quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

“Conectados & Desconectados”, de Daniel Manzoni


Li em dois tempos a novela “Conectados & Desconectados”, recentemente publicada pelo amigo Daniel Manzoni. Confirmo minha intuição: esses autores que aprenderam a vida na área da saúde e das biológicas têm uma agudeza de olhar sobre as relações humanas deliciosamente cruel. E Manzoni foi esperto em casar esse olhar cortante com nossa melhor linhagem melodramática, aquela que vira a chave e enfia o pé na jaca da desgraceira como Nelson ou Cassandra, nas mãos dos quais tudo vira tragicomédia. Bem difícil alcançar esse tom, só pra quem tem bastante consciência de nossa brasilidade, de nossas paixões doentias a esmo por um país sem força de lei. Essa novela intensa de 70 páginas usa de forma bem pontual a estrutura das narrativas rocambolescas e policiais para falar da cisheteronormatividade dos gays paulistanos, com especial ênfase para os rapazes de classe média baixa que se ressentem por não ter os mesmos privilégios que os rapazes da Bela Vista e Jardins. Rapazes para quem nenhum amor é destinado, que dirá uma bela união civil com festa e bailado. Claro, sua arena não é só a cena de bares, boates, restaurantes e academias de ginástica que vão do alto ao baixo gueto da cidade, mas principalmente as redes sociais. Os capítulos da novela são estruturados como posts públicos em que um narrador misterioso é quem nos conta essa história que chega às raias do crime. Destaque para as reações abobalhadas de supostos internautas nos comentários que também fazem parte do livro. Gosto bastante como o Daniel consegue apresentar o lado perverso dos homens gays, sem apresentá-los como vítima ou vilões estanques, mas analisando o background social de cada um sem ser pedante. Além da escrita talentosa, creio que este é o ponto que mais destaca essa novela em meio aos dramalhões gays que circulam por aí. Ansioso por mais histórias assim. Abaixo deixo um gostinho da novela:




quarta-feira, 15 de julho de 2020

Leitura irmã dos “Itinerários para o fim do mundo”


Um dos melhores presentes é quando um escritor que admiramos escreve suas boas impressões sobre nosso trabalho. Essa semana, o querido Teofilo Tostes Daniel, meu colega da Editora Patuá, autor do brilhante “Trítonos, intervalos do delírio”, livro que tem tantas afinidades com o meu, veio me contar essas impressões sobre alguns mistérios formais e de enredo que regem os “Itinerários para o fim do mundo”. De certo modo, ambos buscamos alimentar nossas narrativas com o inominável da feitiçaria e magia brasileiras. Obrigado, amado! Seguem suas impressões:


“Alexandre, querido,

sou um leitor vagaroso. Há cerca de dois anos, seu livro ficou me esperando nas minhas instantes. Cheguei a pegá-lo e colocá-lo na mesinha de cabeceira da cama umas três ou quatro vezes, mas só o li agora. Bom, não exatamente agora. Na semana passada. Terminei de ler o "Itinerários para o fim do mundo" faz exatamente uma semana hoje.

Em primeiro lugar, quero dizer que não conseguia largar o livro. Sempre que estava fazendo alguma coisa, pensava na hora de pegar o livro. Tanto que o li rápido (para os meus padrões). Acho que foram uns cinco ou seis dias de mergulho. E acho que essa palavra define bem o que foi essa leitura. Um mergulho no assombro e no encanto. Se foi assim desde as primeiras páginas, na experiência do personagem na China experimentei o primeiro êxtase. Suas palavras, querido, têm o poder de nos transportar para as paisagens que você narra com uma força incrível. Desde os detalhes mais simples sobre como o personagem conheceu sua conterrânea praticamente à beira da Grande Muralha até o ritual repleto de detalhes. Preciso dizer que encontrei no seu livro todo, e em especial nessa parte, uma identificação imediata. Ali estava muito do que eu desejo fazer com a linguagem, quando escrevo. E essa identificação com os procedimentos narrativos de um autor não são coisas que acontecem frequentemente.

Outra forte identificação, dessa vez pessoal, com o seu personagem, foram as referências de infância. Acho incrível como você condensa praticamente num único acontecimento "desimportante" elementos que poderiam estar dispersos em anos de experiência. E essas referências têm a ver com a geração. Afinal, também conheço as mesmas referêcias infantis do personagem -- também fui criança nos anos oitenta. Quase pude ouvir o chiado das televisões, os sons e timbre das vozes dos apresentadores dos programas. Tudo ali criou uma escrita sinestésica avassaladora. 

Achei fantástica a forma como é apresentada, de maneira quase impessoal, a história do personagem com a Clara. Ao ponto de a narrativa ir declaradamente para uma terceira pessoa -- dada a distância do personagem com aquele fato. Ao mesmo tempo, como é viva não só a narrativa do encontro dele com Clara, mas principalmente a da única paixão de Clara.

No curso da apresentação de personagens arrebatadores, o Don Juan foi para mim não só o personagem mais apaixonante, como também uma perfeita síntese do tempo. Em sua fala sobre o envelhecimento, acabei encontrando mais o meu memento mori dentro do seu livro do que na morte do seu protagonista, páginas à frente.

Minha sensação é que o livro vai se construindo por meio das narrativas do personagem mais velho. O personagem da mochila vermelha parece sempre meio fugidio. E esse contranste é constitutivo no livro inteiro. E o curioso foi que nas primeiras páginas, achei que o livro seria a história desse personagem, que se apaga (e acaba sendo), mas ele some engolido nas narrativas do marinheiro. Embora volte com uma força e uma presença espantosa no fim -- tanto na cena da morte do outro personagem, quanto a seguinte, em que ele aparece mais velho, quase como um mendingo ou um viandante.

Tive apenas um tropeço em toda leitura, um momento em que o fluxo narrativo me estancou, em vez de fluir. Foi pouco antes de o navio se prender e os dois se lançarem no mar escuro. Quando o personagem da mochila vermelha se anuncia assassino diz que vai estrangular o outro. Talvez seja o momento mais obscuro, para mim, de toda narrativa. E por mais que no fim eu consiga supor uma série de coisas sobre esse trecho, o leitor que sou ainda deseja ter viajado sem ouvir esse anúncio. Talvez porque esse anúncio me desestabilize, e a gente não sabe o que há de verdade naquilo que foi enunciado. Enquanto escrevo, penso que talvez eu não pudesse passar sem essa provocação. Que toda esse enovelamento de identificações precisasse ser cortado. E esse trecho pequeno (entre as páginas 114 e 116) corta forte em mim esse novelo. Tanto que passei todo o trecho posterior com mais medo de os personagens se salvarem, para que ocorresse um estrangulamento na praia, do que deles se afogarem no breu líquido da noite marítima. rs

Querido, talvez essa mensagem te chegue tateante. Ela é uma tentativa de dizer o quanto amei ler seu livro! O quanto ele me falou, em muitas camadas. De muitas formas diferentes. Chegando ao fim da leitura, senti com muita força que quero ler seu livro anterior, Nicotina Zero, e todos os próximos que certamente virão. Porque seu "Itinerários para o fim do mundo" me fez desejar ser teu leitor. Constante...

Um beijo, repleto de carinho,
Teo”

quarta-feira, 15 de abril de 2020

As lâminas absurdistas de Marcelo da Silva Antunes


Fazia tempo que eu queria ler a produção do Marcelo da Silva Antunes, não só pela qualidade cortante e lapidar de seu fluxo (“A vida não é teste, é texto”), como também por seu atrevimento na hora de vender o próprio peixe. É daqueles autores independentes que se destacam em meio a tanta gente gritando na quebrada, e chega abrindo seus diálogos com o tal do meio literário (elitista) como um todo. Longe de ser daqueles autores, jovens ou não, que incomodam ao querer aparecer a qualquer custo, sobretudo pela vitimização do discurso, Marcelo é seguro da urgência e justeza de seu grito, da força de seu humor lúcido, e sabe que os espaços (jaulas) que lhe seriam reservados precisam ser contestados. Tem fogo e água nos olhos, e não vai deixar barato. Recebeu a benção do mestre Marcelino Freire. Os resultados são visíveis. Com sua parceira de vida e arte, Aline Macedo, criou a Borboleta Azul, selo independente responsável pela produção de seus próprios livros e de parceiros. Mostrei os livros deles para alguns amigos que trabalham com design de produtos e todos foram taxativos ao afirmar o quanto são muito mais bonitos que as capas insípidas e clean da maioria dos livros das grandes casas editoriais.  Esse par da Zona Norte de São Paulo é a prova viva do quanto a revolução da democratização dos meios de produção no mercado editorial é uma das soluções mais certeiras para o futuro de nossa arte, com muita qualidade.
A revolução não é só forma, claro, mas conteúdo. Já em VIVACA percebemos um hibridismo muito feliz poucas vezes permitido nos meios oficiais, mesmo quando se dizem muito experimentais. Aqui temos um livro que mistura receitas vegetarianas escritas ao modo literário, mescladas com poemas urgentes sobre o dia a dia nas periferias da vida. É o que o estômago engole e o que ele devolve, em harmonia difícil de tecer. Aliás, faltam livros assim, obras que misturam a poética de um cotidiano mais prosaico do que os dramas de apartamento que normalmente são celebrados, com as utopias de um novo mundo onde o Brasil de fato acontece (“gosto quando tem placas de oferta e você sempre/ diz que oferta é oferecer/e me dá uma aula de promoção, propaganda e reforma agrária”). Como eu sempre gosto de dizer, só acredito em macho de esquerda que saiba fazer a própria comida e limpar a própria sujeira, e Marcelo não só sabe, como fez um livro sobre isso.
Mas o que impressiona mesmo é seu livro de contos OUTROS CORTES. É um projeto que começou como zine e ganhou corpo em livro. Não é qualquer voz falando da fome, do trabalho precarizado, das mães guerreiras, da ética outra que existe nos territórios onde a lei não chega. É a voz de alguém que reconhece a malícia que ganhou cedo demais, mas não se orgulha disso, como normalmente se vê por aí. Ao contrário, tenta preservar um olhar de criança e sabe o quanto esse equilíbrio é frágil, sujeito à luta diária. Talvez por isso tantos de seus contos  nos revelem as relações não como simples denúncia, como os autoproclamados escritores marginais, mas como absurdos inerentes à própria condição humana, como um bom escritor de qualquer classe ou geração é capaz de fazer. Aqui o nonsense vem para ressaltar o que o embrutecimento, tanto dos algozes quando das vítimas, tende a naturalizar. O olhar de Marcelo se irmana ao de autores como Camus e Beckett. O caso mais flagrante é o conto “Lembrança”, um diálogo entre dois maninhos tentando reconstruir a memória de tempos melhores que talvez nunca tenham existido. Aqui está o grande salto de seus contos.
Outro traço marcante que o diferencia dos autores ditos marginais de outras gerações é o cuidado em não criar seus próprios heróis, principalmente se estes forem homens. Como autor sensível de uma nova geração, Marcelo não glamuriza a luta e chega mesmo a apontar, em muitos contos, o machismo que fragiliza seus iguais. Essa perspectiva se reforça quando vemos tantos contos representando as mulheres guerreiras das quebradas não como santas abnegadas, mas como verdadeiras feiticeiras revoltadas, nada puras e muito conscientes de seu próprio fogo.
Por essas e outras, é bem perceptível o quanto a voz jovem de Marcelo da Silva Antunes se destaca e promete. Como um Geovani Martins no Rio de Janeiro, esse autor paulistano nos revela o absurdo tragicômico de uma realidade em que a naturalização de uma guerra civil de décadas tenta ocultar, esses pequenos gestos de violência quase invisíveis que insistimos em deixar passar batido para nos comover com desgraças maiores. Ele nos lembra o tempo todo de que, apesar dos esquartejamentos que muitas vezes poupam o sofrimento, são esses “outros cortes” que nos matam diariamente e também nos permitem renascer mais fortes.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Resenha - Um presidente para um tempo de egoístas humanitários



O Ditador Honesto é o quarto livro de Matheus Peleteiro, autor jovem, prolífico, cheio de gás, apaixonado. Acabou de ser lançado com sucesso na Bienal de São Paulo e na Livraria Cultura, em Salvador e nos mostra a imagem de um ditador honesto, um advogado que pensa ter a solução para todo o Brasil, cheio de carisma, entusiasmo, ingenuidade e bons ideais, e inteligência para agregar em sua figura todas as pautas mais importantes das minorias e da maioria pobre, sendo exaltado tanto pela esquerda dividida e arrasada, quanto por uma direita que se entrega ao movimento de crescimento econômico que suas novas leis de impostos trazem a todo Brasil, tornando seu líder, Gutenberg Faria, um ícone e mártir internacional.
Quem nos conta sua trajetória é um homem muito simples que sempre havia sido seu secretário, desde os tempos das firmas de advocacia. Este narrador apenas recebe as tarefas de seus superiores, intercede em poucos casos e, anos depois dos fatos, num futuro quem sabe ainda mais sombrio, nos conta sua história de encanto pelo chefe e líder da nação. Gutenberg é extremamente sedutor, tem lábia e fé no resgate dos ideais de justiça dos grandes democratas românticos, vindos de família pobre. Não deixa de ser uma figura egoísta em sua paixão cega, mas sua ambição não parece tamanha como veremos.
Ele não tem a força totalitária de um Grande Inquisidor, personagem célebre do último romance de Dostoievski, que aprisiona Cristo por julgar que este não poderá oferecer liberdade, igualdade e fraternidade senão para uma pequena minoria de alguns milhares. Estabelece a dialética do pão e da pedra. O grande inquisidor nos diz: se eles do povo se organizarem por si mesmos, nas mãos deles o pão do trabalho se transformará em pedra de guerra, enquanto que, organizados por nossa hierarquia, e por nossas mãos, dos totalitários, as pedras se transformarão em pão em nome de seus valores humanitários, pois o ser humano só é capaz de ser regido pela autoridade, pelo mistério e pelo milagre. Já o Ditador Honesto, que dá nome ao romance de Peleteiro, precisa mistificar a si mesmo, tanto como Cristo quanto como Inquisidor. A população brasileira não dá conta do milagre quando Gutenberg ascende ao poder e faz todas as conquistas impossíveis. 
Ele é mais um anti-herói trágico como o Gatsby de Fitzgerald e, como neste clássico americano sobre o poder, é narrado por seu amigo e admirador que o vê como o próprio mistério. O jovem nos narra uma trajetória política e familiar angustiada, de um líder tentando entender seu próprio limite e que, após todas as conquistas, perde a sede de mudança, chegando a desistir de uma reeleição. Nobre. Entretanto, o que nos interessa em sua ascensão ao poder é o modo como o idealismo que chega ao poder sutilmente coopera ou não com a corrupção.
A história se passa num futuro próximo, não há alusões a inovações tecnológicas, não há discussão com políticos administradores ou cabeças importantes do mercado financeiro de capital mundial. O livro é focado no Brasil em tom de fábula. Vemos quase que um rei das antigas, criando leis e revisando impostos, como se isto só fosse possível num governo centralizado e forte como a monarquia. Sua trajetória é a do diabo vaidoso e compassivo aos homens, como o Dr. Fausto de Thomas Mann. Numa eleição milagrosa, cresce nas redes sociais e num partido novo, fantasma como todos os outros. Ganha base parlamentar suficiente para não ser incomodado por nenhum grupo radical. Nesta fábula, o foco está em chamar a responsabilidade para o leitor-eleitor, ao invés de apenas culpar os políticos e focar em suas artimanhas corruptas. A pergunta é para nós: o quanto conseguiríamos suportar um sistema de igualdade e livre circulação?
Matheus Peleteiro tem aprendido com fabulistas modernos como Saramago, Camus e Hilda, de leve. Os três trazem como foco a ambiguidade do homem em situação de poder, os três trazem a sombra do mais humilde e do mais poderoso como lição. Ao redor do ditador honesto é revelado um teatro de máscaras, como nos descreve Artaud em seu texto O teatro e a peste, o qual se casa com a narrativa fantástica La peste, de Camus, onde uma sociedade acometida pela corrupção e doença, deixa cair suas máscaras, e como membros de cada instituição importante que rege a sociedade acaba invertendo seus valores para sobreviver à urgência do caos.
Gutenberg poderia ser definido como um ufanista egoísta, segundo o próprio Matheus, e quer mudar a própria realidade. Neste sentido, a crítica caberia a muitos de nossos atuais governantes, não só a um ou outro. Este livro iguala todos os rivais. Não se resume a uma intriga policial de nível governamental como no romance Agosto, de Rubem Fonseca, mas numa metáfora fabulesca da relação deste líder com seus assessores idealistas imediatos e a população civil brasileira.
É um acerto de contas para nossas consciências, vindo de um jovem escritor e pesquisador das leis, egresso de uma faculdade de Direito, como grandes nomes do nosso romantismo literário mais rebelde, um Álvares de Azevedo, um Castro Alves, um Gonçalves Dias, e até um Fagundes Varella. No mundo de hoje, temos que ter mais armas contra o cinismo, as quais Peleteiro não deixa de buscar num Bukowski, sempre que necessário. Fico feliz que um rapaz tão jovem tenha dedicado a escritura do seu quarto livro a trazer a questão mais urgente do nosso país com ironia tão fina, tentativa só alcançada com o mesmo porte por Ricardo Lísias, no livro sobre Eduardo Cunha.
Li O Ditador Honesto em apenas dois dias, embora nos traga tantas questões. Tem a urgência dos nossos tempos, e imagino que conquistará muitos leitores interessados em reconhecer as próprias ambiguidades neste momento tão sombrio para política brasileira. Este livro se coloca na mistura entre um romance histórico e uma ficção distópica, assumindo o extremo da fábula de um passado que já nos condena a um futuro cada vez mais fechado. Quem substituirá nosso ditador honesto?, nos resume.
Este potente neófito das letras de Salvador, Matheus Peleteiro, joga a resposta para todos nós, trabalhadores de um país ainda amador. E salve Jorge Amado, seu conterrâneo mais célebre, que sempre foi direto em suas críticas políticas, com a verdadeira vocação satirizante de um brasileiro terno e sábio que conhece sua gente.

Alexandre Rabelo é autor dos romances Nicotina Zero, Hoo Editora, 2015, Itinerários para o fim do mundo, Editora Patuá, 2018, e tem sua base em São Paulo.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018


AMORTALHA (Editora Patuá, 2017) é o primeiro livro de Matheus Arcaro que leio. São contos alinhavados por este conceito-contradição fundamental que o título sugere, a descoberta do amor no confronto com a morte, a descoberta da morte na experiência limite do amor. Se este livro nos contasse uma única história, com poucos personagens e um herói, o título seria pretensioso, pois estaria tentando buscar esse imenso universal que hoje é cada vez mais denunciado como ideológico. Porém, ao final da leitura, perdoamos e aplaudimos o autor, pois percebemos que ele conseguiu reunir personagens dos mais díspares em torno desse tema central, dando a cada um deles uma combinação distinta e bem escolhida de gêneros literários que vão do monólogo interior à distopia, com destaque para um realismo justo, sintético, fruto de um olhar concentrado mais que de um exercício estilístico vazio, como encontramos aos montes por aí. 
De modo geral, Matheus se debruça por tipos dos mais comuns, aqueles que não ganham muita visibilidade para nosso gosto colonizado que só se interessa pelo pobre enquanto pitoresco, bufão ou vítima. São professores, policiais, operários, evangélicos, enfermeiros, um engenheiro amargo, um gay amargurado e suicida, duas lésbicas que tomam a iniciativa de tentar resolver um mistério fantástico que aflige a todos, mais algumas mães com desgosto, mas que nunca deserdam seus filhos, além de crianças perplexas diante do mundo adulto, filhos ingratos, pais de primeira viagem, amantes ambíguos, animais domésticos vivendo o amor e a morte num cotidiano inglório, sem os melodramas novelescos que esses mesmos brasileiros gostam, sempre julgando que suas próprias vidas não são dignas de ser representadas na tevê ou no Castelo de Caras dos Alternativos. A maioria vem de famílias brasileiras médias, pobres. E sobre elas Matheus busca um olhar empático que não olha de cima, já que vem desse mesmo meio e para ele retorna após uma sólida formação literária e filosófica (apenas seu ateísmo me parece um pouco panfletário). Acolhe sem idealizar, ao mesmo tempo que explora seu lado patético sem cinismo. Quase como um encontro entre Guimarães Rosa e Nelson Rodrigues, ou entre Machado e Rubem Fonseca. Aqui a família brasileira é defendida e denunciada ao mesmo tempo. Ninguém tem salvação e por isso mesmo todo mundo é lindo. Seus traços são predatórios e egoístas, meio bonachões, típicos do capitalismo numa sociedade pós-escravista, um pouco na tradição do Sargento de Milícias, mas há sempre o refúgio numa certa compaixão, mesmo que o brasileiro só seja solidário no câncer, como disse Nelson. 
A prova de que este livro é grande é dada pelas questões que ele me pede para fazer à sua escrita: até quando a mulher brasileira demonstrará sua força apenas para defender famílias em frangalhos? Até quando gays e outros desenraizados quererão a salvação num grande amor, e sem isso se tornam cínicos e suicidas? Nesse contexto, pergunto a Matheus também até que ponto ter um filho e constituir família no século XXI pode ser o conforto e a solução final? Deixo essas provocações para que ele explore, em seu olhar tão rico e abrangente, outras formas de união e desafeto que não passem pelo familiar. Fale dos ricos também, Matheus, vamos adorar. Fale mais dessas mulheres que não sejam sempre vítimas por serem fortes demais para nós ou fracas demais para si mesmas, homens que não precisem idolatrar um feminino ideal para ser validarem num outro tipo de sensibilidade diferente da decadência que o arquétipo do macho hétero representa. Mas esses são desafios para o futuro de sua escrita, pois o presente está muito bem alicerçado, com destaque para as imagens poderosas onde entrelaça o concreto com o espiritual ou existencial, sobretudo no olhar sobre os movimentos individuais do corpo, onde suas contradições são melhor captadas que na exploração sistemática de seus dramas interiores, ainda que esses sejam deliciosamente pontuais.  Gostaria também de ver mais esse tipo de olhar tão preciso na criação de diálogos tão incisivos quanto suas descrições, ou tão surpreendentes quanto seus enredos com finais impactantes ao modo da literatura policial. Tenho certeza que ao praticar estas últimas emancipações em seu espírito inquieto, Matheus Arcaro será cada vez mais recebido com um dos nomes mais promissores deste momento borbulhante e desafiador da literatura brasileira.

P.S.: adorei o diálogo entre Freud e Sócrates, pelo olhar de Foucault. Gostaria de ver a continuidade desta terapia, com menos paródia, com Freud menos Nietzsche e um Sócrates menos Woody Allen. Poxa, a gente ama esses caras. Seus limites não devem apagar seus méritos. 

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Resenha-Carta para o romance "A Resistência", de Julián Fuks


Julián, esta resenha sobre seu romance “A Resistência” não poderia aparecer no formato corrente, com questões e assertividades que tentam se validar numa política e num circuito do conhecimento. Meu acerto de contas é com você, para romancearmos um pouco. Alguém que não conheço e não gostaria de abordar como autor, mesmo porque você nos lembra no livro o quanto a forma romance resiste em despontar como o lugar onde os gêneros textuais exploram seus limites e confluências. Além do mais, não podemos nos esquivar de abordar “A Resistência” como um romance que dialoga com isso que se convencionou chamar de autoficção. Sobretudo, preciso encontrar delicadeza para forjar uma proximidade que me permita contar minha própria resistência a um livro, de forma fraterna, como você merece por ter explorado as dificuldades da alteridade, mesmo entre familiares e nações, passado e presente. 
Antes de chegar na página em que seu irmão grita que vocês falam, falam, falam e nunca veem, eu próprio havia levantado essa questão. Sabe, sou um cara que não conseguiu resistir aos problemas de duas graduações da nossa FFLCH, História e Letras. Lá tenho muitos amigos, admiração de professores, tenho uma pesquisa em teoria literária, e também sou ovelha negra da família. Porém, até o presente ponto, minha resistência nesse caso foi desistir da academia, assim como desistir do teatro, do cinema, do magistério, da música. Abandonei as duas graduações e hoje moro entre dois mundos distintos. De um lado, em nossas prateleiras de livros, de outro, moro no quarto do seu irmão. Na sala, sou escritor, no quarto, sou seu irmão. Por um um lado, admiro sua busca pelo valor da sinceridade, por um real impossível que não seja mero recorte de nossas projeções, e por um diálogo em forma de abraço como ação mágica por excelência. Admiro sua franqueza e brilhantismo em apresentar um romance cujo centro não está nem na história, nem na memória, nem na ficção, mas na contradição de qualquer discurso positivador. Nesse sentido, até esperei que você desmontasse um pouco mais os pressupostos da psicanálise, essa profissionalização da intimidade burguesa, que tanto amo e odeio. 
É lindo como, ao repor a trajetória de sua família numa história que lhes foi roubada, você faz do silêncio enclausurado de seu irmão a ferida de um exílio herdado. Ao mesmo tempo, fiquei me perguntando por que vocês não procuraram visitar e ocupar os circuitos de rua onde o irmão se buscava. Fiquei imaginando-o numa aventura de descobrir o corpo, de sentir-se corpo, resistindo a existência no prazer, medindo a dor na saúde da carne, na sensação, mais do que se perdendo em subjetividades bem elaboradas e compreensões firmes.
Você sabe, acabou na história do romance o apelo à aventura exterior. O mundo já foi conquistado, pelo menos na ótica do hemisfério norte. Você próprio, muito justamente, é cauteloso para não romantizar resistência política de seus pais como uma aventura. E quando nos aponta o quanto eles acharam um outro modo de resistir no exílio, fiquei me perguntando: será que o irmão queria se mostrar parte da família ao resistir com um silêncio corporal ainda mais perturbador que aquele de sua própria família? Será que houve uma disputa de silêncios de naturezas diferentes? Talvez o silêncio do seu irmão seja a resistência de um corpo contra a civilidade. Não deve ser fácil ter uma família bonita e estruturada, e ainda devedora de um país acolhedor em seu exílio.
Muito tem se discutido sobre como a história do romance teria uma linha mestra, que seria o devassar da noção da intimidade burguesa. Desde as cartas de Pamela, de Richardson, os romances foram abrindo portas proibidas neste conceito de lar como proteção, conforto, centro da vida, e ainda não ousamos abrir todos os cômodos. Em Flaubert, não vemos o sexo, vemos a carruagem trêmula e protetora que conduz os corpos pelas ruas caóticas de uma grande civilização. 
Eu acredito muito que as tensões do corpo elétrico são a narrativa em que o romance ainda não chegou. A descrição do sexo ainda é fetichista e subliterário. Vivendo a desafiante experiência de ser gay numa época de questionamento milenar do patriarcado, e sendo escritor, penso que ainda destacamos muito uma dignidade para o invisível, seja essa uma religiosidade conservadora, seja uma militância de outras formas mais inclusivas de discurso, sem perceber sua violência à existência imediata dos corpos. O jogo, na esquerda e na direita é muitas vezes o mesmo: afirmar identidades perante o fantasma do homem universal. Assim, a afirmação da subjetividade pode representar resistência ou morte. 
Não percebemos o quão corporais são as palavras. Corpo e palavra ainda não se reencontraram desde a dupla revolução do iluminismo racionalista e do tecnicismo industrialista. Vivemos acreditando que o mundo interior, o universo da subjetividade, é um espaço de respiro e resistência, sobretudo quando questionamos valores e afetos, identidades e ideologias. Ainda reiteramos, mesmo entre os maiores dissidentes, a filosofia aristocrática e masculina dos gregos antigos.
Existe uma corporalidade tácita em seu livro que eu adoraria ver mais, uma corporalidade que resiste como lugar de refúgio para os traumas. Uma timidez aqui, o desejo de um abraço ali, a paciência na hora do chá acolá, o constrangimento físico no museu das avós, o não pertencimento ao corpo de nenhuma cidade. Julián, eu queria te dizer, em tom de gratidão por seu belo livro, que todos nós somos herdeiros de uma série de exílios. A alienação, como você bem deve saber, é estrutura constitutiva da subjetividade nesse sistema produtivo. Todos estamos sendo estrangeiros, e quem mais está em crise identitária é o homem branco, seja o "bruto", seja o "sensível", seja hetero, seja gay, seja rico, seja pobre, estamos todos cada vez mais desalojados de um patriarcalismo em crise que nos colocava no centro do discurso de universalidade forjada e naturalizada. Nossa sensibilidade hoje, quando queremos ser sensíveis, é a da mea culpa apenas, o que é triste. Até que ponto não reproduzimos em nossos próprios exílios subjetivos impossíveis a violência que combatemos na objetividade possível da história como narrativa do patriarcado, seja de esquerda, seja de direitaSob esse contexto, não seria a própria história da subjetividade uma narrativa romanceada e profissionalizada desta crise do homem universal, que narra seu mundo como se fosse o de todos?
Sei que são questões que convidam a longas conversas, a uma luta de muitas gerações ainda, e espero que possamos caminhar juntos. Por ora, espero apenas deixar meu convite a uma amizade franca entre duas pessoas instaladas em lados diferentes da porta de um quarto. A casa ainda é a mesma. 

Grande abraço, 
Ale

sábado, 16 de dezembro de 2017

A vida vista em plano médio

Resenha do romance enquanto os dentes, de Carlos Antonio Pereira, Editora Todavia, 2017

Sete anos numa cadeira de rodas produziram um ótimo escritor. E você lê as 100 páginas no mesmo dia em que compra o livro. “Enquanto os dentes”, de Carlos Eduardo Pereira, é uma bela estreia editorial, aposta certeira e corajosa da Todavia no gênero romance. A capa maravilhosa conta toda a história. 

O narrador nos traz muito próximo de Antônio, cadeirante de cerca de 40 anos, em sua travessia saindo do “antigo apartamento“, como ele chama agora a casa onde morou por alguns anos e onde foi mais feliz, pintando seus quadros, fotografando e circulando pelo mundo das artes, egresso de um curso de filosofia, faculdade que abraçou após abandonar cinco anos da escola da Marinha, onde era conhecido como “libélula azul“ pelos parceiros num ambiente de disciplina e violência, com sentimentos de supremacia, machismo e hierarquização. Antônio havia seguido a carreira do pai, o Comandante, um homem branco, de pensamento militar que se casara com uma negra numa relação de quase escravidão. Ela sobrevive buscando verdades na igreja, quando o homem permite, e visita um pouco a vizinhança em Niterói, para onde Antônio agora tem de voltar. Não fala com o pai há 20 anos de ódio e afastamento. Mas foram eles que sobraram, pois o corpo em processo degenerativo não consegue mais se manter só, e a simbiose com a cadeira de rodas é um processo dolorido. É difícil se tornar cyborg, de modo que Antônio tem náusea até com o gosto metálico da maior parte dos alimentos que ingerimos. Antonio é um personagem que nos põe numa perspectiva de vida vista em plano médio, e com medo de cair ainda mais. Seus cinco sentidos estão desaparecendo, o tempo presente elástico, e a travessia de barco, de volta o lar, invadida pela memória dessas outras tantas travessias difíceis em sua vida, vai costurando, do Rio a Niterói, uma trajetória vivamente atenta aos detalhes das ruas e lugares, pontos de fuga na urbanidade densa do Rio. Essa cidade, como qualquer outra, flui a eterna presença do peso do patriarcalismo nas pequenas relações, mas também é lugar de esportes, mar, e um amor perdido que não segurou a barra do acidente e tudo que veio junto. De todo modo, naquela Rio de Janeiro de alguns anos atrás, ainda se podia ser gay mais livremente do que no mar controlado por homens. A técnica de Carlos Eduardo me lembrou muito a de Marguerite Duras, nas evocações objetivas da própria subjetividade, e nas alternâncias bruscas entre passado e presente, ambos avaliados de forma seca, porém muito elegante, crua mas alusiva, e repleta de memórias quentes. As alternâncias entre a viagem de volta o lar, que avança lentamente, e a memória que se reconstrói, é tecida com habilidade de um parágrafo outro, mudando de assunto bruscamente mas costurando os fios que ligam um tempo ao outro. Há muito da técnica cinematográfica aqui. É um livro forte que vem de uma experiência que só poderia ser considerada de marginal pela centralidade do homem branco, o qual veria esse romance apenas como um bom exemplo de representatividade na literatura, quando é mais, uma brilhante caminhada por vários desafios mortais e cruéis colocados pelo patriarcalismo, e que com ele dialogam de forma franca, sempre “muito educado“, como o próprio narrador nos diz, tentando apenas guardar tudo que se passa nas travessias, e esquecer os silêncios.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

mais notícias sobre o fim do mundo

O mundo iria acabar às cinco horas da manhã, assim anunciavam os pequenos pontos de mofo nas pontas dos livros na prateleira, assim anunciou o pó endurecido sobre o souvenir de uma viagem feita há séculos, assim decretou o silêncio suspeito na árvore orvalhada lá fora. Assim ele soube; tão certo como em todas as outras madrugadas em que, cansado de absorver cultura, de promover para o si o espetáculo de alguma esperança escondida na entrelinha de um poema revisitado, na luz familiar de um novo clássico do cinema, ele reagrupava forças só para se permitir ser fraco, encarando a hora nua em que o passado passa em paz, um minuto apenas de doce espanto diante do nada em que tudo pode se reconstruir, perdoado já não só pelos homens que lhe imaginavam outro, mas pelo universo mudo e simples, como animal depois da fome.
Não que o ontem não tenha sido gentil. Duas ou três palavras amigas, uma salada de frutas tropicais, pequenas celebrações familiares que, sem querer, escarneciam na face da ambição desmedida. Um dia perfeito. Algumas inimizades que o faziam sonhar, como na adolescência aberta a tudo, uma futura união das consciências de todos os vivos e ainda com a memória de todos os mortos; algumas dívidas lembradas a fim de tornar nítida a necessidade de ser mais que o pó da terra, para que valha a pena.
Talvez a presença atual do fim do mundo fosse só a impaciência do curso natural de um corpo que se pede a si mesmo; nada que merecesse uma revolução social. Não era sequer tristeza, era mais a hora difícil do amor. Sim, um dia acreditariam em seu amor transcendente, sem objeto, e será quando os suicidas sairão de seu ego e caminharão em direção ao sol justo da primeira hora da manhã.
O fim do mundo agora era todo dia -  ele reconsiderou quando o relógio passou das cinco e meia - por isso a necessidade de projetos grandes, de novas políticas de apaziguamento na exuberância de uma alegria leve, sem grandes efeitos, dessa de criança que descobre o jogo que iniciou todos os jogos. Epifania sem nome de deus. As crianças sabem que é apenas um jogo, entretanto, se permitem acreditar sabendo ainda que o acreditar, ele próprio, é também jogo; sabendo que o mistério de iludir-se é tão justo quanto crer na ilusão do mistério. E adultos são aqueles que acordam um dia na preguiça de uma dor e lá ficam, semeando o peso de alguma eternidade grandiosa.
Às seis horas batem no relógio e os ponteiros indicam o céu: é de novo o começo do mundo. Ele vai se rendendo ao domínio do sono, após invertidamente ter-se entregado ao reino dos sonhos. E, sem culpa, numa paz qualquer, pobrezinha e feliz, ele adormece logo após ter-se prometido: amanhã, depois do novo fim do mundo, eu saio para resgatar os que sobrarem. Então sorri por dentro, para que ninguém lhe tomasse a força que reconcilia o bem e o mal.

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O mundo iria acabar às cinco horas da manhã, assim anunciavam os pequenos pontos de mofo nas pontas dos livros na prateleira, assim anunciou o pó endurecido sobre o souvenir de uma viagem feita há séculos, assim decretou o silêncio suspeito na árvore orvalhada lá fora. Assim ele soube; tão certo como em todas as outras madrugadas em que, cansado de absorver cultura, de promover para o si o espetáculo de alguma esperança escondida na entrelinha de um poema revisitado, na luz familiar de um novo clássico do cinema, ele reagrupava forças só para se permitir ser fraco, encarando a hora nua em que o passado passa em paz, um minuto apenas de doce espanto diante do nada em que tudo pode se reconstruir, perdoado já não só pelos homens que lhe imaginavam outro, mas pelo universo mudo e simples, como animal depois da fome.
Não que o ontem não tenha sido gentil. Duas ou três palavras amigas, uma salada de frutas tropicais, pequenas celebrações familiares que, sem querer, escarneciam na face da ambição desmedida. Um dia perfeito. Algumas inimizades que o faziam sonhar, como na adolescência aberta a tudo, uma futura união das consciências de todos os vivos e ainda com a memória de todos os mortos; algumas dívidas lembradas a fim de tornar nítida a necessidade de ser mais que o pó que da terra para que valha a pena.
Talvez a presença atual do fim do mundo fosse só a impaciência do curso natural de um corpo que se pede a si mesmo; nada que merecesse uma revolução social. Não era sequer tristeza, era mais a hora difícil do amor. Sim, um dia acreditariam em seu amor transcendente, sem objeto, e será quando os suicidas sairão de seu ego e caminharão em direção ao sol justo da primeira hora da manhã.
O fim do mundo agora era todo dia -  ele reconsiderou quando o relógio passou das cinco e meia - por isso a necessidade de projetos grandes, de novas políticas de apaziguamento na exuberância de uma alegria leve, sem grandes efeitos, dessa de criança que descobre o jogo que iniciou todos os jogos. Epifania sem nome de deus. As crianças sabem que é apenas um jogo, entretanto, se permitem acreditar sabendo ainda que o acreditar, ele próprio, é também jogo; sabendo que o mistério de iludir-se é tão justo quanto crer na ilusão do mistério. E adultos são aqueles que acordam um dia na preguiça de uma dor e lá ficam, semeando o peso de alguma eternidade grandiosa.
Às seis horas batem no relógio e os ponteiros indicam o céu: é de novo o começo do mundo. Ele vai se rendendo ao domínio do sono, após invertidamente ter-se entregado ao reino dos sonhos. E, sem culpa, numa paz qualquer, pobrezinha e feliz, ele adormece logo após ter-se prometido: amanhã, depois do novo fim do mundo, eu saio para resgatar os que sobrarem. Então sorri por dentro, para que ninguém lhe tomasse a força que reconcilia o bem e o mal.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A DAMA DE FERRO - nem anjo, nem demônio


Meryl Streep sabe por onde passa, e não é só pela arte. Numa de suas mais belas interpretações, pouco importa a qualidade estética do filme, que tem sido o foco dos críticos. Às vezes precisamos lembrar que cinema não é só cinema. O poder humanizador desta atriz abre caminho para uma discussão importante, a relativização da imagem de Margaret Thatcher, tal como esta foi cristalizada pela imprensa de trinta anos atrás. Como toda imagem estática, a primeira líder política mulher de uma democracia moderna, tal como a conhecemos, é apenas um bode expiatório pouco questionado de problemas que são sistêmicos, e não de responsabilidade de um certo indivíduo, sequer de um grupo político ou de uma única nação. Trocando em miúdos, o demônio Thatcher é problema nosso, não custa lembrar. Vejamos.
Uma das medidas mais controversas tomadas pela política britânica, quando ainda era ministra da educação, já nos anos 70, foi abolir a doação de leite nas escolas públicas, com o discurso de que o foco do orçamento deveria ser as necessidades acadêmicas. Esta medida muito contribuiu para a criação de sua imagem política, ao ser manipulada pelo então atual governo trabalhista, os Labour, os de "esquerda", que sofriam a oposição dos "direitistas" Conservatives. É fácil confundirmos uma orientação esquerdista com medidas populistas. Antes de acusar Thatcher de racionalizar o orçamento da educação, é oportuno lembrar do que Paulo Maluf fez pela educação em São Paulo, que foi exatamente distribuir leite sem mexer nas bases da educação. A estratégia não deve ser apenas por mais crianças na escola, mas tornar a educação formal uma alternativa realmente eficaz na construção de uma cultura mais forte, que é a única base sólida para uma democracia forte. Estamos acostumados a achar que o papel do cidadão é apenas reivindicar direitos, e o do Estado, assumir deveres. Esta visão, sabemos, é tão paternalista quanto as políticas aristocráticas e coloniais de séculos atrás, herança que carregamos com particular peso no Brasil, e que predominava no governo populista britânico onde Thatcher começou a crescer como membro da oposição que era nestes anos -  pasme - o partido conservador.
Os anos 70 foram marcados pelo arrefecimento da Guerra Fria, baseada no poderio militar, imperialista, Estados protecionistas; e pela concomitante recuperação da especulação financeira, claramente representada pela crise do petróleo. Neste cenário, com uma concorrência internacional mais aberta, o que é bom e cruel ao mesmo tempo, Thatcher se tornou o grande símbolo da política neo-liberal, de mercado aberto, privatização de empresas estatais pouco produtivas. Penso que enquanto prevalecer uma economia financista, pós-industrial, abstrata, tal posicionamento político, sem extremismos, é inevitável, e por mais que demonizemos Thatcher e seus seguidores, como FHC, foi na esteira dessa política de Estado mínimo e grandes alianças econômicas multinacionais que Lula também fez seu governo. Esta discussão tem suas nuances, que não esgotaremos aqui; portanto, vamos fingir que isto é apenas uma crítica de cinema e seguir adiante.
O problema de Thatcher, como líder da democracia britânica na virada para os anos 80 era o de uma elevada taxa de desemprego, resultante da crise econômica sistêmica, tal como a que vivemos hoje. Neste contexto, uma democracia não age sozinha, como os europeus querem fazer com a Grécia hoje. Uma democracia isolada no contexto de uma crise sistêmica só pode se segurar com medidas emergenciais. Neste contexto, a primeira ministra britânica precisou mesmo ser de ferro para não apelar aos tapa-buracos dos empréstimos, e focou sua atenção em medidas internas que fossem emergenciais e ao mesmo tempo pudessem ter longo alcance. Uma dessas medidas foi sua luta contra os sindicatos, uma das principais razões pelas quais é demonizada pela imprensa e pelo senso comum ainda hoje. Poucos lembram do fato de que os sindicatos britânicos abriam seus fóruns de reivindicação não para os interesses dos trabalhadores efetivamente, mas muito mais para sua manutenção no poder, como aliados indispensáveis dos Trabalhistas populistas, que construíram sua imagem no tal paternalismo já mencionado. Não deveria ser novidade pra ninguém que os sindicatos britânicos das décadas de 70 e 80 eram o que são nossos sindicatos desde de a década de 90 e fortemente no novo século, ou seja, perderam seu caráter de verdadeiros representantes dos assalariados e só fazem greves pelos seus interesses na política interna de alianças nos governos, onde são pagos politicamente para apoiar a imagem de presidentes que vieram da classe, por exemplo. Se não for assim, por favor, alguém me explique porque as greves de professores são sempre uma piada, enquanto que as greves que mais conseguem se manter são as de outras partes do setor público e, principalmente, as greves do setor financeiro.
Ou então voltemos a falar de quanto Meryl Streep é "genial", seja lá o que signifique este adjetivo mitologizado. Ainda que bem intencionado em relativizar a imagem da mais longeva primeira ministra britânica do século XX, o filme de Phyllida Lloyd não explora a fundo a política de uma das figuras mais centrais do mundo contemporâneo, atendo-se aos pontos mais controversos, como seria de se esperar numa narrativa de pouco menos de duas horas. O filme não discute, por exemplo, quais as estratégias de Thatcher para o fim do desemprego, como medidas para acabar com a inflação e com isto aumentar, a médio prazo, o poder de consumo e reforçar os pequenos e médios empresários. Suas inúmeras reformas no legislativo contribuíram para reduzir o poder das associações monopolizadoras de grandes industriais, inclusive nas indústrias públicas. Se uma das maiores polêmicas de seu governo foi a grande greve dos carvoeiros que sofriam grande desemprego, como em toda a indústira de base, isto só se deu porque as resoluções dos empresariado de grande porte, no sentido de contra-atacar o governo, foi responsabilizar adivinhem quem pela queda do lucro? Os trabalhadores, claro. Que de resto, aos poucos foram sendo incorporados no setor de serviços, por exemplo, sinal evidente de recuperação econômica. Aliás, a Dama de Ferro apenas seguiu o exemplo de sua nobre ancestral, também de pulso firme, a Rainha Elizabeth da época florescente de Shakespeare. Esta, ao criar os enclosures, revalidou o setor agrário improdutivo e aristocrático - qualquer coincidência com o nordeste brasileiro não é coincidência - e alinhou-se a quem realmente dinamizava a economia no momento. Pois não foi um trabalho de atualização semelhante ao que Thatcher fez? Pois não nos iludamos, ela não é criadora do neo-liberalismo, ela apenas criou uma política que pudesse se manejar no novo sistema econômico global, este é o grande ponto.
Para sair um pouco da arena econômica, serei sucinto ao lembrar da oposição firme da Dama de Ferro aos soviéticos e ao IRA, na Irlanda. Ainda existe alguém que defende os supra-citados? Naquela época havia, os acadêmicos carreiristas, por exemplo, que vivem na sua democracia perfeita e livresca. Melhor seria considerarmos o que nem o filme mostra, como o apoio incondicional de Margaret ao fim do apartheid na África do sul, à legalização do aborto e seu papel decisivo na descriminalização da homossexualidade.
Finalmente, o ponto mais polêmico do governo Thatcher, a Guerra das Malvinas, pela posse das Ilhas Falklands, próxima do círculo polar, improdutiva, relativamente próxima da Argentina, mas de antiga colonização britânica. Pra começo de conversa, é curioso notar que o revanchismo tribal entre argentinos e brasileiros parece só se aplacar nas férias para Buenos Aires e no que diz respeito a esta guerra, se é que este conflito pode ser chamado de guerra. Mais curioso ainda é notar que nossos manuais didáticos e enciclopédias virtuais nunca questionam qual o foi motivo deste conflito, só que ele existiu. Ninguém lembra que o motivo da Argentina invadir as tais ilhas foi uma estratégia da ditadura militar argentina, que estava em crise de sucessão e precisava desviar os olhos dos assuntos internos para algo de fora que desse aos argentinos um perigoso ou no mínimo, inatual,  senso de patriotismo. À essa excrescência de autoritarismo, a primeira ministra britânica respondeu com ataques breves e definitivos, com perdas para ambas as partes, na casa das centenas de vidas - isso não é justificativa, mas a quantidade de mortos diários por fome, por exemplo, tampouco é bonita, e nossas alianças econômicas com países da África parecem só agudizar a desigualdade por lá, ao contribuir para a concentração de renda. Mas essa é uma outra questão, ou, um outro filme, não é mesmo?
Trazer à tona o legado da Dama de Ferro, impulsionado por Meryl Streep, vem em boa hora pois, não para que seja aplaudido ou vaiado por extremistas, mas para que discutamos mais a política, e sua efetividade no mundo financista de hoje, este sim o demônio invisível que se compraz da tolice de uma falsa cidadania que pensa se exercer ao só enxergar heróis e vilões num cenário político de fachada.