segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018


AMORTALHA (Editora Patuá, 2017) é o primeiro livro de Matheus Arcaro que leio. São contos alinhavados por este conceito-contradição fundamental que o título sugere, a descoberta do amor no confronto com a morte, a descoberta da morte na experiência limite do amor. Se este livro nos contasse uma única história, com poucos personagens e um herói, o título seria pretensioso, pois estaria tentando buscar esse imenso universal que hoje é cada vez mais denunciado como ideológico. Porém, ao final da leitura, perdoamos e aplaudimos o autor, pois percebemos que ele conseguiu reunir personagens dos mais díspares em torno desse tema central, dando a cada um deles uma combinação distinta e bem escolhida de gêneros literários que vão do monólogo interior à distopia, com destaque para um realismo justo, sintético, fruto de um olhar concentrado mais que de um exercício estilístico vazio, como encontramos aos montes por aí. 
De modo geral, Matheus se debruça por tipos dos mais comuns, aqueles que não ganham muita visibilidade para nosso gosto colonizado que só se interessa pelo pobre enquanto pitoresco, bufão ou vítima. São professores, policiais, operários, evangélicos, enfermeiros, um engenheiro amargo, um gay amargurado e suicida, duas lésbicas que tomam a iniciativa de tentar resolver um mistério fantástico que aflige a todos, mais algumas mães com desgosto, mas que nunca deserdam seus filhos, além de crianças perplexas diante do mundo adulto, filhos ingratos, pais de primeira viagem, amantes ambíguos, animais domésticos vivendo o amor e a morte num cotidiano inglório, sem os melodramas novelescos que esses mesmos brasileiros gostam, sempre julgando que suas próprias vidas não são dignas de ser representadas na tevê ou no Castelo de Caras dos Alternativos. A maioria vem de famílias brasileiras médias, pobres. E sobre elas Matheus busca um olhar empático que não olha de cima, já que vem desse mesmo meio e para ele retorna após uma sólida formação literária e filosófica (apenas seu ateísmo me parece um pouco panfletário). Acolhe sem idealizar, ao mesmo tempo que explora seu lado patético sem cinismo. Quase como um encontro entre Guimarães Rosa e Nelson Rodrigues, ou entre Machado e Rubem Fonseca. Aqui a família brasileira é defendida e denunciada ao mesmo tempo. Ninguém tem salvação e por isso mesmo todo mundo é lindo. Seus traços são predatórios e egoístas, meio bonachões, típicos do capitalismo numa sociedade pós-escravista, um pouco na tradição do Sargento de Milícias, mas há sempre o refúgio numa certa compaixão, mesmo que o brasileiro só seja solidário no câncer, como disse Nelson. 
A prova de que este livro é grande é dada pelas questões que ele me pede para fazer à sua escrita: até quando a mulher brasileira demonstrará sua força apenas para defender famílias em frangalhos? Até quando gays e outros desenraizados quererão a salvação num grande amor, e sem isso se tornam cínicos e suicidas? Nesse contexto, pergunto a Matheus também até que ponto ter um filho e constituir família no século XXI pode ser o conforto e a solução final? Deixo essas provocações para que ele explore, em seu olhar tão rico e abrangente, outras formas de união e desafeto que não passem pelo familiar. Fale dos ricos também, Matheus, vamos adorar. Fale mais dessas mulheres que não sejam sempre vítimas por serem fortes demais para nós ou fracas demais para si mesmas, homens que não precisem idolatrar um feminino ideal para ser validarem num outro tipo de sensibilidade diferente da decadência que o arquétipo do macho hétero representa. Mas esses são desafios para o futuro de sua escrita, pois o presente está muito bem alicerçado, com destaque para as imagens poderosas onde entrelaça o concreto com o espiritual ou existencial, sobretudo no olhar sobre os movimentos individuais do corpo, onde suas contradições são melhor captadas que na exploração sistemática de seus dramas interiores, ainda que esses sejam deliciosamente pontuais.  Gostaria também de ver mais esse tipo de olhar tão preciso na criação de diálogos tão incisivos quanto suas descrições, ou tão surpreendentes quanto seus enredos com finais impactantes ao modo da literatura policial. Tenho certeza que ao praticar estas últimas emancipações em seu espírito inquieto, Matheus Arcaro será cada vez mais recebido com um dos nomes mais promissores deste momento borbulhante e desafiador da literatura brasileira.

P.S.: adorei o diálogo entre Freud e Sócrates, pelo olhar de Foucault. Gostaria de ver a continuidade desta terapia, com menos paródia, com Freud menos Nietzsche e um Sócrates menos Woody Allen. Poxa, a gente ama esses caras. Seus limites não devem apagar seus méritos. 

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