sábado, 24 de janeiro de 2009

Acreditar na Humanidade?

"Um fato básico que os 'adeptos' da sabedoria da Índia costumam esquecer é que os mestres indianos e aqueles que se libertaram das cadeias do mundo rejeitam todos os valores da Humanidade. A 'humanidade', no sentido do ser humano, o ideal de sua perfeição e o ideal da sociedade humana perfeita, foi da maior importância para o idealismo grego, como ainda o é para o cristianismo ocidental em sua forma moderna; entretanto, para os sábios e ascetas indianos, os Mahatma e salvadores iluminados, a 'humanidade' não era mais do que uma casca a ser partida, quebrada e abandonada. Porque a perfeita inatividade do pensamento, palavra e ação, é possível unicamente quando se morre para todos os interesses da vida: morto para a dor e o prazer, bem como para todo impulso de poder; morto para os atrativos do exercício intelectual; morto para os assuntos políticos e sociais; imóvel, profunda e absolutamente desinteressado mesmo pela condição de ser humano. A última, sublime e suave cadeia, a virtude, também é, por conseguinte, algo a ser cortado. Não pode ser considerada como meta; ela só é o início da grande aventura espiritual do 'autor da travessia' , um degrau no caminho rumo à esfera sobre-humana. Outrossim, esta esfera não é apenas sobre-humana, é também superdivina: está além dos deuses, de suas moradas celestiais, de seus prazeres, de seus poderes cósmicos. Conseqüentemente, a 'humanidade', tanto em seu aspecto coletivo quanto individual, não pode continuar preocupando alguém que seriamente se esforça por atingir a perfeição seguindo a rota suprema da sabedoria hindu. A humanidade e seus problemas pertencem às filosofias da vida, que analisamos anteriormente: as filosofias do êxito (artha), do prazer (kama), e do dever (dharma); porém estas já não interessam àquele que literalmente morreu para o tempo, e para quem a vida é morte.
'Deixa aos mortos sepultar os seus mortos': esta é a idéia. Justamente por isso resulta tão difícil - para nós, cristãos do Ocidente moderno - apreciar e assimilar a mensagem tradicional da Índia."
Filosofias da Índia - Heinrich Zimmer

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Samsara


"Todos temos que nos identificar e 'pertencer' a algo; mas não podemos nem devemos buscar nossa realização nesta atitude, porque reconhecer as distinções entre as coisas, diferenciar isto daquilo - ação implícita e fundamental no esforço natural - pertence à esfera da mera aparência, ao reino do nascimento e morte (samsara). A tendência popular indiana a tudo deificar, a tornar divinizada toda classe de ente, não é menos absurda, em última instância, que a irreligiosidade cientificista do Ocidente que, com seu 'nada mais que', pretende reduzir tudo à esfera do entendimento racional e relativo - desde a potência do sol até o ímpeto do amor. O relativismo e o absolutismo, quando totais, são de igual modo perversos, precisamente por serem convenientes. Simplificam em excesso visando os fins da ação eficaz. Não se preocupam com a verdade e sim com os resultados. Enquanto não compreendermos que cada coisa inclui todas as demais, ou pelo menos, que também é diferente do que parece ser, e que antinomias tais como as dos opostos - o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, isto e aquilo, o sagrado e o profano - estendem-se até as fronteiras do pensamento, mas não as ultrapassam, ainda esatremos atados ao monturo do samsara, sujeitos à ignorância que retém a consciência dentro dos mundos dos renascimentos. Enquanto fizermos distinções, exclusões ou excomunhões, seremos agentes e servos do erro."


Heinrich Zimmer - Filosofias da Índia

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Gritos e Sussurros - Bergman


- Por que você é tão formal? Não pode deixar o passado esquecido?

- Venha cá, Maria. Venha! Olhe-se nesse espelho. Você é bonita. Provavelmente, mais bonita do que antes. Mas você também mudou muito. Quero que veja como mudou. Agora seus olhos lançam olhares rápidos e calculistas. Você olhava para frente, diretamente, abertamente, sem máscaras. Sua boca assumiu uma expressão de descontentamento e fome. Era tão macia. Sua pele agora é pálida. Você usa maquiagem. Sua testa bonita, ampla, agora tem quatro rugas sobre cada sobrancelha. Não, não dá pra ver nessa luz, mas se vê à luz do dia. Sabe o que causou essas rugas?

- Não.

- Indiferença, Maria. E essa linha fina que vai da orelha ao queixo não é mais tão óbvia, mas é esboçada pelo seu jeito despreocupado e indolente. E lá, na ponta do seu nariz... Por que você escarnece com tanta freqüência, Maria? Está vendo? Você escarnece demais. Vê, Maria? E olhe sob seus olhos. As linhas agudas e quase invisíveis da sua impaciência e do seu tédio.

- Pode ver mesmo tudo isso no meu rosto?

- Não, mas senti isso quando me beijou.

- Acho que está brincando comigo. O que está vendo é evidente.

- É mesmo? O quê?

- Você mesmo. Porque somos tão parecidos, você e eu.

- Fala... do egoísmo? Da frieza? Da indiferença?

- Costumo achar seus comentários tediosos.

- Não há absolvição para você e para mim.

- Não tenho nenhuma necessidade de ser perdoada.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Duplos

Tela de Magritte


Não tem casa que eu queira. Nem em Paris. Quero o mar e o sol. Quero viajar pelo mundo com um amor. Eu sei, eu sei, há que se rir desses sonhos unânimes que me demonstram ser um igual. Mas só este sonho parece valer a pena. Cansei da inocência dos inocentes e da malícia dos maliciosos, embora meu cansaço nada possa. Quem se deitará comigo para acreditar que nem as estrelas podem consolar, só braços amantes? Nunca me senti tão só nem nunca conversei com tantas pessoas distintas. Talvez eu esteja pagando o preço por sempre desconfiar do conforto. Talvez eu esteja crescendo o suficiente para não acreditar mais em verdades ou prazeres. O único êxtase que ainda parece valer como justificativa para executar o trabalho de ter que ficar de pé é o dos amantes, pois ilusão compartilhada com força de carne é a única que reluz um sinal de coragem, ímpeto de assumir o medo, ao menos. Mas, coragem para quê? Oras, para continuar temendo a morte; isto alivia o tédio. Cínico? Só para você que me lê e desconfia. Para mim, sou criança, só me pergunto. A resposta eu dou como luar, frágil, mas a pergunta é pedra, lançada na cara de algum barbado cheio de saberes, como faço com o espelho quando me tolero a ponto de desdizer a beleza que encontro ali. Alguém poderia me dizer que sou lindo por sentir falta de pessoas e não de coisas, mas é que eu me irrito fácil com as pessoas na maior parte do tempo, essas pessoas que seguem na administração do mundo, acreditando que trabalham para a manutenção dos próprios prazeres. Quanto aos rebeldes, não suportariam que toda gente viva desistisse de tudo e montasse uma grande e única banda de rock; os rebeldes precisam da luta, esta arma letal que roubaram de seus próprios inimigos a quem acusam em nome de uma justiça abstrata. O problema, óbvio, é que tem gente demais. Até sei que é meio estúpido ser crítico-apocalíptico agora, mas, juro, não é por esse sentido humanitário. É apenas mais desespero sem forma nem conteúdo. E veja, eu argumento ainda mais, só para mostrar como isso de ter de dizer é chato: se todo mundo ficasse quieto, meio budista-vegetariano, a fome não seria menos indecente. Digo isto não para lembrar da fome, mas porque a fome lembra nosso fracasso. Este fracasso que, ainda assim, é um dos melhores quinhões da beleza universal. Ou será que digo isso porque não tenho vontade nem de conhecer a lua? Ultimamente, qualquer lugar é uma rua apinhada, mesmo uma ilha deserta para dois amantes. Doei-me para a tal humanidade para, quem sabe, ter minha dor justificada, mas agora penso em amaldiçoar quem inventou a palavra dor. Certamente, foi alguém que teve consciência de que existe uma consciência, fornecendo incessante a lembrança implacável de um grande momento de prazer onde a vida pareceu quase como se sonha. Mas o pior é que nem posso idealizar o meu passado, pois minha memória me alerta de que nunca fui consolado da dor de doer. Sempre foi assim, até o ponto em que julguei, imaturo, poder viver dessa dor contra a qual não se luta quando se passa a acreditar que cada significado criado por nossas palavras não disfarça o modo como somos acomodados dentro das caixinhas. Ou o problema seria eu, que me recuso a treinar meu corpo para me tornar um soldado mais competente? Por enquanto, tenho competido com a minha preguiça, esta forma de morrer para não ter de matar, uma recusa nada nobre, mesmo porque minha preguiça não se compraz, antes se tortura nessas palavras que recusam outras palavras iguais. Mas, tudo bem, como dizem os fracos, alguém lerá isto e se sentirá melhor, compreendido, por um momento, ao menos. E se isto acontecer, me sentirei menos só, e terei novamente a ilusão de que me curo na cura do outro. Em suma, pergunto ao espelho: quais luzes do reflexo parecerão reais o suficiente para dar-me vontade de um prazer qualquer? Melhor nem dizer nada sobre o amor agora.

domingo, 4 de janeiro de 2009

alfabeto do ano novo

Abro o ano com A e B.
Colegial, cabalístico, iniciante, iniciado.
Olho com força de delicadeza a sucessão impossível de
fatos, coisas, pessoas, filmes, livros, noites,
o tecer gradual de uma experiência singular.
Abro os olhos no auge da montanha-russa,
a eternidade dura só um loop, é preciso estar atento,
um dia o sol não estará lá.
Abro antes meu corpo para a urgência que me torna em palavras.
que desejo? que sensatez? que aventura? descanso?
antes do desespero, invento deuses num copo d'água,
o universo em uma gota,
falo alto, louco, com os mestres antigos,
conecto-me à urgência infinita de hordas de boys & girls,
viajo por corações partidos, olho os iluminados nos olhos,
selo caminhos, rastreio verdades, mergulho abismos de céu e mar.
A saudade será o princípio do novo amor.
Serei soldado da palavra, em pacto com as sereias.
Este ano é o começo de um novo canto e não sei como ou onde estarei nu.
Os primeiros dias trazem a tempestade com que se respira melhor.
Resta levantar a voz para clamar
ou o silêncio no prazer de um conforto fino,
enquanto a natureza não poupa esforços,
aplacando justos e injustos,
confirmando nossa estranha fascinação com seu poder sem face,
XYZ.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

epistolário grandiloqüente elisabetano

Vrubel -Hamlet e Ofélia
Carta de Hamlet a a Ofélia, em seu túmulo


"Não há nada de que o homem tenha tanto medo quanto saber as enormidades que ele pode fazer e se tornar."


Kierkegaard, Filófoso dinamarquês



O que eu poderia dizer agora que estás morta, e eu havia te matado ainda muito antes, seguindo atalhos diferentes dos de tua companhia? Por que, linda Ofélia, insistiu em cantar profundidades suspirantes que não chegam sequer a adornar esse momento? Estás estupidamente lançada de seu turbilhão expressivo para este estupor eterno em que te vejo agora. O mundo é enfim esta surpresa serena que diviso em seus olhos cheios de vácuos? Você é mais uma morte, querida. Agora que retorno do estrangeiro, do país dos mortos, sei que minha revolta era certa, que devo entregar minhas ações ao juízo dos homens, decidindo sobre tantas vidas, com medo de abdicar do sonho que sonhei a teu lado, enquanto te irradiavas para dentro de teus cantos.


Não está mais frio aqui que na cova de meu pai. Também levantarás da tumba para me falar em sonhos? Tomarei lúcidas precauções. Bendirei os amigos mesmo sem saber que amizade importa àquele que não se conhece, ou que se ama e segue, de coração entregue a um prazer de cercar mistérios. Nunca mais os tédios das juras de amor. Receberei a verdade na cara limpa, de quem vier me dizer. Visitarei os xamãs das montanhas e grutas, beberei de seus encantamentos, lembrarei de você como uma verdade boa que me fez acreditar numa eternidade em que brevemente possamos nos encontrar.


Mas agora estou morto, e tenho por companhia seu vulto inerte. Escolho entre dor, o esforço da esperança, ou o tédio que se torna dificilmente risível depois.


Que terra de sonhos acolherá o sonho dos amantes? Eu estava preparado para partir em teu favor, porém escolhi a bravura de mergulhar no passado e tu me pareceu um surto juvenil, uma escolha espontânea, sincera, absurda, louca, feliz por um momento. Juntos, percorremos com risos e silêncios a grande cidade. De alma demos tudo, de corpo demos pouco. Os atos paralisaram pelas necessidades cruéis que nos acomodam ao conforto, chegamos a temer e depois a repudiar essa vontade de arriscar na terra de todas as oportunidades, de todas as guitarras. A dúvida me paralisou num solo fino que parecia linha terminal. Queria paz, mas reencontrei o êxtase em minha nova condição duvidosa, antes negada pelo sonho do amor. Com você eu tinha a paz da idiotice certeira mas entediei-me, achei covardia, equívoco, um erro contudo não arrependido. Uma benção que nos faturei com meu poder e sua aura de encanto. Agora, as obrigações. Nos veremos de novo, eu me tornarei um ser capaz de reencontrar-te, quando, aonde for. Não morreremos, Ofélia, não morreremos jamais. Este é o selo desta carta que entrego ao apodrecimento das horas. Deixo alguém contigo neste túmulo, mas acrescento um outro em mim, um que silencia com o que vê e que pressente o que vai acontecer.


Fui aberto a você. Mas, ainda éramos bichos recuados. Havia muita arte a construir juntos. Muita energia que foi convertendo-se em preguiça ante o descontentamento de ter de fazer novas relações entre as pessoas, pensamentos, sentimentos, objetos. Ter de reinventar a humanidade, quando eu retorno para o que é familiar.


Eu serei um artista, além de reinar sobre os poderes que me legaram, eu saberei inventar novas histórias para os homens, para o que eu posso reencontrar de humano em mim.

Minha doce criatura, éramos crianças. Quem seremos agora?


grandiloqüente epistolário elisabetano

Millais, Ophelia


Carta de Ofélia a Hamlet,

castelo de Elsinor, paisagem bergmaniana,

música incidental "somewhere there's a feather", Nico

Entre as cartas que te devolvo, deixo esta entreaberta, para que vejas logo o que tua loucura ainda permite ver, para que não rasgues, no impulso de uma esperança de esquecimento, um caminho que te valeu as penas, já entre tantas que nos acometem.
Vejo a arte em teus jogos de segredos e provérbios cifrados. Defendes o sentimento da revolta plena contra a injustiça da morte, não querendo mascarar com nenhum sentimento ideal de salvação a dor de ter de viver aprisionado nesses muros frios, detentores de tantos poderes. Calejas-te na dúvida, cruel, rancorosa, e desdenhas com soberba as fracas alternativas dos que te acompanham. O que eu e tua mãe, únicas mulheres neste antro de lobos famintos, poderíamos fazer a não ser defender nossas penas com sussurros de amor ou surtos silenciosos? Tua dúvida e desdém contra a própria vontade, violentada pelo conforto de ter as honras, tua revolta contra o desejo emancipador não te livra do ciclo de prazer e dor, girando onipotente sobre a umidade tediosa de nossos destinos marcados. Ou teremos salvação em terra estrangeira?

Aqui já houve quem jurasse o amor, por esquecimento também, pelo luto até, pela certeza de que, num homem, um futuro rei, uma visão ideal do paraíso e uma verdade de anjo que visitou o inferno reinariam no unguento único que é o compartilhar da dor, este momento de doce dificuldade que antecipa a comunhão das almas perdidas.

Mas não descobrimos a paciência. Nem nós, os amantes, nem eles, os inimigos, os mercadores. Agora, fingindo uma loucura maior do que todas, tu te orgulhas de se isentar da hipocrisia. Qual de nossos orgulhos será o mais justo e verdadeiro?

Que fantasmas domam o teu nome, Hamlet? Que palavras afora o desgosto, a vingança, a frieza, alijam teus pensamentos nas noites longas de nossos invernos?

Enquanto o passado nos paralisa, cada um desce o próprio fosso, preparando já a própria cova, ebulindo venenos, dando nós em armadilhas, escarrando maldições.

Com teu pai morto, mataste o meu. Aquele adulador não guiará meus caminhos mais, pois que me amaram por um instante breve e preciso como a morte que me mostrou. Ganhei coragem para ser louca, mas de verdade Hamlet.

Resta-me a mesma razão enlouquecedora que embruteceu teus sentidos ou o vão desepero de cantar as lembranças boas, como se nada mais existisse. O que eu escolheria?

Você ainda pode escolher em se deixar distrair pelos palhaços que te põem ao redor, enquanto crê na leveza do entrelaçar de uma vingança que faça precipitar um traidor para tornar outro traidor igual, bandido, entronado. Quais liras e jogos de espelho e jovens te distraem nesses dias?

A adulação e a falsa cumplicidade sitraem-te da incerteza de um amor precipitado, ele também, nos abismos de sonhos grandes, e por isso mesmo nobres, em terras novas. Quando fugiremos, Hamlet? Por que não fugimos, príncipe dos mares do norte? Em que praia realizaremos as imagens ditadas pela lua? Que sofros funéreos o astro noturno bafeja em tua cara nessas noites de tempestade?

Antes do dilúvio, era a certeza da carne, animada pela vida que nos restou. Meu colo era terra e chamas. Inquietos, procurávamos nos aperfeiçoar para o futuro. Agora, o passado. Devem ser só essas noites de infindas festividades. Ninguém sabe se chora o luto ou celebra o jubileu.... Vamos esperar Hamlet, guardemos nossas canções, essas outras canções, para depois, quando nos encontrarmos de novo no átrio do silêncio, para experimentarmos juntos, sem espanto ou ilusão, as magias universais.

Eu não tenho mais em que acreditar a não ser em milagres, Hamlet. Quero me lembrar de tantos sonhos juvenis, impetuosos, ousados, que foram capazes de salvar a história dos homens, distribuindo o pão, tornando ao menos compatível com a natureza nossa natureza excessiva.

Não quero tua atenção para que cuides de mim, mas para que deixe provar só o que for amor, chame isto uma coisa boa, sem juras, sem segredos, mas plena do silêncio confortável que só cumplicidade mais sobrenatural pode mobilizar.

Acredite-me sem ardis ou confissões, caro amigo, o que tinha para te dizer como amante já foi dito por outros amantes, agora falo como amiga, por amor dos homens, na hora urgente e atual, das celas que nos destinaram. Sim, o amor está para fora daqui, deve estar, mas o que faremos de nós mesmos, ainda que por jogo? É só angústia agora, de não fluir a imagem certa de um amor que assaltamos dos bolsos de nossos inimigos. Esperemos, Hamlet, Esperemos.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008


Aí vai um experimentação com vídeo tbm... Sempre gostei de ver as pessoas lendo seus próprios textos... Pra quem gosta tbm, aí vai um meu. Obviamente, já que me abri tanto, estou ainda mais aberto à críticas e comentários.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

ORGIA PARISIENSE OU PARIS SE REPOVOA

Foto: David Wojnarowicz - Rimbaud in New York


Em maio de 1871 o tempo devia estar bom em Paris. Era a esperada primavera, assim como aguardamos o verão. Rimbaud, dezesseis anos, chega pela terceria vez na cidade, fugido de sua cidadezinha rural, centenas de quilômetros depois, a pé. Instala-se com os poetras contestadores e jovens na Comuna, no bairro revolucionário do Quartier Latin, fechado por barricadas, onde se preparavam para viver na liberdade de um mundo sem posse.
Nesta época, Rimbaud explode seu gênio, pensa seu método de vidência, baseado no desregramento de todos os sentidos. E é quando escreve esse poema que resolvi traduzir hoje. Lembrou-me muito São Paulo, minha relação com esta cidade, de crítica mas amor, esperança, prazer e luta, em escala titânica.
Optei por manter o mesmo esquema de rimas, a alternância entre as imagens populares e as eruditas, o jogo entre as evocações vulgares, profanas, e as sagradas, mitológicas. Ser literal com Rimbaud é preservar sua ambigüidade, suas repetições calculadas e seus preciosismos, seu ímpeto apaixonado e seu distanciamento frio.


A Orgia Parisiense
Ou
Paris se Repovoa


Ah covardes, olhem lá! Desemboquem nas estações!
O sol enxugou com seus pulmões ardentes
Os bulevares que uma noite ficaram de Bárbaros aos milhões.
Vejam a Cidade santa, sentada no ocidente!

Vão! Previnirão os refluxos do que se incendia,
Vejam as marginais, os bulevares, olhe ou
As casas sobre o azul leve que se irradia
Que uma noite o vermelhão das bombas estrelou!

Fechem os palácios mortos nos nichos das hortas!
O indignado dia ancestral refrescou seus olhares.
Olha ali a trupe ruiva torcendo as ancas tortas:
Sejam loucos e serão engraçados, com indignados ares!

Tais as cadelas em cio comendo cataplasmas,
O grito das casas de ouro lhes reclamam. Roubem por todo lado!
Comam! Eis a noite da alegria em profundos espasmos
Que desce a rua. Ó bebedores desconsolados,

Bebam! Quando a luz chega intensa e louca,
Revistando ao lado de vocês os luxos farfalhantes,
Você não babarão, sem atitude, de palavra pouca,
Dentro de seus copos, os olhos perdidos em clarões distantes?

Engulam, pela Rainha de bundas cadentes!
Escutem a ação dos estúpidos soluços
Dilacerantes! Ouçam saltar nas noites ardentes
Os idiotas mal humorados, velhacos, volúveis, lacaios!

Ó corações de sujeira, bocas de horríveis lesmas,
Funcionem mais forte, bocas de fedores!
Um vinho para esses torpes ignóbeis, nessas mesas...
Suas barrigas são fundidas por vergonhas, ó Vencedores!

Abram as narinas para as soberbas náuseas!
Embebam de venenos fortes as cordas de seus pescoços!
Sobre as nucas de criança as mãos cruzadas baixam cada veia
O Poeta diz a vocês: “Ó covardes, sejam loucos!”

Pois vocês cavam o ventre da Fêmea,
Dela temem ainda outra convulsão
Que grita, asfixiando sua ninhada sem fama
Sobre o peito dela, numa horrível pressão.

Sifilíticos, loucos, reis, fúteis, ventríloquos,
O que podem fazer a Paris emputecida
Suas almas e corpos, venenos e cacos?
Ela sacudirá vocês dela, rancorosos apodrecidos.

E quando estiverem no chão, gemendo entranhas e costelas,
De flancos mortos, reclamando dinheiro, perdidos
A vermelha cortesã de seios fartos de batalhas,
Longe do estupor de vocês, cerrará os punhos ardidos!

Quando teus pés dançaram tão forte nos momentos de cólera
Paris! quando tantas lâminas te esfaquearam,
Quando você caiu, retendo nas pupilas claras
Um pouco da bondade dos selvagens que se renovaram,

Ó cidade dolorosa, ó cidade quase morta
A cabeça e os dois peitos lançados ao que só o Devir pode dizer
Abrindo sobre tua palidez milhares de portas,
Cidade que o Passado sombrio poderia bendizer:

Corpos remagnetizados por dores que enchem aldeias,
Tu bebes de novo da vida espantosa! Tu sentes
Silenciar o fluxo de versos lívidos em tuas veias,
E sobre teu claro amor roçarem dedos nada quentes!

E isto não é mau. Os versos, os versos lívidos
Não perturbarão mais teu sopro de Progresso
Pois os Estriges não apagaram os olhos das Cariátides
Onde as lágrimas de ouro astral caiam de azuis degraus.”

Ainda que seja aflitivo te rever coberta por esta rede
Assim; ainda que não tenham feito jamais em outra cidade
Úlcera mais fedorenta na Natureza verde,
O Poeta te diz: “Tua Beleza é radiante!”

A tempestade te sacrou suprema poesia:
O imenso revolver de forças te sacode fluido,
Tua obra combate, a morte gonga, Cidade da escolhida fantasia!
Recolhe estrondos do coração do clarão surdo.

O Poeta tomará o fôlego convulsivo dos Sem Fama,
O ódio dos Forçados, o clamor dos Malditos;
E seus raios de amor flagelarão as Fêmeas.
Suas estrofes bendirão: Olhem lá! olhem lá! bandidos!

- Sociedade, tudo está restabelecido: - as orgias
Choram seus velhos gemidos aos bordéis antigos:
E o gás em delírio nas avermelhadas muralhas,
Queima sinistramente contra os azuis esmaecidos!

Maio de 1871/Dezembro 2008
Link para o original:

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Um Poema de Anne Sexton

Esta tradução é dedicada a Antonio Ferah, que me apresentou essa poeta americana, aparentada de Sylvia Plath no estilo confessional, inédita no Brasil. Intriguei-me na força quase sexual com que ela luta contra a degeneração e a morte em geral, quase como um estupor plácido. Será? Bom... Deve valer tudo para explicar a atitude dos poetas, mais até que as patologias que a ciência inventa. Principalmente, porque aqui a sensibilidade feminina, incoercícel às palavras, se resguarda, cumulando vozes fúteis da algazarra civilizatória masculina.
A escolha desse poema em específico também se deu por razões que a ciência não explica.

Music Swims Back to Me
by Anne Sexton


Wait Mister. Which way is home?
They turned the light out
and the dark is moving in the corner.
There are no sign posts in this room,
four ladies, over eighty,
in diapers every one of them.
La la la, Oh music swims back to me
and I can feel the tune they played
the night they left me
in this private institution on a hill.

Imagine it. A radio playing
and everyone here was crazy.
I liked it and dance in a circle.
Music pours over the sense
and in a funny way
music sees more than I.
I mean it remembers better;
remembers the first night here.
It was the strangled cold of November;
even the stars were strapped in the sky
and that moon too bright
forking through the bars to stick me
with a singing in the head.
I have forgotten all the rest.

They lock me in this chair at eight a.m.
and there are no signs to tell the way,
just the radio beating to itself
and the song that remembers
more than I. Oh, la la la,
this music swims back to me.
The night I came I danced a circle
and was not afraid.
Mister?

a música nada de volta a mim

Espere Senhor. Qual caminho leva ao lar?
Eles apagaram as luzes
E o escuro se move no canto.
Não há nenhum sinalizador neste cômodo,
Quatro senhoras, pra lá dos oitenta,
De fraldas, cada uma delas.
Lalala, Ó a Música nada de volta para mim
E posso sentir o compasso que tocaram
Na noite em que me deixaram
Nesta instituição privada em uma colina.

Imagine. Um rádio tocando
E todo mundo aqui estava louco.
Gostei disso e dancei num círculo.
A música verte sobre os sentidos
E de um modo esquisito
A música vê mais do que eu.
Digo, ela se lembra melhor;
Lembra da primeira noite aqui.
Era o frio estrangulador de Novembro;
Mesmo as estrelas estavam amarradas ao céu
E a lua tão brilhante
Ramificando-se pelas fechaduras para me espetar
Com um cantar na cabeça.
Eu tenho esquecido todo o resto.

Trancam-me neste assento às 8 da manhã,
E não sinais para contar um caminho,
Apenas o rádio batendo-se para si mesmo
E a canção que lembra
mais do que eu. Ó, la la la,
essa música nada de volta para mim.
À noite eu cheguei e dancei um círculo
E não tive medo.
Senhor?