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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O Espelho no Escuro - 4

ALEGRIA

A alegria é suspeita. Às vezes ela peida, às vezes ela ri. A alegria só é possível se equibrada e atenta entre os dois lados da moeda; sim, entre a morte e a vida. Evitar falar da morte é caminhar para ela do mesmo jeito. Então, que nos atrevamos a ser alegres até quando o assunto é morte. Quem alcança isso nunca mais ficará triste de doer, mas, quando muito, triste de se divertir, de chorar de alegria.
Até conversando me sinto alegre, mesmo sabendo que é difícil concordar universalmente por sermos únicos, por isso as pessoas só se encontram na alegria, que é mais um humor que um pensamento.
A alegria é um sentimento que nasce espontaneamente, mas que também pode ser cultivado. Por exemplo: quando falta alegria, sempre queremos um beijo, mesmo dos mais idiotas e fora de contexto. Observe também que quando a alegria é suficientement constante, nenhum desejo é tão sedutor a ponto de nos arrastar. Pois quem está alegre, escolhe com coragem. E coragem não é ausência de medo, mas o medo sob o domínio da alegria de viver, de la joie de vivre.
Tudo é ambíguo, inclusive a alegria. Essa é a graça e o sistema de pensamento de diversas culturas em vários lugares da história, desde sempre. É uma alegria difícil; Clarice já disse isso e mostrou o que acontece quando a vida perfeita se reconhece na face de uma barata. Como eu disse, a alegria tem sua graça, que é muito específica.
Contrário de alegria? Certeza. A alegria tem a curiosidade de querer conhecer tudo, até o segredo do bem e do mal que - ela descobre - não existe. Ou seja, a alegria é tão absurda quanto necessária; é contraditória, chocante e, ainda assim, serena e pacífica.
Também não custa notar que gente alegre respira bem, mas eu garanto que até um cigarro pode favorecer certo sentido de alegria. Por que não? A alegria é o direito de, quando tudo é sério, dizer "por que não?". É a abertura das possibilidades, a purificação das palavras, a transformação do corpo que dói e envelhece em corpo que aceita o prazer possível de cada fase da vida. Afinal, reclamar é tempo perdido; e tempo perdido não pode ser alegria. Como o trabalho, a alegria é atenta.   

O Espelho no Escuro - 3

DESEJO

Se não se preocupar, vem um desejo depois do outro. É um milagre que não se explica, nem se aplica a nenhum juízo. O desejo é fugidio. Se você se arroga de saber que tem desejos demais, o desejo não virá com riso, mas com uma respiração sufocada, que não é sua. Deixar fluir com consciência é uma tarefa, como todas, difícil.
Quando se dá nome e cara ao desejo, é a morte da ilusão, embora seja lindo crer também nos nomes, ainda que furados. Não nos esqueçamos: a palavra só age quando falta a atitude, se bem que a palavra cantada em prece profana salve a alma que eu esqueci de acreditar. O desejo é um selo de quanto se vive, é o motor da ilusão de que a vida é só vida; e a morte, bem, já se sabe. Qualquer ilusão de realidade interrompe o desejo; uma porta fechada, uma buzina lá fora, o riso de alguém que acha que ri mas tem medo. Os que não conseguem se haver com suas ocupações invejam o desejo do outro; secos, vampiros, incapazes. Ardentes são os que respiram até o fundo com um sorriso máximo. Esses são os que choram mais também, por aceitarem as coisas como são, apesar dos seus desejos.
Um desejo abortado não é tão doloroso quanto a depressão que se ente após o fim de um desejo realizado, se este se revela ilusão duramente. Cabe a você continuar a acreditar a ilusão ou não. Por isso os hinduístas dizem que para se livrar da origem do sofrimento, em si uma ilusão, é preciso se desapegar de todas as ilusões, inclusive as boas. Não conseguimos acreditar só nas coisas boas ou só nas coisas más; por isso o desejo arde, incendeia, é a própria arrogância do fogo se elevando ao céu sem nunca atingi-lo, embora sejamos filhos do mesmo sol.
O desejo humano, sendo apenas um rastro do fogo solar, acontece melhor à noite, pois é fogo egoísta querendo brilhar sozinho. Apagar a ideia de desejo, negar o desejo, é aceitar todos os fenômenos que nos atravessam como sendo divertidos ou aceitáveis. Este é o desejo supremo: o desejo de felicidade.
Tenho medo de desejar algum ideal de felicidade, mas gosto de investigar a ilusão do feliz. Basta-me o zelo de me ver passar bem cada vez que um desejo me invade e reorganiza meus sentidos e pensamentos sobre a felicidade.
Pensar no desejo é matá-lo. É quando falta a espontaneidade da planta, o jato da cachoeira.
O desejo só funciona quando a imaginação encontra o corpo.

O Espelho no Escuro - 2

PRAZER

Prazer bom é o que não se esgota fácil, e que, mesmo na repetição da tentativa, surpreende sendo o mesmo. Sem dúvida o melhor prazer - e aqui não há nenhuma metáfora - é o que escorrega fácil e que se compartilha com outro par de olhos, sem nenhuma explicação adicional, seja esta o amor ou o egoísmo. Prazer bom é prazer vão, e que, em sua sua vacuidade, não nos furta do presente, antes reconcilia-nos com a dureza inegável do instante. Prazer bom é o que nos convida ao riso e, paradoxalmente, nos dispensa mesmo do sorriso mais breve.
E os outros prazeres, menos dignos, o que são? Tentativa de segurar nos dentes uma inocência perdida que de fato nunca aconteceu. Prazeres incertos também são aqueles filhos do vício, pois que não são descompromissados com a memória de um prazer antigo e com a expectativa de um prazer definitivo. O vício é mortal pois a busca renovada do prazer definitivo é uma ilusão que não se percebe avizinhada da morte, essa única coisa definitiva, essa única definição sem par.
Prazer puro é o que não nasce da carne, embora a atravesse, mas da fantasia. O prazer puro só acontece como recompensa justa a trabalhos em si prazerosos. Prazer puro é a inocência que não se conhece pelo nome num corpo de alma persistente; não é coisa para crianças que fazem birra.
Todo prazer, se é prazer, mesmo que nasça na meditação de um livro, é sentido como acomodação do coração no espaço que lhe cabe e como conforto da genitália que se esquece, integrando-nos com todas nossas partes, integrando todos os nomes de coisas que têm nome. O prazer total é o que rebate na carne e reverbera no espírito, se este o há, como experiência mística, holística, de integração dos seres e desintegração das máscaras individuais.
A dor, ainda que se pretenda universal, tem um nome, uma história, uma situação. Já o prazer é a única expeirência natural (anterior à morte) que iguala os homens, pois mesmo sendo uma experiência tão íntima e circunscrita quanto a dor, provoca o esquecimento e esquece as expectativas; apaga a memória e a esperança; é o que é, sem tempo de ser.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O Espelho no Escuro - 1

ILUSÃO

Você até pode se iludir se quiser, se souber que há um depois, sabe como é. Sabendo, tudo vai. É um plus, já que controle total é impossível. É preciso saber que o prazer não é assim tão grato, que a saúde pede uma urgência que dá trabalho ao senso de realidade, que a carne é fraca mesmo. Nosso lado vulnerável agradece. Alguma coisa a natureza tinha que fazer contra a arrogância de nossas palavras. Há que se fortalecer por meio de exercícios físicos para aguçar os sentidos e manter-se sempre urgente e sereno ao mesmo tempo, o que nos permite sempre estar atento ao equilíbrio entre a depressão e a euforia. Com a respiração no lugar, o choro e o riso vem mais fácil, e nos desentorpecemos melhor dos tantos aditivos que fazem nossa vida diária, comum. O cotidiano é uma festa que cansa. É preciso acreditar na festa e saber retirar-se na hora certa, e com um sono sem culpa. A culpa também é uma ilusão. Nenhuma memória vale a fantasia do presente, pois toda memória só nos fala deste mesmo presente, afinal, e todo ressentimento é um convite a uma mudança num gesto simples. Triste e pior é saber que fazendo esforço demais para apagar as lembranças ruins até conseguimos criar mecanismos de bloqueio, mas nem sempre temos essa máquina tão afinada, e ela às vezes apaga também as lembranças boas que nos ajudam a construir o sonho na dura realidade. Nesse caso, há que se chorar tudo, até o que não foi, e por isso mesmo. A lembrança das ilusões incumpridas, dos desejos abortados, nos ensina a ter mais medida entre ilusão e realidade e, no limite, podemos vislumbrar que qualquer realidade também parece vã, aérea, asbtrata. Quem ultrapassou esse passo é porque já viu a morte, esta coisa que os homens ainda não decidiram se é real ou ilusória. A perspectiva ambígua da morte nos ensina a viver a ilusão sabendo que é boa, criativa, e sabendo que é nada, só aquele momento de vazio quando o coração para e prefere doer. Por isso respira-se. Assim e pronto, uma ilusão e uma desilusão, na mesma inspiração (física e poética). Não é à toa que os mitos associam a ilusão ao elemento ar. E não nos isentemos da verdade nas linhas finais: a ilusão também é fruto da razão. As faculdades aéreas, por sua própria natureza, se confundem. Na dúvida, um chocolate e um copo d'água.

domingo, 29 de novembro de 2009

minha religião

Logo, será mais um dia. Logo, foi só uma madrugada.
(Sim, eu falo de uma suposta história de amor. Agora que eu me retome na entrelinha.)
Esta noite (após a despedida), vi um filme de Bergman sobre o silêncio de deus. Também: conversei com amigos queridos, treinei a verdade, estou bem. Consigo deixar fluir as imagens de todos os tempos com o olhar fixo nas pequenas coisas. Acho que medito até quando não quero. Acanho-me de dizer isso aos religiosos, mas estou feliz. Tudo cai bem. Até um adeus tem seu lugar certo.
Nem bem magoo, já perdoo. Será que soarei arrogante se disser que a compaixão agora me move sem esforço? Tem sido bom demais olhar nos olhos das pessoas sem exigir-lhes amor e dando-lhes, se é pedida, a alegria que eu possa ter recolhido no instante do encontro. Não sei se é bonito, mas é livre. Livre no sentido de caber-me em meu coração, mesmo ao refletir, no encontro, o estado emocional do outro para não ser mais que um espelho de face simples, seja esta cruel ou benevolente.
Mistérios à parte, ainda há muito caminho para todos nós. Eu gostaria de explicar isso para as crianças que me rodeiam, mas elas não querem explicações, principalmente as abstratas e calculadas, ainda que espontâneas. Querem a paixão da carne quando o que lhes falta é imaginação. Não são crianças. E quem sou eu para pedir-lhes paciência? Não adianta contar nossa própria história para os egoístas.
Sim, a vida pode ser engraçada em todos os momentos, pois na tristeza temos ainda o jogo da crítica. Mas não falemos de crítica, pois esta volta e meia é sequestrada para as bocas dos ferinos. O certo é que, na base, até o medo pode ser risonho. A dor então, coitada, não passa de uma noite mal dormida, de uma respiração forçada, de um pensamento obsessivo.
Minha tristeza agora não é uma despedida, e já não é há um bom tempo. Minha tristeza agora é mais universal, perdoem-me a palavra soberba. Minha tristeza é de ver as pessoas apegarem-se a seus ressentimentos para extrair dali alguma suposta força vital. Na falta de controle de si, buscam o controle do outro. Mas também já não é tristeza o que sinto pensando assim, é revolta que me põe de acordo com os ventos.
O que quero dizer é: estão a brincar com a morte. E seria tão mais simples viver. Para estar presente, livre, sem ser presa do passado calculado ou das esperanças desesperadas, não precisamos de muitos deuses e palavras, basta achar bonitas as coisas e suas cores, basta perceber que nenhum som se repete e que, sobretudo, tediosas e uniformes são nossas inquietações paralisantes.
Dito isto em linhas gerais, digo mais no particular: não sou bonzinho, sou humano. Luto contra o riso torto dos enfeitiçados, não tenho lealdade com os que se deixam atormentar. Minha compaixão não é caridade. Sou pouco demais para ajudar quem não se ajuda. Atravessei eras de sofrimento para ser feliz. Sei que é possível chegar vivo na praia e sobreviver no deserto que a continua. Sinto uma espécie tola de pureza que se formou no limite da malícia. Compreendo os pecados o suficiente para desacreditá-los.
Não tenho saudades de nada, mas me lembro de tudo. Cada vez menos saudades, cada vez mais a memória livre. Também não me sinto mais só, estou pronto para amar. Isto quer dizer mais um "cuidado comigo" que um "vinde a mim as criancinhas".
(Sou invisível pois sei que neste texto qualquer um poderia me valer de qualquer adjetivo. Esta é a prova de minha liberdade.)
Uma coisa é certa: tenho um tesão que não morre mais. Já fiquei louco o suficiente para sensualizar até os momentos mais constritos. E ai de quem tentar controlar meu sorriso. Viro assassino em auto-defesa.
Não me julgariam de egocêntrico por defender-me com essas palavras se soubessem que cada um delas me foi inspirada por um rosto diferente. Como eu poderia crer-me irmão das palavras sem ser irmão dos homens, até dos que não quero me lembrar?
Não tenho talento para simulacros. Não que eu tenha certezas, tenho mais é uma fé que não vem do desespero, mas de uma alegria que faz sua manutenção em paz. Antes, eu até me sentia culpado de ver as pessoas sofrerem e sentir-me feliz mesmo na dor compartilhada. Agora, vi que tudo passa, até o orgulho de minha felicidade constante.
Estamos na estação das chuvas de verão. É preciso aproveitar. É preciso dizer palavras mágicas e silenciar sem expectativas. O som da água é maior. O trovão é minha voz. O relâmpago, a cor de meus olhos.
É tempo de crescer com a natureza. Esta é minha religião. Para quem não entendeu, outro dia eu escrevo uma história de sexo fácil. E que isto lhes sirva de mantra.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

o livro do mundo

Para mim, tudo agora é um grande livro, como sonhava o bibliotecário de Babel, em Borges.
Porque tudo virou ficção. Não que eu me tenha perdido do real. Eu só deixei para trás, por cima dos rastros e dos ratos, a ilusão da realidade, mãe de todas as ilusões. Veja bem: eu não disse abandonar, mas deixar...
Tudo e agora cabem neste livro. Cada história se concatena a outra e o livro acaba por não contar história alguma. O livro é, quem sabe, só uma antena. Acaba sem contar nada talvez porque eu ainda não tenha morrido - só entre um capítulo e outro - ou mesmo porque o livro me ultrapasse e não tenha fim.
São essas metáforas bobas que me vêm numa manhã de sexta-feira. Eu dizia: penso em todas as ilusões e em sua verdade, penso na verdade e suas ilusões. Por exemplo: eu começo a acreditar que amo - algo, alguém -  logo amo por mentira e, no oposto desta experiência, também passo a acreditar mais no amor do que em meus amores. Assim, clareia o dia enquanto me compadeço dos erros de quem acredito amar e, quando canso disto, parto para um amor maior, qualquer, besta, amando quem meus amores ainda não foram capazes de se tornar. Tenho percebido que mover as contradições, ao invés de ser movido por elas, ensina a respirar melhor que ioga. E olha que eu "amo" de "verdade" as índias...
Antes, eu até achava que essa paz fosse conformismo, agora rio das paixões não com o sarcasmo de quem força um sorriso de vitória forjada na cara do inimigo, mas como quem ri de uma criança, com uma criança, como uma criança, surpreso de quedar-se numa coisa pequena.
Também é bom para a manutenção dessa paz que eu me queixe um pouco das noites que a tiram de mim, quando sou obrigado, pela força da guerra que traz essa mesma paz, a ir cada vez mais fundo em meus ressentimentos - que são sempre da carne, há que se dizer; e até isso é bom, pois no cerne da carne solitária e jovem eu admito que envelhecer é uma arte que me rejuvenesce, enquanto eu era só a chatice da velhice, e por isso a temia.
Tudo faz tanto sentido em minha comédia humana que até meus parágrafos ficaram mais circulares, fechando os pontos em que se abriram, volteando no labirinto maior, essa folha branca de caminhos que se refazem mais rápido que a luz. Esse labirinto, maior, absurdo, ri de mim. Por isso inscrevo-me neste livro total e presente, de que falei no início, para rir do labirinto também.
Pronto, voltei ao começo.
Então, o fim.
Mas com palavras. Com palavras de silêncio, de mistério. Crio ganchos para os próximos capítulos, pois para que servem as conclusões senão para nos revelarem nossos estados de êxtase, quando tudo fica parado no apego de uma emoção que se deixa dominar por um nome fixo? Mas devo dizer que também já não temo o êxtase, apenas passei a viver no êxtase de desacreditá-lo. Nada como usar a própria arma para desarmá-la.
Exteriormente nem tudo vai bem, mas estou tão feliz que calarei a boca com um sorriso discreto e convidativo. E seja lá quem você for, sim, você mesmo, seja bem vindo - se lhe aprazer ser leitor, é claro, pois já cansei de quem se embriaga com as próprias palavras (tem gente que lê um livro e acrescenta a este outros tantos livros de comentários egocêntricos, enquanto me vejo cada vez mais lendo vinte livros para extrair um frase). Enfim, se você se reconhece nessa minha tentativa de explicar-me explicando qualquer um que eu não conheça, bem vindo, bem vindo ao livro do mundo.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

a pobres garotos que buscam um estilo muy rico

Para Voltaire e Oscar Wilde
Olhou-se no espelho da manhã, mediu os ângulos para verificar se a ponta do nariz permanecia levemente acima do horizonte, se cada sobrancelha erguia-se na incredulidade exata, fez biquinho para disfarçar a boca murcha de uma ressaca de anos. Oras, no mundo contemporâneo a vaidade masculina é artigo de revista, é coisa natural. Ele adorava falar do mundo contemporâneo como se fosse coisa muito natural.
O celular toca. Ele atende andando firme pela casa, de uma parede a outra, pois mesmo emerso de sonhos duvidosos que a noite lhe deixara, é sempre bom demonstrar uma paixão incontestável pelas ocupações cotidianas, ainda que expressa com certo ar entorpecido, para não parecer efusivo demais. Ele chamaria esta atitude de "equilíbrio", se já não tivesse abolido de seu vocabulário qualquer palavra que parecesse hippie demais.
- Olá! (preciso mostrar que estou contente em falar com ela) Estou bem... (um pouco de autocomplacência sempre chama a atenção). Sei...(vou mostrar que compartilho as preocupações da empresa como se ganhasse a mesma grana que ela)  Entendo... (cala a boca e me fala logo que vou substituir aquele imbecil) Que pena que ele agiu assim. (Coitado, deu uma de revoltado) Não se preocupe, eu posso fazer isso também. (eu sou bom, eu sou bom, eu sou bom) HAHAHA (não estou rindo da sua piada, mas da sua idiotice).
Sim, alguém caiu e agora ele poderia se levantar em seu lugar. É uma lei natural, e sou livre, livre, livre. Mas é melhor não dizer essas coisas em voz alta, ainda que muy justas, pois se deve ser humilde, simples, educado como os jovens de vinte anos que parecem saídos de uma piscina quente mesmo no pior dos eventos. Garotos que ele invejava, embora dissesse que "admirava", afinal existe certo charme em reclamar displiscentemente do próprio envelhecimento. Tudo é uma questão de conhecer um novo creme e de ser esperto o suficiente para não se divertir nem um pouco na balada mais recente, onde seria por isso mesmo invejado e vingado. Claro que não basta frequentar só casas noturnas, mas também aplaudir um "evento cultural" incompreensível com certa condescendência de quem sabe das coisas. O equilíbrio está, enfim, em espetar bem o cabelo para compensar a cara caída.
Já fazia um certo tempo que ele tinha medo de ser curioso, pois isto faz o peito bater e é melhor não demonstrar muito entusiasmo, emoção esta que faz o corpo parecer tenso demais. Ele perdia a inocência acreditando que perdia a burrice. E se alguém lhe dissesse que estava perdido, ok, pois está na moda ser "bem louco", seguindo pelos mesmos novos velhos circuitos, pelas mesmas novas velhas caixas de concreto superpopuladas. É bom estar na multidão, desde que não encostem nele. É bom cultivar uma dor infértil que ele acredita ser rebeldia, que faz querer ser parte de tudo um pouco, mas sem se aprofundar em nada, pois nada vale o engajamento de sua alma, só de seu corpo. E quando não consegue fazer parte de nada, quando não consegue ver a solidão como algo natural tais seus cabelos camufladamente planejados, repete com voz letárgica o mantra dinheiro, único valor concreto, realista, inteligente. Mas não dizia para os outros seu justo furor, pois não é de bom tom; ninguém dá emprego a um desesperado que pode soar como um revolucionariozinho de merda. O negócio é ser desesperadamente criativo, pró-ativo, ser melhor que os pais jamais foram, pois mais veloz - sim, ele acredita que ser inteligente é ser rápido. No fundo, aguarda ansioso o sucesso visível, não esse só de sua bela alma que se conhece. Quer um sucesso que tem a cara dos ambientes feericamente iluminados e perfumados que fazem a noite valer a pena. O sol é demais e faz suar.
Está tudo bem, pois quando está tudo mal resta ser sedutor, competir pelo melhor sorriso, passar batido por um choro de morte pois a morte não vale pena nem choro. É deselegante ser vulnerável, alguém pode ver. Há que ser forte, ou seja, duro.
Ao menos ele sabe glamurizar suas lamúrias. Ele não vê porque clamar aos céus como besta-fera inútil até para o sexo. A culpa é da cidade, mas há parques belos para percorrer. E ainda bem que tem parques com gente bonita e astral e saudável; as árvores não lhe bastariam com seu silêncio vivo.
Tudo é muito sofisticado e engraçado e interessante para que se perca tempo, para que se perca tempo em devaneios, para que se perca tempo em pensar, em pensar sobre si. Quem pensa demais parece muito egocêntrico e arrogante. E além do mais a palavra "hedonista" é mais sonora que a palavra "pensar", sem contar que uma droguinha transforma mais rápido que um livro. Livros são bons apenas para ter assunto. Para se enxergar, basta o espelho da juventude. Isto não é ser fútil, é ser antenado.
Mas, às vezes, por uma fração de segundo, o espelho lhe dói, e nem mijar com seu belo e potente pinto lhe alivia quando não suporta ver seu rosto por ângulo algum e só restam os olhos, os malditos olhos. Porque às vezes, às vezes, não dá mesmo para iludir o quão difícil é a tarefa de amar-se. Mas ele não sabe disso. Tolos somos nós que sabemos, que choramos, que somos "deprimidos". 

sexta-feira, 15 de maio de 2009

...a trip...

Foto de Jack Kerouac, "quem quero ser agora",
tirada pelo Allen Ginsberg, em 1953,
época de grandes trips para essa turma

Meço o que há de errado em minha vida pelos pensamentos errados que tenho sobre o amor. Entenda-se errado como autodestrutivo.

Sou um palhaço torto e careca ou um galã sempre pronto para o sexo? Desejo estar no fio da meada.

Ando assumindo que sei menos sobre mim do que sabia. Não me enxergo com a mesma frequência de antes e quando o faço, sou cruel. Ou era. Mas ainda me acho feio e magro e branquelo e velho e pesado. E viciado em cigarros.

A juventude me anima e depois me cansa. A velhice dá esperança e depois o mesmo. Ando muito cansado de quem tentei ser e não consegui.

E lembro de todas as paixões recusadas por algum trauma oculto, digno do cu; paixões platônicas dessas de idealizar no outro aquilo que não se tem coragem de viver. E me sinto fraco e preciso treinar meu corpo para treinar a mente. "Corpo são e mente sã". Novamente o ideal grego da felicidade. Falta a praia.

Numa dessas noites, numa dessas pessoas vejo a juventude despreocupada, repleta de possibilidades, aberta e livre. Vejo a beleza da naturalidade. Vejo o ingênuo jogo de esconde-esconde onde sou eu quem mais se esconde e é o outro quem mais revela.

Queria chorar por nunca ter tido vinte anos de fato. Porque sei que conquistarei o que me faltou, mas com lucidez e cansaço. Sorrio entretanto - sei que é difícil para todo mundo que eu gosto.

Tem noites como esta que eu queria morrer só um pouquinho, durante alguns meses, só para me tornar mais forte, em conexão com os sonhos, em desconfiança com a realidade, no esquecimento do que me atormenta hoje. Porque "há sempre alguma coisa de ausente que atormenta." (Camille Claudel) O outro não me amará com desejo. Ou seria descrença minha? "Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças." (Fernando Pessoa)

Penso nesse outro com pele morena, plexo solar aberto, sorriso ingênuo e olhar caloroso, pronto para a vida, sem julgamentos, dando-se ao prazer com arte e perícia, amando cada vez mais e melhor. Esquecendo-me em meu canto escuro, em meu limbo ilusório. Queria que o outro me olhasse de fato. Talvez olhe e me veja feio como me sinto na metade do tempo. Queria ser alegre o suficiente para amar. Eu queria me amar para ser alegre o suficiente. Não quero amar este Alexandre. Tenho que mudar! Tenho que partir para o desconhecido, para a revolução de costumes, para a graça lisongeira da beleza natural. Prefiro sentir esta angústia do que o tédio.

(De uma certa forma me contenta saber que cheguei aqui sozinho, na paciência de depurar no tempo as coisas sem nome, mas óbvias. Escrever verdadeiramente vem da força de querer enfrentar uma angústia noturna. Escrevo também para absolver-me de alguma culpa.)

O outro é a árvore de frente para varanda de casa: abaixo da altura de meus olhos, mas, ainda assim, de um mistéio inacessível. Quando o outro ri de mim é a natureza que ri de mim. Quando rio na cara do outro é a sociedade rindo da natureza. Preciso fazer mais gostoso... Não digo que eu queira viver a vida de pau duro, nem na ilusão do êxtase, mas tenho direito, ao menos, a um estado de proeminência de todas as aventuras.

Agora caço dinheiro, amor, estudo, aprendizado, paz, abertura, sexo despreocupado e intenso. Sou mais um. Mas sou muitos, e quero cada uma de minhas vidas como uma possibilidade quase palpável nos horizontes. Sim, sou mais um.

Quero saber fazer novamente belos versos de amor, desses que só sorriem.

Voa pássaro mutante da praça central. Leva o meu canto. Adormeça antes do sol raiar. Se aqueça nos cantos seus e dos galhos, enquanto a noite resfria.
Um duro caminhão passa pelo cruzamento, três andares abaixo, cachoalhando ferro. Foi-se. Novamente o milagre do pássaro a cantar. Acho que estou conseguindo. Digo: ser feliz. Besta e prontamente. Estar vivo no prazer de fluir, sem acomodar-se a nenhum pensamento, nenhuma ruga, respirando para libertar-se de tantos estado de alerta. Flutuar. Dormir. Acordar. Dançar. Cutucar o instante. Aprontar, agir, desarmar, esquecer. Esquecer-se no outro, no corpo amante, suficiente, equilibrado. Lembrar-me de mim o tempo todo para conquistar o direito de não ser mais ninguém.

terça-feira, 31 de março de 2009

lapsos da eternidade


Assim que sintonizo um pensamento certo, só espero adormecer o mais rápido possível e cair na irrealidade profunda dos sonhos. Não porque considere que o inconsciente seja mais nobre que a consciência, mas porque detesto me embriagar de mim mesmo. Porque sei que a certeza me vence onde o medo me usurpa. Assim, espero contradizer meus pensamentos com sonhos de origem desconhecida.

Mas, quando sonho bem, também desejo voltar a pensar adequadamente o quanto logo. Não chega a ser um propósito, pois também não me agrada esta ansiedade de sempre preferir estar um passo à frente de mim mesmo; sei e sinto que é bom contentar-se no instante presente, perfeito e imperfeito, completo e ausente. O que me agrada é assumir uma contradição. Mas isto também, nem sempre. Tenho medo de mim na maior parte do tempo, por isso me movo para frente, mas é justamente aí, no movimento progressivo, que a contradição reaparece, contraditoriamente. Já quando confio-me demais, sinto uma preguiça quase eterna, sem vontade de expandir ainda mais o universo.

Quero, sobretudo, aprender a nascer e morrer sem perder tempo, embora saiba que quando me perco no tempo dos homens, torno-me, ainda assim, alguma coisa que cabe neste mundo, meu e nosso.

Enfim, a paz é uma guerra constante; o riso, um choro; cada banalidade, uma sabedoria; cada significado, um espanto mudo e sem sentido. E pronto. Agora sim podemos jogar este texto no lixo e fingir que foi apenas sonho difícil de lembrar. Isto não é conselho nem presente de grego. Entenda assim: a compaixão me move onde a raiva me falha. E vice-versa. E viva o verso.