sábado, 16 de dezembro de 2017

A vida vista em plano médio

Resenha do romance enquanto os dentes, de Carlos Antonio Pereira, Editora Todavia, 2017

Sete anos numa cadeira de rodas produziram um ótimo escritor. E você lê as 100 páginas no mesmo dia em que compra o livro. “Enquanto os dentes”, de Carlos Eduardo Pereira, é uma bela estreia editorial, aposta certeira e corajosa da Todavia no gênero romance. A capa maravilhosa conta toda a história. 

O narrador nos traz muito próximo de Antônio, cadeirante de cerca de 40 anos, em sua travessia saindo do “antigo apartamento“, como ele chama agora a casa onde morou por alguns anos e onde foi mais feliz, pintando seus quadros, fotografando e circulando pelo mundo das artes, egresso de um curso de filosofia, faculdade que abraçou após abandonar cinco anos da escola da Marinha, onde era conhecido como “libélula azul“ pelos parceiros num ambiente de disciplina e violência, com sentimentos de supremacia, machismo e hierarquização. Antônio havia seguido a carreira do pai, o Comandante, um homem branco, de pensamento militar que se casara com uma negra numa relação de quase escravidão. Ela sobrevive buscando verdades na igreja, quando o homem permite, e visita um pouco a vizinhança em Niterói, para onde Antônio agora tem de voltar. Não fala com o pai há 20 anos de ódio e afastamento. Mas foram eles que sobraram, pois o corpo em processo degenerativo não consegue mais se manter só, e a simbiose com a cadeira de rodas é um processo dolorido. É difícil se tornar cyborg, de modo que Antônio tem náusea até com o gosto metálico da maior parte dos alimentos que ingerimos. Antonio é um personagem que nos põe numa perspectiva de vida vista em plano médio, e com medo de cair ainda mais. Seus cinco sentidos estão desaparecendo, o tempo presente elástico, e a travessia de barco, de volta o lar, invadida pela memória dessas outras tantas travessias difíceis em sua vida, vai costurando, do Rio a Niterói, uma trajetória vivamente atenta aos detalhes das ruas e lugares, pontos de fuga na urbanidade densa do Rio. Essa cidade, como qualquer outra, flui a eterna presença do peso do patriarcalismo nas pequenas relações, mas também é lugar de esportes, mar, e um amor perdido que não segurou a barra do acidente e tudo que veio junto. De todo modo, naquela Rio de Janeiro de alguns anos atrás, ainda se podia ser gay mais livremente do que no mar controlado por homens. A técnica de Carlos Eduardo me lembrou muito a de Marguerite Duras, nas evocações objetivas da própria subjetividade, e nas alternâncias bruscas entre passado e presente, ambos avaliados de forma seca, porém muito elegante, crua mas alusiva, e repleta de memórias quentes. As alternâncias entre a viagem de volta o lar, que avança lentamente, e a memória que se reconstrói, é tecida com habilidade de um parágrafo outro, mudando de assunto bruscamente mas costurando os fios que ligam um tempo ao outro. Há muito da técnica cinematográfica aqui. É um livro forte que vem de uma experiência que só poderia ser considerada de marginal pela centralidade do homem branco, o qual veria esse romance apenas como um bom exemplo de representatividade na literatura, quando é mais, uma brilhante caminhada por vários desafios mortais e cruéis colocados pelo patriarcalismo, e que com ele dialogam de forma franca, sempre “muito educado“, como o próprio narrador nos diz, tentando apenas guardar tudo que se passa nas travessias, e esquecer os silêncios.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

mais notícias sobre o fim do mundo

O mundo iria acabar às cinco horas da manhã, assim anunciavam os pequenos pontos de mofo nas pontas dos livros na prateleira, assim anunciou o pó endurecido sobre o souvenir de uma viagem feita há séculos, assim decretou o silêncio suspeito na árvore orvalhada lá fora. Assim ele soube; tão certo como em todas as outras madrugadas em que, cansado de absorver cultura, de promover para o si o espetáculo de alguma esperança escondida na entrelinha de um poema revisitado, na luz familiar de um novo clássico do cinema, ele reagrupava forças só para se permitir ser fraco, encarando a hora nua em que o passado passa em paz, um minuto apenas de doce espanto diante do nada em que tudo pode se reconstruir, perdoado já não só pelos homens que lhe imaginavam outro, mas pelo universo mudo e simples, como animal depois da fome.
Não que o ontem não tenha sido gentil. Duas ou três palavras amigas, uma salada de frutas tropicais, pequenas celebrações familiares que, sem querer, escarneciam na face da ambição desmedida. Um dia perfeito. Algumas inimizades que o faziam sonhar, como na adolescência aberta a tudo, uma futura união das consciências de todos os vivos e ainda com a memória de todos os mortos; algumas dívidas lembradas a fim de tornar nítida a necessidade de ser mais que o pó da terra, para que valha a pena.
Talvez a presença atual do fim do mundo fosse só a impaciência do curso natural de um corpo que se pede a si mesmo; nada que merecesse uma revolução social. Não era sequer tristeza, era mais a hora difícil do amor. Sim, um dia acreditariam em seu amor transcendente, sem objeto, e será quando os suicidas sairão de seu ego e caminharão em direção ao sol justo da primeira hora da manhã.
O fim do mundo agora era todo dia -  ele reconsiderou quando o relógio passou das cinco e meia - por isso a necessidade de projetos grandes, de novas políticas de apaziguamento na exuberância de uma alegria leve, sem grandes efeitos, dessa de criança que descobre o jogo que iniciou todos os jogos. Epifania sem nome de deus. As crianças sabem que é apenas um jogo, entretanto, se permitem acreditar sabendo ainda que o acreditar, ele próprio, é também jogo; sabendo que o mistério de iludir-se é tão justo quanto crer na ilusão do mistério. E adultos são aqueles que acordam um dia na preguiça de uma dor e lá ficam, semeando o peso de alguma eternidade grandiosa.
Às seis horas batem no relógio e os ponteiros indicam o céu: é de novo o começo do mundo. Ele vai se rendendo ao domínio do sono, após invertidamente ter-se entregado ao reino dos sonhos. E, sem culpa, numa paz qualquer, pobrezinha e feliz, ele adormece logo após ter-se prometido: amanhã, depois do novo fim do mundo, eu saio para resgatar os que sobrarem. Então sorri por dentro, para que ninguém lhe tomasse a força que reconcilia o bem e o mal.

mais notícias sobre o fim do mundo

O mundo iria acabar às cinco horas da manhã, assim anunciavam os pequenos pontos de mofo nas pontas dos livros na prateleira, assim anunciou o pó endurecido sobre o souvenir de uma viagem feita há séculos, assim decretou o silêncio suspeito na árvore orvalhada lá fora. Assim ele soube; tão certo como em todas as outras madrugadas em que, cansado de absorver cultura, de promover para o si o espetáculo de alguma esperança escondida na entrelinha de um poema revisitado, na luz familiar de um novo clássico do cinema, ele reagrupava forças só para se permitir ser fraco, encarando a hora nua em que o passado passa em paz, um minuto apenas de doce espanto diante do nada em que tudo pode se reconstruir, perdoado já não só pelos homens que lhe imaginavam outro, mas pelo universo mudo e simples, como animal depois da fome.
Não que o ontem não tenha sido gentil. Duas ou três palavras amigas, uma salada de frutas tropicais, pequenas celebrações familiares que, sem querer, escarneciam na face da ambição desmedida. Um dia perfeito. Algumas inimizades que o faziam sonhar, como na adolescência aberta a tudo, uma futura união das consciências de todos os vivos e ainda com a memória de todos os mortos; algumas dívidas lembradas a fim de tornar nítida a necessidade de ser mais que o pó que da terra para que valha a pena.
Talvez a presença atual do fim do mundo fosse só a impaciência do curso natural de um corpo que se pede a si mesmo; nada que merecesse uma revolução social. Não era sequer tristeza, era mais a hora difícil do amor. Sim, um dia acreditariam em seu amor transcendente, sem objeto, e será quando os suicidas sairão de seu ego e caminharão em direção ao sol justo da primeira hora da manhã.
O fim do mundo agora era todo dia -  ele reconsiderou quando o relógio passou das cinco e meia - por isso a necessidade de projetos grandes, de novas políticas de apaziguamento na exuberância de uma alegria leve, sem grandes efeitos, dessa de criança que descobre o jogo que iniciou todos os jogos. Epifania sem nome de deus. As crianças sabem que é apenas um jogo, entretanto, se permitem acreditar sabendo ainda que o acreditar, ele próprio, é também jogo; sabendo que o mistério de iludir-se é tão justo quanto crer na ilusão do mistério. E adultos são aqueles que acordam um dia na preguiça de uma dor e lá ficam, semeando o peso de alguma eternidade grandiosa.
Às seis horas batem no relógio e os ponteiros indicam o céu: é de novo o começo do mundo. Ele vai se rendendo ao domínio do sono, após invertidamente ter-se entregado ao reino dos sonhos. E, sem culpa, numa paz qualquer, pobrezinha e feliz, ele adormece logo após ter-se prometido: amanhã, depois do novo fim do mundo, eu saio para resgatar os que sobrarem. Então sorri por dentro, para que ninguém lhe tomasse a força que reconcilia o bem e o mal.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A DAMA DE FERRO - nem anjo, nem demônio


Meryl Streep sabe por onde passa, e não é só pela arte. Numa de suas mais belas interpretações, pouco importa a qualidade estética do filme, que tem sido o foco dos críticos. Às vezes precisamos lembrar que cinema não é só cinema. O poder humanizador desta atriz abre caminho para uma discussão importante, a relativização da imagem de Margaret Thatcher, tal como esta foi cristalizada pela imprensa de trinta anos atrás. Como toda imagem estática, a primeira líder política mulher de uma democracia moderna, tal como a conhecemos, é apenas um bode expiatório pouco questionado de problemas que são sistêmicos, e não de responsabilidade de um certo indivíduo, sequer de um grupo político ou de uma única nação. Trocando em miúdos, o demônio Thatcher é problema nosso, não custa lembrar. Vejamos.
Uma das medidas mais controversas tomadas pela política britânica, quando ainda era ministra da educação, já nos anos 70, foi abolir a doação de leite nas escolas públicas, com o discurso de que o foco do orçamento deveria ser as necessidades acadêmicas. Esta medida muito contribuiu para a criação de sua imagem política, ao ser manipulada pelo então atual governo trabalhista, os Labour, os de "esquerda", que sofriam a oposição dos "direitistas" Conservatives. É fácil confundirmos uma orientação esquerdista com medidas populistas. Antes de acusar Thatcher de racionalizar o orçamento da educação, é oportuno lembrar do que Paulo Maluf fez pela educação em São Paulo, que foi exatamente distribuir leite sem mexer nas bases da educação. A estratégia não deve ser apenas por mais crianças na escola, mas tornar a educação formal uma alternativa realmente eficaz na construção de uma cultura mais forte, que é a única base sólida para uma democracia forte. Estamos acostumados a achar que o papel do cidadão é apenas reivindicar direitos, e o do Estado, assumir deveres. Esta visão, sabemos, é tão paternalista quanto as políticas aristocráticas e coloniais de séculos atrás, herança que carregamos com particular peso no Brasil, e que predominava no governo populista britânico onde Thatcher começou a crescer como membro da oposição que era nestes anos -  pasme - o partido conservador.
Os anos 70 foram marcados pelo arrefecimento da Guerra Fria, baseada no poderio militar, imperialista, Estados protecionistas; e pela concomitante recuperação da especulação financeira, claramente representada pela crise do petróleo. Neste cenário, com uma concorrência internacional mais aberta, o que é bom e cruel ao mesmo tempo, Thatcher se tornou o grande símbolo da política neo-liberal, de mercado aberto, privatização de empresas estatais pouco produtivas. Penso que enquanto prevalecer uma economia financista, pós-industrial, abstrata, tal posicionamento político, sem extremismos, é inevitável, e por mais que demonizemos Thatcher e seus seguidores, como FHC, foi na esteira dessa política de Estado mínimo e grandes alianças econômicas multinacionais que Lula também fez seu governo. Esta discussão tem suas nuances, que não esgotaremos aqui; portanto, vamos fingir que isto é apenas uma crítica de cinema e seguir adiante.
O problema de Thatcher, como líder da democracia britânica na virada para os anos 80 era o de uma elevada taxa de desemprego, resultante da crise econômica sistêmica, tal como a que vivemos hoje. Neste contexto, uma democracia não age sozinha, como os europeus querem fazer com a Grécia hoje. Uma democracia isolada no contexto de uma crise sistêmica só pode se segurar com medidas emergenciais. Neste contexto, a primeira ministra britânica precisou mesmo ser de ferro para não apelar aos tapa-buracos dos empréstimos, e focou sua atenção em medidas internas que fossem emergenciais e ao mesmo tempo pudessem ter longo alcance. Uma dessas medidas foi sua luta contra os sindicatos, uma das principais razões pelas quais é demonizada pela imprensa e pelo senso comum ainda hoje. Poucos lembram do fato de que os sindicatos britânicos abriam seus fóruns de reivindicação não para os interesses dos trabalhadores efetivamente, mas muito mais para sua manutenção no poder, como aliados indispensáveis dos Trabalhistas populistas, que construíram sua imagem no tal paternalismo já mencionado. Não deveria ser novidade pra ninguém que os sindicatos britânicos das décadas de 70 e 80 eram o que são nossos sindicatos desde de a década de 90 e fortemente no novo século, ou seja, perderam seu caráter de verdadeiros representantes dos assalariados e só fazem greves pelos seus interesses na política interna de alianças nos governos, onde são pagos politicamente para apoiar a imagem de presidentes que vieram da classe, por exemplo. Se não for assim, por favor, alguém me explique porque as greves de professores são sempre uma piada, enquanto que as greves que mais conseguem se manter são as de outras partes do setor público e, principalmente, as greves do setor financeiro.
Ou então voltemos a falar de quanto Meryl Streep é "genial", seja lá o que signifique este adjetivo mitologizado. Ainda que bem intencionado em relativizar a imagem da mais longeva primeira ministra britânica do século XX, o filme de Phyllida Lloyd não explora a fundo a política de uma das figuras mais centrais do mundo contemporâneo, atendo-se aos pontos mais controversos, como seria de se esperar numa narrativa de pouco menos de duas horas. O filme não discute, por exemplo, quais as estratégias de Thatcher para o fim do desemprego, como medidas para acabar com a inflação e com isto aumentar, a médio prazo, o poder de consumo e reforçar os pequenos e médios empresários. Suas inúmeras reformas no legislativo contribuíram para reduzir o poder das associações monopolizadoras de grandes industriais, inclusive nas indústrias públicas. Se uma das maiores polêmicas de seu governo foi a grande greve dos carvoeiros que sofriam grande desemprego, como em toda a indústira de base, isto só se deu porque as resoluções dos empresariado de grande porte, no sentido de contra-atacar o governo, foi responsabilizar adivinhem quem pela queda do lucro? Os trabalhadores, claro. Que de resto, aos poucos foram sendo incorporados no setor de serviços, por exemplo, sinal evidente de recuperação econômica. Aliás, a Dama de Ferro apenas seguiu o exemplo de sua nobre ancestral, também de pulso firme, a Rainha Elizabeth da época florescente de Shakespeare. Esta, ao criar os enclosures, revalidou o setor agrário improdutivo e aristocrático - qualquer coincidência com o nordeste brasileiro não é coincidência - e alinhou-se a quem realmente dinamizava a economia no momento. Pois não foi um trabalho de atualização semelhante ao que Thatcher fez? Pois não nos iludamos, ela não é criadora do neo-liberalismo, ela apenas criou uma política que pudesse se manejar no novo sistema econômico global, este é o grande ponto.
Para sair um pouco da arena econômica, serei sucinto ao lembrar da oposição firme da Dama de Ferro aos soviéticos e ao IRA, na Irlanda. Ainda existe alguém que defende os supra-citados? Naquela época havia, os acadêmicos carreiristas, por exemplo, que vivem na sua democracia perfeita e livresca. Melhor seria considerarmos o que nem o filme mostra, como o apoio incondicional de Margaret ao fim do apartheid na África do sul, à legalização do aborto e seu papel decisivo na descriminalização da homossexualidade.
Finalmente, o ponto mais polêmico do governo Thatcher, a Guerra das Malvinas, pela posse das Ilhas Falklands, próxima do círculo polar, improdutiva, relativamente próxima da Argentina, mas de antiga colonização britânica. Pra começo de conversa, é curioso notar que o revanchismo tribal entre argentinos e brasileiros parece só se aplacar nas férias para Buenos Aires e no que diz respeito a esta guerra, se é que este conflito pode ser chamado de guerra. Mais curioso ainda é notar que nossos manuais didáticos e enciclopédias virtuais nunca questionam qual o foi motivo deste conflito, só que ele existiu. Ninguém lembra que o motivo da Argentina invadir as tais ilhas foi uma estratégia da ditadura militar argentina, que estava em crise de sucessão e precisava desviar os olhos dos assuntos internos para algo de fora que desse aos argentinos um perigoso ou no mínimo, inatual,  senso de patriotismo. À essa excrescência de autoritarismo, a primeira ministra britânica respondeu com ataques breves e definitivos, com perdas para ambas as partes, na casa das centenas de vidas - isso não é justificativa, mas a quantidade de mortos diários por fome, por exemplo, tampouco é bonita, e nossas alianças econômicas com países da África parecem só agudizar a desigualdade por lá, ao contribuir para a concentração de renda. Mas essa é uma outra questão, ou, um outro filme, não é mesmo?
Trazer à tona o legado da Dama de Ferro, impulsionado por Meryl Streep, vem em boa hora pois, não para que seja aplaudido ou vaiado por extremistas, mas para que discutamos mais a política, e sua efetividade no mundo financista de hoje, este sim o demônio invisível que se compraz da tolice de uma falsa cidadania que pensa se exercer ao só enxergar heróis e vilões num cenário político de fachada. 

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Caleidoscópio Temporal


Há uma hora atrás eu percorria deslumbrado e lasso as ruas luminosas da cidade alta, cheias de cores que eu ainda não conhecia por ser guri de sete anos - eram só meus olhos que acompanhavam a rota necessária das gotas de chuva, indiscretas ao pintar apressadas o horizonte mínimo que se abre à janela de meu quarto trancado.

Há segundos atrás, enquanto se escreviam as linhas precedentes, eu tinha vinte anos - era só a ardência repetida de um corpo cheio de novos fluídos a se debater com uma alma senilizada pela leitura de aventuras impossíveis.

Tudo porque ontem fui um enrugado guru ancião, pintado da cabeça aos pés, cantando aos céus sortilégios com palavras ainda não inventadas, estas que só os bebês sabem reconhecer - eu era eternamente moderno.

Agora sou eu mesmo, vaga e ridícula palavra eu, graças aos céus que ainda não foram nomeados pelo homem - volto a ser ninguém. Salve.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

33

Meu corpo aqui, eu ouço
No prazer do corpo que escorre para o desejo, no imaginar das mãos para o céu
Peço ao céu de amanhã para que eu seja música
Pouco resta além da expressão do novo amor, o antigo
A lágrima que não tem nome, a água que o coração engole antes dos olhos
Meus olhos lhe vêem dentro de mim como água cor de nada, cordilheira
Imagino em seus olhos a beleza serena da manhã altíssima como se você fosse a vida
E você é este mais aquele ali e ainda um pobre miserável
E sou uma criança tola que só vê verdade no belo, e tudo é belo quando me escapa
Sou mesmo dessas crianças que conheceram um dia a justiça ambígua da fome

Cansa sorrir o desespero, o riso é de luta, mas se pode lutar no suave da brisa que nem ri
Aproveito o tempo da felicidade para nem dizer o quanto sou feliz
No oposto, a suspeita difusa da morte, o avesso dos deuses num fio de baba
Mas eu creio: fora a força da gravidade, estou no céu, tenho meu canto de universo
E sinto a violência da esperança abrir entre os órgãos as dores guardadas no esquecimento
Estrelas? Na dúvida, a saída é dançar pelas ruas, mesmo em fuga

Sou pirata das línguas que se enrolam em paz
Porque é uma guerra ser pacífico, e ainda estamos na idade dos paradoxos
E as fadas ainda correm pelos bosques em louvor de alguma nave mãe alienígena na calada da noite
Tudo ainda é mito e delírio
Como o inferno do outro que lhe deixou e a quem você culpa pela solidão
Queremos ser crianças sob o sol ou outra luz artificial mas tememos ser crianças no escuro

Eu sou seu medo, a vergonha de se deixar invadir pelo amor
Onde? Nunca. Está dito há muito, o amor é o que se faz com o que sobra
E quando a gente se amar de verdade, cabendo nos limites do mundo, mesmo esqueceremos de porque
Porque termos tido tanta gana de repetir a tal palavra amor, palavra qualquer

Por ora, o trabalho, dirão os incansáveis, as horas
A espera da novidade repetida, a expectativa de uma resposta, a inquietude da pergunta
Quando muito o que se tem mistura-se numa canção
Ai de mim ser apenas humano, uma taxa, prefiro ser um canal sem nome ou preço
E se existe o inverso do universo, lá estou também
Agora, porém, na avenida mais próxima rasga persistente e uniforme o som do asfalto
Chuvoso e seco como um mantra indiano, meu brasil de todos os mundos
Ah tolos nacionalismos, ismo ismo ismo ismo ígnea vontade de mamar nas tetas

Somos escravos e estrangeiros da pobreza e da riqueza
Somos a bola que nossa garganta não engole mais, antes, durante ou depois do jogo
Somos a poesia cansada, somos aqueles que não sabem se amam ou se odeiam
Somos o silêncio ridículo do respeito e a infâmia maldita do fio de faca numa língua
E eu que me achava livre na hora do prazer e na impaciência do desterro
E você que se acha mais ou menos que eu não é outra coisa senão a desmedida
E o que lhe toca ou não em mim é problema seu
Não quero sua luz nem sua ignorância, você é muito pouco para ser tão bom ou ruim

Posso usar a retórica da falsa modéstia e emitir: sou um idiota
Posso gemer baixinho como passarinho perdido: sou uma inteligência que nem consegue se sustentar
Confissão é o pobre ritual de quem tem vergonha, de quem é alguém
Queremos cúmplices em nossos vícios superiores
Enquanto não nos beijam a alma até sugar a paixão que não temos mais

Eu espero a flor da carne
Com paciência, vomito na cara de quem sente tédio de ter de pensar para sobreviver
Invalido a verdade da carne num jato de gozo que liquida as dívidas
Sou aquele ninguém cujo nome jamais se diz e que é lembrado num coração sem fundo
Sou só um copo d'água quando o que se quer é o sangue
Você que me escuta para se ouvir em dúvida é o meu próximo beijo e o último selo a decretar o fim

Viva e morra
Se der, passe um instantezinho com quem chegou e partiu
Não mexo mais os dedos esta noite
Sonharei, em vã promessa, no dia em que nos conheceremos na verdade de um prazer único
Quando nem precisaremos observar o fim de tudo nos olhos do outro numa praia a meio sol
Pois que seremos também um copo d´água já meio salgada, engolida pelo ventre da terra agridoce
Ninguém chora na hora da morte

sábado, 23 de julho de 2011

luz de fogo



um canto aos que morrem jovens

Eu choro até por quem me traiu
Eu traio meu próprio conceito
Eu xingo até quem já me pariu
Eu rodo o pé no que ninguém conseguiu

Intenso
Mesmo que um instante valha o resto da vida
Não quero o resto, quero a vida
Me acabo no pouco que ela me dá
Quero todas as vozes
Todas as pazes
Cada uma de suas fases
Amanheço no desejo e anoiteço num sorriso
Rejuvenesço enquanto latejo
Aconteço num canto incisivo

O resto é treino para a guerra
Rezo atrás do reino da grana certa
A peste é ponto para a terra
O caos natural é a única oferta

Intenso
Mesmo que o encanto falhe o teste da vida
Não quero protesto, cara comprida
Quero todas as vozes
Mesmo as atrozes,
Cada uma de suas poses
Amanheço no desejo e anoiteço num sorriso
Envelheço num quadro que não vejo
Aconteço enquanto brado o paraíso

sexta-feira, 24 de junho de 2011

ENTRE AS MARGENS



Arrogantes os cultos, orgulhosos os incultos.
Indiferentes os ricos, invejosos os pobres.
Entediados os experientes, eufóricos os inocentes.
Uns iluminados demais pela razão, outros cegos demais pelo instinto.
Uns só lembram ressentimentos, outros esquecem como sentir.
Uns vão aos extremos, outros a lugar nenhum.

Eu quero ser todos de mentira e nenhum de verdade.

Uns vaidosos por amarem quem os ama,
Outros se inferiorizam por não serem correspondidos.
Os mesmos que se compadecem dos desemparados,
Adulam os que julgam serem mais afortunados.
Individualistas humanitários, coletivistas autoritários.

Na guerra dos extremos, até os santos são guerreiros.

O que escarnece o outro, se vitimiza para o espelho.
O que vê tudo com malícia, teme sozinho a morte do amor.
O que proclama a liberdade, espera ansioso o dia seguinte.
Ambiciosos cheios de amigos, sábios que se exilam do mundo.
O que transa para não pensar, o que pensa para não transar.

Entre os extremos do riso e do choro, todo mundo é invisível na multidão.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Olhos Gordos

Criança, crescer às vezes é algo que acontece quando murcharmos diante dos olhos gordos de quem inibe tua dança tola. Pois todo mundo quer ser livre, mas tem gente que já desistiu, quem sabe achando que existe uma liberdade pronta, quando talvez ser livre seja apenas tentar ser livre. O certo é que quem já desistiu acaba se arrastando como erva parasita sobre uma árvore presa na terra, mas tranquila para ter a coragem de dobrar um choro ao vento que rejuvenesça as folhas.
Os olhos gordos são gordos, e rígido o corpo que os sustenta, pois seu esforço é de virarem-se todos para fora, tentando entender o que o outro lá fora tem de tão poderoso, sem crer que o poder de todos é um só, a ser desenvolvido ou não, que não existem diferenças interiores essenciais, e que, portanto, basta olhar pra dentro e achar seu próprio jeito de fazer as coisas belas. Sim, os olhos gordos só vêem aparências, mesmo quando falam de ideias, só vêem as aparências das ideias, por isso amam frases de efeito, ansiosos de serem amados pelo que emitem e não pelo que comunicam. 
Tanto os olhos gordos só vêem aparências, como se estas fossem sólidas e eternas, que quando forjam alegria, são só caricaturas de sorrisos que um dia invejaram. Não sabem que os sorrisos começam nos olhos e não nas presas. Assim, o riso do invejoso é sempre mais esgarçado, em contraste com seus olhos tristes e gordos. Os olhos gordos, que tudo vêem e tudo sabem melhor que os outros, não conseguem ver que um belo sorriso é o ato de assumir que nos reconhecemos num desejo tolo do outro, que somos todos iguais e belos perante o desejo, afinal, alguém de olhos gordos não é alguém que inveja, mas alguém que não assume sua inveja, e tenta se esconder num corpo tão rijo quanto seus olhos vidrados. Os olhos gordos não entendem que a beleza está no movimento e não na forma, está no movimento de buscarmos incessantemente o conforto de um novo modo de ser, necessariamente provisório. Mas os olhos gordos vivem de ideias fixas, começando por uma imagem fixa de seu eu e, pior que isso, não sabem que o eu é sempre uma ilusão, uma brincadeira que não se deve levar a sério. Não acreditam que beleza é liberdade de movimento, e que ser livre, para voltar ao assunto, é mudar, e que mudar é se deixar morrer na coragem de assumir a escuridão da própria ignorância. Os olhos gordos brilham vidrados para não revelarem a escuridão de seu desejo inconfessável. Os invejosos se comprazem em destruir aquilo que não suportam desejar, por isso adoram ressaltar os defeitos nas pessoas e coisas que no fundo acham belas. A beleza, que é a tolice de ser, dói no peito do invejoso que não se abre à sua própria tolice. Prefere escarnecer por meio de uma ingênua malícia - ingênua pois acredita que destruir é a forma mais refinada de inteligência.
Pois não se esqueça, criança, exige muito mais inteligência crescer e permanecer verdadeiramente ingênuo, na coragem espontânea de encarar a incerteza suprema do desconhecido que anima o curioso e desanima o que tudo sabe. Fausto era o falso sábio que invejava a espontaneidade da juventude. Todos somos crianças, se quisermos.
Os olhos gordos não entendem a loucura da liberdade de se orgulhar modestamente em ser imperfeito; não entendem que somos belos quando assumimos o que temos de torto, pois é isto "ser você mesmo", e quem "se é", por debaixo das máscaras sociais, é sempre uma pessoa atraente. Quando os invejosos resolvem ser loucos, são sempre incoerentes, não entendem que ser louco não é ser "louquinho" na sofisticação do non-sense que se se pretende espontâneo, mas sim guiar-se pela lógica incorruptível da natureza. Da mesma forma, o invejoso julga inteligente o ato adolescente de se autoafirmar através da negação sarcástica do outro que mais cativa seus olhos gordos. Os olhos gordos não sabem se autoafirmar na solidão, assim como só quem tem coragem de ser só sabe ser livre para amar sem esperar que preencha seu vazio. Isto sim é que é ser louco.
Os olhos gordos, quando muito embotados por um desejo forte, são obrigados a assumir a própria inveja e confundem esta com amor. Caem no truque confortável de achar que amam aquilo que invejam. Não é toa que os invejosos só se apaixonam por quem acreditam serem superiores e só aceitam namorar quem podem controlar com a superioridade de seu ego frágil. Afinal, como se diz, como amar o de fora se não se ama o de dentro? Como amar sem se amar? O invejoso nunca se rende a verdades tolas e simples e misteriosas como essas, pois para ele toda tolice é obscura como a ideia exterior de "eu" que sustenta, disfarçando a inveja com egocentrismo. Basta ver que o invejoso não é carinhoso, é adulador; não gosta de receber um amor que enxerga mesmo que duramente, prefere ser adulado, mimado; não sabe falar de igual pra igual, mas só no contexto de uma hierarquia.
Nessa inversão de valores que os olhos gordos fazem em sua relação deturpada entre o dentro e fora, acabam também por sentir prazer só na dor, amor só no ódio, criatividade só na destruição, mesmo que nos pequenos gestos quase invisíveis.
É fácil reconhecer um invejoso, a menos que você também tenha olhos gordos. Olhos gordos sempre acabam por pesar e fazer a cabeça baixar, peso que também exige esforço exagerado de erguer-se com superioridade afetada, mas, sobretudo, baixam um momento ou outro, diante da imagem radiante da única felicidade possível: a felicidade leve e provisória, como as asas de uma borboleta que vive apenas dois dias e cujo voo é louco, cuja beleza é tão exuberante quanto inútil, tão urgente quanto despropositada de intenções humanas.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Estrangeiro



Na cidade dos milagres concretos,
Prédios de pedra erguem-se ao céu tal foguetes abortados.
E nada há que consagre por completo
Um remédio contra o tédio dos banquetes e bailados.

Onde vão seus pares agora, estrangeiro,
Depois que tomou por fama todos os prazeres?
Só lhe resta esses ares de carniceiro,
E pra comer a fome que sobrou não tem talheres.

Volte para onde finda seu lar,
Esqueça que cuspiu no prato que te dei;
Se revolte pelo que ainda tem de dar,
Já que é difícil ser grato, eu bem sei.

Quem te acredita agora além de um cego
Que se enrola na malha perdida da beleza ultrapassada?
Quando for embora deixe que me encarrego
De tirar da mesa a migalha de tua última risada.

Não ligo de recolher outra vez tua sujeira;
Já visitei o inferno da dor que você tem.
Nem digo dos inimigos que fez por coisas rasteiras;
Enfermo, voltei com olhos de amor que teus olhos não vêem.

Pare de seduzir em nome do amor aos pobres,
Tentando se amar ao amar quem dói mais que você.
Aprenda a ser feliz sozinho com teus sentimentos nobres,
Pois quem conhece a rua não quer a arte do teu buquê.

Só quem vive de culpa e inveja precisa chorar a pobreza,
E por esse discurso de horrível caridade torce.
Mas quem sorri cúmplice ao mendigo a humana grandeza,
Ri do teu riso que a cárie doída do orgulho ferido distorce.

Saia bradando: "olha a música que me fizeram cheia de elipses".
Corra para encontrar a linha simples entre o céu e o mar nessas ruas,
Então verá que é por irmandade que te conto o apocalipse,
E amargará a inocência perdida em línguas que não eram tuas.

Hoje as ruas estão belas no olhar vadio que me crio.
Sou um, sou todo cheiro, sou qualquer caminho;
Sinto até um arrepio de gozo ligeiro no ar frio,
Pois já aprendi, estrangeiro, já aprendi a ser sozinho.