domingo, 8 de agosto de 2010

domingo à noite

Domingo era o fim e o começo de tudo. O velho corpo desperto estalava novos sonhos nas antigas dores. O fim do filme na tevê sonolenta fechou nossos olhos nas muitas histórias que venderemos para ao mundo. Sim, saberemos fazer nossos irmãos sorrirem, e os inimigos serão irmaõs. Amanhã, na vida dura, usaremos um tempo de solidão no aprendizado privilegiado da arte, essa coisa qualquer. Saberemos o que faz brilhar os olhos de todas essas pessoas lá fora da janela, já muito satisfeitas das festas em trânsito e, juntos, riremos de todas as ilusões. Saberemos pôr seus corpos em ação no momento em que seria só tristeza, preguiça, mau-humor. Saberemos um amor melhor, sem nome ainda. Inventaremos esse mundo que nossos olhos já inventaram, em que todos já são belos e fortes e frágeis. Então, sem vanglória, dividiremos o pão inventando seu sabor. E o pão será apenas um pão.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

PRETENSO MINI-CONTO CLARICIANO

O garoto olhou assustado, ansioso: ali atrás da cerca era um hipopótamo, dizia a placa de identidade. Tinha boca grande de desvirar homem em troço, mas só mascava um tempo de coisa já degustada; tinha peso de cair por cima, mas se punha debaixo d'água, deixando pra fora só duas orelhas rebaterem leves como as mãos de uma criança que não sabe falar. O garoto viu tudo isso, respirou fundo com prazer onde antes era duro de sentir, e soube, assim parado: era amor. Então, vomitou. Rápido, seco, num jato. Porque precisava sentir-se menino de novo.

terça-feira, 13 de julho de 2010

pimentas


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Quem sabe uma ciranda trouxesse teu sonho de volta... Mas, eu sou um tolo por sonhar por você, não é mesmo? Então, vamos ser práticos: meu riso só quer liberar o espaço fechado que tua tensão me provocou. Você chama isso de orgulho; e eu, de pérolas aos porcos. Adeus.
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Tem gente que acha que para ser perfeito tem que ser solene. Mais vale uma criança de rua.
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Bateu uma coceira, sabe... Diga assim: "é tudo sexo". E eu direi pra mim: "você precisa trepar mais mais tempo e mais fundo. Olhando pra você eu penso: estou com uma preguiça justa e honesta de lutar contra quem já fui. Não luto mais contra a morte. É inútil. E prefiro sempre inventar que o dia é belo ou estranho. Parei de sentir tédio."
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Agora o mundo é meu quintal. Sei onde fica cada surpersa e mesmo assim cada nova vida em algum objeto mofado onde o sol não chega. E tomo um fôlego do Himalaia.
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Alô? Ah, é você dor... Sei... Está se sentindo sozinha hoje, dor? Veio para me dizer que a culpa é minha? Ora, ora... a senhora anda muito ressentida. Não sabe que o mundo é o mundo, sem eu ou você? Francamente, nunca pensei que a dor tivesse medo de assumir que sua carne não toca o céu, de que estamos no mesmo buraco, eu e você, tão exigente... É só. Passar bem.   

maio/2010

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Devaneios de Don Juan



Sob feitiço. Submetido nos vãos em que a palavra não.
Não me ofereça tal lânguida delicadeza. Ao invés, parta comigo para a guerra. Sim, é da terra que falo, apesar desta sua seda que enrolo entre meus dedos, entre meus deuses.
Prometa. Mas não aconteça. Guarde o fogo no olhar, guarde os lábios devastadores no silencioso vinho. Venha, mas não se entregue mais; eu sou todo mal, sou infame, sou desses matadores de ninho. Não me diga seu nome, seu mar; não me conte um segredo. Já sei de tudo; sou só escudo, sou só degredo.
Sou frio, mas como iceberg no degelo, oculto aos olhos dos céus, dos homens. Eu invado e mato. Cuidado, sou só um albergue, sou de passagem. Eu imundo e invado. Sou pássaro de rés, sou viagem de ré, sou o que ninguém quer, sou todo réu. Não sou um homem; sou um seu dia. Também sou ninguém; sou, por enquanto, sua cria. Sim, eu sou o amor, por isso não me apaixono. Sim, sou o cortiço da dor, e assim é que funciono.
Isso não é um conselho; não sou seu pai. O que você quer? Haverá o tempo em que não precisaremos mais de um pai, de um espelho, de um ai sequer. Então, nos encontraremos nas praias, filhos do sol desperto, quentes depois da febre, lúcidos depois das pragas, idiotas ao certo.
Por enquanto, o desejo. A carne que tateia no escuro, o ensejo impuro. Amanhã será talvez, e deste vazio de incerteza bem-vinda, saberemos dar vez ao beijo mais justo - a palavra mais linda. Seremos um a todo custo.
Eu quero estar alerta depois do gozo de ser, como se fosse o fim do mundo e pudéssemos enfim - ouso dizer - rir de toda esperança, dançar como bichos toda ilusão de um suposto fundo. Não ser belos, mas rosto imundo.
Pois quero o amor que ninguém ainda inventou, quero a irmandade. Quero a verdade que a mão de nenhum amante matou, não quero a saudade.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Haruki Murakami entre aventuras juvenis e silêncios extemporâneos


William Blake, em seu livro Canções da Inocência e da Experiência nos devolve sempre à encruzilhada entre os mitos "ocidente" e "oriente". Mito ocidental é o da experiência da razão, da ciência da palavra que é magicamente lógica, científica, histórica, explicativa. Mito oriental é o de um misticismo inocente, de um paraíso perdido, de uma palavra que é, no anverso da história e do tempo, logicamente mágica, revelada. A graça deste livro de Blake, que tomamos como exemplo de uma problemática, é exatamente justapor os mitos sem hierarquizá-los, é transmitir em cada metade de seu livro o mesmo conjunto de experiências por duas chaves; aquela que abre um quarto de adulto para que uma criança o veja e ali sinta os aromas de putrefação animal que a palavra esconde, e aquela outra chave posta na mão do adulto que espera encontrar no quarto da criança  um mistério que ele se esqueceu de sonhar, e que talvez nunca soube.
É nesta encruzilhada que o escritor japonês Haruki Murakami constrói sua obra trans-hemisferial Kafka à beira-mar. Ali, um oriente ocidentalizado tem nostalgia de sua própria inocência no olhar do outro, bem como um ocidente orientalizado vê a si mesmo em suas experiências com o mistério, a escuridão, o oculto, ou, em outras palavras, com o deslumbre iluminado da fantasia. Este livro é eruditamente irônico e melancólico e popularescamente palhaço e triste. Em Kafka à beira-mar, os extremismos de um paraíso perdido e de um inferno presente são tão pitorescos quanto burlescos, e o que nos resta - se cabe-nos buscar um substrato, uma síntese - é um limbo criado entre os universos fantásticos de Alice no País das Maravilhas e Cem Anos de Solidão.
Nesta impressiva obra de Murakami, a infância e a velhice do mundo tentam se encontrar entre fantasias extremas (ou extremistas), justapostas como a inocência e a experiência, entre o menino de quinze anos Kafka Tamura e o ancião Satoru Nakata. O menino, que foge de casa enfeitiçado por uma profecia edipiana, nos representa a descoberta do mundo como uma aventura desencantada. Kafka Tamura é já um velho que sabe. Nakata, o velho imbecilizado por um evento misterioso da natureza inexplicável, é o Quixote, o Idiota de Dostoiévski. Tem a inocência da ignorância que não deixa de ser ética. Essas duas trajetórias paralelas, que só convergem num infinito fora deste mundo, mas pleno de sentido, nos levam a devorar o tempo de cada página como se a eternidade pudesse enfim ser retida, mesmo ao ser abandonada por nossas desilusões. De que lado está a verdade? Na canção do Radiohead repetidamente ouvida em silêncio pelo menino Kafka? Na língua dos gatos que Nakata domina e depois esquece? Nesta obra fantástica (nos dois sentidos), a fantasia é refúgio e ao mesmo tempo desilusão.
De Tóquio a uma floresta encantada na ilha de Shikoku, o inocente ancião e o experiente menino só encontram fantasmas, mas é no limbo da busca que o humano deixa o testemunho mínimo de sua dignidade. Murakami não cai na cilada de explicar os mistérios. São muitas as imagens que se sucedem freneticamente nesta ficção contudo tão mortalmente silenciosa quanto a realidade mais dura: uma chuva de peixes, uma pedra que fala, um menino chamado corvo, um velho que fala com gatos, uma flauta de almas, uma profecia edipiana, as sombras da guerra, os labirintos da cidade e da mata e, sobretudo, os prazeres simples e intensos, de um prato de arroz ao sexo cru. 
A pretensão de Murakami parece ser um compêndio das ilusões humanas, de tabus primitivos, como o incesto e o assassinato, à elaboração mais intricada de um suposto mundo espiritual, visando paradoxalmente pelo excesso um esvaziamento da memória do mundo. É de um conforto incômodo. É a certeza do poder da incerteza do sonho em que o poder deixa de se impor.
A busca por identidade, que conduz as personagens, se torna mais importante quanto menos elas buscam se afirmar. Só importa a busca, que nesse universo ficcional tão rico e imaginativo, não pretende nos levar a nenhum lugar conhecido, embora se construa com imagens deliberadamente familiares. Finalmente, a consciência de si só ganha densidade ao se reconciliar com  a presença inominável do mundo:

"- Mas ainda não sei o que significa viver - digo.
- Olhe o quadro - diz ele - Ouça o vento.
Aceno a cabeça positivamente.
- Durma um pouco - diz o menino chamado Corvo - E, quando acordar, será parte de um novo mundo.
E então, você adormeceu. E, quando acorda, é parte de um mundo novo."

Um livro para todos.

domingo, 6 de junho de 2010

KAFKA À BEIRA-MAR - Haruki Murakami


"Nakata descontraiu os músculos, desligou o comutador da cabeça e transformou-se numa espécie de sensor vivo. Isso era natural para ele. Nakata o fazia cotidianamente desde criança. Logo, as bordas da consciência começaram a esvoaçar como borboletas. Do outro lado da borda estendia-se um vasto e escuro abismo.  Por vezes, ele estrapolava a borda e sobrevoava esse abismo de estonteante profundidade. Mas Nakata não temia nem a escuridão nem a profundidade. Por que haveria de temê-las? Esse mundo escuro cujo fundo não avistava, assim como o pesado silêncio e o caos, há muito constituíam uma entidade amiga e repleta de nostalgia e eram agora parte dele mesmo. Nakata sabia disso muito bem. Nesse mundo não havia letras, dias de semana, temíveis governadores, óperas, nem BMWs. Nem tesouras, nem chapéus de copa alta. Mas ao mesmo tempo não havia também enguias nem pão doces. Ali havia tudo. Mas ali não havia partes. Como não havia partes, não precisava substituir certas coisas por outras. Nem tirar nem acrescentar. Não era preciso pensar em coisas difíceis, bastava apenas deixar-se impregnar por tudo. E Nakata achava que isso era mais gratificante do que qualquer outra coisa no mundo.
Às vezes, Nakata caía em leve modorra. Ele podia adormecer, mas seus cinco sentidos estavam alertas, vigiando o terreno baldio. Se algo acontecesse, se alguém ali surgisse, Nakata despertaria num átimo e entraria em ação em seguida."

Tradução do japonês de Leiko Gotoda
Editora Objetiva/Alfaguara 2008

Este é o segundo livro que leio deste grande autor contemporâneo de origem japonesa. Sua mistura de referências eruditas e pop nos levam a imersões em experiências impressionantes como a deste trecho, em que uma experiência digna de um guru oriental é vivida por Nakata, um senhor "idiota" no mesmo sentido do Quixote ou do príncipe Mishkin em Dostoiévski. A capacidade deste autor de expor com clareza, simplicidade e naturalidade as experiências mais tabu e limítrofes da vida, as mais inexplicáveis, é um assombro para o leitor. Este autor tem a rara capacidade de popularizar sem perder a profundidade e os detalhes, ao mesmo tempo em que "eruditiza" experiências cotidianas sem nome, imprimindo-lhes um significado transcendental, à la Clarice. Quando terminar a leitura volto para contar mais. Para quem quiser, dê uma uma olhada no escrevi sobre o outro livro de Marakami que li, Norwegian Wood:
http://alerabelo.blogspot.com/2009/05/norwegian-wood-haruki-murakami-e.html

sábado, 29 de maio de 2010

fim da manhã

Até que a manhã representava um consolo. O estômago era o mesmo de ontem, a calça também. Ninguém dorme bem de calça jeans. E a culpa da vida era só isto, uma calça de pano bruto. E dizem que nos libertamos dos espartilhos...
Era doce desdizer a vida numa manhã à beira mar. O céu não anunciava catástrofes, as ondas eram uma canção de ninar com preguiça de se cantar. Talvez mesmo eu prepare o almoço de todos; servirei cuidados sem me sentir empregada, sem ser dona de casa ou mulher independente, moderna. Com as mãos nos legumes, serei ninguém. 
Da porta ao lado ouvia-se o ranger de quem mal acorda.  O quarto dos homens - lembrou-se supondo um bafo quente e acre de quartel militar. Se fosse João, queria flagrá-lo de pau quase duro sob o moleton poído, preto. Sentiria o cheiro de sua urina pela porta entreaberta do banheiro. Mas não, ninguém poderia saber. Seu desejo não era tanto que precisasse ser assumido entre tantos, entre os chistes do grupo inteiro, entre as cartas de baralho jogadas no chão da sala juntamente com os chinelos aspergindo areia de uma semana.
O que faria, para começar? Seguiria sozinha para a praia. Se alguém lhe perguntasse o porquê, diria apenas: fui andar. O desespero pela saúde desculpa tudo. Entretanto, por ora, bastava folhear uma revista do ano passado só para ver as celebridades já passadas. Fingiria uma distração qualquer, tátil, só para observar como cada um acordaria esta manhã.
João apareceu à meia luz e seus olhos inchados condiziam com o céu nublado, com o vento frio que se previa lá fora. Quando não enxergava direito, tonto de ressaca, era mais lindo. Porque não se sabia homem e quase voltava a ser criança, não fossem os pêlos que deixava entrever enquanto coçava a barriga só pela satisfação de ter acordado.
- Só você está acordada?
Ele não conseguia ficar a sós com ela. Não ainda.
- Não sei. Não conferi os outros quartos - ela disse tocando displiscente uma página brilhante e colorida.
João, parado meio tonto na encruzilhada entre os cômodos, apenas deslizou até o banheiro, passando a mão no cabelo armado feito um ninho de pássaro.
Feito um ninho, ela pensou; e fechou a revista em seu colo.

terça-feira, 2 de março de 2010

tarde livre

para talita bello de aragão

Virou a esquina como se fosse uma impertinência. E era. Desatou o último botão da calça apertada, sonhou com um tênis mais confortável, penalizou-se pelas mulheres que, séculos antes, tinham que usar espartilho onde o calor deste trópico convidava a deixar escorrer o suor livre, o leite desperdiçado.

Calou-se sem mais, por dentro, que o andar era tarefa que ocupava demais ao meio-dia. Não ousaria olhar para o céu só para confirmar a ira do sol; sua pressão poderia cair e ai de quem sabe o que mais pode acontecer. E ainda tinha que contar dinheiro e fazer as compras do dia, ambas tarefas já demasiadamente atrasadas para o pendor das dívidas. Ser simples e cotidiana como Fernando Pessoa era agora uma urgência que não deveria ser vivida com ansiedade. Era preciso respirar contra o sol, contra a multidão no calçadão central.

Uma criança chamou sua atenção. A criança, de rosto enrugado em aflição, não era mais o sonho consolador da infância; era apenas mais um. Ninguém é feliz como se sonha. E está bom assim, agora. É bom que os sonhos, neste meio-dia, continuem a ser maiores que a vida. Sonhou um frescor de rosa e isto bastava. Compraria um vaso de flor qualquer, se o dinheiro sobrasse ou pudesse remanejar uma necessidade mais responsável que uma flor. Compraria uma água de côco cortado com facão enferrujado, ao invés de uma garrafa de água mineral esterilizada mas ainda assim envenenada por displiscência de autoridades mais cientes que o vendedor de côcos.

A tarde era para começar, mas não começava, parecia. Era dia de todo mundo, por isso a vontade de torná-lo próprio. Em casa, deitaria no azulejo frio da cozinha e não pensaria em choque térmico. Em casa, deitaria em pleno sol como se fosse para morrer. Cortaria os legumes só quando as visitas chegassem. Pediria desculpas pelo banheiro sujo com certo sorriso de orgulho. Seria feliz para as visitas sem a necessidade de sê-lo, e isso também bastava. A felicidade estava em sofrer o calor e ainda assim sentir-se livre, quase sem corpo. A felicidade era viver uma liberdade clandestina, que não irradiava faíscas de êxtase. Estava atenta e sem esforço maior que o andar; sabia que hoje não seria atropelada. Queria que Clarice soubesse disso, mas tampouco era o momento de ser sentir orgulhosa. Hoje, nem falaria mal do trabalho; cultivaria um egoísmo íntimo que não se compraz na infelicidade alheia. O calor é de todos. O amanhã é para poucos, para os que só andam. Para os que só andam e alcançam um sorriso que não se sabe sorriso.

Então era isso: um sorriso.

Foi assim que tomou a decisão mais séria de sua vida: compraria um sorvete. E o viveria como se fosse sexo, explicitamente. Não para compensar, para sublimar, mas porque era sexo mesmo. Com a rua, com o sol, com o esquecimento de quem um dia se amou por medo de amar.




sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

10 lições para jovens de atitude

uma árvore de atitude

1 - Se você se acha inteligente e sempre acha um jeito sutil de dizer isso, é porque tem a burrice da baixa auto-estima.

2 - Se você defende muito uma opinião, é porque sua opinião não se defende sozinha.

3 - Se o inferno são os outros, é porque você acredita que o paraíso é seu ego. (Sartre era egocêntrico)

4 - Se você acha mais produtivo acusar os defeitos humanos fazendo uma lista de maus adjetivos, é porque não descobriu que os elogios às coisas boas são mais leves e nem por isso deixam de criticar, por exclusão, o que nem merece ser citado.

5 - Se você gosta de reclamar contra a injustiça é porque não sabe agir sobre ela sem perder tempo.

6 - Se você agride quando diz o que pensa em nome da verdade, é porque não sabe se defender de seus próprios pensamentos.

7 - Se você ri de tudo, é porque tem medo de chorar do básico.

8 - Se você acha que ter atitude é ser rebelde, é porque não aprendeu a se rebelar contra suas próprias atitudes antiquadas e é incapaz de ver em si o que acusa nos outros.

9 - Se você tem raiva contra quem não teve coragem de amar, é porque não se ama e só se afirma. A raiva é a atitude defensiva de quem está fraco.

10 - Se você prende a respiração para gozar, é porque tem a esperança vã de segurar nos dentes uma sensação que ainda nem chegou, com medo de perdê-la, e que poderia ser mais intensa e surpreendente se você se entregasse ao desconhecido que é cada trepada. E isto vale para a vida como um todo. É esfolar ou deslizar.

;)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O Espelho no Escuro - 4

ALEGRIA

A alegria é suspeita. Às vezes ela peida, às vezes ela ri. A alegria só é possível se equibrada e atenta entre os dois lados da moeda; sim, entre a morte e a vida. Evitar falar da morte é caminhar para ela do mesmo jeito. Então, que nos atrevamos a ser alegres até quando o assunto é morte. Quem alcança isso nunca mais ficará triste de doer, mas, quando muito, triste de se divertir, de chorar de alegria.
Até conversando me sinto alegre, mesmo sabendo que é difícil concordar universalmente por sermos únicos, por isso as pessoas só se encontram na alegria, que é mais um humor que um pensamento.
A alegria é um sentimento que nasce espontaneamente, mas que também pode ser cultivado. Por exemplo: quando falta alegria, sempre queremos um beijo, mesmo dos mais idiotas e fora de contexto. Observe também que quando a alegria é suficientement constante, nenhum desejo é tão sedutor a ponto de nos arrastar. Pois quem está alegre, escolhe com coragem. E coragem não é ausência de medo, mas o medo sob o domínio da alegria de viver, de la joie de vivre.
Tudo é ambíguo, inclusive a alegria. Essa é a graça e o sistema de pensamento de diversas culturas em vários lugares da história, desde sempre. É uma alegria difícil; Clarice já disse isso e mostrou o que acontece quando a vida perfeita se reconhece na face de uma barata. Como eu disse, a alegria tem sua graça, que é muito específica.
Contrário de alegria? Certeza. A alegria tem a curiosidade de querer conhecer tudo, até o segredo do bem e do mal que - ela descobre - não existe. Ou seja, a alegria é tão absurda quanto necessária; é contraditória, chocante e, ainda assim, serena e pacífica.
Também não custa notar que gente alegre respira bem, mas eu garanto que até um cigarro pode favorecer certo sentido de alegria. Por que não? A alegria é o direito de, quando tudo é sério, dizer "por que não?". É a abertura das possibilidades, a purificação das palavras, a transformação do corpo que dói e envelhece em corpo que aceita o prazer possível de cada fase da vida. Afinal, reclamar é tempo perdido; e tempo perdido não pode ser alegria. Como o trabalho, a alegria é atenta.