segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018


AMORTALHA (Editora Patuá, 2017) é o primeiro livro de Matheus Arcaro que leio. São contos alinhavados por este conceito-contradição fundamental que o título sugere, a descoberta do amor no confronto com a morte, a descoberta da morte na experiência limite do amor. Se este livro nos contasse uma única história, com poucos personagens e um herói, o título seria pretensioso, pois estaria tentando buscar esse imenso universal que hoje é cada vez mais denunciado como ideológico. Porém, ao final da leitura, perdoamos e aplaudimos o autor, pois percebemos que ele conseguiu reunir personagens dos mais díspares em torno desse tema central, dando a cada um deles uma combinação distinta e bem escolhida de gêneros literários que vão do monólogo interior à distopia, com destaque para um realismo justo, sintético, fruto de um olhar concentrado mais que de um exercício estilístico vazio, como encontramos aos montes por aí. 
De modo geral, Matheus se debruça por tipos dos mais comuns, aqueles que não ganham muita visibilidade para nosso gosto colonizado que só se interessa pelo pobre enquanto pitoresco, bufão ou vítima. São professores, policiais, operários, evangélicos, enfermeiros, um engenheiro amargo, um gay amargurado e suicida, duas lésbicas que tomam a iniciativa de tentar resolver um mistério fantástico que aflige a todos, mais algumas mães com desgosto, mas que nunca deserdam seus filhos, além de crianças perplexas diante do mundo adulto, filhos ingratos, pais de primeira viagem, amantes ambíguos, animais domésticos vivendo o amor e a morte num cotidiano inglório, sem os melodramas novelescos que esses mesmos brasileiros gostam, sempre julgando que suas próprias vidas não são dignas de ser representadas na tevê ou no Castelo de Caras dos Alternativos. A maioria vem de famílias brasileiras médias, pobres. E sobre elas Matheus busca um olhar empático que não olha de cima, já que vem desse mesmo meio e para ele retorna após uma sólida formação literária e filosófica (apenas seu ateísmo me parece um pouco panfletário). Acolhe sem idealizar, ao mesmo tempo que explora seu lado patético sem cinismo. Quase como um encontro entre Guimarães Rosa e Nelson Rodrigues, ou entre Machado e Rubem Fonseca. Aqui a família brasileira é defendida e denunciada ao mesmo tempo. Ninguém tem salvação e por isso mesmo todo mundo é lindo. Seus traços são predatórios e egoístas, meio bonachões, típicos do capitalismo numa sociedade pós-escravista, um pouco na tradição do Sargento de Milícias, mas há sempre o refúgio numa certa compaixão, mesmo que o brasileiro só seja solidário no câncer, como disse Nelson. 
A prova de que este livro é grande é dada pelas questões que ele me pede para fazer à sua escrita: até quando a mulher brasileira demonstrará sua força apenas para defender famílias em frangalhos? Até quando gays e outros desenraizados quererão a salvação num grande amor, e sem isso se tornam cínicos e suicidas? Nesse contexto, pergunto a Matheus também até que ponto ter um filho e constituir família no século XXI pode ser o conforto e a solução final? Deixo essas provocações para que ele explore, em seu olhar tão rico e abrangente, outras formas de união e desafeto que não passem pelo familiar. Fale dos ricos também, Matheus, vamos adorar. Fale mais dessas mulheres que não sejam sempre vítimas por serem fortes demais para nós ou fracas demais para si mesmas, homens que não precisem idolatrar um feminino ideal para ser validarem num outro tipo de sensibilidade diferente da decadência que o arquétipo do macho hétero representa. Mas esses são desafios para o futuro de sua escrita, pois o presente está muito bem alicerçado, com destaque para as imagens poderosas onde entrelaça o concreto com o espiritual ou existencial, sobretudo no olhar sobre os movimentos individuais do corpo, onde suas contradições são melhor captadas que na exploração sistemática de seus dramas interiores, ainda que esses sejam deliciosamente pontuais.  Gostaria também de ver mais esse tipo de olhar tão preciso na criação de diálogos tão incisivos quanto suas descrições, ou tão surpreendentes quanto seus enredos com finais impactantes ao modo da literatura policial. Tenho certeza que ao praticar estas últimas emancipações em seu espírito inquieto, Matheus Arcaro será cada vez mais recebido com um dos nomes mais promissores deste momento borbulhante e desafiador da literatura brasileira.

P.S.: adorei o diálogo entre Freud e Sócrates, pelo olhar de Foucault. Gostaria de ver a continuidade desta terapia, com menos paródia, com Freud menos Nietzsche e um Sócrates menos Woody Allen. Poxa, a gente ama esses caras. Seus limites não devem apagar seus méritos. 

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Resenha-Carta para o romance "A Resistência", de Julián Fuks


Julián, esta resenha sobre seu romance “A Resistência” não poderia aparecer no formato corrente, com questões e assertividades que tentam se validar numa política e num circuito do conhecimento. Meu acerto de contas é com você, para romancearmos um pouco. Alguém que não conheço e não gostaria de abordar como autor, mesmo porque você nos lembra no livro o quanto a forma romance resiste em despontar como o lugar onde os gêneros textuais exploram seus limites e confluências. Além do mais, não podemos nos esquivar de abordar “A Resistência” como um romance que dialoga com isso que se convencionou chamar de autoficção. Sobretudo, preciso encontrar delicadeza para forjar uma proximidade que me permita contar minha própria resistência a um livro, de forma fraterna, como você merece por ter explorado as dificuldades da alteridade, mesmo entre familiares e nações, passado e presente. 
Antes de chegar na página em que seu irmão grita que vocês falam, falam, falam e nunca veem, eu próprio havia levantado essa questão. Sabe, sou um cara que não conseguiu resistir aos problemas de duas graduações da nossa FFLCH, História e Letras. Lá tenho muitos amigos, admiração de professores, tenho uma pesquisa em teoria literária, e também sou ovelha negra da família. Porém, até o presente ponto, minha resistência nesse caso foi desistir da academia, assim como desistir do teatro, do cinema, do magistério, da música. Abandonei as duas graduações e hoje moro entre dois mundos distintos. De um lado, em nossas prateleiras de livros, de outro, moro no quarto do seu irmão. Na sala, sou escritor, no quarto, sou seu irmão. Por um um lado, admiro sua busca pelo valor da sinceridade, por um real impossível que não seja mero recorte de nossas projeções, e por um diálogo em forma de abraço como ação mágica por excelência. Admiro sua franqueza e brilhantismo em apresentar um romance cujo centro não está nem na história, nem na memória, nem na ficção, mas na contradição de qualquer discurso positivador. Nesse sentido, até esperei que você desmontasse um pouco mais os pressupostos da psicanálise, essa profissionalização da intimidade burguesa, que tanto amo e odeio. 
É lindo como, ao repor a trajetória de sua família numa história que lhes foi roubada, você faz do silêncio enclausurado de seu irmão a ferida de um exílio herdado. Ao mesmo tempo, fiquei me perguntando por que vocês não procuraram visitar e ocupar os circuitos de rua onde o irmão se buscava. Fiquei imaginando-o numa aventura de descobrir o corpo, de sentir-se corpo, resistindo a existência no prazer, medindo a dor na saúde da carne, na sensação, mais do que se perdendo em subjetividades bem elaboradas e compreensões firmes.
Você sabe, acabou na história do romance o apelo à aventura exterior. O mundo já foi conquistado, pelo menos na ótica do hemisfério norte. Você próprio, muito justamente, é cauteloso para não romantizar resistência política de seus pais como uma aventura. E quando nos aponta o quanto eles acharam um outro modo de resistir no exílio, fiquei me perguntando: será que o irmão queria se mostrar parte da família ao resistir com um silêncio corporal ainda mais perturbador que aquele de sua própria família? Será que houve uma disputa de silêncios de naturezas diferentes? Talvez o silêncio do seu irmão seja a resistência de um corpo contra a civilidade. Não deve ser fácil ter uma família bonita e estruturada, e ainda devedora de um país acolhedor em seu exílio.
Muito tem se discutido sobre como a história do romance teria uma linha mestra, que seria o devassar da noção da intimidade burguesa. Desde as cartas de Pamela, de Richardson, os romances foram abrindo portas proibidas neste conceito de lar como proteção, conforto, centro da vida, e ainda não ousamos abrir todos os cômodos. Em Flaubert, não vemos o sexo, vemos a carruagem trêmula e protetora que conduz os corpos pelas ruas caóticas de uma grande civilização. 
Eu acredito muito que as tensões do corpo elétrico são a narrativa em que o romance ainda não chegou. A descrição do sexo ainda é fetichista e subliterário. Vivendo a desafiante experiência de ser gay numa época de questionamento milenar do patriarcado, e sendo escritor, penso que ainda destacamos muito uma dignidade para o invisível, seja essa uma religiosidade conservadora, seja uma militância de outras formas mais inclusivas de discurso, sem perceber sua violência à existência imediata dos corpos. O jogo, na esquerda e na direita é muitas vezes o mesmo: afirmar identidades perante o fantasma do homem universal. Assim, a afirmação da subjetividade pode representar resistência ou morte. 
Não percebemos o quão corporais são as palavras. Corpo e palavra ainda não se reencontraram desde a dupla revolução do iluminismo racionalista e do tecnicismo industrialista. Vivemos acreditando que o mundo interior, o universo da subjetividade, é um espaço de respiro e resistência, sobretudo quando questionamos valores e afetos, identidades e ideologias. Ainda reiteramos, mesmo entre os maiores dissidentes, a filosofia aristocrática e masculina dos gregos antigos.
Existe uma corporalidade tácita em seu livro que eu adoraria ver mais, uma corporalidade que resiste como lugar de refúgio para os traumas. Uma timidez aqui, o desejo de um abraço ali, a paciência na hora do chá acolá, o constrangimento físico no museu das avós, o não pertencimento ao corpo de nenhuma cidade. Julián, eu queria te dizer, em tom de gratidão por seu belo livro, que todos nós somos herdeiros de uma série de exílios. A alienação, como você bem deve saber, é estrutura constitutiva da subjetividade nesse sistema produtivo. Todos estamos sendo estrangeiros, e quem mais está em crise identitária é o homem branco, seja o "bruto", seja o "sensível", seja hetero, seja gay, seja rico, seja pobre, estamos todos cada vez mais desalojados de um patriarcalismo em crise que nos colocava no centro do discurso de universalidade forjada e naturalizada. Nossa sensibilidade hoje, quando queremos ser sensíveis, é a da mea culpa apenas, o que é triste. Até que ponto não reproduzimos em nossos próprios exílios subjetivos impossíveis a violência que combatemos na objetividade possível da história como narrativa do patriarcado, seja de esquerda, seja de direitaSob esse contexto, não seria a própria história da subjetividade uma narrativa romanceada e profissionalizada desta crise do homem universal, que narra seu mundo como se fosse o de todos?
Sei que são questões que convidam a longas conversas, a uma luta de muitas gerações ainda, e espero que possamos caminhar juntos. Por ora, espero apenas deixar meu convite a uma amizade franca entre duas pessoas instaladas em lados diferentes da porta de um quarto. A casa ainda é a mesma. 

Grande abraço, 
Ale

sábado, 16 de dezembro de 2017

A vida vista em plano médio

Resenha do romance enquanto os dentes, de Carlos Antonio Pereira, Editora Todavia, 2017

Sete anos numa cadeira de rodas produziram um ótimo escritor. E você lê as 100 páginas no mesmo dia em que compra o livro. “Enquanto os dentes”, de Carlos Eduardo Pereira, é uma bela estreia editorial, aposta certeira e corajosa da Todavia no gênero romance. A capa maravilhosa conta toda a história. 

O narrador nos traz muito próximo de Antônio, cadeirante de cerca de 40 anos, em sua travessia saindo do “antigo apartamento“, como ele chama agora a casa onde morou por alguns anos e onde foi mais feliz, pintando seus quadros, fotografando e circulando pelo mundo das artes, egresso de um curso de filosofia, faculdade que abraçou após abandonar cinco anos da escola da Marinha, onde era conhecido como “libélula azul“ pelos parceiros num ambiente de disciplina e violência, com sentimentos de supremacia, machismo e hierarquização. Antônio havia seguido a carreira do pai, o Comandante, um homem branco, de pensamento militar que se casara com uma negra numa relação de quase escravidão. Ela sobrevive buscando verdades na igreja, quando o homem permite, e visita um pouco a vizinhança em Niterói, para onde Antônio agora tem de voltar. Não fala com o pai há 20 anos de ódio e afastamento. Mas foram eles que sobraram, pois o corpo em processo degenerativo não consegue mais se manter só, e a simbiose com a cadeira de rodas é um processo dolorido. É difícil se tornar cyborg, de modo que Antônio tem náusea até com o gosto metálico da maior parte dos alimentos que ingerimos. Antonio é um personagem que nos põe numa perspectiva de vida vista em plano médio, e com medo de cair ainda mais. Seus cinco sentidos estão desaparecendo, o tempo presente elástico, e a travessia de barco, de volta o lar, invadida pela memória dessas outras tantas travessias difíceis em sua vida, vai costurando, do Rio a Niterói, uma trajetória vivamente atenta aos detalhes das ruas e lugares, pontos de fuga na urbanidade densa do Rio. Essa cidade, como qualquer outra, flui a eterna presença do peso do patriarcalismo nas pequenas relações, mas também é lugar de esportes, mar, e um amor perdido que não segurou a barra do acidente e tudo que veio junto. De todo modo, naquela Rio de Janeiro de alguns anos atrás, ainda se podia ser gay mais livremente do que no mar controlado por homens. A técnica de Carlos Eduardo me lembrou muito a de Marguerite Duras, nas evocações objetivas da própria subjetividade, e nas alternâncias bruscas entre passado e presente, ambos avaliados de forma seca, porém muito elegante, crua mas alusiva, e repleta de memórias quentes. As alternâncias entre a viagem de volta o lar, que avança lentamente, e a memória que se reconstrói, é tecida com habilidade de um parágrafo outro, mudando de assunto bruscamente mas costurando os fios que ligam um tempo ao outro. Há muito da técnica cinematográfica aqui. É um livro forte que vem de uma experiência que só poderia ser considerada de marginal pela centralidade do homem branco, o qual veria esse romance apenas como um bom exemplo de representatividade na literatura, quando é mais, uma brilhante caminhada por vários desafios mortais e cruéis colocados pelo patriarcalismo, e que com ele dialogam de forma franca, sempre “muito educado“, como o próprio narrador nos diz, tentando apenas guardar tudo que se passa nas travessias, e esquecer os silêncios.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

mais notícias sobre o fim do mundo

O mundo iria acabar às cinco horas da manhã, assim anunciavam os pequenos pontos de mofo nas pontas dos livros na prateleira, assim anunciou o pó endurecido sobre o souvenir de uma viagem feita há séculos, assim decretou o silêncio suspeito na árvore orvalhada lá fora. Assim ele soube; tão certo como em todas as outras madrugadas em que, cansado de absorver cultura, de promover para o si o espetáculo de alguma esperança escondida na entrelinha de um poema revisitado, na luz familiar de um novo clássico do cinema, ele reagrupava forças só para se permitir ser fraco, encarando a hora nua em que o passado passa em paz, um minuto apenas de doce espanto diante do nada em que tudo pode se reconstruir, perdoado já não só pelos homens que lhe imaginavam outro, mas pelo universo mudo e simples, como animal depois da fome.
Não que o ontem não tenha sido gentil. Duas ou três palavras amigas, uma salada de frutas tropicais, pequenas celebrações familiares que, sem querer, escarneciam na face da ambição desmedida. Um dia perfeito. Algumas inimizades que o faziam sonhar, como na adolescência aberta a tudo, uma futura união das consciências de todos os vivos e ainda com a memória de todos os mortos; algumas dívidas lembradas a fim de tornar nítida a necessidade de ser mais que o pó da terra, para que valha a pena.
Talvez a presença atual do fim do mundo fosse só a impaciência do curso natural de um corpo que se pede a si mesmo; nada que merecesse uma revolução social. Não era sequer tristeza, era mais a hora difícil do amor. Sim, um dia acreditariam em seu amor transcendente, sem objeto, e será quando os suicidas sairão de seu ego e caminharão em direção ao sol justo da primeira hora da manhã.
O fim do mundo agora era todo dia -  ele reconsiderou quando o relógio passou das cinco e meia - por isso a necessidade de projetos grandes, de novas políticas de apaziguamento na exuberância de uma alegria leve, sem grandes efeitos, dessa de criança que descobre o jogo que iniciou todos os jogos. Epifania sem nome de deus. As crianças sabem que é apenas um jogo, entretanto, se permitem acreditar sabendo ainda que o acreditar, ele próprio, é também jogo; sabendo que o mistério de iludir-se é tão justo quanto crer na ilusão do mistério. E adultos são aqueles que acordam um dia na preguiça de uma dor e lá ficam, semeando o peso de alguma eternidade grandiosa.
Às seis horas batem no relógio e os ponteiros indicam o céu: é de novo o começo do mundo. Ele vai se rendendo ao domínio do sono, após invertidamente ter-se entregado ao reino dos sonhos. E, sem culpa, numa paz qualquer, pobrezinha e feliz, ele adormece logo após ter-se prometido: amanhã, depois do novo fim do mundo, eu saio para resgatar os que sobrarem. Então sorri por dentro, para que ninguém lhe tomasse a força que reconcilia o bem e o mal.

mais notícias sobre o fim do mundo

O mundo iria acabar às cinco horas da manhã, assim anunciavam os pequenos pontos de mofo nas pontas dos livros na prateleira, assim anunciou o pó endurecido sobre o souvenir de uma viagem feita há séculos, assim decretou o silêncio suspeito na árvore orvalhada lá fora. Assim ele soube; tão certo como em todas as outras madrugadas em que, cansado de absorver cultura, de promover para o si o espetáculo de alguma esperança escondida na entrelinha de um poema revisitado, na luz familiar de um novo clássico do cinema, ele reagrupava forças só para se permitir ser fraco, encarando a hora nua em que o passado passa em paz, um minuto apenas de doce espanto diante do nada em que tudo pode se reconstruir, perdoado já não só pelos homens que lhe imaginavam outro, mas pelo universo mudo e simples, como animal depois da fome.
Não que o ontem não tenha sido gentil. Duas ou três palavras amigas, uma salada de frutas tropicais, pequenas celebrações familiares que, sem querer, escarneciam na face da ambição desmedida. Um dia perfeito. Algumas inimizades que o faziam sonhar, como na adolescência aberta a tudo, uma futura união das consciências de todos os vivos e ainda com a memória de todos os mortos; algumas dívidas lembradas a fim de tornar nítida a necessidade de ser mais que o pó que da terra para que valha a pena.
Talvez a presença atual do fim do mundo fosse só a impaciência do curso natural de um corpo que se pede a si mesmo; nada que merecesse uma revolução social. Não era sequer tristeza, era mais a hora difícil do amor. Sim, um dia acreditariam em seu amor transcendente, sem objeto, e será quando os suicidas sairão de seu ego e caminharão em direção ao sol justo da primeira hora da manhã.
O fim do mundo agora era todo dia -  ele reconsiderou quando o relógio passou das cinco e meia - por isso a necessidade de projetos grandes, de novas políticas de apaziguamento na exuberância de uma alegria leve, sem grandes efeitos, dessa de criança que descobre o jogo que iniciou todos os jogos. Epifania sem nome de deus. As crianças sabem que é apenas um jogo, entretanto, se permitem acreditar sabendo ainda que o acreditar, ele próprio, é também jogo; sabendo que o mistério de iludir-se é tão justo quanto crer na ilusão do mistério. E adultos são aqueles que acordam um dia na preguiça de uma dor e lá ficam, semeando o peso de alguma eternidade grandiosa.
Às seis horas batem no relógio e os ponteiros indicam o céu: é de novo o começo do mundo. Ele vai se rendendo ao domínio do sono, após invertidamente ter-se entregado ao reino dos sonhos. E, sem culpa, numa paz qualquer, pobrezinha e feliz, ele adormece logo após ter-se prometido: amanhã, depois do novo fim do mundo, eu saio para resgatar os que sobrarem. Então sorri por dentro, para que ninguém lhe tomasse a força que reconcilia o bem e o mal.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A DAMA DE FERRO - nem anjo, nem demônio


Meryl Streep sabe por onde passa, e não é só pela arte. Numa de suas mais belas interpretações, pouco importa a qualidade estética do filme, que tem sido o foco dos críticos. Às vezes precisamos lembrar que cinema não é só cinema. O poder humanizador desta atriz abre caminho para uma discussão importante, a relativização da imagem de Margaret Thatcher, tal como esta foi cristalizada pela imprensa de trinta anos atrás. Como toda imagem estática, a primeira líder política mulher de uma democracia moderna, tal como a conhecemos, é apenas um bode expiatório pouco questionado de problemas que são sistêmicos, e não de responsabilidade de um certo indivíduo, sequer de um grupo político ou de uma única nação. Trocando em miúdos, o demônio Thatcher é problema nosso, não custa lembrar. Vejamos.
Uma das medidas mais controversas tomadas pela política britânica, quando ainda era ministra da educação, já nos anos 70, foi abolir a doação de leite nas escolas públicas, com o discurso de que o foco do orçamento deveria ser as necessidades acadêmicas. Esta medida muito contribuiu para a criação de sua imagem política, ao ser manipulada pelo então atual governo trabalhista, os Labour, os de "esquerda", que sofriam a oposição dos "direitistas" Conservatives. É fácil confundirmos uma orientação esquerdista com medidas populistas. Antes de acusar Thatcher de racionalizar o orçamento da educação, é oportuno lembrar do que Paulo Maluf fez pela educação em São Paulo, que foi exatamente distribuir leite sem mexer nas bases da educação. A estratégia não deve ser apenas por mais crianças na escola, mas tornar a educação formal uma alternativa realmente eficaz na construção de uma cultura mais forte, que é a única base sólida para uma democracia forte. Estamos acostumados a achar que o papel do cidadão é apenas reivindicar direitos, e o do Estado, assumir deveres. Esta visão, sabemos, é tão paternalista quanto as políticas aristocráticas e coloniais de séculos atrás, herança que carregamos com particular peso no Brasil, e que predominava no governo populista britânico onde Thatcher começou a crescer como membro da oposição que era nestes anos -  pasme - o partido conservador.
Os anos 70 foram marcados pelo arrefecimento da Guerra Fria, baseada no poderio militar, imperialista, Estados protecionistas; e pela concomitante recuperação da especulação financeira, claramente representada pela crise do petróleo. Neste cenário, com uma concorrência internacional mais aberta, o que é bom e cruel ao mesmo tempo, Thatcher se tornou o grande símbolo da política neo-liberal, de mercado aberto, privatização de empresas estatais pouco produtivas. Penso que enquanto prevalecer uma economia financista, pós-industrial, abstrata, tal posicionamento político, sem extremismos, é inevitável, e por mais que demonizemos Thatcher e seus seguidores, como FHC, foi na esteira dessa política de Estado mínimo e grandes alianças econômicas multinacionais que Lula também fez seu governo. Esta discussão tem suas nuances, que não esgotaremos aqui; portanto, vamos fingir que isto é apenas uma crítica de cinema e seguir adiante.
O problema de Thatcher, como líder da democracia britânica na virada para os anos 80 era o de uma elevada taxa de desemprego, resultante da crise econômica sistêmica, tal como a que vivemos hoje. Neste contexto, uma democracia não age sozinha, como os europeus querem fazer com a Grécia hoje. Uma democracia isolada no contexto de uma crise sistêmica só pode se segurar com medidas emergenciais. Neste contexto, a primeira ministra britânica precisou mesmo ser de ferro para não apelar aos tapa-buracos dos empréstimos, e focou sua atenção em medidas internas que fossem emergenciais e ao mesmo tempo pudessem ter longo alcance. Uma dessas medidas foi sua luta contra os sindicatos, uma das principais razões pelas quais é demonizada pela imprensa e pelo senso comum ainda hoje. Poucos lembram do fato de que os sindicatos britânicos abriam seus fóruns de reivindicação não para os interesses dos trabalhadores efetivamente, mas muito mais para sua manutenção no poder, como aliados indispensáveis dos Trabalhistas populistas, que construíram sua imagem no tal paternalismo já mencionado. Não deveria ser novidade pra ninguém que os sindicatos britânicos das décadas de 70 e 80 eram o que são nossos sindicatos desde de a década de 90 e fortemente no novo século, ou seja, perderam seu caráter de verdadeiros representantes dos assalariados e só fazem greves pelos seus interesses na política interna de alianças nos governos, onde são pagos politicamente para apoiar a imagem de presidentes que vieram da classe, por exemplo. Se não for assim, por favor, alguém me explique porque as greves de professores são sempre uma piada, enquanto que as greves que mais conseguem se manter são as de outras partes do setor público e, principalmente, as greves do setor financeiro.
Ou então voltemos a falar de quanto Meryl Streep é "genial", seja lá o que signifique este adjetivo mitologizado. Ainda que bem intencionado em relativizar a imagem da mais longeva primeira ministra britânica do século XX, o filme de Phyllida Lloyd não explora a fundo a política de uma das figuras mais centrais do mundo contemporâneo, atendo-se aos pontos mais controversos, como seria de se esperar numa narrativa de pouco menos de duas horas. O filme não discute, por exemplo, quais as estratégias de Thatcher para o fim do desemprego, como medidas para acabar com a inflação e com isto aumentar, a médio prazo, o poder de consumo e reforçar os pequenos e médios empresários. Suas inúmeras reformas no legislativo contribuíram para reduzir o poder das associações monopolizadoras de grandes industriais, inclusive nas indústrias públicas. Se uma das maiores polêmicas de seu governo foi a grande greve dos carvoeiros que sofriam grande desemprego, como em toda a indústira de base, isto só se deu porque as resoluções dos empresariado de grande porte, no sentido de contra-atacar o governo, foi responsabilizar adivinhem quem pela queda do lucro? Os trabalhadores, claro. Que de resto, aos poucos foram sendo incorporados no setor de serviços, por exemplo, sinal evidente de recuperação econômica. Aliás, a Dama de Ferro apenas seguiu o exemplo de sua nobre ancestral, também de pulso firme, a Rainha Elizabeth da época florescente de Shakespeare. Esta, ao criar os enclosures, revalidou o setor agrário improdutivo e aristocrático - qualquer coincidência com o nordeste brasileiro não é coincidência - e alinhou-se a quem realmente dinamizava a economia no momento. Pois não foi um trabalho de atualização semelhante ao que Thatcher fez? Pois não nos iludamos, ela não é criadora do neo-liberalismo, ela apenas criou uma política que pudesse se manejar no novo sistema econômico global, este é o grande ponto.
Para sair um pouco da arena econômica, serei sucinto ao lembrar da oposição firme da Dama de Ferro aos soviéticos e ao IRA, na Irlanda. Ainda existe alguém que defende os supra-citados? Naquela época havia, os acadêmicos carreiristas, por exemplo, que vivem na sua democracia perfeita e livresca. Melhor seria considerarmos o que nem o filme mostra, como o apoio incondicional de Margaret ao fim do apartheid na África do sul, à legalização do aborto e seu papel decisivo na descriminalização da homossexualidade.
Finalmente, o ponto mais polêmico do governo Thatcher, a Guerra das Malvinas, pela posse das Ilhas Falklands, próxima do círculo polar, improdutiva, relativamente próxima da Argentina, mas de antiga colonização britânica. Pra começo de conversa, é curioso notar que o revanchismo tribal entre argentinos e brasileiros parece só se aplacar nas férias para Buenos Aires e no que diz respeito a esta guerra, se é que este conflito pode ser chamado de guerra. Mais curioso ainda é notar que nossos manuais didáticos e enciclopédias virtuais nunca questionam qual o foi motivo deste conflito, só que ele existiu. Ninguém lembra que o motivo da Argentina invadir as tais ilhas foi uma estratégia da ditadura militar argentina, que estava em crise de sucessão e precisava desviar os olhos dos assuntos internos para algo de fora que desse aos argentinos um perigoso ou no mínimo, inatual,  senso de patriotismo. À essa excrescência de autoritarismo, a primeira ministra britânica respondeu com ataques breves e definitivos, com perdas para ambas as partes, na casa das centenas de vidas - isso não é justificativa, mas a quantidade de mortos diários por fome, por exemplo, tampouco é bonita, e nossas alianças econômicas com países da África parecem só agudizar a desigualdade por lá, ao contribuir para a concentração de renda. Mas essa é uma outra questão, ou, um outro filme, não é mesmo?
Trazer à tona o legado da Dama de Ferro, impulsionado por Meryl Streep, vem em boa hora pois, não para que seja aplaudido ou vaiado por extremistas, mas para que discutamos mais a política, e sua efetividade no mundo financista de hoje, este sim o demônio invisível que se compraz da tolice de uma falsa cidadania que pensa se exercer ao só enxergar heróis e vilões num cenário político de fachada. 

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Caleidoscópio Temporal


Há uma hora atrás eu percorria deslumbrado e lasso as ruas luminosas da cidade alta, cheias de cores que eu ainda não conhecia por ser guri de sete anos - eram só meus olhos que acompanhavam a rota necessária das gotas de chuva, indiscretas ao pintar apressadas o horizonte mínimo que se abre à janela de meu quarto trancado.

Há segundos atrás, enquanto se escreviam as linhas precedentes, eu tinha vinte anos - era só a ardência repetida de um corpo cheio de novos fluídos a se debater com uma alma senilizada pela leitura de aventuras impossíveis.

Tudo porque ontem fui um enrugado guru ancião, pintado da cabeça aos pés, cantando aos céus sortilégios com palavras ainda não inventadas, estas que só os bebês sabem reconhecer - eu era eternamente moderno.

Agora sou eu mesmo, vaga e ridícula palavra eu, graças aos céus que ainda não foram nomeados pelo homem - volto a ser ninguém. Salve.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

33

Meu corpo aqui, eu ouço
No prazer do corpo que escorre para o desejo, no imaginar das mãos para o céu
Peço ao céu de amanhã para que eu seja música
Pouco resta além da expressão do novo amor, o antigo
A lágrima que não tem nome, a água que o coração engole antes dos olhos
Meus olhos lhe vêem dentro de mim como água cor de nada, cordilheira
Imagino em seus olhos a beleza serena da manhã altíssima como se você fosse a vida
E você é este mais aquele ali e ainda um pobre miserável
E sou uma criança tola que só vê verdade no belo, e tudo é belo quando me escapa
Sou mesmo dessas crianças que conheceram um dia a justiça ambígua da fome

Cansa sorrir o desespero, o riso é de luta, mas se pode lutar no suave da brisa que nem ri
Aproveito o tempo da felicidade para nem dizer o quanto sou feliz
No oposto, a suspeita difusa da morte, o avesso dos deuses num fio de baba
Mas eu creio: fora a força da gravidade, estou no céu, tenho meu canto de universo
E sinto a violência da esperança abrir entre os órgãos as dores guardadas no esquecimento
Estrelas? Na dúvida, a saída é dançar pelas ruas, mesmo em fuga

Sou pirata das línguas que se enrolam em paz
Porque é uma guerra ser pacífico, e ainda estamos na idade dos paradoxos
E as fadas ainda correm pelos bosques em louvor de alguma nave mãe alienígena na calada da noite
Tudo ainda é mito e delírio
Como o inferno do outro que lhe deixou e a quem você culpa pela solidão
Queremos ser crianças sob o sol ou outra luz artificial mas tememos ser crianças no escuro

Eu sou seu medo, a vergonha de se deixar invadir pelo amor
Onde? Nunca. Está dito há muito, o amor é o que se faz com o que sobra
E quando a gente se amar de verdade, cabendo nos limites do mundo, mesmo esqueceremos de porque
Porque termos tido tanta gana de repetir a tal palavra amor, palavra qualquer

Por ora, o trabalho, dirão os incansáveis, as horas
A espera da novidade repetida, a expectativa de uma resposta, a inquietude da pergunta
Quando muito o que se tem mistura-se numa canção
Ai de mim ser apenas humano, uma taxa, prefiro ser um canal sem nome ou preço
E se existe o inverso do universo, lá estou também
Agora, porém, na avenida mais próxima rasga persistente e uniforme o som do asfalto
Chuvoso e seco como um mantra indiano, meu brasil de todos os mundos
Ah tolos nacionalismos, ismo ismo ismo ismo ígnea vontade de mamar nas tetas

Somos escravos e estrangeiros da pobreza e da riqueza
Somos a bola que nossa garganta não engole mais, antes, durante ou depois do jogo
Somos a poesia cansada, somos aqueles que não sabem se amam ou se odeiam
Somos o silêncio ridículo do respeito e a infâmia maldita do fio de faca numa língua
E eu que me achava livre na hora do prazer e na impaciência do desterro
E você que se acha mais ou menos que eu não é outra coisa senão a desmedida
E o que lhe toca ou não em mim é problema seu
Não quero sua luz nem sua ignorância, você é muito pouco para ser tão bom ou ruim

Posso usar a retórica da falsa modéstia e emitir: sou um idiota
Posso gemer baixinho como passarinho perdido: sou uma inteligência que nem consegue se sustentar
Confissão é o pobre ritual de quem tem vergonha, de quem é alguém
Queremos cúmplices em nossos vícios superiores
Enquanto não nos beijam a alma até sugar a paixão que não temos mais

Eu espero a flor da carne
Com paciência, vomito na cara de quem sente tédio de ter de pensar para sobreviver
Invalido a verdade da carne num jato de gozo que liquida as dívidas
Sou aquele ninguém cujo nome jamais se diz e que é lembrado num coração sem fundo
Sou só um copo d'água quando o que se quer é o sangue
Você que me escuta para se ouvir em dúvida é o meu próximo beijo e o último selo a decretar o fim

Viva e morra
Se der, passe um instantezinho com quem chegou e partiu
Não mexo mais os dedos esta noite
Sonharei, em vã promessa, no dia em que nos conheceremos na verdade de um prazer único
Quando nem precisaremos observar o fim de tudo nos olhos do outro numa praia a meio sol
Pois que seremos também um copo d´água já meio salgada, engolida pelo ventre da terra agridoce
Ninguém chora na hora da morte

sábado, 23 de julho de 2011

luz de fogo



um canto aos que morrem jovens

Eu choro até por quem me traiu
Eu traio meu próprio conceito
Eu xingo até quem já me pariu
Eu rodo o pé no que ninguém conseguiu

Intenso
Mesmo que um instante valha o resto da vida
Não quero o resto, quero a vida
Me acabo no pouco que ela me dá
Quero todas as vozes
Todas as pazes
Cada uma de suas fases
Amanheço no desejo e anoiteço num sorriso
Rejuvenesço enquanto latejo
Aconteço num canto incisivo

O resto é treino para a guerra
Rezo atrás do reino da grana certa
A peste é ponto para a terra
O caos natural é a única oferta

Intenso
Mesmo que o encanto falhe o teste da vida
Não quero protesto, cara comprida
Quero todas as vozes
Mesmo as atrozes,
Cada uma de suas poses
Amanheço no desejo e anoiteço num sorriso
Envelheço num quadro que não vejo
Aconteço enquanto brado o paraíso

sexta-feira, 24 de junho de 2011

ENTRE AS MARGENS



Arrogantes os cultos, orgulhosos os incultos.
Indiferentes os ricos, invejosos os pobres.
Entediados os experientes, eufóricos os inocentes.
Uns iluminados demais pela razão, outros cegos demais pelo instinto.
Uns só lembram ressentimentos, outros esquecem como sentir.
Uns vão aos extremos, outros a lugar nenhum.

Eu quero ser todos de mentira e nenhum de verdade.

Uns vaidosos por amarem quem os ama,
Outros se inferiorizam por não serem correspondidos.
Os mesmos que se compadecem dos desemparados,
Adulam os que julgam serem mais afortunados.
Individualistas humanitários, coletivistas autoritários.

Na guerra dos extremos, até os santos são guerreiros.

O que escarnece o outro, se vitimiza para o espelho.
O que vê tudo com malícia, teme sozinho a morte do amor.
O que proclama a liberdade, espera ansioso o dia seguinte.
Ambiciosos cheios de amigos, sábios que se exilam do mundo.
O que transa para não pensar, o que pensa para não transar.

Entre os extremos do riso e do choro, todo mundo é invisível na multidão.