quarta-feira, 16 de junho de 2010

Haruki Murakami entre aventuras juvenis e silêncios extemporâneos


William Blake, em seu livro Canções da Inocência e da Experiência nos devolve sempre à encruzilhada entre os mitos "ocidente" e "oriente". Mito ocidental é o da experiência da razão, da ciência da palavra que é magicamente lógica, científica, histórica, explicativa. Mito oriental é o de um misticismo inocente, de um paraíso perdido, de uma palavra que é, no anverso da história e do tempo, logicamente mágica, revelada. A graça deste livro de Blake, que tomamos como exemplo de uma problemática, é exatamente justapor os mitos sem hierarquizá-los, é transmitir em cada metade de seu livro o mesmo conjunto de experiências por duas chaves; aquela que abre um quarto de adulto para que uma criança o veja e ali sinta os aromas de putrefação animal que a palavra esconde, e aquela outra chave posta na mão do adulto que espera encontrar no quarto da criança  um mistério que ele se esqueceu de sonhar, e que talvez nunca soube.
É nesta encruzilhada que o escritor japonês Haruki Murakami constrói sua obra trans-hemisferial Kafka à beira-mar. Ali, um oriente ocidentalizado tem nostalgia de sua própria inocência no olhar do outro, bem como um ocidente orientalizado vê a si mesmo em suas experiências com o mistério, a escuridão, o oculto, ou, em outras palavras, com o deslumbre iluminado da fantasia. Este livro é eruditamente irônico e melancólico e popularescamente palhaço e triste. Em Kafka à beira-mar, os extremismos de um paraíso perdido e de um inferno presente são tão pitorescos quanto burlescos, e o que nos resta - se cabe-nos buscar um substrato, uma síntese - é um limbo criado entre os universos fantásticos de Alice no País das Maravilhas e Cem Anos de Solidão.
Nesta impressiva obra de Murakami, a infância e a velhice do mundo tentam se encontrar entre fantasias extremas (ou extremistas), justapostas como a inocência e a experiência, entre o menino de quinze anos Kafka Tamura e o ancião Satoru Nakata. O menino, que foge de casa enfeitiçado por uma profecia edipiana, nos representa a descoberta do mundo como uma aventura desencantada. Kafka Tamura é já um velho que sabe. Nakata, o velho imbecilizado por um evento misterioso da natureza inexplicável, é o Quixote, o Idiota de Dostoiévski. Tem a inocência da ignorância que não deixa de ser ética. Essas duas trajetórias paralelas, que só convergem num infinito fora deste mundo, mas pleno de sentido, nos levam a devorar o tempo de cada página como se a eternidade pudesse enfim ser retida, mesmo ao ser abandonada por nossas desilusões. De que lado está a verdade? Na canção do Radiohead repetidamente ouvida em silêncio pelo menino Kafka? Na língua dos gatos que Nakata domina e depois esquece? Nesta obra fantástica (nos dois sentidos), a fantasia é refúgio e ao mesmo tempo desilusão.
De Tóquio a uma floresta encantada na ilha de Shikoku, o inocente ancião e o experiente menino só encontram fantasmas, mas é no limbo da busca que o humano deixa o testemunho mínimo de sua dignidade. Murakami não cai na cilada de explicar os mistérios. São muitas as imagens que se sucedem freneticamente nesta ficção contudo tão mortalmente silenciosa quanto a realidade mais dura: uma chuva de peixes, uma pedra que fala, um menino chamado corvo, um velho que fala com gatos, uma flauta de almas, uma profecia edipiana, as sombras da guerra, os labirintos da cidade e da mata e, sobretudo, os prazeres simples e intensos, de um prato de arroz ao sexo cru. 
A pretensão de Murakami parece ser um compêndio das ilusões humanas, de tabus primitivos, como o incesto e o assassinato, à elaboração mais intricada de um suposto mundo espiritual, visando paradoxalmente pelo excesso um esvaziamento da memória do mundo. É de um conforto incômodo. É a certeza do poder da incerteza do sonho em que o poder deixa de se impor.
A busca por identidade, que conduz as personagens, se torna mais importante quanto menos elas buscam se afirmar. Só importa a busca, que nesse universo ficcional tão rico e imaginativo, não pretende nos levar a nenhum lugar conhecido, embora se construa com imagens deliberadamente familiares. Finalmente, a consciência de si só ganha densidade ao se reconciliar com  a presença inominável do mundo:

"- Mas ainda não sei o que significa viver - digo.
- Olhe o quadro - diz ele - Ouça o vento.
Aceno a cabeça positivamente.
- Durma um pouco - diz o menino chamado Corvo - E, quando acordar, será parte de um novo mundo.
E então, você adormeceu. E, quando acorda, é parte de um mundo novo."

Um livro para todos.

domingo, 6 de junho de 2010

KAFKA À BEIRA-MAR - Haruki Murakami


"Nakata descontraiu os músculos, desligou o comutador da cabeça e transformou-se numa espécie de sensor vivo. Isso era natural para ele. Nakata o fazia cotidianamente desde criança. Logo, as bordas da consciência começaram a esvoaçar como borboletas. Do outro lado da borda estendia-se um vasto e escuro abismo.  Por vezes, ele estrapolava a borda e sobrevoava esse abismo de estonteante profundidade. Mas Nakata não temia nem a escuridão nem a profundidade. Por que haveria de temê-las? Esse mundo escuro cujo fundo não avistava, assim como o pesado silêncio e o caos, há muito constituíam uma entidade amiga e repleta de nostalgia e eram agora parte dele mesmo. Nakata sabia disso muito bem. Nesse mundo não havia letras, dias de semana, temíveis governadores, óperas, nem BMWs. Nem tesouras, nem chapéus de copa alta. Mas ao mesmo tempo não havia também enguias nem pão doces. Ali havia tudo. Mas ali não havia partes. Como não havia partes, não precisava substituir certas coisas por outras. Nem tirar nem acrescentar. Não era preciso pensar em coisas difíceis, bastava apenas deixar-se impregnar por tudo. E Nakata achava que isso era mais gratificante do que qualquer outra coisa no mundo.
Às vezes, Nakata caía em leve modorra. Ele podia adormecer, mas seus cinco sentidos estavam alertas, vigiando o terreno baldio. Se algo acontecesse, se alguém ali surgisse, Nakata despertaria num átimo e entraria em ação em seguida."

Tradução do japonês de Leiko Gotoda
Editora Objetiva/Alfaguara 2008

Este é o segundo livro que leio deste grande autor contemporâneo de origem japonesa. Sua mistura de referências eruditas e pop nos levam a imersões em experiências impressionantes como a deste trecho, em que uma experiência digna de um guru oriental é vivida por Nakata, um senhor "idiota" no mesmo sentido do Quixote ou do príncipe Mishkin em Dostoiévski. A capacidade deste autor de expor com clareza, simplicidade e naturalidade as experiências mais tabu e limítrofes da vida, as mais inexplicáveis, é um assombro para o leitor. Este autor tem a rara capacidade de popularizar sem perder a profundidade e os detalhes, ao mesmo tempo em que "eruditiza" experiências cotidianas sem nome, imprimindo-lhes um significado transcendental, à la Clarice. Quando terminar a leitura volto para contar mais. Para quem quiser, dê uma uma olhada no escrevi sobre o outro livro de Marakami que li, Norwegian Wood:
http://alerabelo.blogspot.com/2009/05/norwegian-wood-haruki-murakami-e.html

sábado, 29 de maio de 2010

fim da manhã

Até que a manhã representava um consolo. O estômago era o mesmo de ontem, a calça também. Ninguém dorme bem de calça jeans. E a culpa da vida era só isto, uma calça de pano bruto. E dizem que nos libertamos dos espartilhos...
Era doce desdizer a vida numa manhã à beira mar. O céu não anunciava catástrofes, as ondas eram uma canção de ninar com preguiça de se cantar. Talvez mesmo eu prepare o almoço de todos; servirei cuidados sem me sentir empregada, sem ser dona de casa ou mulher independente, moderna. Com as mãos nos legumes, serei ninguém. 
Da porta ao lado ouvia-se o ranger de quem mal acorda.  O quarto dos homens - lembrou-se supondo um bafo quente e acre de quartel militar. Se fosse João, queria flagrá-lo de pau quase duro sob o moleton poído, preto. Sentiria o cheiro de sua urina pela porta entreaberta do banheiro. Mas não, ninguém poderia saber. Seu desejo não era tanto que precisasse ser assumido entre tantos, entre os chistes do grupo inteiro, entre as cartas de baralho jogadas no chão da sala juntamente com os chinelos aspergindo areia de uma semana.
O que faria, para começar? Seguiria sozinha para a praia. Se alguém lhe perguntasse o porquê, diria apenas: fui andar. O desespero pela saúde desculpa tudo. Entretanto, por ora, bastava folhear uma revista do ano passado só para ver as celebridades já passadas. Fingiria uma distração qualquer, tátil, só para observar como cada um acordaria esta manhã.
João apareceu à meia luz e seus olhos inchados condiziam com o céu nublado, com o vento frio que se previa lá fora. Quando não enxergava direito, tonto de ressaca, era mais lindo. Porque não se sabia homem e quase voltava a ser criança, não fossem os pêlos que deixava entrever enquanto coçava a barriga só pela satisfação de ter acordado.
- Só você está acordada?
Ele não conseguia ficar a sós com ela. Não ainda.
- Não sei. Não conferi os outros quartos - ela disse tocando displiscente uma página brilhante e colorida.
João, parado meio tonto na encruzilhada entre os cômodos, apenas deslizou até o banheiro, passando a mão no cabelo armado feito um ninho de pássaro.
Feito um ninho, ela pensou; e fechou a revista em seu colo.

terça-feira, 2 de março de 2010

tarde livre

para talita bello de aragão

Virou a esquina como se fosse uma impertinência. E era. Desatou o último botão da calça apertada, sonhou com um tênis mais confortável, penalizou-se pelas mulheres que, séculos antes, tinham que usar espartilho onde o calor deste trópico convidava a deixar escorrer o suor livre, o leite desperdiçado.

Calou-se sem mais, por dentro, que o andar era tarefa que ocupava demais ao meio-dia. Não ousaria olhar para o céu só para confirmar a ira do sol; sua pressão poderia cair e ai de quem sabe o que mais pode acontecer. E ainda tinha que contar dinheiro e fazer as compras do dia, ambas tarefas já demasiadamente atrasadas para o pendor das dívidas. Ser simples e cotidiana como Fernando Pessoa era agora uma urgência que não deveria ser vivida com ansiedade. Era preciso respirar contra o sol, contra a multidão no calçadão central.

Uma criança chamou sua atenção. A criança, de rosto enrugado em aflição, não era mais o sonho consolador da infância; era apenas mais um. Ninguém é feliz como se sonha. E está bom assim, agora. É bom que os sonhos, neste meio-dia, continuem a ser maiores que a vida. Sonhou um frescor de rosa e isto bastava. Compraria um vaso de flor qualquer, se o dinheiro sobrasse ou pudesse remanejar uma necessidade mais responsável que uma flor. Compraria uma água de côco cortado com facão enferrujado, ao invés de uma garrafa de água mineral esterilizada mas ainda assim envenenada por displiscência de autoridades mais cientes que o vendedor de côcos.

A tarde era para começar, mas não começava, parecia. Era dia de todo mundo, por isso a vontade de torná-lo próprio. Em casa, deitaria no azulejo frio da cozinha e não pensaria em choque térmico. Em casa, deitaria em pleno sol como se fosse para morrer. Cortaria os legumes só quando as visitas chegassem. Pediria desculpas pelo banheiro sujo com certo sorriso de orgulho. Seria feliz para as visitas sem a necessidade de sê-lo, e isso também bastava. A felicidade estava em sofrer o calor e ainda assim sentir-se livre, quase sem corpo. A felicidade era viver uma liberdade clandestina, que não irradiava faíscas de êxtase. Estava atenta e sem esforço maior que o andar; sabia que hoje não seria atropelada. Queria que Clarice soubesse disso, mas tampouco era o momento de ser sentir orgulhosa. Hoje, nem falaria mal do trabalho; cultivaria um egoísmo íntimo que não se compraz na infelicidade alheia. O calor é de todos. O amanhã é para poucos, para os que só andam. Para os que só andam e alcançam um sorriso que não se sabe sorriso.

Então era isso: um sorriso.

Foi assim que tomou a decisão mais séria de sua vida: compraria um sorvete. E o viveria como se fosse sexo, explicitamente. Não para compensar, para sublimar, mas porque era sexo mesmo. Com a rua, com o sol, com o esquecimento de quem um dia se amou por medo de amar.




sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

10 lições para jovens de atitude

uma árvore de atitude

1 - Se você se acha inteligente e sempre acha um jeito sutil de dizer isso, é porque tem a burrice da baixa auto-estima.

2 - Se você defende muito uma opinião, é porque sua opinião não se defende sozinha.

3 - Se o inferno são os outros, é porque você acredita que o paraíso é seu ego. (Sartre era egocêntrico)

4 - Se você acha mais produtivo acusar os defeitos humanos fazendo uma lista de maus adjetivos, é porque não descobriu que os elogios às coisas boas são mais leves e nem por isso deixam de criticar, por exclusão, o que nem merece ser citado.

5 - Se você gosta de reclamar contra a injustiça é porque não sabe agir sobre ela sem perder tempo.

6 - Se você agride quando diz o que pensa em nome da verdade, é porque não sabe se defender de seus próprios pensamentos.

7 - Se você ri de tudo, é porque tem medo de chorar do básico.

8 - Se você acha que ter atitude é ser rebelde, é porque não aprendeu a se rebelar contra suas próprias atitudes antiquadas e é incapaz de ver em si o que acusa nos outros.

9 - Se você tem raiva contra quem não teve coragem de amar, é porque não se ama e só se afirma. A raiva é a atitude defensiva de quem está fraco.

10 - Se você prende a respiração para gozar, é porque tem a esperança vã de segurar nos dentes uma sensação que ainda nem chegou, com medo de perdê-la, e que poderia ser mais intensa e surpreendente se você se entregasse ao desconhecido que é cada trepada. E isto vale para a vida como um todo. É esfolar ou deslizar.

;)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O Espelho no Escuro - 4

ALEGRIA

A alegria é suspeita. Às vezes ela peida, às vezes ela ri. A alegria só é possível se equibrada e atenta entre os dois lados da moeda; sim, entre a morte e a vida. Evitar falar da morte é caminhar para ela do mesmo jeito. Então, que nos atrevamos a ser alegres até quando o assunto é morte. Quem alcança isso nunca mais ficará triste de doer, mas, quando muito, triste de se divertir, de chorar de alegria.
Até conversando me sinto alegre, mesmo sabendo que é difícil concordar universalmente por sermos únicos, por isso as pessoas só se encontram na alegria, que é mais um humor que um pensamento.
A alegria é um sentimento que nasce espontaneamente, mas que também pode ser cultivado. Por exemplo: quando falta alegria, sempre queremos um beijo, mesmo dos mais idiotas e fora de contexto. Observe também que quando a alegria é suficientement constante, nenhum desejo é tão sedutor a ponto de nos arrastar. Pois quem está alegre, escolhe com coragem. E coragem não é ausência de medo, mas o medo sob o domínio da alegria de viver, de la joie de vivre.
Tudo é ambíguo, inclusive a alegria. Essa é a graça e o sistema de pensamento de diversas culturas em vários lugares da história, desde sempre. É uma alegria difícil; Clarice já disse isso e mostrou o que acontece quando a vida perfeita se reconhece na face de uma barata. Como eu disse, a alegria tem sua graça, que é muito específica.
Contrário de alegria? Certeza. A alegria tem a curiosidade de querer conhecer tudo, até o segredo do bem e do mal que - ela descobre - não existe. Ou seja, a alegria é tão absurda quanto necessária; é contraditória, chocante e, ainda assim, serena e pacífica.
Também não custa notar que gente alegre respira bem, mas eu garanto que até um cigarro pode favorecer certo sentido de alegria. Por que não? A alegria é o direito de, quando tudo é sério, dizer "por que não?". É a abertura das possibilidades, a purificação das palavras, a transformação do corpo que dói e envelhece em corpo que aceita o prazer possível de cada fase da vida. Afinal, reclamar é tempo perdido; e tempo perdido não pode ser alegria. Como o trabalho, a alegria é atenta.   

O Espelho no Escuro - 3

DESEJO

Se não se preocupar, vem um desejo depois do outro. É um milagre que não se explica, nem se aplica a nenhum juízo. O desejo é fugidio. Se você se arroga de saber que tem desejos demais, o desejo não virá com riso, mas com uma respiração sufocada, que não é sua. Deixar fluir com consciência é uma tarefa, como todas, difícil.
Quando se dá nome e cara ao desejo, é a morte da ilusão, embora seja lindo crer também nos nomes, ainda que furados. Não nos esqueçamos: a palavra só age quando falta a atitude, se bem que a palavra cantada em prece profana salve a alma que eu esqueci de acreditar. O desejo é um selo de quanto se vive, é o motor da ilusão de que a vida é só vida; e a morte, bem, já se sabe. Qualquer ilusão de realidade interrompe o desejo; uma porta fechada, uma buzina lá fora, o riso de alguém que acha que ri mas tem medo. Os que não conseguem se haver com suas ocupações invejam o desejo do outro; secos, vampiros, incapazes. Ardentes são os que respiram até o fundo com um sorriso máximo. Esses são os que choram mais também, por aceitarem as coisas como são, apesar dos seus desejos.
Um desejo abortado não é tão doloroso quanto a depressão que se ente após o fim de um desejo realizado, se este se revela ilusão duramente. Cabe a você continuar a acreditar a ilusão ou não. Por isso os hinduístas dizem que para se livrar da origem do sofrimento, em si uma ilusão, é preciso se desapegar de todas as ilusões, inclusive as boas. Não conseguimos acreditar só nas coisas boas ou só nas coisas más; por isso o desejo arde, incendeia, é a própria arrogância do fogo se elevando ao céu sem nunca atingi-lo, embora sejamos filhos do mesmo sol.
O desejo humano, sendo apenas um rastro do fogo solar, acontece melhor à noite, pois é fogo egoísta querendo brilhar sozinho. Apagar a ideia de desejo, negar o desejo, é aceitar todos os fenômenos que nos atravessam como sendo divertidos ou aceitáveis. Este é o desejo supremo: o desejo de felicidade.
Tenho medo de desejar algum ideal de felicidade, mas gosto de investigar a ilusão do feliz. Basta-me o zelo de me ver passar bem cada vez que um desejo me invade e reorganiza meus sentidos e pensamentos sobre a felicidade.
Pensar no desejo é matá-lo. É quando falta a espontaneidade da planta, o jato da cachoeira.
O desejo só funciona quando a imaginação encontra o corpo.

O Espelho no Escuro - 2

PRAZER

Prazer bom é o que não se esgota fácil, e que, mesmo na repetição da tentativa, surpreende sendo o mesmo. Sem dúvida o melhor prazer - e aqui não há nenhuma metáfora - é o que escorrega fácil e que se compartilha com outro par de olhos, sem nenhuma explicação adicional, seja esta o amor ou o egoísmo. Prazer bom é prazer vão, e que, em sua sua vacuidade, não nos furta do presente, antes reconcilia-nos com a dureza inegável do instante. Prazer bom é o que nos convida ao riso e, paradoxalmente, nos dispensa mesmo do sorriso mais breve.
E os outros prazeres, menos dignos, o que são? Tentativa de segurar nos dentes uma inocência perdida que de fato nunca aconteceu. Prazeres incertos também são aqueles filhos do vício, pois que não são descompromissados com a memória de um prazer antigo e com a expectativa de um prazer definitivo. O vício é mortal pois a busca renovada do prazer definitivo é uma ilusão que não se percebe avizinhada da morte, essa única coisa definitiva, essa única definição sem par.
Prazer puro é o que não nasce da carne, embora a atravesse, mas da fantasia. O prazer puro só acontece como recompensa justa a trabalhos em si prazerosos. Prazer puro é a inocência que não se conhece pelo nome num corpo de alma persistente; não é coisa para crianças que fazem birra.
Todo prazer, se é prazer, mesmo que nasça na meditação de um livro, é sentido como acomodação do coração no espaço que lhe cabe e como conforto da genitália que se esquece, integrando-nos com todas nossas partes, integrando todos os nomes de coisas que têm nome. O prazer total é o que rebate na carne e reverbera no espírito, se este o há, como experiência mística, holística, de integração dos seres e desintegração das máscaras individuais.
A dor, ainda que se pretenda universal, tem um nome, uma história, uma situação. Já o prazer é a única expeirência natural (anterior à morte) que iguala os homens, pois mesmo sendo uma experiência tão íntima e circunscrita quanto a dor, provoca o esquecimento e esquece as expectativas; apaga a memória e a esperança; é o que é, sem tempo de ser.

ode ao ignorante

Não existe pior maneira de suportar o silêncio da solidão construída ao redor de si, que extrairmos um sombrio conforto ao assistir a desgraça dos outros. Ó ser ignorante e perdido que é o homem que não se adoça de poesia quando velhice o persegue.

Eu quisera não ter o estômago a arder para não ter de chorar minha dor aos cegos de quem só vê as próprias dores, insultando a natureza, desmerecendo a vida. Calem-se os palhaços e rufiões! Deixem o ignorante morrer no medo de seu coração negro! Aqui a vida é paz, meu senhor.

Pudesse a madrugada fria e a aurora que a segue confundirem-se na mais pesada tempestade e nem assim estas almas seriam lavadas, senão por breve relâmpago. Os ignorantes tem medo até da própria merda, e nunca ousaram ver às claras o olho do próprio cu; dão a palavra de morte à carne de seus prazeres, e o prazer fácil é única esperança que gastam em sua preguiça de pedra.

É bom revoltar-se contra o mau-humor, mesmo à custa de mais estômago. O claro estalar dos terremotos ainda acorda nossos mortos. Não é novidade. Não é desgraça alheia que nos possa confortar. É o inferno do egoísta que dá as mãos e os olhos, mas nunca o coração e o estômago. Gulosos de si, morrerão secos, no desespero de um primeiro e último momento de lucidez. Eu também morrerei, mas terei sabido, ainda que numa defesa arrogante, saudar enquanto jovem a eternidade antes da hora. Eu sou antes, eu sou sempre, eu sou aquele que o acaso permite adivinhar, filho e senhor do tempo. Sou bruxo do sonho e alquimista da pedra; sou meu espelho nesta face concreta. Sou a rosa, a multidão, sou ninguém. Já você, irmão ignorante, é tão "você" que não não ri nem chora a não ser por imitar o que a desgraça lhe ensinou de mãos dadas com o medo. Ó ignorantes! Serieis sobreviventes se já não fosseis mais que mortos. Pois os mortos são chorados, e os vivos, estes como tu, só fazem chorar, inspirando nada além de ódio e dó.

- Pior que ainda tenho fé que o amor ajustará suas contas.

(janeiro/2010)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

viniciano

Amor, palavra primeira, reza despreocupada, aguçamento do sentido amor. Medo da morte, da pressa, do fim da liberdade. Até longe, amor bem-vindo! Até a eternidade, caro capricho! A onda agora ainda está na maré que desce e sobe. Falamos de sexo, esquecemos a palavra sexo. Prazer em conhecê-lo.

Só ama quem suporta o silêncio da espera, quem conhece a hora da partida. Aos outros, os meus respeitos. A todos nós, a paciência de quem sabe que vive e por isso mesmo esquece de viver. É preciso ter a paciência do cego para viver.

Seria lindo se todo mundo estivesse presente no quarto do adeus, na partida das horas, no fim do mundo. Por enquanto, crescer e multiplicar, e eu querendo a simplicidade do que não se pode dizer. O fim do mundo. Os olhos abertos ao espanto primeiro, entre a dor de nascer e o prazer de sorrir. Lá e cá, sempre assumir-se antes da morte. Há sua graça.

Nada é fatal na beira do mundo, na praia, no céu, no espaço infinito. A vida é doce que rebate no estômago, e eu acredito nos sonhos mais lindos. Por que não? Também sou rebelde, sou bicho do mato que sabe cruzar um deserto, onde as palavras calam.

Gosto do silêncio da certeza de sentir. Gosto da paz dos caminhos. Gosto do encanto do instante, da rima fácil, do ritmo de qualquer um. Cada um no seu reino de amor. Cada um no seu veneno de orgulho. Quem ama mais, chora mais; quem sofre mais, tem que aprender os truques de todos os sorrisos, de todos os corpos. Pra que sofrer, minha gente? Pra que amar? Para que perguntar? O amor é a única vida em que meu ser não pensa. Por isso só dá para amar recebendo cuidados, como a criança que nada aprendeu. O resto é praga, teste de sobrevivência, castigo imposto e aceite. O amor não sei. É mistério solvente, luz movente, morte contente.

Mas, por enquanto, vai ficando a eternidade.

(janeiro/2010)