindas, ainda que imprecisas. Disto podemos dizer que o poeta e o cientista encontram-se assim na mesma ambição de revelar uma luz universal, transmissível a todos os homens do presente e do futuro. Uma luz mais eterna que o tempo.Ainda bem que o mundo não é só o Ocidente com seus artistas e cientistas, e seu deserto de palavras e símbolos. Ainda bem que temos o Oriente, ainda que um Oriente mítico, criado por nosso estupor ocidental, para nos reportarmos sempre que se renova nossa sede de mistério. Lembro-me, por exemplo, de algumas práticas orientais, em que um iogue coloca-se diante de uma pedra para meditar, como uma das últimas etapas de iniciação aos mistérios universais. A este homem é dada uma única instrução mestra: fique aí, até descobrir que você e a pedra são uma coisa só. Tarefa fácil, deve responder o homem ocidental, afinal, a pedra também é feita de átomos, como se o verbo descobrir implicasse tão somente a elaboração de uma interpretação racional; como se a essência do homem fosse esta razão criadora que o torna deus. Um poeta poderia argumentar: esta pedra dura, inerte, eterna, compartilha comigo o segredo de minha morte. De fato, o estupor diante da morte é universal, e nos insere num campo de experiência comum, na história de desejos e angústias comuns, ainda que de aparências sempre diferentes. Mas, seria uma “verdade universal” o que esses iogues querem encontrar? Sua jornada com a pedra, tecendo um tempo paciente, seria para descobrir verdades? O que deseja descobrir o iogue e sua pedra?Sabemos que o objetivo último de muitas técnicas de meditação é atingir o silêncio bruto da pedra, e não uma lapidação de suas propriedades concretas e abstratas. Podemos supor, então, que ainda deve haver algo de humano para além das palavras, e isto não é nenhuma novidade, embora também não possamos dizer que exista o óbvio. Podemos facilmente aludir a momentos em que o silêncio foi uma das experiências mais plenas do estar vivo, e sabemos que tais experiências são intransferíveis e assim devem permanecer, como prova de nossa individualidade, esta sim, universal. Pois o silêncio, talvez fenômeno mais universal que o próprio universo observável onde habita, nunca é igual, como também os fatos singulares que formam a universalidade da ciência histórica. Atingir um contato renovado e constante com esses silêncios tão desiguais, talvez seja o objetivo do iogue com sua pedra. Seria outra obviedade necessária notar que é só no silêncio universal de uma pedra, de uma estrela, que encontramos nossa individualidade, e que só por esta originalidade de cada ser o silêncio se repete. Entretanto, isto não seria tão óbvio de se dizer se o homem ocidental não confundisse já há alguns séculos a afirmação da individualidade com a negação do outro, no fenômeno mais que conhecido do individualismo moderno. Ser original parece ainda assumir uma luta contra outras individualidades, ao invés de, no destaque de uma originalidade, celebrar as experiências comuns. Muitos historiadores, por exemplo, apelam a valores universais para se contraporem a outros historiadores, seja por vaidade, seja por assumirem um partido específico na luta pela verdade da justiça e da liberdade.Não estou sendo original ao destacar essas questões. Diante desta pauta em branco – minha pedra de hoje – vejo-me profundamente imerso na história: anoto verdades, defendo palavras, levanto meus olhos ao céu, convido os homens a celebrar mistérios e a fazer desta celebração uma crença quase religiosa. Mas quem, pergunto, juntou tais obviedades nesta mesma combinação de palavras? Não pretendo com esta questão afirmar minha individualidade, mas sim destacar que, se realmente não há nada de novo sob o sol, que festejemos com uma humildade quase idiota nossas repetições reelaboradas, provisórias, pretensamente universais, pois o que vale ainda é o processo, a tentativa de cada um e de todos, de cada pedra enterrada ou transformada, ainda que numa lâmina pré-histórica. O que vale não é o que fazemos com a pedra, mas o que fazemos com a observação que dela fazemos; o que fazemos, enfim, com o tempo.A história usa o tempo para descrevê-lo e empresta a filosofia para interpretá-lo. E ambas as ciências – este modo provisório, histórico, de apreensão do mundo – se unem à poesia e à meditação no que talvez seja a experiência humana mais universal: a própria invenção do tempo, esta dimensão onde destacamos nosso ser atônito. Provisoriamente universal. Pois a folha desta impressão, reciclável, também voltará a ser uma pedra, umas tantas vezes, ao menos. Mas sempre é bom ressaltar: talvez. Quem sabe mais é uma pedra.

Se o nariz de Cleópatra...


Nem sempre a escrita da História é composta de asserções de intenção esclarecedora; às vezes a humanidade soma também a este legado alguns enigmas divertidos, como o que nos deixou Pascal, sem qualquer explicação adicional, em meio aos seus mais edificantes Pensamentos. Ele nos diz, no fragmento 162 de seu mais famoso livro: se o nariz de Cleópatra tivesse sido menor, a face da terra teria sido outra. E nos sentimos tentados a especular, numa atitude contradicente a dos cautelosos cientistas da História: se o rosto de Cleópatra fosse um outro, talvez menos belo, teria conquistado os corações dos donos do mundo, Júlio César e Marco Antônio? O destino do mundo estaria impresso no acaso de um traço físico, e a inteligência da rainha do Egito contaria pouco neste caso? E os senhores de Roma, livres da sinuosidade irresistível da exótica soberana, teriam tido mais força para contribuir para a manutenção de uma permanência maior do grande império, livrando-nos da Idade das Trevas e outras conseqüências mais drásticas?
Os historiadores de hoje, analistas de grandes movimentos estruturais das sociedades antigas, nos diriam que poucos fatos isolados poderiam alterar decididamente tendências históricas de longa duração. Sob essa perspectiva, o declínio de Roma não seria de responsabilidade de alguns de seus administradores, mas sim um fruto necessário de estruturas sociais difíceis de mudar, como a constatação de que o poder dos romanos foi secularmente calcado numa administração de cunho militar, dependente de uma expansão e exploração colonial sempre ativas. Soma-se a esta característica mais geral uma distribuição de títulos meritórios, geradora de uma inflada classe de parasitas improdutivos e escravos. Deste modo, sendo o nariz de Cleópatra um outro ou o mesmo, o Egito, afamado celeiro do mundo antigo, teria sido conquistado de uma forma ou de outra e, do mesmo modo, se esgotaria sem suprir as crescentes necessidades dos romanos. Assim, podemos pensar que há um limite razoável para as espetaculares especulações que nos sugerem os enigmas como o que nos provocou o pensador francês.
Uma questão similar a esta de Pascal, freqüentemente repetida pelos brasileiros é: seria o Brasil um país melhor se tivesse sido colonizado pelos ingleses? A resposta geral dos brasileiros ressentidos é que sim. Interroguemos esta possibilidade. Em primeiro lugar, o Brasil jamais receberia o mesmo modelo colonizador das Colônias Inglesas do Norte, grandes responsáveis pela formação da democracia norte-americana, já nossas condições geográficas eram propícias à exploração de produtos tropicais, mais valorizados no mercado europeu e mais compensadores para os comerciantes de alto escalão, os únicos que podiam arriscar-se numa empreitada tão dispendiosa quanto a travessia transoceânica. Assim, se os ingleses tivessem chegado aqui primeiro que os portugueses, possivelmente adotariam a mesma estrutura exploratória que condicionou nossa história. E se assim fosse, os ingleses não sofreriam concorrência com os países ibéricos e talvez não tivessem investido na produção de algodão, menos valorizada que o açúcar e, com isto, não teriam a necessidade de otimizar a produção de tecidos com a invenção das máquinas que abriram as portas da revolução industrial e conduziriam o mundo para o capitalismo industrial. Além disso, se os ingleses tivessem se tornado grandes proprietários de terra, como foram os ibéricos, sua nobreza de terra permaneceria quem sabe ainda fortemente ligada às antigas estruturas medievais, permanecendo católicos como a maior proprietária de terras da Europa, a Igreja. Na Inglaterra dos Tudor, a nobreza de terra aliou-se à burguesia mercantil por não poder concorrer com os grandes proprietários europeus, tornando assim necessária a criação de uma religião mais livre dos interesses hegemônicos no continente. É sabido que a revolução protestante aconteceu em mãos de comerciantes inimigos do clero feudal, e foram esses protestantes, aliás os mais radicais entre os ingleses, que foram banidos para o mundo novo, fundando as colônias do norte nos atuais EUA, uma região sem grandes interesses econômicos para a coroa, mesmo porque esta terra de segregados, geograficamente similar a Europa, não podia produzir algo que o velho mundo já não produzisse, com menor custo. E foi devido a este quase abandono que os colonos protestantes puderam organizar-se em pequenas propriedades independentes que estimularam a ética individualista necessária às novas formas predatórias de capitalismo, como bem descreveu o sociólogo Max Weber. Finalmente, os apelos revolucionários vindos da França empobrecida, jamais gerariam um eco tão forte no Brasil como aconteceu nos EUA, uma vez que os senhores daqui viviam ainda muito bem com sua economia baseada na antiga estrutura agrária e predatória, apesar das frotas inglesas terem já dominado o comércio marítimo à época das revoluções.
Mas, como os enigmas debatidos acima, essas análises também não passam de especulações. E não pretendem, de modo algum, desvalorizar a importância das instigantes inquisições das mesas de bar, taxistas e pescadores. Se, por um lado, esses enigmas nos fazem incorrer em preconceitos, por outro ativam nossa imaginação para a renovação das utopias. Pois não seriam com perguntas semelhantes que os historiadores abordam o passado, questionando-o com perguntas do tipo “por que não somos diferentes do que somos”?
Lembro-me do país ideal imaginado por Thomas More em sua obra-prima Utopia, que nos deu o conceito para a imaginação de paraísos modernos. Teria este pensador, aliás um crítico dos interesses ingleses, criado o grande sonho das repúblicas modernas, em forma sábia e ao mesmo tempo divertida, se não valorizasse igualmente as críticas prudentes dos nobres analistas de sua época e as fantasias insensatas de um mundo melhor, de ilhas maravilhosas, sonhadas nas cabeças dos marinheiros mais ingênuos?
Se essas inquisições acerca dos rumos do tempo são lícitas ou ilícitas, não nos cabe julgar, desde que continuem a provocar nossa imaginação para relativizar com mais leveza a concretude de nossas necessidades presentes, estas sim grandes enigmas a serem resolvidos com o melhor dos humores possível.

quinta-feira, 10 de abril de 2003

Ode aos Loosers

Hoje eu acordei, vi esse dia feio, me olhei e no espelho e me senti feio também. Me senti gordo, sujo, com uma barba enorme, cansado. Enfim, fodido. Aí me deu uma saudade imensa do Nirvana. Eu me lembrei de quando tinha 13 anos e ouvi pela primeira vez Smells Like Teen Spirit. Fiquei estarrecido. E nem gostava tanto assim de rock. Pelo menos até aí. Era 1991. Naquela época tudo chegava via rádio e pela MTV, que estava no começo. Não existia internet para nós. Principalmente para eu e meus amigos da E.M.P.G Professor Antonio Prudente. Eu me lembro de que ninguém, nem mesmo a MTV, conseguiu classificar aquele som e aquele clip
e aquele tal do Kurt Cobain. Mas todos amamos. Numa época em que ainda estávamos tentando nos livrar das coisas fakes e alienadas que os anos 80 nos legaram (e que hoje são cultuados), aquela música tinha um apelo absurdo. Eu me lembro de ter visto a estréia deste vídeo clip. O VJ disse que em um lugar chamado Seattle existiam umas bandas que tentavam resgatar algumas coisas do punk. Mas não nos convenceu. Todo mundo que nem sabia o que era punk, seis meses depois tinha o seu exemplar de Nevermind. Mesmo as meninas que só curtiam a tal
da House Music. Ninguém entendia porque, mas todos gostávamos muito. Descobrimos que aquele videoclipe tinha sido feito com pouquíssimo dinheiro. A banda tinha reunido uns fãs de Seattle que já conheciam o trabalho das casas noturnas bagaceiras e colocou-os para agirem exatamente como agiam nesse lugares. O cenário, todos se lembram, era uma quadra de basquete de escola, com direito a todos aqueles funcionários loosers de escola pública. Provavelmente pais daquela galera. E todos eram completamente desleixados para o senso comum. Entretanto, nós, que éramos adolescentes, achávamos eles incríveis. Eram puros, sem artifícios, com aquelas roupas de looser, aqueles cabelos de looser, aquela voz e aquela guitarra de loosers. Como nós, completos loosers. Mas até que enfim, no meio daquela artificialidade da
época, comandada pelo hit Black or White de Michael Jackson, e por Groove is in the Heart do Deee Lite, eles cantavam coisas sobre nós mesmos. Finalmente! Sobre adolescentes que alguém tentou chamar de Geração X, mas não colou. Somos de uma geração completamente perdida em termos ideológicos e de perspectiva de vida. Mas o que o Nirvana mostrou foi nossa dignidade de admitirmos isso, e ao mesmo tempo, mostrar que nós nos divertíamos muito mais do que as outras pessoas. E mais do que isso, nós nos revoltávamos contra isso. Tínhamos muito ódio de tudo o que fosse artificial, só não sabíamos o que fazer a respeito disso. Muitas pessoas até hoje não entendem o Nirvana. Acham que é uma simples descarga de testosterona, quando na
verdade aquelas músicas mostram o quanto nós éramos legais, apesar de completamente perdidos. Quando nos acusavam de perdidos, e alienados, a resposta era: NEVERMIND! Deixa pra lá (subtexto: mal sabem eles...). Mesmo que não entendêssemos as letras, fossêmos de língua inglesa ou não, estávamos representados naquela sonoridade que traduzia plenamente nossa força vital, que era assassina de tão grande, e vontade de que tudo desse certo. E se não desse, foda-se. Já não tínhamos nada a perder mesmo. Kurt, em sua humanidade sabia disso. Escreveu em IN BLOOM: "He's the one who likes all our pretty songs, and he likes to sing along, and he likes to shoot his gun, but he knows not what it means and I say yeah..." Ele desafiou a cultura mainstream a tentar nos entreter, nós, os loosers, agora que tínhamos o referencial de Seattle: "Here we are now, entertain us!". Quando eles lançaram o segundo hit, Come As You Are, já estávamos completamente dominados. Amamos a crueldade expressa com muita sutileza no vídeo clip. Radicalizou o discurso de nossa desorientação e nos plasmou no que para mim é a melhor imagem da nossa geração: o vira-lata perdido, molhado, com medo, sem poder olhar para os lados com aquele cone na cabeça amplificando o som da idiotice e nos impedindo sequer de se coçar. Todos entendemos, mesmo sem entender, que aquele cachorro estava descendo a escada do inferno enquanto Kurt Cobain se via atado a um trapézio instável. E no clip ele nos oferece o revólver que poderia oferecer-nos uma solução simples, como a que ele tomou anos depois, por todos nós. Sim, ele é nosso mártir. Na letra ele nos conclama a assumirmos que
somos perdedores de nascença e a tomarmos um partido diante disto: "Come as you are, as you were, as I want you to be: as a friend, as a friend, as an old enemy. TAKE YOUR TIME, HURRY UP, THE CHOICE IS YOURS, DON'T BE LATE". Em seguida, não sei se veio In Bloom ou Lithium. Seja como for, eles já tinham virado celebridade e não aceitaram esta posição, como faziam 100% dos artistas na época. Num desses clipes, satirizaram a histeria de fãs que os curtiam porque estavam na moda, imitando aquelas bandas assépticas da década de 60. E num show na MTV, ao vivo para o mundo todo, trocaram a música combinada com a produção por uma fictícia RAPE ME, que quase matou os empresários. Adoramos! Mas depois, surgiram todas aquelas bandinhas pseudo-Seattle, imitando o estilo Nirvana, convertendo toda aquela
contundência em mero estilinho. Por isso eu me irrito com essas bandinhas de filhinhos de papai, que se embebedam e cantam Smells like teen spirit. O que me deixa feliz é que eu vivi intensamente esse disco NEVERMIND, enquanto ele acontecia, com meus maravilhosos treze, quatorze anos. E felizmente, estou marcado por esse "fedor de espírito adolescente" como define o título de Smells like teen Spirit. Esse álbum é sem dúvida nenhuma o álbum da minha geração, ou dos loosers da minha geração que se assumiram como tais, como eu. Os que poderiam plantar uma árvore, para serem politicamente corretos, como diz a letra de Breed, mas não tem o
menor interesse em fazê-lo, e foda-se. Foram vocês que nos fizeram assim. Por isso,
com toda a força vital que as melodias desse disco expressam, com toda sua humanidade
doída, eu tomo para mim as palavras de Kurt em Lithium, nesse dia em que acordei me
sentindo feio: EU SOU FEIO, MAS TUDO BEM, PORQUE VOCÊ TAMBÉM É.
NÓS QUEBRAMOS OS NOSSOS ESPELHOS.