O senhor não me ouve direito; inquieta uns traçados de expressão, e logo desfaz o olhar, resignado ao de fora. Ouça-me, peço, em respeito à educação - rápida, loquaz, sobrevivente de guerra. A hora não nos dá tempo a dividir, a contar-nos. É um corre.
quinta-feira, 17 de maio de 2007
Graça em pista olímpica
quinta-feira, 10 de maio de 2007
Dança Bandida

“O poeta é um ladrão de fogo”.
Rimbaud
Eu já fui assaltado vinte três vezes, na proporção de um por ano, e só me tiraram cinco reais. Aprendi a fazer as contas para o pai, a reconhecer documentos e acordos tácitos. Sei contabilizar a minha vida, falo com orgulho. Só fico calado se me abordam com arma de fogo ou faca caseira. Não sou bobo, prefiro ser palhaço em cena, exposto com consciência, mesmo que esta consciência seja um silêncio. Quando sou palhaço a palavra some, dentro e fora de cena, e eu deixo ela sumir sem choro nem vela, tenho fôlego para ser bobo por inteiro, e não tenho medo de desmanchar no silêncio: aprendi a ficar erguido com muito balé e quando caio sou ator. Improviso e sobrevivo.
ALESP08MAI07
quarta-feira, 25 de abril de 2007
INCÊNDIO NO CIRCO

Sim, eu juro, eu só queria gozar, mas foi outra coisa que aconteceu. Acordei sentindo ameaças de prazer, de baixo pra cima, de dentro pra fora, e todo ‘vice-versa’ verificado em qualquer corpo são ou só. O tesão acumulado da noite anterior, melhor esquecer. Ninguém te deixou de pau duro e você diz que é porque ninguém te interessou. Agora acorda sem se caber. E você se toca. Mas antes de se tocar, se toca de que você foi egoísta pra caralho. E o caralho tá morto. Quanto amor pra dar, você queria que dissessem, mas ninguém fala de amor numa segunda-feira, pobrezinho. Sim, você quer se acreditar especial, pensar em coisas nobres, mas só sabe arder. O amor não combina com sua respiração sufocada. Foi fumaça demais na pista de dança. Você se espreguiça para relaxar e provar para si mesmo que dormiu bem, mas sente quando o corpo retorce como só faz com outro corpo. O amor. Meu saco.
Dos quatorze aos catorze
sp14nov06
Aos quatorze anos, decidi fazer da palavra o meu meio de vida, sentia uma necessidade imperiosa de registrar o que eu julgava ser o meu olhar original, distorcido, diferente, deformado, decadente sobre as coisas e abaixo delas. Também acreditei ser capaz de olhar para as coisas sem afetá-las nem por fora, nem por dentro. E procuro escrever apenas o que vejo, fora e dentro. Sempre tive dificuldade em me sentir original, como quer a moda, mas julgava-me talentoso, como quer a arte, sim, eu me julgava talentoso em viver escondido nas palavras, manuseando o sentido das coisas, o sentido de Deus. Eu sentia-me pleno na palavra homem. Às vezes, ainda hoje, torno-me o animal que sou e julgo-me mago, possuído de um egoísmo feroz, orgulhoso de esconder meus talentos para o momento certo, de revelá-los apenas para os iniciados. Mas, ultimamente, na maior parte do tempo eu apenas projeto e escrevo, lento demais para o meu gosto. Enquanto isso vivo, e apenas vivo. Quero acreditar que meu trabalho está bom, e sei acreditar e desacreditar se for preciso quantas vezes forem, mas dependo dos mais nobres sonhos para realizar o trabalho, e tenho medo de que a nobreza de meus sonhos se desfaleça cada vez mais em loucura, e não sei se rio ou se choro, mas sei que a Razão, a Luz, o Sol, Deus e minha dor de falta de amor me orientam na jornada gélida às sombras da noite, da alma, do Ser, do mais remoto passado, do mais longínquo futuro. Sou um religioso de tradições simplistas. Sou grosseiro como só o corpo sabe ser. Sou pretensioso, sim, por querer ser uma voz da humanidade posso ser considerado um perfeito capitalista ocidental com minha arrogância de concreto armado, e pareço ainda mais tolo por assumir com antecedência esta sombra. Eu prevejo a sombra para manter um sorriso, nem que isto doa a alma. Meu nome está protegido no segredo das estrelas, não falo dessas celebridades de plástico, mas das estrelas verdadeiras, as supremas, aquelas que os amantes trazem para o beijo, aquelas que calam um cientista, aquelas que um poeta ousa descrever. Disseco meu ego-santo-sonho e sei sentir-me humilde, quando é preciso. Só quero sobreviver, e no fundo sinto-me protegido apenas pelo meu medo, desde o mais instintivo impulso de sobrevivência até as esferas mais celestiais que o futuro do homem não pode alcançar. Quero para o alto, para os lados e para baixo. Quero um cigarro antes e depois de meu desejo. Tenho vícios, burrices, erros e os admito com o mesmo alívio reprimido dos depoentes de grupos de ajuda.
Sinto que aos poucos perco o medo de ter medo. Sei que daqui para frente terei menos medo, mas tenho medo da quantidade de medo que terei de enfrentar até a morte, e tenho tanto medo que a morte me alcance antes de cumprir minha missão de vida que nem sei falar disso sem parecer piegas, brega, cafona, como quiser me escrachar. Por isso, paro por aqui. Só seguirei, como sempre, para dizer uma última coisa:
No começo dessa soma de frases, eu queria escrever uma carta para meu pai, para lhe dizer que já faz anos que eu quero dizer e não consigo, vinte e oito para ser exato, duas vezes 14, mas, como sempre, saio da escrita com outra coisa, insatisfeito com o que meu pai possa entender de mim.
Não vou dizer que chorei, porque chorei, guardo essa informação para os iniciados... Sou obrigado a disfarçar: perdoe-me pai, mas essa carta vai para nossa cachorrinha Nica, que ainda existe, que vive a 14 anos, que caminha para a morte com a alegria inconsciente daqueles que não estão presos em sua memória, neste dia catorze de novembro de dois mil e seis, véspera desta república que me faz rir, e que ri de mim.
terça-feira, 24 de abril de 2007
Para Alexandre Rabelo
Escultor de palavras
Imaginação que assusta
Era essa a frase.
Mas como?
Como poderia dizer...Pensei que a pergunta correta a ser feita seria: Quando?
Quando poderia dizer?
Na velhice eu tentaria o simples...
Arrisquei: Eu sou simples, tu és simples, mas ele não é simples, nós nunca fomos simples...
Parece que tudo no mundo, tudo, tudo, tudo...
Tudo o que arquitetamos não tem profundeza.
Não para quem não agüenta o impacto de sentir no corpo o veneno das metrópoles.
É estou amargando por aí, já há algum tempo... Acabei de assumir minha clandestinidade.
E lembrei de um momento...
Quando eu parei de conter, quando eu parei de procurar, quando eu parei de querer, quando eu parei.
Parado ali...Ali mesmo, no tempo, e o tempo parou comigo, o tempo não prosseguiu, o tempo era meu aliado.
Eu tinha um tempo só meu... Enquanto as pessoas viviam aquele outro tempo, eu simplesmente entendi o meu próprio ritmo no tempo...
Isso me calou e comoveu.
Pude por um longo período me encantar com a idéia...
Eu teria que mudar-relaxar na vida, principalmente uma coisa: Eu não teria que me adaptar a nada e a ninguém... Não sentiria solidão, porque estaria completo, seria um dentro do próprio tempo.
Mas o ser bucólico que me condena a margem se pôs a falar...
E se eu não te amar?
Retalhado
A beira da cidade
Introspectivo
Esperando respostas
Colapsado
Foge de medo
Eu quis
Eu
Ser amado
Eu queria ser
Eu
e Eu não estão se dando muito bem.
Procuro o que?
Fui afundado
Não pude ir além
Tremi até os ossos
Vi o tamanho do corpo fora do corpo
Vaguei um bom tempo não sendo
Eu sendo outro
Perdi os contornos os sentidos a profundidade
Procurei meus aliados
Mas estava completamente só
Estava assim
Não-definido
Sem comando
E disse com a voz
Tudo bem
Estava vivo porque respirava
Mas não me comportava como se estivesse dentro do corpo
Não me comportava
Deslizei os olhos na boca a boca na testa a testa nos cabelos
Os cabelos escureceram meu peito
Do meu íntimo um leque entrava e saia
Fatiando a minha carcaça me mostrando órgãos
Eu procurava a língua os dentes
As texturas
Superfícies de apoio
Qualquer concreto
O teto não segura a noite lá fora
O teto se evapora junto com pessoas
Eu não evaporo
Eu embaralho
Enquanto não penso posso voar
Vejo de longe os emaranhados da vida
Da minha vida
Mudarei
Mudarei agora antes antes de desistir
Mas o vento sopra...
Eu ainda débil permaneço em suspensão...tempo
E descubro que não estou sendo
E te deixo ir embora assim... Deixo-te ir seja lá quem estiver te deixo
Não quero fazer parte dos que procuram eternamente
Eu posso aportar?
quinta-feira, 10 de abril de 2003
Ode aos Loosers
e aquele tal do Kurt Cobain. Mas todos amamos. Numa época em que ainda estávamos tentando nos livrar das coisas fakes e alienadas que os anos 80 nos legaram (e que hoje são cultuados), aquela música tinha um apelo absurdo. Eu me lembro de ter visto a estréia deste vídeo clip. O VJ disse que em um lugar chamado Seattle existiam umas bandas que tentavam resgatar algumas coisas do punk. Mas não nos convenceu. Todo mundo que nem sabia o que era punk, seis meses depois tinha o seu exemplar de Nevermind. Mesmo as meninas que só curtiam a tal
da House Music. Ninguém entendia porque, mas todos gostávamos muito. Descobrimos que aquele videoclipe tinha sido feito com pouquíssimo dinheiro. A banda tinha reunido uns fãs de Seattle que já conheciam o trabalho das casas noturnas bagaceiras e colocou-os para agirem exatamente como agiam nesse lugares. O cenário, todos se lembram, era uma quadra de basquete de escola, com direito a todos aqueles funcionários loosers de escola pública. Provavelmente pais daquela galera. E todos eram completamente desleixados para o senso comum. Entretanto, nós, que éramos adolescentes, achávamos eles incríveis. Eram puros, sem artifícios, com aquelas roupas de looser, aqueles cabelos de looser, aquela voz e aquela guitarra de loosers. Como nós, completos loosers. Mas até que enfim, no meio daquela artificialidade da
época, comandada pelo hit Black or White de Michael Jackson, e por Groove is in the Heart do Deee Lite, eles cantavam coisas sobre nós mesmos. Finalmente! Sobre adolescentes que alguém tentou chamar de Geração X, mas não colou. Somos de uma geração completamente perdida em termos ideológicos e de perspectiva de vida. Mas o que o Nirvana mostrou foi nossa dignidade de admitirmos isso, e ao mesmo tempo, mostrar que nós nos divertíamos muito mais do que as outras pessoas. E mais do que isso, nós nos revoltávamos contra isso. Tínhamos muito ódio de tudo o que fosse artificial, só não sabíamos o que fazer a respeito disso. Muitas pessoas até hoje não entendem o Nirvana. Acham que é uma simples descarga de testosterona, quando na
verdade aquelas músicas mostram o quanto nós éramos legais, apesar de completamente perdidos. Quando nos acusavam de perdidos, e alienados, a resposta era: NEVERMIND! Deixa pra lá (subtexto: mal sabem eles...). Mesmo que não entendêssemos as letras, fossêmos de língua inglesa ou não, estávamos representados naquela sonoridade que traduzia plenamente nossa força vital, que era assassina de tão grande, e vontade de que tudo desse certo. E se não desse, foda-se. Já não tínhamos nada a perder mesmo. Kurt, em sua humanidade sabia disso. Escreveu em IN BLOOM: "He's the one who likes all our pretty songs, and he likes to sing along, and he likes to shoot his gun, but he knows not what it means and I say yeah..." Ele desafiou a cultura mainstream a tentar nos entreter, nós, os loosers, agora que tínhamos o referencial de Seattle: "Here we are now, entertain us!". Quando eles lançaram o segundo hit, Come As You Are, já estávamos completamente dominados. Amamos a crueldade expressa com muita sutileza no vídeo clip. Radicalizou o discurso de nossa desorientação e nos plasmou no que para mim é a melhor imagem da nossa geração: o vira-lata perdido, molhado, com medo, sem poder olhar para os lados com aquele cone na cabeça amplificando o som da idiotice e nos impedindo sequer de se coçar. Todos entendemos, mesmo sem entender, que aquele cachorro estava descendo a escada do inferno enquanto Kurt Cobain se via atado a um trapézio instável. E no clip ele nos oferece o revólver que poderia oferecer-nos uma solução simples, como a que ele tomou anos depois, por todos nós. Sim, ele é nosso mártir. Na letra ele nos conclama a assumirmos que
somos perdedores de nascença e a tomarmos um partido diante disto: "Come as you are, as you were, as I want you to be: as a friend, as a friend, as an old enemy. TAKE YOUR TIME, HURRY UP, THE CHOICE IS YOURS, DON'T BE LATE". Em seguida, não sei se veio In Bloom ou Lithium. Seja como for, eles já tinham virado celebridade e não aceitaram esta posição, como faziam 100% dos artistas na época. Num desses clipes, satirizaram a histeria de fãs que os curtiam porque estavam na moda, imitando aquelas bandas assépticas da década de 60. E num show na MTV, ao vivo para o mundo todo, trocaram a música combinada com a produção por uma fictícia RAPE ME, que quase matou os empresários. Adoramos! Mas depois, surgiram todas aquelas bandinhas pseudo-Seattle, imitando o estilo Nirvana, convertendo toda aquela
contundência em mero estilinho. Por isso eu me irrito com essas bandinhas de filhinhos de papai, que se embebedam e cantam Smells like teen spirit. O que me deixa feliz é que eu vivi intensamente esse disco NEVERMIND, enquanto ele acontecia, com meus maravilhosos treze, quatorze anos. E felizmente, estou marcado por esse "fedor de espírito adolescente" como define o título de Smells like teen Spirit. Esse álbum é sem dúvida nenhuma o álbum da minha geração, ou dos loosers da minha geração que se assumiram como tais, como eu. Os que poderiam plantar uma árvore, para serem politicamente corretos, como diz a letra de Breed, mas não tem o
menor interesse em fazê-lo, e foda-se. Foram vocês que nos fizeram assim. Por isso,
com toda a força vital que as melodias desse disco expressam, com toda sua humanidade
doída, eu tomo para mim as palavras de Kurt em Lithium, nesse dia em que acordei me
sentindo feio: EU SOU FEIO, MAS TUDO BEM, PORQUE VOCÊ TAMBÉM É.
NÓS QUEBRAMOS OS NOSSOS ESPELHOS.
