quarta-feira, 25 de março de 2009

Máximas Ínfimas




- Sou feliz e triste ao mesmo tempo, pois o tempo não existe.

- Tenho medo da morte quando temo a vida. Quando não tenho medo, não existo.

- Rezo para os grandes escritores e leio deus.

- Só me expresso quando estou vazio. Quando estou cheio, só sei morrer.

- Estendo a mão para me curar no amor que possa dar. Prefiro esse egoísmo à pretensão de salvar quem me salva.

- Ninguém me salva de mim. Prefiro ser meu pior inimigo para sempre precisar de um amigo.

- Se as pessoas fossem uma raça em extinção, talvez eu gostasse delas como gosto das baleias.

- Compreendo a juventude porque ela também não se compreende.

- Defender idéias é assassinar o tempo. Atacar idéias é suicídio.

- Troquei umas palavras com o silêncio, mas ele só me disse o que eu já sabia.

- Eu acerto para sobreviver e erro para viver.

- Se esqueço é para começar de novo. Se recomeço, é para me esquecer.

- Quando percebi que era preciso saber muita coisa, as coisas deixaram de existir.

- A injustiça me enraivece; a justiça me entorpece.

- Só mudo para ser o mesmo, e quero ser o mesmo para ser o outro.

- Eu digo dor com quem diz sorriso. Quando sorrio é por não ter o que dizer.

- Eu digo amor como quem diz ansiedade. Quando anseio é por não ter o que amar.

- Quem se arroga de ser louco descobriu a pior desculpa de todos os tempos. Quem se arroga de ser são, não descobriu nada.

- Uso o vaso sanitário para pensar. Os pensamentos eu uso para expelir fluídos.

- Ardo para aprender a respirar. Respiro para desaprender.

- A eternidade me conduz pois só nela me perco. O tempo não me diz nada pois só nele me acho, e não sou nada.

- Sinto-me só pois do contrário me sentiria inteiro. E só é inteiro quem conheceu tudo, inclusive a morte.

- Gosto muito de dinheiro, só não gosto de quem ele pode comprar. Mesmo assim, as compro quando posso, para desmascarar.

- Tenho esperança porque o desespero me cansa.

- Não sei expressar essas verdades prontas, por isso só as jogo. Quem sabe aí eu me invente por um dia ou mais.

- Desejo a paz como quem não deseja mais.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Desejo e Ilusão


" 'Assim como o fogo é envolvido pela fumaça, um espelho pela poeira, e o feto no ventre materno pelos tegumentos que rodeiam o embrião, assim também a compreensão é envolvida pelo desejo. A inteligência superior (jñana) do homem - que intrinsicamente é dotado de perfeito discernimento (jñanin) - está cercada por este eterno inimigo, o desejo, que assume todas as formas possíveis e que é um fogo insaciável. As forças sensoriais (indriya), a mente (manas) e a faculdade de compreensão intuitiva (buddhi), são todas consideradas sua morada. Por meio delas o desejo atordoa e confunde o Possuidor do corpo, velando sua compreensão superior. Portanto, começa por sujeitar os órgãos dos sentidos e mata este maligno, o destruidor da sabedoria (jñana) e da realização (vijñana). As forças sensoriais são superiores [ao corpo físico]; a mente é superior aos sentidos; a compreensão intuitiva, por sua vez, é superior à mente; e, superior à compreensão intuitiva, aquieta firmemente o eu por meio do Eu [sa: o Possuidor do corpo, o Eu], e mata o inimigo que tem a forma do desejo [ou que assume qualquer forma que lhe agrade] e que é difícil vencer.'

'Ao contemplarmos os objetos dos sentidos interiormente, visualizando-os e ponderando-os, criamos apego a eles; do apego nasce o desejo; do desejo surgem a cólera e as paixões violentas; da paixão violenta, o atordoamento e a confusão; do atordoamento, a perda da memória e do autodomínio consciente; desta perturbação, ou ruína do auto-controle, advém o desaparecimento da compreensão intuitiva; e da ruína da compreensão intuitiva vem a ruína do próprio homem.'

A técnica de desapego ensinada pelo Bem-aventurado Krishna na Gita é um espécie de 'caminho do meio'. Por um lado o devoto deve evitar o extremo de se apegar à esfera da ação e a seus frutos (a busca egoísta de propósitos pessoais, com avidez de aquisição e posse), e pelo outro, deve-se evitar cair, com o mesmo cuidado, no extremo da vazia abstinência de toda espécie de ação. O primeiro erro é aquele proveniente do comportamento normal do ingênuo ser mundano, propenso à atividade e ansioso pelos resultados. Isto leva apenas a uma continuação do inferno da roda dos renascimentos: nossa costumeira e inútil participação no sofrimento inevitável que acompanha o fato de sermos um ego. Enquanto o erro oposto é o da abstenção neurótica; o erro dos ascetas absolutos - como os monges jainas e ajivika - que se entregam à vã esperança de que é possível livrar-se dos influxos cármicos simplesmente através da mortificação da carne, fazendo cessar todos os processos mentais e emocionais e matando de fome ao corpo. Contra essas coisas, a Bhagavad Gita apresenta uma concepção mais moderna, mais psicológica e espiritual: Age! porque, na verdade, agirás não importa o que faças, mas consegue desapegar-te dos frutos! Dissolve assim o amor-próprio de teu ego e com isto descobrirás o Eu! O Eu não se preocupa nem com a individualidade interior (jiva, purusa) nem com o mundo exterior (a-jiva, prakrti)."
Filosofias da Índia - Heinrich Zimmer

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

carta a jovens rebeldes

David e Golias - Caravaggio


Tenho conversado cada vez mais com jovens rebeldes, dos mais diversos tipos de inadequação. Quanto mais conheço suas necessidades, mais percebo que o que desejam é um ouvido paciente para exercitarem o galope selvagem de suas contradições, sem censura. Por outro lado, procuram corpos como se estes fossem apenas ouvidos.
Todos assumem ser a arte o interesse mais verdadeiro. E todos têm medo e buscam em minhas palavras, na boca que as emite, uma razão corajosa e louca para realizarem seus sonhos inconfessáveis de expressão, prazer, poder, paz. Sabem-me como alguém que lhes incentivará o desvario calculado, com o benefício da dúvida, da ambigüidade, do mistério, magia, todas as palavras grandes que os homens se inventam para se cercar de importâncias. Comigo querem falar sobre o amor, começo e meio e fim. Querem falar sobre loucura, responsabilidade, impulso, sexo, pessoas, bichos, poesia, tempestade, festas, filmes, dramas, mantras. Sobre terra, céu e mar. Revelam-se como eu, tímidos, inseguros, covardes, melancólicos, tristes, sombrios. Uns desdenham a palavra deus, outros a palavra amor. Armam-se de palavras para alcançar algum gozo, preenchido de idealidades outras, sonhos de carne inconfessáveis, nos mais diversos estilos musicais.
Pensei em escrever uma carta a todos estes jovens rebeldes, com a intenção de expressar possíveis relações sobre assuntos que vejo serem mais repetidamente evocados. Também falo com a intuição de que lhes fará algum bem sentir que suas questões mais presentes são reais para uma coletividade maior, embora eu me dirija a uns tantos rebeldes em específico, mas sem ferir suas individualidades, e sim tentando desvendar o que possa ser superior à nossa solidão, dita existencial.
Reparo que quanto mais tomamos parte em experiências extremas, segundo nossos próprios critérios, mais dizemos, sentidamente, a palavra solidão. Pois conhecer abismos nos individualiza. E sigo dizendo que é uma questão de tempo, paciência, delicadeza, segurando nos dentes as rédeas dos próprios impulsos, sabendo que todos queremos convencer ou confundir nossos pares, cheios demais de desejo para já trabalharmos na disciplina consciente do equilíbrio justo entre dor e prazer. Todos queremos confessar algum grande crime de amor, para nos sentirmos superiores a nossas próprias palavras.
Os mais ousados expressam-se através das artes. Plásticas, literárias, teatrais, cinematográficas, musicais. Primitivas e ancestrais, futuristas e cósmicas. Arrogam-se de conhecer a realidade dura da pedra, do dinheiro, do poder e do interesse. Afirmam sentimentos fugazes em nome das últimas verdades de que se armaram, em sua leitura convulsiva do mundo. Eu sigo dizendo: a arte mais básica é a da respiração, mas, sendo jovens, conscientizamo-nos disto apenas durante um beijo.
No fundo, o que eu poderia dizer de verdadeiro, com valor de lei, de acordo com minhas reais atitudes? Este parece ser nosso problema mais crucial ainda. A medida entre palavras e atos. Ora sou incerteza, ora homem, ora coisa. Não quero dizer que o consolo da razão garante a felicidade, mas saber escolher é sobreviver melhor.
E há que se ouvir os sonhos, onde estão as conexões mais antigas, mais próximas de nosso ser primordial, as conexões mais comuns, mesmo as que um sonho faz crer que sejam inéditas. Há que se navegar pelos sonhos, no medo, na idéia de que há luz e escuridão. Mas, acautelem-se na hora de brincar com fogo! Quem brinca com fogo realmente faz xixi na cama. E já acorda com medo, um pouco mais queimado, com a pele mais insensível e a vista mais ofuscada. O fogo é para ser reverenciado, mas não como um ídolo, e sim como o emblema mesmo do mistério superior à vida de um homem, este ser nascido no tempo. Cada elemento simples e eterno deve emanar constantemente seu poder sobre a fraqueza e força de um homem.
Devemos nos entregar ao simples jogo de crer que há um mistério para fora de nós mesmos, deve haver um mistério maior que este que enxergamos em outro homem ou mulher. Deve haver algo além das palavras amor e deus, um outro sopro sutil indefinido e quase inaudível. Senão, a matéria e suas leis, sempre tediosamente arbitrárias, mortais...
A revolta é a atitude de imaginar uma realidade superior à nossa, pela leitura intencional dos sinais que nossa realidade mais concreta parece apresentar. Pois se toda crença é vã, que possamos estar ao menos conscientes de que construímos nossas vidas como uma ficção, uma história para se contar, e ainda assim que possamos dar cada vez mais crédito a nós mesmos. Devemos ser honestos e assumir quem são os homens de quem roubamos nossos argumentos. Se não dermos forma à revolta, ela nos mata.
Meu partido é a capacidade de criar histórias, ficções, fantasias onde o cotidiano se revele sobrenatural, convidando-nos a mergulhar até o fundo da ilusão para perceber seu caráter de máscara, simulacro, pele morta. A magia dos fogos universais não pode ocultar senão um silêncio, que é de cada um e de todos. Para estarmos atentos a nossas relações com o mundo, para aventurarmo-nos com certa segurança, é preciso termos como porto este silêncio incognoscível, esta curiosidade franca e latente.
Toda história, em nossas vidas ou fora delas, sempre retorna ao silêncio que a originou. Não há verdade mais eterna que o silêncio. Há apenas testemunhos aos quais podemos nos agarrar com a justificativa da fé, sejam esses testemunhos obras de pastores ou poetas, criadores de sons e imagens, cientistas ou feiticeiros.
Se nossa revolta nos impele às vezes a desdizer os mestres antigos, sejam estes professores, amantes, poetas ou estrelas, sejam velhos amigos solitários, por que então gastamos nosso tempo e palavras em desdizê-los? Por que não dizemos, enfim, apenas o que desejamos? Eu sei... Porque não há nome que nos emule... Ainda queremos viver de segredos, mesmo quando sabemos ser mais saudável e divertido expor com coragem nossas contradições. Eu sei, temos de nos mostrar como soldados, fortes, preparados, inocentes da própria hipocrisia.
O fato é que estamos sempre fazendo jogo duplo, triplo, quádruplo, como acrobacia que nos permitisse atender a nós mesmos, de um lado, e aos nossos desejos, tão estranhos a nós mesmos. Somos livres, mas queremos possuir a liberdade do outro, se possível. Seria melhor assumirmo-nos frágeis, selvagens, flexíveis, úmidos. Melhor seria respirar e rir. Melhor seria criar ou calar.
Já no fim desta carta, tendo dado forma ao que a observação mostrou ser o mais urgente, sinto alguma rebeldia se lançar estômago acima, tentando caluniar inutilmente o que acabo de escrever. Mas uns outros lados meus, chiaroscuros, se contentam, sem auto-complacência, implacavelmente.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Stalker - Tarkovsky


“Quando o homem nasce, é fraco e flexível;
quando morre é impassível e duro.
Quando uma árvore nasce, é tenra e flexível;
quando se torna seca e dura, ela morre.
A dureza e a força são atributos da morte;
a flexibilidade e a fraqueza são a frescura do ser.
Por isso, quem endurece, nunca vencerá…”

sábado, 24 de janeiro de 2009

Acreditar na Humanidade?

"Um fato básico que os 'adeptos' da sabedoria da Índia costumam esquecer é que os mestres indianos e aqueles que se libertaram das cadeias do mundo rejeitam todos os valores da Humanidade. A 'humanidade', no sentido do ser humano, o ideal de sua perfeição e o ideal da sociedade humana perfeita, foi da maior importância para o idealismo grego, como ainda o é para o cristianismo ocidental em sua forma moderna; entretanto, para os sábios e ascetas indianos, os Mahatma e salvadores iluminados, a 'humanidade' não era mais do que uma casca a ser partida, quebrada e abandonada. Porque a perfeita inatividade do pensamento, palavra e ação, é possível unicamente quando se morre para todos os interesses da vida: morto para a dor e o prazer, bem como para todo impulso de poder; morto para os atrativos do exercício intelectual; morto para os assuntos políticos e sociais; imóvel, profunda e absolutamente desinteressado mesmo pela condição de ser humano. A última, sublime e suave cadeia, a virtude, também é, por conseguinte, algo a ser cortado. Não pode ser considerada como meta; ela só é o início da grande aventura espiritual do 'autor da travessia' , um degrau no caminho rumo à esfera sobre-humana. Outrossim, esta esfera não é apenas sobre-humana, é também superdivina: está além dos deuses, de suas moradas celestiais, de seus prazeres, de seus poderes cósmicos. Conseqüentemente, a 'humanidade', tanto em seu aspecto coletivo quanto individual, não pode continuar preocupando alguém que seriamente se esforça por atingir a perfeição seguindo a rota suprema da sabedoria hindu. A humanidade e seus problemas pertencem às filosofias da vida, que analisamos anteriormente: as filosofias do êxito (artha), do prazer (kama), e do dever (dharma); porém estas já não interessam àquele que literalmente morreu para o tempo, e para quem a vida é morte.
'Deixa aos mortos sepultar os seus mortos': esta é a idéia. Justamente por isso resulta tão difícil - para nós, cristãos do Ocidente moderno - apreciar e assimilar a mensagem tradicional da Índia."
Filosofias da Índia - Heinrich Zimmer

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Samsara


"Todos temos que nos identificar e 'pertencer' a algo; mas não podemos nem devemos buscar nossa realização nesta atitude, porque reconhecer as distinções entre as coisas, diferenciar isto daquilo - ação implícita e fundamental no esforço natural - pertence à esfera da mera aparência, ao reino do nascimento e morte (samsara). A tendência popular indiana a tudo deificar, a tornar divinizada toda classe de ente, não é menos absurda, em última instância, que a irreligiosidade cientificista do Ocidente que, com seu 'nada mais que', pretende reduzir tudo à esfera do entendimento racional e relativo - desde a potência do sol até o ímpeto do amor. O relativismo e o absolutismo, quando totais, são de igual modo perversos, precisamente por serem convenientes. Simplificam em excesso visando os fins da ação eficaz. Não se preocupam com a verdade e sim com os resultados. Enquanto não compreendermos que cada coisa inclui todas as demais, ou pelo menos, que também é diferente do que parece ser, e que antinomias tais como as dos opostos - o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, isto e aquilo, o sagrado e o profano - estendem-se até as fronteiras do pensamento, mas não as ultrapassam, ainda esatremos atados ao monturo do samsara, sujeitos à ignorância que retém a consciência dentro dos mundos dos renascimentos. Enquanto fizermos distinções, exclusões ou excomunhões, seremos agentes e servos do erro."


Heinrich Zimmer - Filosofias da Índia

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Gritos e Sussurros - Bergman


- Por que você é tão formal? Não pode deixar o passado esquecido?

- Venha cá, Maria. Venha! Olhe-se nesse espelho. Você é bonita. Provavelmente, mais bonita do que antes. Mas você também mudou muito. Quero que veja como mudou. Agora seus olhos lançam olhares rápidos e calculistas. Você olhava para frente, diretamente, abertamente, sem máscaras. Sua boca assumiu uma expressão de descontentamento e fome. Era tão macia. Sua pele agora é pálida. Você usa maquiagem. Sua testa bonita, ampla, agora tem quatro rugas sobre cada sobrancelha. Não, não dá pra ver nessa luz, mas se vê à luz do dia. Sabe o que causou essas rugas?

- Não.

- Indiferença, Maria. E essa linha fina que vai da orelha ao queixo não é mais tão óbvia, mas é esboçada pelo seu jeito despreocupado e indolente. E lá, na ponta do seu nariz... Por que você escarnece com tanta freqüência, Maria? Está vendo? Você escarnece demais. Vê, Maria? E olhe sob seus olhos. As linhas agudas e quase invisíveis da sua impaciência e do seu tédio.

- Pode ver mesmo tudo isso no meu rosto?

- Não, mas senti isso quando me beijou.

- Acho que está brincando comigo. O que está vendo é evidente.

- É mesmo? O quê?

- Você mesmo. Porque somos tão parecidos, você e eu.

- Fala... do egoísmo? Da frieza? Da indiferença?

- Costumo achar seus comentários tediosos.

- Não há absolvição para você e para mim.

- Não tenho nenhuma necessidade de ser perdoada.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Duplos

Tela de Magritte


Não tem casa que eu queira. Nem em Paris. Quero o mar e o sol. Quero viajar pelo mundo com um amor. Eu sei, eu sei, há que se rir desses sonhos unânimes que me demonstram ser um igual. Mas só este sonho parece valer a pena. Cansei da inocência dos inocentes e da malícia dos maliciosos, embora meu cansaço nada possa. Quem se deitará comigo para acreditar que nem as estrelas podem consolar, só braços amantes? Nunca me senti tão só nem nunca conversei com tantas pessoas distintas. Talvez eu esteja pagando o preço por sempre desconfiar do conforto. Talvez eu esteja crescendo o suficiente para não acreditar mais em verdades ou prazeres. O único êxtase que ainda parece valer como justificativa para executar o trabalho de ter que ficar de pé é o dos amantes, pois ilusão compartilhada com força de carne é a única que reluz um sinal de coragem, ímpeto de assumir o medo, ao menos. Mas, coragem para quê? Oras, para continuar temendo a morte; isto alivia o tédio. Cínico? Só para você que me lê e desconfia. Para mim, sou criança, só me pergunto. A resposta eu dou como luar, frágil, mas a pergunta é pedra, lançada na cara de algum barbado cheio de saberes, como faço com o espelho quando me tolero a ponto de desdizer a beleza que encontro ali. Alguém poderia me dizer que sou lindo por sentir falta de pessoas e não de coisas, mas é que eu me irrito fácil com as pessoas na maior parte do tempo, essas pessoas que seguem na administração do mundo, acreditando que trabalham para a manutenção dos próprios prazeres. Quanto aos rebeldes, não suportariam que toda gente viva desistisse de tudo e montasse uma grande e única banda de rock; os rebeldes precisam da luta, esta arma letal que roubaram de seus próprios inimigos a quem acusam em nome de uma justiça abstrata. O problema, óbvio, é que tem gente demais. Até sei que é meio estúpido ser crítico-apocalíptico agora, mas, juro, não é por esse sentido humanitário. É apenas mais desespero sem forma nem conteúdo. E veja, eu argumento ainda mais, só para mostrar como isso de ter de dizer é chato: se todo mundo ficasse quieto, meio budista-vegetariano, a fome não seria menos indecente. Digo isto não para lembrar da fome, mas porque a fome lembra nosso fracasso. Este fracasso que, ainda assim, é um dos melhores quinhões da beleza universal. Ou será que digo isso porque não tenho vontade nem de conhecer a lua? Ultimamente, qualquer lugar é uma rua apinhada, mesmo uma ilha deserta para dois amantes. Doei-me para a tal humanidade para, quem sabe, ter minha dor justificada, mas agora penso em amaldiçoar quem inventou a palavra dor. Certamente, foi alguém que teve consciência de que existe uma consciência, fornecendo incessante a lembrança implacável de um grande momento de prazer onde a vida pareceu quase como se sonha. Mas o pior é que nem posso idealizar o meu passado, pois minha memória me alerta de que nunca fui consolado da dor de doer. Sempre foi assim, até o ponto em que julguei, imaturo, poder viver dessa dor contra a qual não se luta quando se passa a acreditar que cada significado criado por nossas palavras não disfarça o modo como somos acomodados dentro das caixinhas. Ou o problema seria eu, que me recuso a treinar meu corpo para me tornar um soldado mais competente? Por enquanto, tenho competido com a minha preguiça, esta forma de morrer para não ter de matar, uma recusa nada nobre, mesmo porque minha preguiça não se compraz, antes se tortura nessas palavras que recusam outras palavras iguais. Mas, tudo bem, como dizem os fracos, alguém lerá isto e se sentirá melhor, compreendido, por um momento, ao menos. E se isto acontecer, me sentirei menos só, e terei novamente a ilusão de que me curo na cura do outro. Em suma, pergunto ao espelho: quais luzes do reflexo parecerão reais o suficiente para dar-me vontade de um prazer qualquer? Melhor nem dizer nada sobre o amor agora.

domingo, 4 de janeiro de 2009

alfabeto do ano novo

Abro o ano com A e B.
Colegial, cabalístico, iniciante, iniciado.
Olho com força de delicadeza a sucessão impossível de
fatos, coisas, pessoas, filmes, livros, noites,
o tecer gradual de uma experiência singular.
Abro os olhos no auge da montanha-russa,
a eternidade dura só um loop, é preciso estar atento,
um dia o sol não estará lá.
Abro antes meu corpo para a urgência que me torna em palavras.
que desejo? que sensatez? que aventura? descanso?
antes do desespero, invento deuses num copo d'água,
o universo em uma gota,
falo alto, louco, com os mestres antigos,
conecto-me à urgência infinita de hordas de boys & girls,
viajo por corações partidos, olho os iluminados nos olhos,
selo caminhos, rastreio verdades, mergulho abismos de céu e mar.
A saudade será o princípio do novo amor.
Serei soldado da palavra, em pacto com as sereias.
Este ano é o começo de um novo canto e não sei como ou onde estarei nu.
Os primeiros dias trazem a tempestade com que se respira melhor.
Resta levantar a voz para clamar
ou o silêncio no prazer de um conforto fino,
enquanto a natureza não poupa esforços,
aplacando justos e injustos,
confirmando nossa estranha fascinação com seu poder sem face,
XYZ.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

epistolário grandiloqüente elisabetano

Vrubel -Hamlet e Ofélia
Carta de Hamlet a a Ofélia, em seu túmulo


"Não há nada de que o homem tenha tanto medo quanto saber as enormidades que ele pode fazer e se tornar."


Kierkegaard, Filófoso dinamarquês



O que eu poderia dizer agora que estás morta, e eu havia te matado ainda muito antes, seguindo atalhos diferentes dos de tua companhia? Por que, linda Ofélia, insistiu em cantar profundidades suspirantes que não chegam sequer a adornar esse momento? Estás estupidamente lançada de seu turbilhão expressivo para este estupor eterno em que te vejo agora. O mundo é enfim esta surpresa serena que diviso em seus olhos cheios de vácuos? Você é mais uma morte, querida. Agora que retorno do estrangeiro, do país dos mortos, sei que minha revolta era certa, que devo entregar minhas ações ao juízo dos homens, decidindo sobre tantas vidas, com medo de abdicar do sonho que sonhei a teu lado, enquanto te irradiavas para dentro de teus cantos.


Não está mais frio aqui que na cova de meu pai. Também levantarás da tumba para me falar em sonhos? Tomarei lúcidas precauções. Bendirei os amigos mesmo sem saber que amizade importa àquele que não se conhece, ou que se ama e segue, de coração entregue a um prazer de cercar mistérios. Nunca mais os tédios das juras de amor. Receberei a verdade na cara limpa, de quem vier me dizer. Visitarei os xamãs das montanhas e grutas, beberei de seus encantamentos, lembrarei de você como uma verdade boa que me fez acreditar numa eternidade em que brevemente possamos nos encontrar.


Mas agora estou morto, e tenho por companhia seu vulto inerte. Escolho entre dor, o esforço da esperança, ou o tédio que se torna dificilmente risível depois.


Que terra de sonhos acolherá o sonho dos amantes? Eu estava preparado para partir em teu favor, porém escolhi a bravura de mergulhar no passado e tu me pareceu um surto juvenil, uma escolha espontânea, sincera, absurda, louca, feliz por um momento. Juntos, percorremos com risos e silêncios a grande cidade. De alma demos tudo, de corpo demos pouco. Os atos paralisaram pelas necessidades cruéis que nos acomodam ao conforto, chegamos a temer e depois a repudiar essa vontade de arriscar na terra de todas as oportunidades, de todas as guitarras. A dúvida me paralisou num solo fino que parecia linha terminal. Queria paz, mas reencontrei o êxtase em minha nova condição duvidosa, antes negada pelo sonho do amor. Com você eu tinha a paz da idiotice certeira mas entediei-me, achei covardia, equívoco, um erro contudo não arrependido. Uma benção que nos faturei com meu poder e sua aura de encanto. Agora, as obrigações. Nos veremos de novo, eu me tornarei um ser capaz de reencontrar-te, quando, aonde for. Não morreremos, Ofélia, não morreremos jamais. Este é o selo desta carta que entrego ao apodrecimento das horas. Deixo alguém contigo neste túmulo, mas acrescento um outro em mim, um que silencia com o que vê e que pressente o que vai acontecer.


Fui aberto a você. Mas, ainda éramos bichos recuados. Havia muita arte a construir juntos. Muita energia que foi convertendo-se em preguiça ante o descontentamento de ter de fazer novas relações entre as pessoas, pensamentos, sentimentos, objetos. Ter de reinventar a humanidade, quando eu retorno para o que é familiar.


Eu serei um artista, além de reinar sobre os poderes que me legaram, eu saberei inventar novas histórias para os homens, para o que eu posso reencontrar de humano em mim.

Minha doce criatura, éramos crianças. Quem seremos agora?