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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

10 lições para jovens de atitude

uma árvore de atitude

1 - Se você se acha inteligente e sempre acha um jeito sutil de dizer isso, é porque tem a burrice da baixa auto-estima.

2 - Se você defende muito uma opinião, é porque sua opinião não se defende sozinha.

3 - Se o inferno são os outros, é porque você acredita que o paraíso é seu ego. (Sartre era egocêntrico)

4 - Se você acha mais produtivo acusar os defeitos humanos fazendo uma lista de maus adjetivos, é porque não descobriu que os elogios às coisas boas são mais leves e nem por isso deixam de criticar, por exclusão, o que nem merece ser citado.

5 - Se você gosta de reclamar contra a injustiça é porque não sabe agir sobre ela sem perder tempo.

6 - Se você agride quando diz o que pensa em nome da verdade, é porque não sabe se defender de seus próprios pensamentos.

7 - Se você ri de tudo, é porque tem medo de chorar do básico.

8 - Se você acha que ter atitude é ser rebelde, é porque não aprendeu a se rebelar contra suas próprias atitudes antiquadas e é incapaz de ver em si o que acusa nos outros.

9 - Se você tem raiva contra quem não teve coragem de amar, é porque não se ama e só se afirma. A raiva é a atitude defensiva de quem está fraco.

10 - Se você prende a respiração para gozar, é porque tem a esperança vã de segurar nos dentes uma sensação que ainda nem chegou, com medo de perdê-la, e que poderia ser mais intensa e surpreendente se você se entregasse ao desconhecido que é cada trepada. E isto vale para a vida como um todo. É esfolar ou deslizar.

;)

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

clariciano

Eu procuro algum traço de sentimento com que possa me contar, mas não encontro nada. Nem frieza, nem indiferença. Antes, quando tinha preguiça de escrever-me, de inventar-me, procurava nas paixões juvenis alguma raiva que me energizasse para, enfim, vencer a dureza do papel, da caneta, da tela reluzente e do teclado. É que eu acreditava que a matéria das coisas era contra a fluidez do ser, como se o ser fosse coisa vácua, só de palavras. Agora, nem isso sinto ou faço. Talvez no fundo eu escreva para me afirmar, mas para dar voz a um instinto de bicho, uma verdade subrreptícia, e não essas verdades de palavras, essas vaidades.
E eis que, neste instante, tendo-me improvisado em um parágrafo satisfeito de si, não me vejo ainda pronto para tudo o que haja, embora me sinta a partir do coração - este mito que agora também me bate satisfeito e insatisfeito, apaixonado e subaquático. Claro que alguma lucidez me comanda também, mas esta luz não é de palavras, mas de observar, como bicho, se o ar que entra e o que sai é proporcional ao corpo que minha alma veio construindo.
Penso que se eu me identificar demais com minhas palavras, julgando-as tão minhas, estarei cansado de mim, e isto não quero nunca. Não por me amar egocentricamente, mas para amar a vida que possa desabrochar de mim. Todo mundo tem suas palavras e delas se arroga, fixando-se em imagens passadas, mortas; e percebo milagrosamente que, conforme me assoma o conhecimento da morte, prefiro cada vez mais a vida. No limite, qualquer palavra já dita é coisa morta, que só vale reavaliada, reapropriada, ainda que haja palavras vivas de homens mortos capazes de mostrar-me na atualidade do ser, de mostrar-me este "quem sou" que é apenas um "ninguém que cabe em qualquer um."
Tenho receio de palavras movidas por paixões. Pensemos. Um beijo deve durar o tempo justo do confronto. Alongar o desejo é matar o amor, desconfiar de seu poder e tentar extraí-lo no bagaço da carne, e não na carne intumescida de amor. E quero ser sempre jovem para convencer-me na busca desta inominável palavra. Para ser jovem e amar com a renovada inocência de jogos infantis, sem alongar os desejos de uma juventude sempre em fuga, tenho de me fazer de velho, e assim o faço desde criança, obstinado em vencer as idades, sem a covardia de não enfrentar o espelho, este espaço infinito onde cada ruga, ao invés de me envelhecer, me renova, mostra o novo insuspeitado, me rejuvenesce de tanta curiosidade com minhas coisas ínfimas. Talvez eu só esteja querendo dizer que tenho respirado melhor no enfrentamento da morte. Sim, não me culpo mais em temer a morte, é assim com todo bicho e me alegro cada vez mais de ser bicho antes de ser homem. Sim, não me culpo mais em aceitar a morte: existe uma indiferença de pedra em todo ser, e bicho veio da pedra também.
Talvez seja isto o que quis dizer quando quis dizer que para escrever-me, para inventar-me, não posso e nem consigo mais me agarrar desesperadamente a um "sentimento", a um logos qualquer, a uma razão que vem do fundo de uma taquicardia a que chamamos paixão, uma ansiedade sem propósito e cuja origem duvido que parta de mim, mas de nossos modernos costumes sobre o que seja o feliz. Como diria Rimbaud, o êxtase não é mais meu amigo.
Tenho o vício do cigarro, decerto. E se for possível explicar o vício como um desvio do ser em relação a seu ambiente, sim, digo que estou demasiadamente saciado desta cidade, embora nela tenha tanto me divertido, diariamente, religiosamente. É que não gosto muito de seguir uma única religião, por isso preciso partir. Não porque a cidade seja pequena de pequenez, mas porque o mundo é grande de mistérios. E quando não tenho meu mistério, que adoro encontrar nos olhos de um cão de rua, acendo meu cigarro. Mais não quero justificar. As justificativas nascem do medo não assumido, e prefiro ser inseguro com coragem. Dói menos. Já disse isso, sim. Estou tão contentamente vazio que me preencho e me atravesso até por repetições bem vindas. Às vezes repetir é necessário para aprender a sofrer menos, para aprender a aprender, para dar nomes melhores às coisas piores.
Se tem algo que me interessa de fato, que me engaja na realidade suposta, é a manhã transparente, cheia de possíveis, esta que nasce agora lá fora, no ar, no azul mutando mais rápido que a minha atenção sobre ela, no azul mutando mais devagar que esta minha aberrante transformação.
Antes eu escrevia com fome no estômago vazio, duro de certezas. Para aprender a chorar. Agora escrevo de barriga cheia, sim senhor, pois o pão deve me nutrir antes que a palavra. Sem bicho não há homem, e antes eu só queria ser homem, sem assumir o bicho. Quanta inversão de valores! Sim, sobrevivo com pão e palavra, nesta ordem. Não é para glamurizar a pobreza, estamos acostumados demais com a pobreza, e quero que esta sempre me entristeça. Até já houve um tempo sem uma coisa nem outra, sem pão e sem palavra, só de escuridão e um inseto de esperança, mas nunca fui bobo de arrogâncias, como os mendigos que impõem sua dor com ódio. Quis mais é saber-me mínimo, fazer um experimento contra minha soberba, e também porque tenho um corpo que não pega nem gripe - salve! - mas agora gosto de trabalhar simplesmente para ingerir e expelir coisas, seguindo a natureza de minha espécie, evoluindo-a, depurando-a no amor ao trabalho e no trabalho do amor, invejoso apenas das árvores, que tocam os extremos da terra e do céu com absoluta paciência.
Veja como minha escrita é perniciosa mesmo, e se a desdigo não é por charme de poeta que não pretendo ser: escrevendo aqui, pouco a pouco, bateu-me um sentimento sim, bateu-me um sim. Um amor pela minha mãe, pelo meu pai, pelos amigos e irmãos, pelos mortos e vivos, até pelos inimigos, se estes eu tiver. Está certo: foi um amor quieto, disfarçado, fugaz mas quase tátil enquanto durou, e que paro de proclamar aqui e agora. Mas que é sentimento ou ato mais valioso que as palavras que me chamaram daquele vazio com que comecei, com que tudo começa. E agora sim, posso retirar-me em paz e voltar a ser ninguém e nada. E é feliz assim, dizem meus olhos para o espelho transparente da manhã.

domingo, 13 de setembro de 2009

fim de festa

um conto de qualquer década

Braços se alavancam para cruzar as serpentinas no ar. Os vinténs de confete, uma vez depostos na terra de cimento queimado, fazem sua lama triste sob o patinar de pés suados, verde e rósea como carne apodrecida.
Carolina procurava seu brinco de prata, uma peça rara, cara, recebida das mãos zelosas de sua avó já morta. Avó agora esquecida, enquanto a moça sorria seus dentes arroxeados de vinho no esgarçar parturiente de lábios que haviam perdido, já há algumas horas, a oportunidade de um beijo cauteloso. Agora só lhe restava aguardar, no recanto dos sonhos e promessas vãs, alguém que lhe extraísse da carne esgotada o sumo do sangue, o carmesim desmedido que mal se sinalizava aos olhos dos quase cegos na pista grande. Mas aconteceu. Ou quase isto.
Desistia já do brinco quando uns dedos longos, morenos, de grandes nós, resgataram-na do provável pisoteio dos pés engajados nos ritos de acasalamento. Com olhos de brilho temperados por olheiras fartas o rapaz sorriu-lhe sem grandes promessas, consciente ele próprio de que sua indiscrição, seu olhar-lhe no dentro, podia ser qualquer, como o de qualquer um ali. Ou assim ele acreditou descrente, despropositado, fora de lugar. Sua magreza, embrutecida pelo carnaval, virava também macheza, ainda que de uma brutalidade quase ressentida de si. Talvez fosse um desses tipos sensíveis; tímido não, pois mantinha umas pupilas firmes frente à indecisão ébria de Carolina, desalinhada debaixo do emaranhado dos próprios cachos. Com aquele desalinho ele podia - pensou - já  não seria o caso se ela estivesse a flutuar por uma grande avenida num final de tarde. Fosse como fosse, estavam ali, um para o outro, fundos.
Um terceiro, um tipo bem nutrido, bem tratado, bem exercitado em esportes que dispensam o juízo, um tipo que tudo podia com seu nariz de boneca virgem, pronto a romper-se o peito em desgraças nunca confessadas, tal o afã de seu êxtase sem destino, assustou-se talvez, parado que estacou defronte ao silêncio suspeito que se formara entre Carolina e o rapaz moreno, ambos jogando uma partida incômoda à obviedade caótica daquela pista de dança. O fato é que o três-tripas, o barriga-bufa, encheu-se chistoso para desdizer, ou estrebuchar, o que no fundo devia lhe maravilhar e invejar, e avançou o meio passo que bastou na direção do casal que ainda nem era tal ou tanto.
- Na boca! Na boca! – alguém gritou como quis Manuel Bandeira num poema.
Foi a deixa. Com gestos largos, o forte de delícias de diários bordados puxou a camisa do corpo fraco do moreno, pronto para qualquer estrangulamento, ainda que alguém depois comentasse que ele não teria mesmo coragem para tanto. Os olhos do magro encheram-se de todos os assassinatos, mas ele nada podia com seu peito murcho e sequer arfante, visão tal que concedeu o escárnio nos cantos dos lábios do outro, insatisfeito das mil bocas que beijara esta noite. Carolina, deslocada, com uma pena titubeante pregada na sobrancelha, querendo escorrer, mas não podendo tal era o suor, quase não teve tempo de puxar o ar em sinal de alerta. Na eclosão da tempestade, a pobre permanecia intemporal, buscando tecer a fina luz de sua alma em meio aos brilhos todos que giravam em sua cabeça, em seus braços lassos, em suas pernas impotentes.
O moreno tinha que pensar rápido, se é que o pensar resolveria a contenda a que fora impingido. A força de seu corpo não se media pela do outro, de músculos tesos, mesmo derretidos em suor alcoólico, mesmo perdidos na noite de todas as noites. A música da marchinha, bombando libido pelas artérias todas dos pescoços muitos, não deixava vez para uma palavra de fé, para uma palavra sequer.
Foi então que o defensor improvisado de Carolina teve a idéia, executando-a já enquanto eclodia entre certezas e hesitações. Brusco, no ritmo da festa, ofereceu primeiro a mão amiga ao fulano de tal, pedindo trégua muda antes da guerra declarada. E aproveitou quando o pilastra-para-ombros desentendeu tanta humildade para, assim sem mais, tascar-lhe um beijo na boca perplexa, passiva durante dois segundos diante de incoerência mais brutal que o ato que ofereceu primeiro.
Enquanto durou a aberração, a pista toda foi submergindo nas ondas de um mar noturno, surdo, lentamente mortal. Foi o tempo que bastou para que o moreno, sem emplumar-se na vanglória, retirasse dali Carolina, rasgando o primeiro desvio que lhe ocorreu entre a multidão agora conciliada numa mesma incompreensão.
Para onde foi o casal, não sabemos ao certo, só que devem ter alcançado o ar livre, serenoso, saltando, aqui e ali, sobre uns pares curvados por um orgasmo breve. Quanto ao beijado, foi acolhido por braços de músculos tais os seus, agora tesos por algo mais preciso, uma motivação pela qual rastejara a noite inteira e por fim, conquistara, ainda que a custa disso, daquilo, desse ato sem nome. Juntos, para desabafar, os amigos compartilharam os mesmos rancores guturais, disfarçados de riso, a que chamam de pilhéria solidária.
No mais, a festa continuou e, logo depois - pois não se brinca com a eternidade - a festa acabou. Não contarei sobre o salão vazio, a música fanando, as luzes já idas, refestelando no fundo da retina do último dos moicanos. Ninguém merece um fim de festa. Nem o vilão da história.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

a pobres garotos que buscam um estilo muy rico

Para Voltaire e Oscar Wilde
Olhou-se no espelho da manhã, mediu os ângulos para verificar se a ponta do nariz permanecia levemente acima do horizonte, se cada sobrancelha erguia-se na incredulidade exata, fez biquinho para disfarçar a boca murcha de uma ressaca de anos. Oras, no mundo contemporâneo a vaidade masculina é artigo de revista, é coisa natural. Ele adorava falar do mundo contemporâneo como se fosse coisa muito natural.
O celular toca. Ele atende andando firme pela casa, de uma parede a outra, pois mesmo emerso de sonhos duvidosos que a noite lhe deixara, é sempre bom demonstrar uma paixão incontestável pelas ocupações cotidianas, ainda que expressa com certo ar entorpecido, para não parecer efusivo demais. Ele chamaria esta atitude de "equilíbrio", se já não tivesse abolido de seu vocabulário qualquer palavra que parecesse hippie demais.
- Olá! (preciso mostrar que estou contente em falar com ela) Estou bem... (um pouco de autocomplacência sempre chama a atenção). Sei...(vou mostrar que compartilho as preocupações da empresa como se ganhasse a mesma grana que ela)  Entendo... (cala a boca e me fala logo que vou substituir aquele imbecil) Que pena que ele agiu assim. (Coitado, deu uma de revoltado) Não se preocupe, eu posso fazer isso também. (eu sou bom, eu sou bom, eu sou bom) HAHAHA (não estou rindo da sua piada, mas da sua idiotice).
Sim, alguém caiu e agora ele poderia se levantar em seu lugar. É uma lei natural, e sou livre, livre, livre. Mas é melhor não dizer essas coisas em voz alta, ainda que muy justas, pois se deve ser humilde, simples, educado como os jovens de vinte anos que parecem saídos de uma piscina quente mesmo no pior dos eventos. Garotos que ele invejava, embora dissesse que "admirava", afinal existe certo charme em reclamar displiscentemente do próprio envelhecimento. Tudo é uma questão de conhecer um novo creme e de ser esperto o suficiente para não se divertir nem um pouco na balada mais recente, onde seria por isso mesmo invejado e vingado. Claro que não basta frequentar só casas noturnas, mas também aplaudir um "evento cultural" incompreensível com certa condescendência de quem sabe das coisas. O equilíbrio está, enfim, em espetar bem o cabelo para compensar a cara caída.
Já fazia um certo tempo que ele tinha medo de ser curioso, pois isto faz o peito bater e é melhor não demonstrar muito entusiasmo, emoção esta que faz o corpo parecer tenso demais. Ele perdia a inocência acreditando que perdia a burrice. E se alguém lhe dissesse que estava perdido, ok, pois está na moda ser "bem louco", seguindo pelos mesmos novos velhos circuitos, pelas mesmas novas velhas caixas de concreto superpopuladas. É bom estar na multidão, desde que não encostem nele. É bom cultivar uma dor infértil que ele acredita ser rebeldia, que faz querer ser parte de tudo um pouco, mas sem se aprofundar em nada, pois nada vale o engajamento de sua alma, só de seu corpo. E quando não consegue fazer parte de nada, quando não consegue ver a solidão como algo natural tais seus cabelos camufladamente planejados, repete com voz letárgica o mantra dinheiro, único valor concreto, realista, inteligente. Mas não dizia para os outros seu justo furor, pois não é de bom tom; ninguém dá emprego a um desesperado que pode soar como um revolucionariozinho de merda. O negócio é ser desesperadamente criativo, pró-ativo, ser melhor que os pais jamais foram, pois mais veloz - sim, ele acredita que ser inteligente é ser rápido. No fundo, aguarda ansioso o sucesso visível, não esse só de sua bela alma que se conhece. Quer um sucesso que tem a cara dos ambientes feericamente iluminados e perfumados que fazem a noite valer a pena. O sol é demais e faz suar.
Está tudo bem, pois quando está tudo mal resta ser sedutor, competir pelo melhor sorriso, passar batido por um choro de morte pois a morte não vale pena nem choro. É deselegante ser vulnerável, alguém pode ver. Há que ser forte, ou seja, duro.
Ao menos ele sabe glamurizar suas lamúrias. Ele não vê porque clamar aos céus como besta-fera inútil até para o sexo. A culpa é da cidade, mas há parques belos para percorrer. E ainda bem que tem parques com gente bonita e astral e saudável; as árvores não lhe bastariam com seu silêncio vivo.
Tudo é muito sofisticado e engraçado e interessante para que se perca tempo, para que se perca tempo em devaneios, para que se perca tempo em pensar, em pensar sobre si. Quem pensa demais parece muito egocêntrico e arrogante. E além do mais a palavra "hedonista" é mais sonora que a palavra "pensar", sem contar que uma droguinha transforma mais rápido que um livro. Livros são bons apenas para ter assunto. Para se enxergar, basta o espelho da juventude. Isto não é ser fútil, é ser antenado.
Mas, às vezes, por uma fração de segundo, o espelho lhe dói, e nem mijar com seu belo e potente pinto lhe alivia quando não suporta ver seu rosto por ângulo algum e só restam os olhos, os malditos olhos. Porque às vezes, às vezes, não dá mesmo para iludir o quão difícil é a tarefa de amar-se. Mas ele não sabe disso. Tolos somos nós que sabemos, que choramos, que somos "deprimidos". 

sexta-feira, 15 de maio de 2009

...a trip...

Foto de Jack Kerouac, "quem quero ser agora",
tirada pelo Allen Ginsberg, em 1953,
época de grandes trips para essa turma

Meço o que há de errado em minha vida pelos pensamentos errados que tenho sobre o amor. Entenda-se errado como autodestrutivo.

Sou um palhaço torto e careca ou um galã sempre pronto para o sexo? Desejo estar no fio da meada.

Ando assumindo que sei menos sobre mim do que sabia. Não me enxergo com a mesma frequência de antes e quando o faço, sou cruel. Ou era. Mas ainda me acho feio e magro e branquelo e velho e pesado. E viciado em cigarros.

A juventude me anima e depois me cansa. A velhice dá esperança e depois o mesmo. Ando muito cansado de quem tentei ser e não consegui.

E lembro de todas as paixões recusadas por algum trauma oculto, digno do cu; paixões platônicas dessas de idealizar no outro aquilo que não se tem coragem de viver. E me sinto fraco e preciso treinar meu corpo para treinar a mente. "Corpo são e mente sã". Novamente o ideal grego da felicidade. Falta a praia.

Numa dessas noites, numa dessas pessoas vejo a juventude despreocupada, repleta de possibilidades, aberta e livre. Vejo a beleza da naturalidade. Vejo o ingênuo jogo de esconde-esconde onde sou eu quem mais se esconde e é o outro quem mais revela.

Queria chorar por nunca ter tido vinte anos de fato. Porque sei que conquistarei o que me faltou, mas com lucidez e cansaço. Sorrio entretanto - sei que é difícil para todo mundo que eu gosto.

Tem noites como esta que eu queria morrer só um pouquinho, durante alguns meses, só para me tornar mais forte, em conexão com os sonhos, em desconfiança com a realidade, no esquecimento do que me atormenta hoje. Porque "há sempre alguma coisa de ausente que atormenta." (Camille Claudel) O outro não me amará com desejo. Ou seria descrença minha? "Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças." (Fernando Pessoa)

Penso nesse outro com pele morena, plexo solar aberto, sorriso ingênuo e olhar caloroso, pronto para a vida, sem julgamentos, dando-se ao prazer com arte e perícia, amando cada vez mais e melhor. Esquecendo-me em meu canto escuro, em meu limbo ilusório. Queria que o outro me olhasse de fato. Talvez olhe e me veja feio como me sinto na metade do tempo. Queria ser alegre o suficiente para amar. Eu queria me amar para ser alegre o suficiente. Não quero amar este Alexandre. Tenho que mudar! Tenho que partir para o desconhecido, para a revolução de costumes, para a graça lisongeira da beleza natural. Prefiro sentir esta angústia do que o tédio.

(De uma certa forma me contenta saber que cheguei aqui sozinho, na paciência de depurar no tempo as coisas sem nome, mas óbvias. Escrever verdadeiramente vem da força de querer enfrentar uma angústia noturna. Escrevo também para absolver-me de alguma culpa.)

O outro é a árvore de frente para varanda de casa: abaixo da altura de meus olhos, mas, ainda assim, de um mistéio inacessível. Quando o outro ri de mim é a natureza que ri de mim. Quando rio na cara do outro é a sociedade rindo da natureza. Preciso fazer mais gostoso... Não digo que eu queira viver a vida de pau duro, nem na ilusão do êxtase, mas tenho direito, ao menos, a um estado de proeminência de todas as aventuras.

Agora caço dinheiro, amor, estudo, aprendizado, paz, abertura, sexo despreocupado e intenso. Sou mais um. Mas sou muitos, e quero cada uma de minhas vidas como uma possibilidade quase palpável nos horizontes. Sim, sou mais um.

Quero saber fazer novamente belos versos de amor, desses que só sorriem.

Voa pássaro mutante da praça central. Leva o meu canto. Adormeça antes do sol raiar. Se aqueça nos cantos seus e dos galhos, enquanto a noite resfria.
Um duro caminhão passa pelo cruzamento, três andares abaixo, cachoalhando ferro. Foi-se. Novamente o milagre do pássaro a cantar. Acho que estou conseguindo. Digo: ser feliz. Besta e prontamente. Estar vivo no prazer de fluir, sem acomodar-se a nenhum pensamento, nenhuma ruga, respirando para libertar-se de tantos estado de alerta. Flutuar. Dormir. Acordar. Dançar. Cutucar o instante. Aprontar, agir, desarmar, esquecer. Esquecer-se no outro, no corpo amante, suficiente, equilibrado. Lembrar-me de mim o tempo todo para conquistar o direito de não ser mais ninguém.

terça-feira, 31 de março de 2009

Diálogo incompleto entre um jovem de 20 e outro de 30


"Não sou jovem o suficiente para saber tudo"
Oscar Wilde


20 - Se estou na idade da liberdade, isto é, aberto à realização de qualquer sonho, por que o passado me prende, aliando-se ao medo de experimentar? Por que devo escolher o que sou, baseado no que fui?

30 - Você diz que é livre, mas para você a liberdade apenas começa. É um ideal ainda. Vai escolher a liberdade no ato de responsabilizar-se pelas próprias escolhas. Vai acreditar, justamente, que é livre para escolher. Aos poucos, a maior parte dos sonhos possíveis parecerão ilusões, por conta da necessidade de aplacar uma fome cada vez mais material. O espírito parecerá pobreza. Embora eu próprio tenha de assumir que volto a buscar o espírito, e o resto do invisível, nos despojos da carne.

20 - Você é tão dramático quanto eu. Corre atrás de certezas duvidosas, enquanto sondo por dúvidas certeiras.

30 - As certezas são atalhos. E se você não quer ser mais um servo da matéria, precisará de uma urgência que só as verdades proclamadas podem trazer. Você ainda tem o benefício de viver no tempo da poesia, espontaneamente. Eu luto para não esquecer o que sonhava aos vinte anos, por não conseguir ser espontâneo naquela época. Sei que, como antes, continuo desejando o tempo todo. Mas agora tenho menos medo de agir, o que torna as transgressões de outrora menos excitantes hoje. Cada vez faço um esforço maior para me interessar por coisas e pessoas, embora tenha menos preconceitos. Ao mesmo tempo, luto para me desapegar de coisas e pessoas às quais me acomodei.

20 - Você e eu somos iguais: continuamos a desejar um grande amor e a cartada certa. E isto não tem idade.

(janeiro/09)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

carta a jovens rebeldes

David e Golias - Caravaggio


Tenho conversado cada vez mais com jovens rebeldes, dos mais diversos tipos de inadequação. Quanto mais conheço suas necessidades, mais percebo que o que desejam é um ouvido paciente para exercitarem o galope selvagem de suas contradições, sem censura. Por outro lado, procuram corpos como se estes fossem apenas ouvidos.
Todos assumem ser a arte o interesse mais verdadeiro. E todos têm medo e buscam em minhas palavras, na boca que as emite, uma razão corajosa e louca para realizarem seus sonhos inconfessáveis de expressão, prazer, poder, paz. Sabem-me como alguém que lhes incentivará o desvario calculado, com o benefício da dúvida, da ambigüidade, do mistério, magia, todas as palavras grandes que os homens se inventam para se cercar de importâncias. Comigo querem falar sobre o amor, começo e meio e fim. Querem falar sobre loucura, responsabilidade, impulso, sexo, pessoas, bichos, poesia, tempestade, festas, filmes, dramas, mantras. Sobre terra, céu e mar. Revelam-se como eu, tímidos, inseguros, covardes, melancólicos, tristes, sombrios. Uns desdenham a palavra deus, outros a palavra amor. Armam-se de palavras para alcançar algum gozo, preenchido de idealidades outras, sonhos de carne inconfessáveis, nos mais diversos estilos musicais.
Pensei em escrever uma carta a todos estes jovens rebeldes, com a intenção de expressar possíveis relações sobre assuntos que vejo serem mais repetidamente evocados. Também falo com a intuição de que lhes fará algum bem sentir que suas questões mais presentes são reais para uma coletividade maior, embora eu me dirija a uns tantos rebeldes em específico, mas sem ferir suas individualidades, e sim tentando desvendar o que possa ser superior à nossa solidão, dita existencial.
Reparo que quanto mais tomamos parte em experiências extremas, segundo nossos próprios critérios, mais dizemos, sentidamente, a palavra solidão. Pois conhecer abismos nos individualiza. E sigo dizendo que é uma questão de tempo, paciência, delicadeza, segurando nos dentes as rédeas dos próprios impulsos, sabendo que todos queremos convencer ou confundir nossos pares, cheios demais de desejo para já trabalharmos na disciplina consciente do equilíbrio justo entre dor e prazer. Todos queremos confessar algum grande crime de amor, para nos sentirmos superiores a nossas próprias palavras.
Os mais ousados expressam-se através das artes. Plásticas, literárias, teatrais, cinematográficas, musicais. Primitivas e ancestrais, futuristas e cósmicas. Arrogam-se de conhecer a realidade dura da pedra, do dinheiro, do poder e do interesse. Afirmam sentimentos fugazes em nome das últimas verdades de que se armaram, em sua leitura convulsiva do mundo. Eu sigo dizendo: a arte mais básica é a da respiração, mas, sendo jovens, conscientizamo-nos disto apenas durante um beijo.
No fundo, o que eu poderia dizer de verdadeiro, com valor de lei, de acordo com minhas reais atitudes? Este parece ser nosso problema mais crucial ainda. A medida entre palavras e atos. Ora sou incerteza, ora homem, ora coisa. Não quero dizer que o consolo da razão garante a felicidade, mas saber escolher é sobreviver melhor.
E há que se ouvir os sonhos, onde estão as conexões mais antigas, mais próximas de nosso ser primordial, as conexões mais comuns, mesmo as que um sonho faz crer que sejam inéditas. Há que se navegar pelos sonhos, no medo, na idéia de que há luz e escuridão. Mas, acautelem-se na hora de brincar com fogo! Quem brinca com fogo realmente faz xixi na cama. E já acorda com medo, um pouco mais queimado, com a pele mais insensível e a vista mais ofuscada. O fogo é para ser reverenciado, mas não como um ídolo, e sim como o emblema mesmo do mistério superior à vida de um homem, este ser nascido no tempo. Cada elemento simples e eterno deve emanar constantemente seu poder sobre a fraqueza e força de um homem.
Devemos nos entregar ao simples jogo de crer que há um mistério para fora de nós mesmos, deve haver um mistério maior que este que enxergamos em outro homem ou mulher. Deve haver algo além das palavras amor e deus, um outro sopro sutil indefinido e quase inaudível. Senão, a matéria e suas leis, sempre tediosamente arbitrárias, mortais...
A revolta é a atitude de imaginar uma realidade superior à nossa, pela leitura intencional dos sinais que nossa realidade mais concreta parece apresentar. Pois se toda crença é vã, que possamos estar ao menos conscientes de que construímos nossas vidas como uma ficção, uma história para se contar, e ainda assim que possamos dar cada vez mais crédito a nós mesmos. Devemos ser honestos e assumir quem são os homens de quem roubamos nossos argumentos. Se não dermos forma à revolta, ela nos mata.
Meu partido é a capacidade de criar histórias, ficções, fantasias onde o cotidiano se revele sobrenatural, convidando-nos a mergulhar até o fundo da ilusão para perceber seu caráter de máscara, simulacro, pele morta. A magia dos fogos universais não pode ocultar senão um silêncio, que é de cada um e de todos. Para estarmos atentos a nossas relações com o mundo, para aventurarmo-nos com certa segurança, é preciso termos como porto este silêncio incognoscível, esta curiosidade franca e latente.
Toda história, em nossas vidas ou fora delas, sempre retorna ao silêncio que a originou. Não há verdade mais eterna que o silêncio. Há apenas testemunhos aos quais podemos nos agarrar com a justificativa da fé, sejam esses testemunhos obras de pastores ou poetas, criadores de sons e imagens, cientistas ou feiticeiros.
Se nossa revolta nos impele às vezes a desdizer os mestres antigos, sejam estes professores, amantes, poetas ou estrelas, sejam velhos amigos solitários, por que então gastamos nosso tempo e palavras em desdizê-los? Por que não dizemos, enfim, apenas o que desejamos? Eu sei... Porque não há nome que nos emule... Ainda queremos viver de segredos, mesmo quando sabemos ser mais saudável e divertido expor com coragem nossas contradições. Eu sei, temos de nos mostrar como soldados, fortes, preparados, inocentes da própria hipocrisia.
O fato é que estamos sempre fazendo jogo duplo, triplo, quádruplo, como acrobacia que nos permitisse atender a nós mesmos, de um lado, e aos nossos desejos, tão estranhos a nós mesmos. Somos livres, mas queremos possuir a liberdade do outro, se possível. Seria melhor assumirmo-nos frágeis, selvagens, flexíveis, úmidos. Melhor seria respirar e rir. Melhor seria criar ou calar.
Já no fim desta carta, tendo dado forma ao que a observação mostrou ser o mais urgente, sinto alguma rebeldia se lançar estômago acima, tentando caluniar inutilmente o que acabo de escrever. Mas uns outros lados meus, chiaroscuros, se contentam, sem auto-complacência, implacavelmente.