quinta-feira, 17 de maio de 2007

Graça em pista olímpica

Escravos vestindo Helena. Alexandre/Páris à direita. Eros acima.

O senhor não me ouve direito; inquieta uns traçados de expressão, e logo desfaz o olhar, resignado ao de fora. Ouça-me, peço, em respeito à educação - rápida, loquaz, sobrevivente de guerra. A hora não nos dá tempo a dividir, a contar-nos. É um corre.


Era segredo, mas agora não faz tanto silêncio. Tem mais o burbúrio insolente de revolta vencida, verdade rendida; o som das coisas que se desconheceram em nome de um bem igualmente esquecido. Nem reteve a tarja do mistério a enfaixar a luz dos olhos, a pôr em manchete. Ganha um sem-nome, e por tal desfalecença, pede justiça. Não por mim, que falo em nome do não-sei, mas por quem sabe quem. Não fosse assim, seria caso de polícia – a força escorraçando as palavras; mas aqui, sem medo da morte, a coisa vira outra, quase indigente, indiferente ao olhar vigilante. Tampouco é caso para suspeitas, senhor, é caso de ouvir mesmo; o lábio penso de assombro sincero.

Ao final, não vamos exagerar, a coisa toda era um corpo estendido e um copo quebrado. Houve risadas, não se deve esquecer, algumas damas aplaudiram por baixo das calcinhas, dois seguranças apertaram o passo, pretos, retos, mas não foi caso de levantarem o braço. Na madrugada, na pista escorregadia pelo excesso dos bêbados, a coisa morria-se naturalmente. Fim de feriado não se pesa às leis escritas; guarda-se para o dia seguinte, na esperança de que a memória vingue o desejo despedaçado - o sentimento de que um dia de cinzas não basta. É preciso que os corpos antes reunidos, expectadores do que julgaram ser espetáculo, recuperem-se na arrogância de vencer uma noite, por meio de uma crença que os torne portadores da história do outro, a qual comentam amorosamente, para dela se esquivarem, ou mordazmente, iludidos, para forçarem uma participação sua no grande enredo. Tímida na origem, a história ganha drama e ressaca. Ao final, insisto, restaram dois corpos sós, ou melhor, um corpo e um copo.

Houve quem prestasse atenção desde o início, mas a juventude, o senhor sabe, é coisa que não cabe em lugar. Eram muitos corpos no início, e eles estavam dispersos, como na Criação, embora nenhum dos impressionados tenha demonstrado fervor religioso; ao invés, sortearam apostas profanas sobre os acusados – apocalípticos hormônios. Cada qual alimentava uma fantasia sua, versões para um mesmo motivo: a atração universal dos corpos. Era simples o fato, mas quis o acaso que na boca dos bem-vindos a coisa ganhasse conotações mitológicas; trans-além.

Na ausência profunda vista nos olhos de um dos corpos do triângulo central, ousaram identificar uma síndrome de Helena de Tróia. Para quem guardaria o olhar frio? Por que seu amor iniludido despejava-se transparente, entre promessas e carícias furtadas, entre dois homens que se conheciam inimigos naturais? O fogo de Helena teve de consumir-se na guerra, os sensatos gostaram de lembrar; era bela como a glória dos homens mortos pela espada. Não era mortífera por ser bela, clamaram os paradoxistas, era bela por ser mortal, vítima da própria natureza; e assim amavam-na e viam a flor de suas horas perecer desperdício, insanidade, simples consumir-se no alto da torre. As cinzas nos olhos de Helena... lembraram com calafrio após o feriado; entregue a todos os amores na noite da fogueira final, certa do bem que fazia enquanto a batalha fosse maior. Beijava uns na frente dos outros enquanto girou pela pista de dança, mas não suspeitou que um de seus pretendentes não fosse guerreiro de fé, mas sim o introspectivo Narciso, apartado das águas abismais para a grande arena.

Narciso era outro caso, que quiseram incluir na história, embora sua vaidade superior lhe dissesse que era Helena quem invadia o seu espetáculo particular. O certo é que ambos eram estrangeiros – era das sombras da cidade que sua guerra tirava o alimento. Narciso levava comitiva, que o protegia da roda dos prazeres. Não neste corpo! - diziam comovidos, e ao seu redor se comportavam como fluído lago. Narciso, chamavam-no às escondidas, como o outro grego, de tempos nobres. Como o antigo, este de agora não suportava o que não se parecesse com sua própria beleza, até que a própria fonte da beleza secasse e restasse o lago de águas informes como sustento final de sua ambição; a emoção pura de não professar fé. Nos primeiros anos, não custa lembrar, Narciso olhava para o lago com movimentos sincopados, pescoço de galinha, há que ser preciso, trocando de ângulos como trocaria de pele um camaleão perdido num orquidário. Seu reflexo retornava os olhos inflamados e a boca cuspia razões frias, enrugadoras: belo! onde está isso?o que é isso? isto?! O que vêem que não vejo, ou antes, o que só eu vejo? E lá se via, até não se descobrir mais e deixar-se abater pela simples suavidade da grama. Até o dia que todos sabem. Afogado. Os moralistas falaram algo a respeito da vaidade que o engolira. Os psicólogos insinuaram uma imersão no eu dissolvido, um retorno ao princípio obscuro que a lucidez tentara desvendar em vão. Um poeta, mais aprazível, disse em voz alta: Ainda construiremos um mundo que saiba acolher sua beleza sem finalidade! Razões e sensibilidades à parte, ninguém esteve lá para saber – até esta noite...

Narciso deu de cara com Helena; ele, de olhos vítreos, parados no fundo do lago, ela, de olhos apertados na fogueira de soldados; ela do alto da torre, ele do fundo da lama. Para lhe sorrir, Narciso primeiro precisou encontrar seu reflexo nos difusos olhos de Helena.Viu o que não queria ver, ou o que desejava no fundo de sua morte: sua imagem turva, acastanhada, enlameada pelos mais profanos desejos, pura carne, isenta dos tormentos da beleza que Helena só retinha nos lábios finos, entre dentes. Ela, experimentada, saciando-se na certeza do troféu ainda não conquistado, suspirou tranqüilamente, dorso de um lado, como a oferecer seu leito sem comprometer-se com as exigências dos costumes. Pouco mais de dois encontros, enlaçaram-se, e pouco mais se deu. Lutaram como fogo e água, pela nobreza de seu elemento. Orgulhosos de si, secaram-se. Viram a face das Moiras a anunciar que daí em diante ‘ai de seus caminhos’. Narciso vomitou a lama presa no estômago; Helena consumiu-se na encruzilhada escura dos risos, não sem antes presentear sua prêsa com uma pedra branca, aliança ambígua de fidelidade natural e dependência forjada.

Quiseram os deuses – assim podemos interpretar a história, independentemente de tuas crenças, senhor – fazer uma pequena intervenção neste caso, pois qual explicação daríamos a tão inumano desfecho, nós que aqui estamos para disso falar e dissolver os preconceitos? Aqui vem a graça da coisa, e não de outro lugar.

Graça, disse um filósofo daqueles carrancudos, é estado de movimento equilibrado, sem falta nem excesso; desgraçados os lerdos e afetados. E a beleza está no movimento, ouvi dizer num dos bares deste canto da vida. Um acento neste devaneio alcoólico nos permitiria dizer que belo é o bailarino, de graça equilibrado entre os movimentos decididos, hercúleos, e os olhos abismados de desrazão. Belo é o palhaço, de graça esborrachado entre as puríssimas intenções e a inadequação profunda de seus movimentos. Melhor que o fruto da graça, só mesmo o amor, grita por fim um bêbado. E aqui aparece Eros, filho da beleza e da graça, duplamente palhaço e bailarino. Chegou na pista de dança não se sabe como, de cabelos raspados, em oferenda a sua mãe, Afrodite, dona da Beleza Superior - se assim me faço entender, foi assim mesmo que me contaram, embora eu não saiba a causa. E trazia as flechas ocultas, revelando-se aqui e ali como o perfume das flores. Não foi demais para que o desvendassem; a guerra enfurecida entre as tribos explodia em dança na pista.

Conta-se que em sua lição mundana, após cortados os cachos, foi-se refugiar no coração do país para encontrar a terra do homem de sábias palavras. Lá dispensou as asas e fez-se de romeiro, palmilhando securas, olhos de não-sei-querer, sorriso de água fresca, desatendido do amor, atento aos dramas lentos da eternidade. Fez-se homem primeiro, antes de entrar na história; firmou saúde, fincou os pés, arvoreceu. Na terra batida, para preservar seus encantos de atiçador, fez escola com as musas. Onde as asas não mais lhe coçavam, aperfeiçoou gracejos de comediante, imprimindo-se principescas delicadezas, espiralantes contornos, entusiasmática adesão. Também passou a fumar, o maldito, imiscuiu-se nos ares venenosos desta cidade; empinava o cigarro onde antes apontava a flecha.

As setas do afeto... Senhor, permita-me neste ponto falar de poderes; para não apascentar as fés muitas, preservarei neste assunto, impositivo para o simples curso da história, a mesma frivolidade com que falo de deuses, pois que o amor – poder de quem se trata – neste ponto da vida, desafiado de antenas, soma vozes de delírios incompatíveis. Ao sabor do gosto, desemaranhemos os fios. Assumamos a voz suplicante do fiel que assistiu a todo o culto por detrás da multidão:

- Ô sinhozinho Amô... Que barriga lhe deu de querê escondê as frecha? Vim de longe e ofreci duas vela e duas frô, e Santantônio já passô ou nem chegô, nego... Feliz dos coitado que viram o milagre e partiram na fé. Nóis que num vimu espera ocê, minino bandido. Oro pro outro minino, o Zizúis, pra ele ti guiá nos atiro, fio. Nóis vimu o que ocê fez, dotozinho dos prazeres.

Porque Eros – é bom esclarecer, meu senhor – caiu na doideira de amar sem vez, a direito e a torto. Dizem que caiu na pista; num trombo se imolou na própria ponta - não é culpa; é gente que se acotovela pra desatar. E o fogo róseo que antes lhe animava a seiva divina, de um dentro pra um fora, passou então a lhe queimar a pele, do vento para o mais completo acaso do sangue. É mistério que não se disseca, só se relata, veio dizendo o povo do circo, atento a todo e qualquer despertar; e com isso nem inibiu-se a vontade do doido. Juntou o fazer amar com o fazer querer-se e saiu a trabalhar pela união dos interesses, agora seus também. Quixotesco, saiu a caçar ordenanças, parte que vamos omitir, senhor; não é lícito supor sentidos para as aventuras que o deus busca na terra.

Não se sabe se a essa altura, terrena decerto, Eros fosse capaz de distinguir deuses e monstros. Certo é que logo topou com a encruzilhada de Helena; que logo o notou, que logo o atendeu, eternamente sinuosa entre a fila de pretendentes. Como os demais, qui-lo a seus pés; ultrajou-o no olhar, impôs honras e desonras pautadas em leis estrangeiras. Entretanto, por intuição divina ou traquejo mundano, Eros recolheu-se a uma posição superior, de onde – quem saberá? – passou a assistir o espetáculo que se travava entre a indigna e o cadáver de Narciso. Eros viu quando o afogado e Helena cruzaram juntos seu caminho com olhares de alcova, as pálpebras delirantes como borboletas à beira da morte. Narciso lhe sorriu mais fundo; do fundo de suas águas turvas talvez tivesse pressentido ajuda celestial. Lembro-me de que as ninfas que lhe faziam comitiva suspiraram orações pelo seu corpo encalhado:

- Salve Eros, que dá prazer à união da espécie; que devolve aos homens a sua condição entre-humana; que dá boca aos prazeres; que escorre a incerteza; que descobre a loucura; que insatisfaz a sede; que reclama a fome; que se retira antes do triste gozo. Olhai por Narciso, que veio da terra estrangeira onde buscastes a paz no silêncio das palavras; que não teve a beleza aceita e abdicou do mundo; que fadou-se ao amor sombrio de Helena, como sombrias eram águas que esponjaram sua carne vibrante. Salve Eros, senhor dos encontros, cantor dos contornos!

Senhor, meu senhor, que ouve a meia-boca esta história em que me intrometo e invento deuses, repito o que todos sabem: Eros deu colo e prazer. Sustentou os ombros de Narciso sobre o cadáver de Helena, humilhada por injúria própria. E podemos dizer, com a ousadia de quem rouba a palavra, que teria sido Narciso quem estendeu o braço e disse:

- Quem és tu, força da juventude, pele de regaço? Pulsa e pensa? Como andaste até aqui sem afetar-te da própria beleza? Que palavras nobres são essas que empunho ao pé do cadafalso? Por que razão fora de mim – os rasgos em teus olhos dirão - voltam-me as perguntas, meu jovem? Olho seco para minha despedida, retorno da flor fria, busco meu lugar nos costumes dessa gente, no mundo dos homens, na pista de dança. Caio para o céu, invertido na vaidade, rasteiro de razões. Esqueço-te para cumprir-me, por ora. Esta noite quebrarei os espelhos...

E assim, Narciso recolheu-se ao seio da terra em busca de secura; o fim das interrogações. O que renasceu de lá, só um Tirésias, sábio cego, poderia adivinhar e propor: deixa-me ver o que nem os cegos podem ver.

Eros, danado, impaciente como o desejo de ser novo, paciente como o sacrifício a que se entregara, respondeu sorriso com sorriso, dente por dente; e continuou sua trilha - não tinha tempo a contar-se. Vez por outra ainda ouviu o eco de Narciso, como linha cruzada, ou gêmea-encruzilhada: ouça o meu não-sei; saiba-me que te devoro.

Eu falei de um copo quebrado, mas isso foi o que perceberam. Houve mesmo um, espatifado no canto da pista de dança, próximo ao corpo submerso de Narciso. Primeiro espelho quebrado? Vingança de Helena? Zombaria de Eros? Caberia a nós decidir, senhor? Do lado de cá, a gente inventa uma história de deuses e mortais para preencher os boatos lá fora; e nos boatos ficamos, quietos, amuados, preenchendo indecisões; puxando os cabelos como quem não sabe se render. Ousaríamos nos aproximar dos protagonistas e, antagônicos, dizer: tomem vergonha nessas caras; isto aí não é um nada! Bem, o que posso dizer afinal? Ficamos na história, enquanto outros, na simples glória... Isto não é moral, é coceira de gente pobre, senhor. Eu adverti no começo: aqui não tem pêlo em ovo.

Terminamos sobranceiros – e agradeço o ouvido são. Fiquemos no devaneio, onde nomes e objetos não se dão. Amoitados, imaginemos beijinhos e carícias, se assim nos sustentamos da inveja. Caso não, voltemos para nossas dúvidas tolas de razão: será que seria bom se se queressem? Se é no sonho que se formula a atração dos corpos, a decisão dos amantes, só meus leitores dirão, senhor; os deuses não se influenciam por tão pequena monta - mas se eu lhes ajudar, pisco um sorriso a quem vier avisar. Perdoe-me a arte da alcovitaria; não tenho panca de sedutor - falei só de graça, meu senhor.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Dança Bandida


Para o Leo, que me venceu no Super Trunfo

“O poeta é um ladrão de fogo”.
Rimbaud

Eu já fui assaltado vinte três vezes, na proporção de um por ano, e só me tiraram cinco reais. Aprendi a fazer as contas para o pai, a reconhecer documentos e acordos tácitos. Sei contabilizar a minha vida, falo com orgulho. Só fico calado se me abordam com arma de fogo ou faca caseira. Não sou bobo, prefiro ser palhaço em cena, exposto com consciência, mesmo que esta consciência seja um silêncio. Quando sou palhaço a palavra some, dentro e fora de cena, e eu deixo ela sumir sem choro nem vela, tenho fôlego para ser bobo por inteiro, e não tenho medo de desmanchar no silêncio: aprendi a ficar erguido com muito balé e quando caio sou ator. Improviso e sobrevivo.
O que eu acho bonito é o que aconteceu num desses improvisos. Havia comida no palco vazio. Entre a comida, uma coca-cola alienígena. Um dos atores fez um furinho na garrafa, tão sem querer, e aquela espuminha foi rompendo o plástico devagar, num jato bem fininho e ácido, até ganhar uma força tão grande que tudo que estava ao redor ficou endemoniado como se deve. O acaso uniu o lixo e o gozo. Não esquecerei, nem deixarei de falar disso, até porque teve aquela outra cena em que entreguei desejo, beijo, amor e sexo, dois anos que pareceram duas horas, tanto que quando vi já era outro espetáculo. O que eu fiz depois dos aplausos não te conto, não é hora para contabilizar o passado. Próxima cena!
Esta noite bateu um desejo de querer saber porque estou num espetáculo que não tem nada a ver com aquele outro, onde eu entreguei tudo. Quis saber quem eram essas pessoas que se roubam à noite, pelos corredores esfumaçados onde a juventude goza. Entre essa gente, tinha gente que já vi na minha platéia. Cuidei para ter a cautela de saber quem era amigo e quem era ladrão, não quis perder mais do que cinco reais. O resto de mim eu arrisquei. O amor eu sei dar de graça, já falo logo, porque graça eu tenho na medida, salvo meu cabelo que amassa sob a pressão de um leve sonho, mas isso eu resolvo lavando. Tudo. Os loucos eu deixo em paz. Sorrio para quem me oferece leite com chocolate e rio quando é pouco o mistério que me oferecem. Rio pra não perder a postura dupla de palhaço e bailarino, meu mistério maior. E eu falo tudo porque falar faz bem, mesmo às seis horas da manhã quando o amigo pede ajuda e o desejo descansava quieto com o sono. E essa noite eu falei tudo e tanto. Quis dar nome aos bois, reconhecer os demônios que não sabem brincar. Porque são tantas coisas e alguém ainda veio me dizer que essas coisas todas são frias referências, quando eu quero saber do que dá calor de fato. Chega de ser assaltado pra viver uma emoção. Preferi entrar na cena desta noite, sem saber se fui como palhaço ou bailarino.
Só tremi um pouco e escorri um certo gelo quando escreveram na minha barriga, quase no final da noite. Isto aconteceu longe dos corredores, num quarto precisamente quadrado, sob o olhar crítico de uma gata no cio. Levaram-me e eu me deixei ir. Andarilho, topei com a imagem de Rimbaud, ladrão vendedor de armas de fogo e poeta errante, um século depois da morte ainda perdido num porta-retrato, como eu na lembrança do espetáculo anterior. Preciso reler Rimbaud, eu disse para me entrosar com meu próprio mistério. Aí tomaram-me nas mãos, como se eu fosse mais palco do que gente, e aí escreveram por mim a próxima cena. Da pele toda, roubaram-me uma depressão que tenho entre o coração e o estômago, e que faz barulho quando é invadida. Fiquei quieto sentindo as letras vazarem sobre o suor e abri os olhos de fininho para ver o que acontecia ao redor do meu buraco. Pra não ser roubado é preciso estar, em primeiro lugar, com os olhos abertos.
E vi: era eu que acontecia. Era eu que me espiava sendo escrito. As armas de fogo, se as havia, estavam debaixo da cama. Depois, ainda quieto, espiei a insônia de quem me sobrou no fim da noite. E sorri sem medo quando descobri que não iriam me acordar às seis da manhã para discutir o amor, e que só queriam me cobrir da noite finda, porque já era de manhã e eu havia aceitado tudo, até o sol iluminando corpos pálidos de tanta noite e tanto espetáculo.
No dia seguinte, tudo estará claro, eu sonhei antes de dormir: os bois terão nome e seu histórico será exposto na internet para quem quiser ver, como meu buraco protocolado em ponta de caneta bic. Quero aplausos. Dançarei na saída sem nenhum prejuízo, só uma camisa amassada. No bolso, guardo cinco reais e alguns cigarros que sobraram. É preciso ter pelo menos uma esperança de fogo para os ladrões possíveis. E guardarei uma última dúvida (privilégio permitido a quem espantou os ladrões pros buracos certos): preciso reler Rimbaud, esse ladrão que era frio, mas talvez fosse quente.

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quarta-feira, 25 de abril de 2007

INCÊNDIO NO CIRCO



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Sim, eu juro, eu só queria gozar, mas foi outra coisa que aconteceu. Acordei sentindo ameaças de prazer, de baixo pra cima, de dentro pra fora, e todo ‘vice-versa’ verificado em qualquer corpo são ou só. O tesão acumulado da noite anterior, melhor esquecer. Ninguém te deixou de pau duro e você diz que é porque ninguém te interessou. Agora acorda sem se caber. E você se toca. Mas antes de se tocar, se toca de que você foi egoísta pra caralho. E o caralho tá morto. Quanto amor pra dar, você queria que dissessem, mas ninguém fala de amor numa segunda-feira, pobrezinho. Sim, você quer se acreditar especial, pensar em coisas nobres, mas só sabe arder. O amor não combina com sua respiração sufocada. Foi fumaça demais na pista de dança. Você se espreguiça para relaxar e provar para si mesmo que dormiu bem, mas sente quando o corpo retorce como só faz com outro corpo. O amor. Meu saco.

Batem na porta. Que bom, alguém te salva dos pensamentos tortos que só o desejo traz. Essas coisas meio abstratas que a gente tem pressa de ler. Entra a atriz loira. A atriz morena dorme no quarto ao lado. De camisola rosa, ela se entrega e diz: quem é o meu palhaço? Preciso de uma música, um poema e uma dança para dizer o ‘quem sou eu’ do meu palhaço. Limpo a sujeira dos olhos na frente dela para deixar claro que achei o problema difícil e que sou apenas bicho. O palhaço sou eu, penso. Ela abre um livro de Carlos Drummond e derrama aquela melancolia de ladeira mineira. Ouço as buzinas lá fora. Não consigo rir nem sorrir. Disse que preferia Vinícius, mais dionisíaco, eu chutei. Não chegamos a uma conclusão. Ela arriscou Cecília, pura, mas consciente demais para um palhaço. Insisti em Manuel Bandeira e Mário Quintana, tão bobinhos e profundos. Não chegamos a uma conclusão. E eu pensei: ai meu saco, eu só queria gozar, ser desejo sem forma nem definição, e lá me vem você, pra te fazer lembrar uns poemas que só falam de amor, pra achar o amor do teu palhaço quando o palhaço aqui sou eu, já bravo, meio chato, monossilábico, com tesão demais pra ser sábio em alguma coisa a essa hora.

Você fala do amor como se fosse descartável, mas todas as poesias eram boas mesmo, e competem o amor entre si, é o que você descobre. E se lembra de ontem à noite: primeiro sentiu o amor banido dos corpos urgentes quando te puxaram os quadris com fúria e te disseram no ouvido coisas que um homem não diz. Era amor, mas você se lembra de outros corpos e umas almas até. E seu desejo foge do amor. Vai para dois lábios úmidos, doce criança suspira que sonhos juvenis de música e sucesso.Você já ouviu isso antes, mas não hoje, pensa, não desta boca sem fim. Era amor, mas você descarta essa possibilidade porque nessa hora da noite e nesse estado de estômago, não vale a pena lutar pra descobrir. Você só quer gozar com quem saiba rir quando falta um sonho juvenil. Viu só como você sabe o que quer? E isto é amor, respira aliviado. Tolo, você se diz, você respirou aliviado dizendo amor. E se justifica: sou obrigado a ouvir historinhas coloridas desta boca bonita quando eu já sei que é amor. O amor é o fim da boca. Cala a boca, por favor.

E a passos largos, você escorrega pra um outro drink que te lembrará daquele dia especial de anos atrás, quando jurou amor eterno para alguém que você já sabia que estaria longe demais para o amor. Foi mais fácil assim, você diz, e mais bonito até. Tenho algo puro, constante, marcado na certeza da memória. Que lixo! Olha onde eu estou. As pessoas se aglomeram em frente aos garçons atrás do balcão. Isso é o amor hoje à noite, você assume e cai na pista. Cruza com um sorriso que te repetem já faz meses, sempre o mesmo. Aquela afirmação tensa nos lábios, entre o desejo e a linda dúvida que mascara o medo e dá algum tesão. Você sorri de volta a dúvida, mas fecha os olhos como quem diz: eu só quero gozar. E o que tá te impedindo? O amor? O que eu tenho é maior, você se afirma e passa reto.

Você vai para o centro da pista para ter certeza de que sua dança de amor fique visível, e se não for amor, que seja o que vocês quiserem chamar, você já não se importa mais a essa hora da noite. Por fim, dá de cara com aquela pessoa que você tinha até esquecido que iria encontrar, aquela pessoa que lhe ofereceu várias possibilidades de amor, inclusive as já citadas. Beija porque tem que beijar, porque é assim que se faz quando o amor tem muitas faces ou é louco demais pra ser apenas essa coisinha chamada amor, como diz o rock’n roll. O beijo pergunta: cadê o desejo nesse amor todo? Sem palavras, duas bocas entram em combate. Sai a sentença: cadê o amor nesse desejo pouco? Depois olham-se com olhos de quem diz: porco velho! Você vai ao banheiro e vomita o beijo. Hora de escapar: o amor está vazando.

Você foge para a saída, não sem antes cruzar, estratégica e friamente, o caminho de cada um dos amores possíveis desta noite que já virava ontem. Hoje você acorda de saco cheio e reclama porque a atriz loira veio te consultar para questões amorosas. E deu a ela todos os poemas de amor que você vivera antes de dormir. Poemas contraditórios e verdadeiros como a noite insana. Drummond, Vinícius, Cecília, Mário e Manuel. Cada qual num canto da pista de dança. Mesmo na música eletrônica Vinícius samba miúdo de braços abertos. Mário e Manuel fazem gracinhas ao longe para duas irmãs até que bonitinhas. Cecília fixa o olhar num rodopiante foco de luz azul, desafiando a criação, muito além do amor. Drummond bate os pés, de cabeça pensa, concentrado no chão rasteiro. Esta noite os poetas não se deixam ouvir.

Se Rimbaud estivesse lá, estrangeiro que é, acenaria de longe e, com o olhar de quem viu algum deus solar, repetiria: é preciso reinventar o amor. Mas ninguém sabe por onde anda o francês ultimamente. Deve estar perdido no bolso de algum jovem insensato. Um dia você lerá Rimbaud sem amargar, você sonha, então encontrará o tal do palhaço nessa experiência que é o amor reinventado - e entre mágicos e palhaços, o circo pegará fogo e os bichos sairão à solta. Os macacos subirão nos prédios e de lá atirarão merda na cara dos desatentos e preocupados. Os elefantes pisotearão a cabeça dos atrasados e preguiçosos. Belo sonho, mas não faz o seu desejo secar.

À tarde, a atriz morena aparece. Também precisava de um texto para a sua personagem. Mulher da vida. E quem sou eu para saber disso? Sou homem trancado no quarto, e não mais. Ontem estive na rua, hoje quero esquecer. Não encontrei o amor que gera. Encontrei-me homem mais uma vez, sucumbido ao desejo infértil do mais fraco. Porco velho! E ainda me fiz de santo numa pista de dança. E hoje duas atrizes me enredam para a tal da profundeza das palavras...

Do fundo da estante acho Hilda Hilst. Velha, louca, trancada num sítio com dezenas de cães uivando pra ela. Mais que homem e mulher, Hilda foi o turbilhão que me salvou das palavras que me tirava a liberdade de amar sem objeto, cegamente. Achei um texto que ela escreveu numa segunda-feira: e se eu ficar lúdica, pastosa, permissiva, sonora, casta e contundente e não disser mais nada congruente, se eu ficar esmolando pelas ruas, lúcida espirocando, se eu levitar enquanto sobre o meu texto tu flutuas...

Mudei o gênero para o masculino e me encaixei: e seu ficar moleque, ereto, invasivo, conquistador, tímido e contundente e não disser mais nada congruente, se eu ficar esmolando pelas ruas, lúcido espirocando, se eu flutuar sobre as tuas palavras enquanto tentas levitar...

Assim, guiado pela louca, insensato com as palavras, puro com o desejo, esqueço todas essas palavras que transformei na historinha de antes e depois de uma noite de sono e volto para o começo, que é onde eu queria chegar, afinal: sim, eu juro, eu só queria gozar, mas foi outra coisa que aconteceu.

Dos quatorze aos catorze

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Aos quatorze anos, decidi fazer da palavra o meu meio de vida, sentia uma necessidade imperiosa de registrar o que eu julgava ser o meu olhar original, distorcido, diferente, deformado, decadente sobre as coisas e abaixo delas. Também acreditei ser capaz de olhar para as coisas sem afetá-las nem por fora, nem por dentro. E procuro escrever apenas o que vejo, fora e dentro. Sempre tive dificuldade em me sentir original, como quer a moda, mas julgava-me talentoso, como quer a arte, sim, eu me julgava talentoso em viver escondido nas palavras, manuseando o sentido das coisas, o sentido de Deus. Eu sentia-me pleno na palavra homem. Às vezes, ainda hoje, torno-me o animal que sou e julgo-me mago, possuído de um egoísmo feroz, orgulhoso de esconder meus talentos para o momento certo, de revelá-los apenas para os iniciados. Mas, ultimamente, na maior parte do tempo eu apenas projeto e escrevo, lento demais para o meu gosto. Enquanto isso vivo, e apenas vivo. Quero acreditar que meu trabalho está bom, e sei acreditar e desacreditar se for preciso quantas vezes forem, mas dependo dos mais nobres sonhos para realizar o trabalho, e tenho medo de que a nobreza de meus sonhos se desfaleça cada vez mais em loucura, e não sei se rio ou se choro, mas sei que a Razão, a Luz, o Sol, Deus e minha dor de falta de amor me orientam na jornada gélida às sombras da noite, da alma, do Ser, do mais remoto passado, do mais longínquo futuro. Sou um religioso de tradições simplistas. Sou grosseiro como só o corpo sabe ser. Sou pretensioso, sim, por querer ser uma voz da humanidade posso ser considerado um perfeito capitalista ocidental com minha arrogância de concreto armado, e pareço ainda mais tolo por assumir com antecedência esta sombra. Eu prevejo a sombra para manter um sorriso, nem que isto doa a alma. Meu nome está protegido no segredo das estrelas, não falo dessas celebridades de plástico, mas das estrelas verdadeiras, as supremas, aquelas que os amantes trazem para o beijo, aquelas que calam um cientista, aquelas que um poeta ousa descrever. Disseco meu ego-santo-sonho e sei sentir-me humilde, quando é preciso. Só quero sobreviver, e no fundo sinto-me protegido apenas pelo meu medo, desde o mais instintivo impulso de sobrevivência até as esferas mais celestiais que o futuro do homem não pode alcançar. Quero para o alto, para os lados e para baixo. Quero um cigarro antes e depois de meu desejo. Tenho vícios, burrices, erros e os admito com o mesmo alívio reprimido dos depoentes de grupos de ajuda.
Sinto que aos poucos perco o medo de ter medo. Sei que daqui para frente terei menos medo, mas tenho medo da quantidade de medo que terei de enfrentar até a morte, e tenho tanto medo que a morte me alcance antes de cumprir minha missão de vida que nem sei falar disso sem parecer piegas, brega, cafona, como quiser me escrachar. Por isso, paro por aqui. Só seguirei, como sempre, para dizer uma última coisa:
No começo dessa soma de frases, eu queria escrever uma carta para meu pai, para lhe dizer que já faz anos que eu quero dizer e não consigo, vinte e oito para ser exato, duas vezes 14, mas, como sempre, saio da escrita com outra coisa, insatisfeito com o que meu pai possa entender de mim.
Não vou dizer que chorei, porque chorei, guardo essa informação para os iniciados... Sou obrigado a disfarçar: perdoe-me pai, mas essa carta vai para nossa cachorrinha Nica, que ainda existe, que vive a 14 anos, que caminha para a morte com a alegria inconsciente daqueles que não estão presos em sua memória, neste dia catorze de novembro de dois mil e seis, véspera desta república que me faz rir, e que ri de mim.

terça-feira, 24 de abril de 2007

Daniela Duarte, acho que sempre me reconhecerei neste 'sou eu' que você viu em mim. Este texto tinha que sair da parede do meu quarto e cair aqui...
Será simples e sem complicação.

Para Alexandre Rabelo
Escultor de palavras
Imaginação que assusta

Era essa a frase.
Mas como?
Como poderia dizer...Pensei que a pergunta correta a ser feita seria: Quando?
Quando poderia dizer?
Na velhice eu tentaria o simples...
Arrisquei: Eu sou simples, tu és simples, mas ele não é simples, nós nunca fomos simples...
Parece que tudo no mundo, tudo, tudo, tudo...
Tudo o que arquitetamos não tem profundeza.
Não para quem não agüenta o impacto de sentir no corpo o veneno das metrópoles.
É estou amargando por aí, já há algum tempo... Acabei de assumir minha clandestinidade.
E lembrei de um momento...
Quando eu parei de conter, quando eu parei de procurar, quando eu parei de querer, quando eu parei.
Parado ali...Ali mesmo, no tempo, e o tempo parou comigo, o tempo não prosseguiu, o tempo era meu aliado.
Eu tinha um tempo só meu... Enquanto as pessoas viviam aquele outro tempo, eu simplesmente entendi o meu próprio ritmo no tempo...
Isso me calou e comoveu.
Pude por um longo período me encantar com a idéia...
Eu teria que mudar-relaxar na vida, principalmente uma coisa: Eu não teria que me adaptar a nada e a ninguém... Não sentiria solidão, porque estaria completo, seria um dentro do próprio tempo.
Mas o ser bucólico que me condena a margem se pôs a falar...
E se eu não te amar?
Retalhado
A beira da cidade
Introspectivo
Esperando respostas
Colapsado
Foge de medo
Eu quis
Eu
Ser amado
Eu queria ser
Eu
e Eu não estão se dando muito bem.
Procuro o que?
Fui afundado
Não pude ir além
Tremi até os ossos
Vi o tamanho do corpo fora do corpo
Vaguei um bom tempo não sendo
Eu sendo outro
Perdi os contornos os sentidos a profundidade
Procurei meus aliados
Mas estava completamente só
Estava assim
Não-definido
Sem comando
E disse com a voz
Tudo bem
Estava vivo porque respirava
Mas não me comportava como se estivesse dentro do corpo
Não me comportava
Deslizei os olhos na boca a boca na testa a testa nos cabelos
Os cabelos escureceram meu peito
Do meu íntimo um leque entrava e saia
Fatiando a minha carcaça me mostrando órgãos
Eu procurava a língua os dentes
As texturas
Superfícies de apoio
Qualquer concreto
O teto não segura a noite lá fora
O teto se evapora junto com pessoas
Eu não evaporo
Eu embaralho
Enquanto não penso posso voar
Vejo de longe os emaranhados da vida
Da minha vida
Mudarei
Mudarei agora antes antes de desistir
Mas o vento sopra...
Eu ainda débil permaneço em suspensão...tempo
E descubro que não estou sendo
E te deixo ir embora assim... Deixo-te ir seja lá quem estiver te deixo
Não quero fazer parte dos que procuram eternamente
Eu posso aportar?

quinta-feira, 10 de abril de 2003

Ode aos Loosers

Hoje eu acordei, vi esse dia feio, me olhei e no espelho e me senti feio também. Me senti gordo, sujo, com uma barba enorme, cansado. Enfim, fodido. Aí me deu uma saudade imensa do Nirvana. Eu me lembrei de quando tinha 13 anos e ouvi pela primeira vez Smells Like Teen Spirit. Fiquei estarrecido. E nem gostava tanto assim de rock. Pelo menos até aí. Era 1991. Naquela época tudo chegava via rádio e pela MTV, que estava no começo. Não existia internet para nós. Principalmente para eu e meus amigos da E.M.P.G Professor Antonio Prudente. Eu me lembro de que ninguém, nem mesmo a MTV, conseguiu classificar aquele som e aquele clip
e aquele tal do Kurt Cobain. Mas todos amamos. Numa época em que ainda estávamos tentando nos livrar das coisas fakes e alienadas que os anos 80 nos legaram (e que hoje são cultuados), aquela música tinha um apelo absurdo. Eu me lembro de ter visto a estréia deste vídeo clip. O VJ disse que em um lugar chamado Seattle existiam umas bandas que tentavam resgatar algumas coisas do punk. Mas não nos convenceu. Todo mundo que nem sabia o que era punk, seis meses depois tinha o seu exemplar de Nevermind. Mesmo as meninas que só curtiam a tal
da House Music. Ninguém entendia porque, mas todos gostávamos muito. Descobrimos que aquele videoclipe tinha sido feito com pouquíssimo dinheiro. A banda tinha reunido uns fãs de Seattle que já conheciam o trabalho das casas noturnas bagaceiras e colocou-os para agirem exatamente como agiam nesse lugares. O cenário, todos se lembram, era uma quadra de basquete de escola, com direito a todos aqueles funcionários loosers de escola pública. Provavelmente pais daquela galera. E todos eram completamente desleixados para o senso comum. Entretanto, nós, que éramos adolescentes, achávamos eles incríveis. Eram puros, sem artifícios, com aquelas roupas de looser, aqueles cabelos de looser, aquela voz e aquela guitarra de loosers. Como nós, completos loosers. Mas até que enfim, no meio daquela artificialidade da
época, comandada pelo hit Black or White de Michael Jackson, e por Groove is in the Heart do Deee Lite, eles cantavam coisas sobre nós mesmos. Finalmente! Sobre adolescentes que alguém tentou chamar de Geração X, mas não colou. Somos de uma geração completamente perdida em termos ideológicos e de perspectiva de vida. Mas o que o Nirvana mostrou foi nossa dignidade de admitirmos isso, e ao mesmo tempo, mostrar que nós nos divertíamos muito mais do que as outras pessoas. E mais do que isso, nós nos revoltávamos contra isso. Tínhamos muito ódio de tudo o que fosse artificial, só não sabíamos o que fazer a respeito disso. Muitas pessoas até hoje não entendem o Nirvana. Acham que é uma simples descarga de testosterona, quando na
verdade aquelas músicas mostram o quanto nós éramos legais, apesar de completamente perdidos. Quando nos acusavam de perdidos, e alienados, a resposta era: NEVERMIND! Deixa pra lá (subtexto: mal sabem eles...). Mesmo que não entendêssemos as letras, fossêmos de língua inglesa ou não, estávamos representados naquela sonoridade que traduzia plenamente nossa força vital, que era assassina de tão grande, e vontade de que tudo desse certo. E se não desse, foda-se. Já não tínhamos nada a perder mesmo. Kurt, em sua humanidade sabia disso. Escreveu em IN BLOOM: "He's the one who likes all our pretty songs, and he likes to sing along, and he likes to shoot his gun, but he knows not what it means and I say yeah..." Ele desafiou a cultura mainstream a tentar nos entreter, nós, os loosers, agora que tínhamos o referencial de Seattle: "Here we are now, entertain us!". Quando eles lançaram o segundo hit, Come As You Are, já estávamos completamente dominados. Amamos a crueldade expressa com muita sutileza no vídeo clip. Radicalizou o discurso de nossa desorientação e nos plasmou no que para mim é a melhor imagem da nossa geração: o vira-lata perdido, molhado, com medo, sem poder olhar para os lados com aquele cone na cabeça amplificando o som da idiotice e nos impedindo sequer de se coçar. Todos entendemos, mesmo sem entender, que aquele cachorro estava descendo a escada do inferno enquanto Kurt Cobain se via atado a um trapézio instável. E no clip ele nos oferece o revólver que poderia oferecer-nos uma solução simples, como a que ele tomou anos depois, por todos nós. Sim, ele é nosso mártir. Na letra ele nos conclama a assumirmos que
somos perdedores de nascença e a tomarmos um partido diante disto: "Come as you are, as you were, as I want you to be: as a friend, as a friend, as an old enemy. TAKE YOUR TIME, HURRY UP, THE CHOICE IS YOURS, DON'T BE LATE". Em seguida, não sei se veio In Bloom ou Lithium. Seja como for, eles já tinham virado celebridade e não aceitaram esta posição, como faziam 100% dos artistas na época. Num desses clipes, satirizaram a histeria de fãs que os curtiam porque estavam na moda, imitando aquelas bandas assépticas da década de 60. E num show na MTV, ao vivo para o mundo todo, trocaram a música combinada com a produção por uma fictícia RAPE ME, que quase matou os empresários. Adoramos! Mas depois, surgiram todas aquelas bandinhas pseudo-Seattle, imitando o estilo Nirvana, convertendo toda aquela
contundência em mero estilinho. Por isso eu me irrito com essas bandinhas de filhinhos de papai, que se embebedam e cantam Smells like teen spirit. O que me deixa feliz é que eu vivi intensamente esse disco NEVERMIND, enquanto ele acontecia, com meus maravilhosos treze, quatorze anos. E felizmente, estou marcado por esse "fedor de espírito adolescente" como define o título de Smells like teen Spirit. Esse álbum é sem dúvida nenhuma o álbum da minha geração, ou dos loosers da minha geração que se assumiram como tais, como eu. Os que poderiam plantar uma árvore, para serem politicamente corretos, como diz a letra de Breed, mas não tem o
menor interesse em fazê-lo, e foda-se. Foram vocês que nos fizeram assim. Por isso,
com toda a força vital que as melodias desse disco expressam, com toda sua humanidade
doída, eu tomo para mim as palavras de Kurt em Lithium, nesse dia em que acordei me
sentindo feio: EU SOU FEIO, MAS TUDO BEM, PORQUE VOCÊ TAMBÉM É.
NÓS QUEBRAMOS OS NOSSOS ESPELHOS.