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terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

carta a jovens rebeldes

David e Golias - Caravaggio


Tenho conversado cada vez mais com jovens rebeldes, dos mais diversos tipos de inadequação. Quanto mais conheço suas necessidades, mais percebo que o que desejam é um ouvido paciente para exercitarem o galope selvagem de suas contradições, sem censura. Por outro lado, procuram corpos como se estes fossem apenas ouvidos.
Todos assumem ser a arte o interesse mais verdadeiro. E todos têm medo e buscam em minhas palavras, na boca que as emite, uma razão corajosa e louca para realizarem seus sonhos inconfessáveis de expressão, prazer, poder, paz. Sabem-me como alguém que lhes incentivará o desvario calculado, com o benefício da dúvida, da ambigüidade, do mistério, magia, todas as palavras grandes que os homens se inventam para se cercar de importâncias. Comigo querem falar sobre o amor, começo e meio e fim. Querem falar sobre loucura, responsabilidade, impulso, sexo, pessoas, bichos, poesia, tempestade, festas, filmes, dramas, mantras. Sobre terra, céu e mar. Revelam-se como eu, tímidos, inseguros, covardes, melancólicos, tristes, sombrios. Uns desdenham a palavra deus, outros a palavra amor. Armam-se de palavras para alcançar algum gozo, preenchido de idealidades outras, sonhos de carne inconfessáveis, nos mais diversos estilos musicais.
Pensei em escrever uma carta a todos estes jovens rebeldes, com a intenção de expressar possíveis relações sobre assuntos que vejo serem mais repetidamente evocados. Também falo com a intuição de que lhes fará algum bem sentir que suas questões mais presentes são reais para uma coletividade maior, embora eu me dirija a uns tantos rebeldes em específico, mas sem ferir suas individualidades, e sim tentando desvendar o que possa ser superior à nossa solidão, dita existencial.
Reparo que quanto mais tomamos parte em experiências extremas, segundo nossos próprios critérios, mais dizemos, sentidamente, a palavra solidão. Pois conhecer abismos nos individualiza. E sigo dizendo que é uma questão de tempo, paciência, delicadeza, segurando nos dentes as rédeas dos próprios impulsos, sabendo que todos queremos convencer ou confundir nossos pares, cheios demais de desejo para já trabalharmos na disciplina consciente do equilíbrio justo entre dor e prazer. Todos queremos confessar algum grande crime de amor, para nos sentirmos superiores a nossas próprias palavras.
Os mais ousados expressam-se através das artes. Plásticas, literárias, teatrais, cinematográficas, musicais. Primitivas e ancestrais, futuristas e cósmicas. Arrogam-se de conhecer a realidade dura da pedra, do dinheiro, do poder e do interesse. Afirmam sentimentos fugazes em nome das últimas verdades de que se armaram, em sua leitura convulsiva do mundo. Eu sigo dizendo: a arte mais básica é a da respiração, mas, sendo jovens, conscientizamo-nos disto apenas durante um beijo.
No fundo, o que eu poderia dizer de verdadeiro, com valor de lei, de acordo com minhas reais atitudes? Este parece ser nosso problema mais crucial ainda. A medida entre palavras e atos. Ora sou incerteza, ora homem, ora coisa. Não quero dizer que o consolo da razão garante a felicidade, mas saber escolher é sobreviver melhor.
E há que se ouvir os sonhos, onde estão as conexões mais antigas, mais próximas de nosso ser primordial, as conexões mais comuns, mesmo as que um sonho faz crer que sejam inéditas. Há que se navegar pelos sonhos, no medo, na idéia de que há luz e escuridão. Mas, acautelem-se na hora de brincar com fogo! Quem brinca com fogo realmente faz xixi na cama. E já acorda com medo, um pouco mais queimado, com a pele mais insensível e a vista mais ofuscada. O fogo é para ser reverenciado, mas não como um ídolo, e sim como o emblema mesmo do mistério superior à vida de um homem, este ser nascido no tempo. Cada elemento simples e eterno deve emanar constantemente seu poder sobre a fraqueza e força de um homem.
Devemos nos entregar ao simples jogo de crer que há um mistério para fora de nós mesmos, deve haver um mistério maior que este que enxergamos em outro homem ou mulher. Deve haver algo além das palavras amor e deus, um outro sopro sutil indefinido e quase inaudível. Senão, a matéria e suas leis, sempre tediosamente arbitrárias, mortais...
A revolta é a atitude de imaginar uma realidade superior à nossa, pela leitura intencional dos sinais que nossa realidade mais concreta parece apresentar. Pois se toda crença é vã, que possamos estar ao menos conscientes de que construímos nossas vidas como uma ficção, uma história para se contar, e ainda assim que possamos dar cada vez mais crédito a nós mesmos. Devemos ser honestos e assumir quem são os homens de quem roubamos nossos argumentos. Se não dermos forma à revolta, ela nos mata.
Meu partido é a capacidade de criar histórias, ficções, fantasias onde o cotidiano se revele sobrenatural, convidando-nos a mergulhar até o fundo da ilusão para perceber seu caráter de máscara, simulacro, pele morta. A magia dos fogos universais não pode ocultar senão um silêncio, que é de cada um e de todos. Para estarmos atentos a nossas relações com o mundo, para aventurarmo-nos com certa segurança, é preciso termos como porto este silêncio incognoscível, esta curiosidade franca e latente.
Toda história, em nossas vidas ou fora delas, sempre retorna ao silêncio que a originou. Não há verdade mais eterna que o silêncio. Há apenas testemunhos aos quais podemos nos agarrar com a justificativa da fé, sejam esses testemunhos obras de pastores ou poetas, criadores de sons e imagens, cientistas ou feiticeiros.
Se nossa revolta nos impele às vezes a desdizer os mestres antigos, sejam estes professores, amantes, poetas ou estrelas, sejam velhos amigos solitários, por que então gastamos nosso tempo e palavras em desdizê-los? Por que não dizemos, enfim, apenas o que desejamos? Eu sei... Porque não há nome que nos emule... Ainda queremos viver de segredos, mesmo quando sabemos ser mais saudável e divertido expor com coragem nossas contradições. Eu sei, temos de nos mostrar como soldados, fortes, preparados, inocentes da própria hipocrisia.
O fato é que estamos sempre fazendo jogo duplo, triplo, quádruplo, como acrobacia que nos permitisse atender a nós mesmos, de um lado, e aos nossos desejos, tão estranhos a nós mesmos. Somos livres, mas queremos possuir a liberdade do outro, se possível. Seria melhor assumirmo-nos frágeis, selvagens, flexíveis, úmidos. Melhor seria respirar e rir. Melhor seria criar ou calar.
Já no fim desta carta, tendo dado forma ao que a observação mostrou ser o mais urgente, sinto alguma rebeldia se lançar estômago acima, tentando caluniar inutilmente o que acabo de escrever. Mas uns outros lados meus, chiaroscuros, se contentam, sem auto-complacência, implacavelmente.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

epistolário grandiloqüente elisabetano

Vrubel -Hamlet e Ofélia
Carta de Hamlet a a Ofélia, em seu túmulo


"Não há nada de que o homem tenha tanto medo quanto saber as enormidades que ele pode fazer e se tornar."


Kierkegaard, Filófoso dinamarquês



O que eu poderia dizer agora que estás morta, e eu havia te matado ainda muito antes, seguindo atalhos diferentes dos de tua companhia? Por que, linda Ofélia, insistiu em cantar profundidades suspirantes que não chegam sequer a adornar esse momento? Estás estupidamente lançada de seu turbilhão expressivo para este estupor eterno em que te vejo agora. O mundo é enfim esta surpresa serena que diviso em seus olhos cheios de vácuos? Você é mais uma morte, querida. Agora que retorno do estrangeiro, do país dos mortos, sei que minha revolta era certa, que devo entregar minhas ações ao juízo dos homens, decidindo sobre tantas vidas, com medo de abdicar do sonho que sonhei a teu lado, enquanto te irradiavas para dentro de teus cantos.


Não está mais frio aqui que na cova de meu pai. Também levantarás da tumba para me falar em sonhos? Tomarei lúcidas precauções. Bendirei os amigos mesmo sem saber que amizade importa àquele que não se conhece, ou que se ama e segue, de coração entregue a um prazer de cercar mistérios. Nunca mais os tédios das juras de amor. Receberei a verdade na cara limpa, de quem vier me dizer. Visitarei os xamãs das montanhas e grutas, beberei de seus encantamentos, lembrarei de você como uma verdade boa que me fez acreditar numa eternidade em que brevemente possamos nos encontrar.


Mas agora estou morto, e tenho por companhia seu vulto inerte. Escolho entre dor, o esforço da esperança, ou o tédio que se torna dificilmente risível depois.


Que terra de sonhos acolherá o sonho dos amantes? Eu estava preparado para partir em teu favor, porém escolhi a bravura de mergulhar no passado e tu me pareceu um surto juvenil, uma escolha espontânea, sincera, absurda, louca, feliz por um momento. Juntos, percorremos com risos e silêncios a grande cidade. De alma demos tudo, de corpo demos pouco. Os atos paralisaram pelas necessidades cruéis que nos acomodam ao conforto, chegamos a temer e depois a repudiar essa vontade de arriscar na terra de todas as oportunidades, de todas as guitarras. A dúvida me paralisou num solo fino que parecia linha terminal. Queria paz, mas reencontrei o êxtase em minha nova condição duvidosa, antes negada pelo sonho do amor. Com você eu tinha a paz da idiotice certeira mas entediei-me, achei covardia, equívoco, um erro contudo não arrependido. Uma benção que nos faturei com meu poder e sua aura de encanto. Agora, as obrigações. Nos veremos de novo, eu me tornarei um ser capaz de reencontrar-te, quando, aonde for. Não morreremos, Ofélia, não morreremos jamais. Este é o selo desta carta que entrego ao apodrecimento das horas. Deixo alguém contigo neste túmulo, mas acrescento um outro em mim, um que silencia com o que vê e que pressente o que vai acontecer.


Fui aberto a você. Mas, ainda éramos bichos recuados. Havia muita arte a construir juntos. Muita energia que foi convertendo-se em preguiça ante o descontentamento de ter de fazer novas relações entre as pessoas, pensamentos, sentimentos, objetos. Ter de reinventar a humanidade, quando eu retorno para o que é familiar.


Eu serei um artista, além de reinar sobre os poderes que me legaram, eu saberei inventar novas histórias para os homens, para o que eu posso reencontrar de humano em mim.

Minha doce criatura, éramos crianças. Quem seremos agora?


grandiloqüente epistolário elisabetano

Millais, Ophelia


Carta de Ofélia a Hamlet,

castelo de Elsinor, paisagem bergmaniana,

música incidental "somewhere there's a feather", Nico

Entre as cartas que te devolvo, deixo esta entreaberta, para que vejas logo o que tua loucura ainda permite ver, para que não rasgues, no impulso de uma esperança de esquecimento, um caminho que te valeu as penas, já entre tantas que nos acometem.
Vejo a arte em teus jogos de segredos e provérbios cifrados. Defendes o sentimento da revolta plena contra a injustiça da morte, não querendo mascarar com nenhum sentimento ideal de salvação a dor de ter de viver aprisionado nesses muros frios, detentores de tantos poderes. Calejas-te na dúvida, cruel, rancorosa, e desdenhas com soberba as fracas alternativas dos que te acompanham. O que eu e tua mãe, únicas mulheres neste antro de lobos famintos, poderíamos fazer a não ser defender nossas penas com sussurros de amor ou surtos silenciosos? Tua dúvida e desdém contra a própria vontade, violentada pelo conforto de ter as honras, tua revolta contra o desejo emancipador não te livra do ciclo de prazer e dor, girando onipotente sobre a umidade tediosa de nossos destinos marcados. Ou teremos salvação em terra estrangeira?

Aqui já houve quem jurasse o amor, por esquecimento também, pelo luto até, pela certeza de que, num homem, um futuro rei, uma visão ideal do paraíso e uma verdade de anjo que visitou o inferno reinariam no unguento único que é o compartilhar da dor, este momento de doce dificuldade que antecipa a comunhão das almas perdidas.

Mas não descobrimos a paciência. Nem nós, os amantes, nem eles, os inimigos, os mercadores. Agora, fingindo uma loucura maior do que todas, tu te orgulhas de se isentar da hipocrisia. Qual de nossos orgulhos será o mais justo e verdadeiro?

Que fantasmas domam o teu nome, Hamlet? Que palavras afora o desgosto, a vingança, a frieza, alijam teus pensamentos nas noites longas de nossos invernos?

Enquanto o passado nos paralisa, cada um desce o próprio fosso, preparando já a própria cova, ebulindo venenos, dando nós em armadilhas, escarrando maldições.

Com teu pai morto, mataste o meu. Aquele adulador não guiará meus caminhos mais, pois que me amaram por um instante breve e preciso como a morte que me mostrou. Ganhei coragem para ser louca, mas de verdade Hamlet.

Resta-me a mesma razão enlouquecedora que embruteceu teus sentidos ou o vão desepero de cantar as lembranças boas, como se nada mais existisse. O que eu escolheria?

Você ainda pode escolher em se deixar distrair pelos palhaços que te põem ao redor, enquanto crê na leveza do entrelaçar de uma vingança que faça precipitar um traidor para tornar outro traidor igual, bandido, entronado. Quais liras e jogos de espelho e jovens te distraem nesses dias?

A adulação e a falsa cumplicidade sitraem-te da incerteza de um amor precipitado, ele também, nos abismos de sonhos grandes, e por isso mesmo nobres, em terras novas. Quando fugiremos, Hamlet? Por que não fugimos, príncipe dos mares do norte? Em que praia realizaremos as imagens ditadas pela lua? Que sofros funéreos o astro noturno bafeja em tua cara nessas noites de tempestade?

Antes do dilúvio, era a certeza da carne, animada pela vida que nos restou. Meu colo era terra e chamas. Inquietos, procurávamos nos aperfeiçoar para o futuro. Agora, o passado. Devem ser só essas noites de infindas festividades. Ninguém sabe se chora o luto ou celebra o jubileu.... Vamos esperar Hamlet, guardemos nossas canções, essas outras canções, para depois, quando nos encontrarmos de novo no átrio do silêncio, para experimentarmos juntos, sem espanto ou ilusão, as magias universais.

Eu não tenho mais em que acreditar a não ser em milagres, Hamlet. Quero me lembrar de tantos sonhos juvenis, impetuosos, ousados, que foram capazes de salvar a história dos homens, distribuindo o pão, tornando ao menos compatível com a natureza nossa natureza excessiva.

Não quero tua atenção para que cuides de mim, mas para que deixe provar só o que for amor, chame isto uma coisa boa, sem juras, sem segredos, mas plena do silêncio confortável que só cumplicidade mais sobrenatural pode mobilizar.

Acredite-me sem ardis ou confissões, caro amigo, o que tinha para te dizer como amante já foi dito por outros amantes, agora falo como amiga, por amor dos homens, na hora urgente e atual, das celas que nos destinaram. Sim, o amor está para fora daqui, deve estar, mas o que faremos de nós mesmos, ainda que por jogo? É só angústia agora, de não fluir a imagem certa de um amor que assaltamos dos bolsos de nossos inimigos. Esperemos, Hamlet, Esperemos.