sexta-feira, 15 de maio de 2009

...a trip...

Foto de Jack Kerouac, "quem quero ser agora",
tirada pelo Allen Ginsberg, em 1953,
época de grandes trips para essa turma

Meço o que há de errado em minha vida pelos pensamentos errados que tenho sobre o amor. Entenda-se errado como autodestrutivo.

Sou um palhaço torto e careca ou um galã sempre pronto para o sexo? Desejo estar no fio da meada.

Ando assumindo que sei menos sobre mim do que sabia. Não me enxergo com a mesma frequência de antes e quando o faço, sou cruel. Ou era. Mas ainda me acho feio e magro e branquelo e velho e pesado. E viciado em cigarros.

A juventude me anima e depois me cansa. A velhice dá esperança e depois o mesmo. Ando muito cansado de quem tentei ser e não consegui.

E lembro de todas as paixões recusadas por algum trauma oculto, digno do cu; paixões platônicas dessas de idealizar no outro aquilo que não se tem coragem de viver. E me sinto fraco e preciso treinar meu corpo para treinar a mente. "Corpo são e mente sã". Novamente o ideal grego da felicidade. Falta a praia.

Numa dessas noites, numa dessas pessoas vejo a juventude despreocupada, repleta de possibilidades, aberta e livre. Vejo a beleza da naturalidade. Vejo o ingênuo jogo de esconde-esconde onde sou eu quem mais se esconde e é o outro quem mais revela.

Queria chorar por nunca ter tido vinte anos de fato. Porque sei que conquistarei o que me faltou, mas com lucidez e cansaço. Sorrio entretanto - sei que é difícil para todo mundo que eu gosto.

Tem noites como esta que eu queria morrer só um pouquinho, durante alguns meses, só para me tornar mais forte, em conexão com os sonhos, em desconfiança com a realidade, no esquecimento do que me atormenta hoje. Porque "há sempre alguma coisa de ausente que atormenta." (Camille Claudel) O outro não me amará com desejo. Ou seria descrença minha? "Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças." (Fernando Pessoa)

Penso nesse outro com pele morena, plexo solar aberto, sorriso ingênuo e olhar caloroso, pronto para a vida, sem julgamentos, dando-se ao prazer com arte e perícia, amando cada vez mais e melhor. Esquecendo-me em meu canto escuro, em meu limbo ilusório. Queria que o outro me olhasse de fato. Talvez olhe e me veja feio como me sinto na metade do tempo. Queria ser alegre o suficiente para amar. Eu queria me amar para ser alegre o suficiente. Não quero amar este Alexandre. Tenho que mudar! Tenho que partir para o desconhecido, para a revolução de costumes, para a graça lisongeira da beleza natural. Prefiro sentir esta angústia do que o tédio.

(De uma certa forma me contenta saber que cheguei aqui sozinho, na paciência de depurar no tempo as coisas sem nome, mas óbvias. Escrever verdadeiramente vem da força de querer enfrentar uma angústia noturna. Escrevo também para absolver-me de alguma culpa.)

O outro é a árvore de frente para varanda de casa: abaixo da altura de meus olhos, mas, ainda assim, de um mistéio inacessível. Quando o outro ri de mim é a natureza que ri de mim. Quando rio na cara do outro é a sociedade rindo da natureza. Preciso fazer mais gostoso... Não digo que eu queira viver a vida de pau duro, nem na ilusão do êxtase, mas tenho direito, ao menos, a um estado de proeminência de todas as aventuras.

Agora caço dinheiro, amor, estudo, aprendizado, paz, abertura, sexo despreocupado e intenso. Sou mais um. Mas sou muitos, e quero cada uma de minhas vidas como uma possibilidade quase palpável nos horizontes. Sim, sou mais um.

Quero saber fazer novamente belos versos de amor, desses que só sorriem.

Voa pássaro mutante da praça central. Leva o meu canto. Adormeça antes do sol raiar. Se aqueça nos cantos seus e dos galhos, enquanto a noite resfria.
Um duro caminhão passa pelo cruzamento, três andares abaixo, cachoalhando ferro. Foi-se. Novamente o milagre do pássaro a cantar. Acho que estou conseguindo. Digo: ser feliz. Besta e prontamente. Estar vivo no prazer de fluir, sem acomodar-se a nenhum pensamento, nenhuma ruga, respirando para libertar-se de tantos estado de alerta. Flutuar. Dormir. Acordar. Dançar. Cutucar o instante. Aprontar, agir, desarmar, esquecer. Esquecer-se no outro, no corpo amante, suficiente, equilibrado. Lembrar-me de mim o tempo todo para conquistar o direito de não ser mais ninguém.

sábado, 9 de maio de 2009

Lixo na Virada Cultural

Pior que sentir o lixo e o caos durante a última Virada Cultural, é ver pacotes inteiros de folhetos de divulgação do evento abandonados num canto qualquer da praça da República.


Parceria

Há dez anos ou mais, eu e a Cláudia (http://inkuts.blogspot.com/), amiga de alma e arte, brincamos seriamente de fazer uns trabalhos em conjunto, um mix de desenho e poesia. Ela começou desenhando; usou algumas de suas múltiplas armas expressivas para dar luz a certas urgências do inconsciente, e eu tentei registrar as palavras que as musas sugeriram a partir dos desenhos. Até deu orgulho ver o que fizemos aos 19, 20 anos.... Ei-los:


Eu, que fui tão somente um giro de sol.....
de talões desnudos, transpus campos de coroas de cristo;
e um passo adiante, pisoteando bolas de algodão em flor,
criei barbas ruivas nas solas sangrentas....
no meio das mil dunas, tomei da ampulheta apenas,
tornando-me também um senhor do tempo ao fiar linha arenosa
por minha laringe tal couro esticada.... trespassei fantasmas moluscais com lâminas de prata,
incandescentes. Passantes, amantes; todos eles....
alentei, em mãos molhadas de oceano, meu umbigo febril,
convulsionado. Linhas frígidas sobre as lesmas de dor....
emaranhei os cachos da sereia, e vi que teia ainda é seda.
Nas caudas limbosas dos tritões, esfreguei o breu,
até que o atrito se fizesse um sustenido....
nos olhos fui gotejado de saliva cancerosa. Espessa,
rompendo camadas do céu. Sempre fui um cego....
enroscando nas próprias lãs, cocei o queixo num pêssego caído.
As manchas da queda eram úmidas como olhos vazados....
sufoquei a fome com asas de borboleta. tantas quantas pude encontrar....
tive o rosto a borbulhar, passivo a ventos devassos;
e, escondendo-me sete palmos abaixo das águas,
vi o sol correr de novo de um fim a outro enquanto esperava.
Eu, que soube de cada cicatriz da Natureza,
até a chegada da noite, com as falanges trêmulas,
vesti de pergaminhos as mamilas de alguém.


Se há de haver uma gota, se for uma gota,
que role então - acanhada pêra às pressas colhida -
de pêlo a pêlo rastreando tatos em abandono.
De pêlo a pêlo a alegoria de mineiros caindo em séquito.
- Que caia negra.Que seja negra e negros sejamos nós.
Se há de haver o artista da multidão,
que crie então - deliberado e conciso, de olhos trêmulos -
de nuca a nuca edifique um frontispício.
De fronte a fronte - as frescas, as cansadas, as machucadas, as aureoladas.
Que crie e tão somente crie. Criar ainda é movimento.
E frágeis de veias a estourar, que sejamos nós
sua obra de arestas mal polidas, inacabadas.
Ainda se arde na terra - calvário luxuoso de nossas torres.
Ainda a terra arde, e com ela nossos tendões - seda dos pés-calcário.
A sombra ainda alenta e tão lenta passa erigindo novos mapas
sobre nós, sobre os convites entregues, sobre o dia. Sobre a terra.
E no fim , refaz sua paz com a lua, seja esta a meretriz.
À noite, a sombra faz as pazes com a lua - fazem seu entoar
de ninar sobre a pele que dissimula os olhares da seda.
Que sejamos para o sol só o que se vê. Só o que se vê.
Como sempre, que sejamos mineiros caídos em diamantes de arestas e brilho primatas -
Feito o sol para a antiguidade.
Para os sequazes os olhos do dia, que sejamos apenas um detalhe.
E para o resto do tempo, que sejamos o resto de nós.

domingo, 12 de abril de 2009

um gato preto

As amoras estavam frescas, o creme de baunilha era quase natural; só a calda não era de açúcar mesmo, mas de outra coisa melosa, perigosa no mínimo. Meus dedos suportam menos o pegado do doce que a língua salivada. Limpo-me como gato.
Passa um gato. De verdade e preto. Dos olhos verdes de pescar tua maior fraqueza. Você se defende e respira fundo. Não demonstra medo, tão pouco come o doce. O gato avança um metro, para de novo e fixa o olhar. Eu digo, fixa o olhar, o mesmo... Antes, enquanto ele caminhava como um assassino ou mensageiro do pior, deixei de ver um gato e vi ali uma besta primordial, gostaria que fosse de uma terra quente no Egito, mas era coisa até então mais deconhecida que noite trevosa, impressão que só se dissolveu quando o gato voltou a ser gato, e me olhou. Então, decidi que, eu também, eu também deveria voltar a ser gente, a levar jeito para a coisa. Pus a mão no queixo, a pensar ante os olhos do ser. Não demorou muito para que eu fraquejasse e suspirasse fundo. O gato só mexeu alguns bigodes, quase insinuando um sorriso de sarcasmo, mas não se dignando a tanto. Decidi ser gente olhando com o olhar cansado de quem finge ser essa coisa pessoa. Fingia para disfarçar que eu e o bicho éramos o mesmo ser, parados na expectativa daquele instante, sem desejo, sem posse, igualmente indiferentes, amorosos e prontos para o silêncio.
Cansamo-nos após alguns segundos. O gato virou e eu também, sem competição, uma trégua perpetrada pelo reconhecimento mútuo de uma irmandade de solidão.
Como eu queria que ele falasse... Cheguei a crer que sabia dizer ao menos o essencial, mas o guardava sob o olhar para torturar-me na dúvida cruel. Por que eles tem de ser tão constantes, ainda que permeáveis? Se ele praticava esta magia oculta, eu havia de apelar para alguma invenção de telepatia. Em suma, em minha gana de conquistar o mistério daquele gato, eu fantasiei, com a fé de um louco, que seria capaz de ler seus pensamentos. E assim o fiz.
Mas, antes de reproduzir o que lhe descobri, se assim for necessário, devo confessar que conheço o motivo íntimo da existência dessa minha fé cega em alucinações comunicativas: eu tinha que sair o quanto logo daquela padaria. As putas já tomaram conta do pedaço e o pecado do doce passara da hora de morrer. A boca salva só mais uma fruta, a última amora. Mas a urgência, a urgência era uma só: você matara alguém. Sim, você matou alguém - ainda bem que revelou num certo ato falho, num movimento inconsciente da glote.
Há um minuto, sentia-me capaz de equilibrar o golpe duro do machado com a suavidade do creme de baunilha e calda púrpura. Um luxo inexplicável que não me colocaria numa situação mais vil que a de ter a consciência obcecada por uma total falta de escrúpulos.
Certamente, você obedeceu algum senso de justiça bem argumentado. Entretanto, fez-se o senhor do silêncio, de mãos limpas, só os dedos pegajosos, tintos de um vinho inesquecível. Agora você é mais um, pode ser esquecido.
Você empunha o garfo sentindo-se uma miniatura de Poseidon, certo e obsoleto. Arma as pontas afiadas contra o doce, disposto a aceitar a realidade concreta do prazer possível. Mais urgente que sua mão, o ser emite um estridente rancor que enche seu peito de pavor e letárgica melancolia. Ao redor do bicho arrepiado, o mundo do balcão da padaria e das mesas na esquina da avenida parou de falar, em respeito à sentença decisiva e poderosa daquele gato preto. E quando você olha, num piscar, num hesitar da inspiração, o bicho, claro, havia desaparecido. Sorte, azar ou acaso, você agradece e respira melhor. Que se vá com seus segredos! E eu? Conto os meus? Contei a história do gato preto, ao menos.
E tem a segunda história, mais terrível, mais absurda, mais atroz, se se quiser. O que me cabe é registrá-la. Julguem por si mesmos se este é o melhor lugar para relatar este estranho evento, pois, ao que me parece, e é horrível admitir, esta segunda história revela a primeira, a do grito do gato, tão bem como se as duas estivessem misteriosamente enredadas por uma lógica tão arbitrária quanto evidente.
O fato é que, quando cravei o garfo no doce, finalmente, tão próximo da normalidade quando poderia estar, esquecido até mesmo de que eu jogara no lixo da esquina, minutos atrás, embrulhado em papel de jornal como se fosse nada, o dedo anelar de minha vítima. (Não usei o machado para outra finalidade - cabe-me acalmar alguns nervos. Envenenei-o e pronto.) Agora, eu dava com um coisa acomodada debaixo do creme de baunilha, da calda sanguínea: sim, lá estava ele, o dedo anelar de meu opositor.
Por ora, não sei se devo acreditar que já me perseguem, que fui flagrado e torturar-me-ão até o fim, ou se devo atribuir este joguete maldito a algum ser invisível capaz de dominar os gatos e os mortos. Minha angústia é constante - minha âncora de sobrevivência. Pensei, por um momento, em reclamar com o padeiro, em pedir meu dinheiro de volta, para distrair-me, como se aquele dedo não fosse comigo. Mas, saí sem correr riscos. Não paguei o doce, e deste crime arrependo-me eternamente.
Na rua, não tive mais que um minuto dessa vida: à minha frente, um táxi refreia brusco, emite o agudo som de auge dramático numa derrapada e passa por cima de um volume pesado. O gato. Que não se mexe. Que antes mesmo - assim meus sentidos quiseram ver - estava duro como se fosse morto.
- Já estava morto - confirma uma contundente profissional, enquanto, por baixo da mini-saia, alivia o elástico da calcinha na virilha.
Você pensa: será que um primeiro veículo o teria matado antes? Neste caso, porque não houve nenhum burburinho, um último esganiçar de agonia, um lamento de mulher?
Era melhor não pensar mais.
Você toma o táxi assassino.
- Para onde? - o taxista sintetiza com cumplicidade de propaganda de pasta de dente.
Você só é capaz de responder:
- Tem algum lugar em que não exista gatos?
O homem sorri felino. Você se acomoda no banco, reencontrando a anatomia apropriada, funga quase descontente mas com a preguiça de quem pede paz. Concede a vida ao homem, e por incrível que pareça, adormece todos os ódios. Sim. Dorme e tem o mais belo dos sonhos. Que é melhor não contar. Ninguém daria crédito a um assassino. Ninguém dormiria de noite.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

A Invenção de Morel e Marienbad

Finalmente! Li A Invenção de Morel , de Adolfo Bioy Casares, escritor argentino, parceiro entranhado de Borges. Este livro me rondava há meses, recomendado por uma amiga, enquanto falávamos de Jorge Luis. Já o filme Ano Passado em Marienbad, de Alain Resnais, também me fora altamente indicado na mesma época, por outro amigo. Mas, eu não sabia que o filme vinha do livro e só o soube depois de assistí-lo, semana passada, quando decidi encarar a obra original, que li ontem numa sentada. Feliz coincidência, lapso de tempo, fruto do acaso ou sábia sincronicidade, ainda mais por essas obras refletirem tão profundamente essas temáticas temporais.

Do livro, tenho uma edição em espanhol, mais barata que a tradução. Até me emprestaram a tradução, mas devolvi sem ler. Não queria me aventurar ainda. Dava medo a afirmação de Borges de que "não parece uma imprecisão ou uma hipérbole qualificá-la [a obra] de perfeita." Seu julgamento apoia-se no fato de Adolfo Bioy produzir uma história intricada com enredo mínimo, e assim temos as descrições mais ou menos fragmentadas segundo a acuridade de visão do narrador-personagem, o "fugitivo da lei".

Outro atributo ressaltado por Borges é a capacidade de seu amigo em sintetizar de forma harmômica as querelas eternas entre clássicos e modernos. O narrador caótico reencontra a civilização na ilha em que se refugia, sobretudo encontra um enorme museu, ou hotel, onde vários franceses snobs desfilam sua frieza intencional uns para os outros numa grande encenação. A trama foi construída como num romance policial (como os muitos que escreveria com Borges, ambos sob o pseudônimo de H. Bustos Domecq); um estilo já clássico, e neste caso as peripécias são dadas pelas nuances interiores do narrador. Com sentido de urgência e surpresa, seguimos atentos suas paranóias, como a de ser descoberto, seu amor nunca suficientemente declarado, ao que presume, pela bela e fria Faustine, e acima de tudo, suas descobertas em torno da invenção de Morel, o "tenista barbudo". Este segredo máximo, limite do mistério nesta narrativa, é o que nos simboliza, afinal, o propósito do sutil jogo de realidades repetidas, sóis duplos, estações do ano sobrepostas, fusão entre memória e desejo, fenômenos que tornam cada vez mais movediça a realidade. Basta dizer que a resolução antecipa cinquenta anos de história... Talvez porque Buoy Casares também seja um desses autores preocupados com a eternidade. E o que seria de nós vivendo numa eternidade apenas imaginada pelo homem? Responde Morel: "eu poderia ter-lhes dito, ao chegar: viveremos para a eternidade. Talvez tivéssemos arruinado tudo forçando-nos a manter uma contínua alegria. Pensei: Qualquer semana que passemos juntos, se não sofrermos a obrigação de ocupar bem o tempo, será agradável."

Fazendo humor da angústia, construindo uma eternidade possível e comovente, esta obra nos leva a buscar por Morel, o gênio louco cuja lógica é tão insana quanto perfeita, e por Faustine, seu pólo oposto, a pura e silenciosa voz do mistério, com sua frieza sorridente, estabelecida à força entre prazeres cansativos e tédios inevitáveis. E nossa busca é a do narrador, que constrói a história enquanto a inventa ou tenta explicar, entender, amar, sobreviver, escolhendo memórias, projetando desejos.

O filme de Alain Resnais foi feito quase vinte anos depois da publicação do livro, e é a própria obra-prima idealizada por Morel em sua invenção. Na tela, acompanhamos a repetição da perfeição calculada, vemos dissolverem os limites entre memória, desejo, realidade, sonho, ilusão, alucinação, lucidez, perdidos entre o que de fato teria acontecido ano passado em Marienbad, o que se passa agora, a gente parada em desejos do que é possível e impossível de ser feito, planejando uma eternidade enquanto se teme a morte.

No livro, temos ainda a vantagem de ver a história pela perspectiva do fugitivo da lei, observando à distância este palácio encantado, tentando até se envolver, mas preso à sobrevivência, obrigado a revelar sua própria história e identidade ocultas no exercício de desvendar a invenção de Morel/Resnais. Sua descoberta da eternidade sonhada torna-se cada vez mais claramente um aprendizado da morte.

O filme é mais sombrio, seu labirinto não tem ponto de fuga, nem após os créditos finais. No livro, a jornada é mais esperançosa, como, por exemplo, quando o narrador conclui, para fazer calar suas angústias: "Está ese camino: vivir, ser el más feliz mortal."

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Pequena Ficção / One Landing Morning

Evening at the window - Chagall

Dois experimentos a partir do mesmo motivo...

Pequena Ficção


Começou com uma palavra, não mais. Ela disse “simples” na ponta da língua, eu disse “sempre” na ponta do lápis. Se você quer ter tudo, tem que trabalhar muito. Artigos de luxo e dor nas costas. “Ó pobre burguês a reclamar”, eu disse já para quebrar a possibilidade dela me chamar de “auto-indulgente”, esta palavra fina que ambos acataram de suas formações cristãs, o pai dele católico, o dela espírita. “Amanhã haverá talvez um concurso de miss na televisão”, ela diz. “E o que tenho a ver com isso?”, você responde. “Você não acha engraçado?”, ela ri.
Mas ele não pôde responder, pois logo entrou pela janela um saco de lixo preto, amarfanhado. Era coisa do acaso, do vento ou de ambos. Dentro havia um pássaro gritando, pedindo por socorro, preto no sangue, bico para cima, cores ao vivo.
Entreti-me em seu olhar antes da atitude de salvá-lo. Ela, atrás da cama, esperou com suas chinelas verdes de pano, nem um passo a frente, nem um passo atrás. O que faríamos? O que eu faria? Olhei o bicho no saco, seu estado, e nada. Não se mexia mais. “Não sei como se ouve coração de pássaro”, eu disse. Ela disse: “Não preciso do seu cinismo agora.”
“Ela não me quer mais”, você pensa, e deixa o pássaro quieto. Amanhã será talvez. Mas a preguiça fez com que ficássemos ali. Era melhor do que brigarem com os pais. Era melhor que beijar na boca. Ela se senta na cama, as mãos pensas sobre o colo, um sorriso no rosto, um ar de aleluia.
Ele tirou os sapatos pretos, deixou-os lustrando ao lado do ninho de plástico, arrastou-se de fininho até a cama e deixou de existir, sem dó nem piedade.
Dormiram.Viveram juntos.

One Landing Morning
One day, when days was crowded ones
An the roses was sold around the corners,
A small and smart boy came slowly from the road.
Pissed the grass, laid down all over the rest
And dreamt about a dream under the rain.

The train was coming fast,
The food was at its best,
My baby just don’t care,
Lying like a cat,
Just for fare… But –
I see a fly in my wine,
And the winter is wide in the air.
The wings spreads fractions of vibrations on the red surface.

She’s not decided to live or die.
She does not think in anything.
She’s drunk for the three of us or she just tries.
She talks to me in a language I can breath.
I want to say ‘I’m fine for today’,
But she stops playing.
‘I know I’m gonna be sleeping soon”,
I said before wake up.

terça-feira, 31 de março de 2009

lapsos da eternidade


Assim que sintonizo um pensamento certo, só espero adormecer o mais rápido possível e cair na irrealidade profunda dos sonhos. Não porque considere que o inconsciente seja mais nobre que a consciência, mas porque detesto me embriagar de mim mesmo. Porque sei que a certeza me vence onde o medo me usurpa. Assim, espero contradizer meus pensamentos com sonhos de origem desconhecida.

Mas, quando sonho bem, também desejo voltar a pensar adequadamente o quanto logo. Não chega a ser um propósito, pois também não me agrada esta ansiedade de sempre preferir estar um passo à frente de mim mesmo; sei e sinto que é bom contentar-se no instante presente, perfeito e imperfeito, completo e ausente. O que me agrada é assumir uma contradição. Mas isto também, nem sempre. Tenho medo de mim na maior parte do tempo, por isso me movo para frente, mas é justamente aí, no movimento progressivo, que a contradição reaparece, contraditoriamente. Já quando confio-me demais, sinto uma preguiça quase eterna, sem vontade de expandir ainda mais o universo.

Quero, sobretudo, aprender a nascer e morrer sem perder tempo, embora saiba que quando me perco no tempo dos homens, torno-me, ainda assim, alguma coisa que cabe neste mundo, meu e nosso.

Enfim, a paz é uma guerra constante; o riso, um choro; cada banalidade, uma sabedoria; cada significado, um espanto mudo e sem sentido. E pronto. Agora sim podemos jogar este texto no lixo e fingir que foi apenas sonho difícil de lembrar. Isto não é conselho nem presente de grego. Entenda assim: a compaixão me move onde a raiva me falha. E vice-versa. E viva o verso.

Diálogo incompleto entre um jovem de 20 e outro de 30


"Não sou jovem o suficiente para saber tudo"
Oscar Wilde


20 - Se estou na idade da liberdade, isto é, aberto à realização de qualquer sonho, por que o passado me prende, aliando-se ao medo de experimentar? Por que devo escolher o que sou, baseado no que fui?

30 - Você diz que é livre, mas para você a liberdade apenas começa. É um ideal ainda. Vai escolher a liberdade no ato de responsabilizar-se pelas próprias escolhas. Vai acreditar, justamente, que é livre para escolher. Aos poucos, a maior parte dos sonhos possíveis parecerão ilusões, por conta da necessidade de aplacar uma fome cada vez mais material. O espírito parecerá pobreza. Embora eu próprio tenha de assumir que volto a buscar o espírito, e o resto do invisível, nos despojos da carne.

20 - Você é tão dramático quanto eu. Corre atrás de certezas duvidosas, enquanto sondo por dúvidas certeiras.

30 - As certezas são atalhos. E se você não quer ser mais um servo da matéria, precisará de uma urgência que só as verdades proclamadas podem trazer. Você ainda tem o benefício de viver no tempo da poesia, espontaneamente. Eu luto para não esquecer o que sonhava aos vinte anos, por não conseguir ser espontâneo naquela época. Sei que, como antes, continuo desejando o tempo todo. Mas agora tenho menos medo de agir, o que torna as transgressões de outrora menos excitantes hoje. Cada vez faço um esforço maior para me interessar por coisas e pessoas, embora tenha menos preconceitos. Ao mesmo tempo, luto para me desapegar de coisas e pessoas às quais me acomodei.

20 - Você e eu somos iguais: continuamos a desejar um grande amor e a cartada certa. E isto não tem idade.

(janeiro/09)

quinta-feira, 26 de março de 2009

A BIBLIOTECA DE BABEL - Jorge Luis Borges

By this art you may contemplate the variation of the 23 letters...
The Anathomy of Melancholy,part. 2, sec. ii, mem. iv
***
O universo (que outros chamam a Biblioteca) se compõe de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no meio, cercados por varandas baixíssimas. De qualquer hexágono se vêem os pisos inferiores e superiores: interminavelmente.
A distribuição das galerias é invariável. Vinte prateleiras, sendo largas cinco por parede, cobrem todos os lados menos dois; sua altura, que é a dos andares, excede apenas a de um bibliotecário normal. Uma das faces livres dá para um apertado saguão, que desemboca em outra galeria, idêntica à primeira e a todas. À esquerda e à direita do saguão há dois gabinetes minúsculos.
Um permite dormir de pé; outro, satisfazer as necessidades finais. Por aí passa a escada espiral, que se abisma e se eleva até o remoto. No saguão há um espelho, que fielmente duplica as aparências. Os homens pretendem inferir deste espelho que a Biblioteca não é infinita (se fosse realmente, para quê esta duplicação ilusória?); eu prefiro sonhar que as superfícies polidas figuram e prometem o infinito... A luz procede de umas frutas esféricas que levam o nome de lâmpadas. Há duas em cada hexágono: transversais. A luz que emitem é insuficiente, incessante.
Como todos os homens da Biblioteca, viajei em minha juventude, peregrinei em busca de um livro, acaso o catálogo dos catálogos; agora que meus olhos quase não podem decifrar o que escrevo, me preparo para morrer a umas poucas léguas do hexágono em que nasci. Morto, não faltarão mãos piedosas que me atirem pela varanda; minha sepultura será o ar insondável; meu corpo submergirá profundamente e se corromperá e dissolverá no vento engendrado pela queda, que é infinita.
Afirmo que a Biblioteca é interminável. Os idealistas argumentam que as salas hexagonais são uma forma necessária do espaço absoluto ou, pelo menos, de nossa intuição do espaço. Raciocinam que é inconcebível uma sala triangular ou pentagonal. (Os místicos pretendem que o êxtase lhes revela uma câmera circular com um grande livro circular de lombada contínua, que dá toda a volta das paredes, porém seu testemunho é suspeito; suas palavras, obscuras. Este livro cíclico é Deus.) Basta-me, por ora, repetir o ditado clássico: A Biblioteca é uma esfera cujo centro cabal é qualquer hexágono, cuja circunferência é inacessível.
A cada um dos muros de cada hexágono correspondem a cinco prateleiras; cada prateleira encerra trinta e dois livros de formato uniforme; cada livro é de quatrocentas e dez páginas; cada página quarenta linhas, cada linha umas oitenta letras de cor negra. Também há letras no dorso de cada livro. Essas letras não indicam ou prefiguram o que dirão as páginas. Sei que esta inconexão, algumas vezes, pareceu misteriosa. Antes de resumir a solução (cujo descobrimento, apesar de suas trágicas projeções, é quiçá o fato capital da história) quero rememorar alguns axiomas.
O primeiro: A Biblioteca existe ab aeterno. Desta verdade, cujo corolário imediato é a eternidade futura do mundo, nenhuma mente racional pode duvidar. O homem, o imperfeito bibliotecário, pode ser obra do acaso ou de demiurgos malévolos; o universo, com sua elegante dotação de prateleiras, de tomos enigmáticos, de infatigáveis escadarias para o viajante e de latrinas para o bibliotecário sentado, só pode ser obra de um deus. Para perceber a distância que há entre o divino e o humano, basta comparar estes rudes símbolos trêmulos que minha falível mão garatuja na capa de um livro, com as letras orgânicas do interior: pontuais, delicadas, negríssimas, inimitavelmente simétricas. [1]
O segundo: O número de símbolos ortográficos é vinte e cinco. Essa comprovação permitiu, há trezentos anos, formular uma teoria geral da Biblioteca e resolver satisfatoriamente o problema que nenhuma conjectura havia decifrado: a natureza informe e caótica de quase todos os livros. Um, que meu pai viu em um hexágono do circuito quinze noventa e quatro, constava das letras MCV perversamente repetidas desde a linha primeira até a última. Outro (muito consultado nesta zona) é um mero labirinto de letras, porém a página penúltima disse Oh tempo tuas pirâmides. Já se sabe: por uma linha racional ou uma reta notícia há léguas de insensatas cacofonias, de miscelâneas verbais e de incoerências. (Eu sei de uma região cerrada cujos bibliotecários repudiam o supersticioso e vão costume de buscar sentido nos livros e o equiparam ao de buscá-lo em sonhos ou em linhas caóticas da mão... Admitem que os inventores da escritura imitaram os vinte e cinco símbolos naturais, porém sustentam que esta aplicação é casual e que os livros nada significam em si. Esse ditame, já veremos não é de todo falaz.)
Durante muito tempo se acreditou que esses livros impenetráveis correspondiam a línguas pretéritas ou remotas. É verdade que os homens mais antigos, os primeiros bibliotecários, usavam uma linguagem bem diferente da que falamos agora; é verdade que umas milhas à direita a língua é dialetal e que noventa pisos acima, é incompreensível. Tudo isso, repito, é verdade, porém quatrocentas e dez páginas de inalteráveis MCV não podem corresponder a nenhum idioma, por mais dialetal ou rudimentar que seja. Alguns insinuaram que cada letra podia influir na subseqüente e que o valor de MCV na terceira linha da página 71 não era o que pode ter a mesma série em outra posição de outra página, porém esta vaga tese não prosperou. Outros pensaram em criptografias; universalmente essa conjectura foi aceita, ainda que não no sentido em que a formularam seus inventores.
Há quinhentos anos, o chefe de um hexágono superior [2] deu com um livro tão confuso como os outros, mas que tinha duas folhas de linhas homogêneas. Mostrou seu achado a um decifrador ambulante, que disse que estavam redigidas em português;outros disseram que em iídiche. Antes de um século pôde-se estabelecer o idioma: um dialeto samoiedo-lituano do guarani, com inflexões de árabe clássico.
Também se decifrou o conteúdo: noções de análise combinatória, ilustradas por exemplos de variações com repetição ilimitada. Esses exemplos permitiram que um bibliotecário de gênio descobrisse a lei fundamental da Biblioteca. Este pensador observou que todos os livros, por mais diversos que sejam , constam de elementos iguais: o espaço, o ponto, a vírgula, as vinte e duas letras do alfabeto. Também alegou um fato que todos os viajantes confirmaram: Não há na vasta Biblioteca, dois livros idênticos.
Dessas premissas incontroversas deduzo que a Biblioteca é total e que suas prateleiras registram todas as possíveis combinações dos vinte e tantos símbolos ortográficos (número, ainda que vastíssimo, não infinito) ou seja, tudo o que é dado expressar: em todos os idiomas. Tudo: a história minuciosa do porvir, as autobiografias dos arcanjos, o catálogo fiel da Biblioteca, milhares e milhares de catálogos falsos, a demonstração da falácia desses catálogos, a demonstração da falácia do catálogo verdadeiro, o evangelho gnóstico de Basilides, o comentário deste evangelho, o comentário do comentário deste evangelho, a relação verídica de tua morte, a versão de cada livro em todas as línguas, as interpolações de cada livro em todos os livros, o tratado que Beda pôde escrever (e não escreveu) sobre a mitologia dos saxões, os livros perdidos de Tácito.
Quando se proclamou que a Biblioteca abarcava todos os livros, a primeira impressão foi de extravagante felicidade. Todos os homens se sentiram senhores de um tesouro intacto e secreto. Não havia problema pessoal ou mundial cuja eloqüente solução não existisse: em algum hexágono. O universo estava justificado, o universo bruscamente usurpou as dimensões ilimitadas da esperança. Naquele tempo se falou muito nas Vindicações: livros de apologia e de profecia, que para sempre vingavam os atos de cada homem do universo e guardavam arcanos prodigiosos para seu provir. Milhares de ambiciosos abandonaram o doce hexágono natal e se lançaram escadarias acima, urgidos pelo vão propósito de encontrar sua Vindicação. Esses peregrinos disputavam nos corredores estreitos, proferiam obscuras maldições, se estrangulavam nas escadarias divinas, lançavam os livros enganosos ao fundo dos túneis, morriam despenhados por homens de regiões remotas. Outros se enlouqueceram... As Vindicações existem (eu cheguei a ver duas que se referem a pessoas do futuro, a pessoas talvez não imaginárias) mas os buscadores não recordavam que a possibilidade de que um homem encontre a sua, ou alguma pérfida variação da sua, é computável em zero.
Também se esperou então o esclarecimento dos mistérios básicos da humanidade: a origem da Biblioteca e do tempo. É verossímil que esses graves mistérios possam explicar-se em palavras: se não bastar a linguagem dos filósofos, a multiforme Biblioteca produziria o idioma inaudito que se requer e os vocábulos e gramáticas desse idioma. Faz já quatro séculos que os homens fatigam os hexágonos... Há buscadores oficiais, inquisidores. Eu os vi no desempenho de sua função: chegam sempre rendidos; falam de uma escadaria sem degraus que quase os matou; falam de galerias e escadarias com o bibliotecário; vez por outra, tomam o livro mais próximo e o folheiam, em busca de palavras infames. Visivelmente, ninguém espera descobrir nada.
À desaforada esperança, sucedeu, como é natural, uma depressão excessiva. A certeza de que alguma prateleira em algum hexágono encerrava livros preciosos e de que esses livros preciosos eram inacessíveis, pareceu quase intolerável. Uma seita blasfema sugeriu que cessaram as buscas e que todos os homens embaralhavam letras e símbolos, até construir, mediante um improvável dom do acaso, esses livros canônicos. As autoridades se viram obrigadas a promulgar ordens severas. A seita desapareceu, mas em minha infância cheguei a ver homens velhos que largamente se ocultavam nas latrinas, com uns discos de metal em um cubículo proibido, e debilmente imitavam a divina desordem.
Outros, inversamente, creram que o primordial era eliminar as obras inúteis. Invadiam os hexágonos, exibiam credenciais nem sempre falsas, folheavam com fastio um volume e condenavam prateleiras inteiras: a seu furor higiênico, ascético, se deve a insensata perdição de milhões de livros. Seu nome é execrado, porém aqueles que deploram os “tesouros” que seu frenesi destruiu, negligenciam dois fatos notórios. Um: a Biblioteca é tão enorme que toda redução de origem humana resulta infinitesimal. Outro: cada exemplar é único, insubstituível, mas (como a Biblioteca é total) há sempre várias centenas de milhares de fac-símiles imperfeitos: de obras que não diferem senão por uma letra ou uma vírgula. Contra a opinião geral, me atrevo a supor que as conseqüências das depredações cometidas pelos Purificadores, têm sido exageradas pelo horror que esses fanáticos provocaram. Urgia neles o delírio de conquistar os livros do Hexágono Carmim: livros de formato menor que os naturais; onipotentes, ilustrados e mágicos.
Também sabemos de outra superstição daquele tempo: a do Homem do Livro. Em alguma prateleira de algum hexágono (raciocinaram os homens) deve existir um livro que seja a cifra e o compêndio perfeito de todos os demais. Algum o teria percorrido e seria análogo a um deus. Na linguagem desta zona persistem ainda vestígios do culto desse funcionário remoto. Muitos peregrinaram em busca d’Ele.
Durante um século cansaram-se em vão pelos mais diversos rumos. Como localizar o venerado hexágono secreto que o hospedava? Alguém propôs um método regressivo: Para localizar o livro A, consultar previamente um livro B que indique a localização de A; para localizar o livro B, consultar previamente um livro C, e assim até o infinito... Em aventuras dessas, tenho prodigado e consumido meus anos. Não me parece inverossímil que em alguma prateleira do universo haja um livro total [3]; rogo aos deuses ignorados que um homem – um só, ainda que tenha sido há mil anos! – o tenha examinado e lido. Se a honra e felicidade não são para mim, que sejam para outros. Que o céu exista, ainda que meu lugar seja o inferno. Que eu seja ultrajado e aniquilado, porém que em um instante, em um ser, Tua enorme Biblioteca se justifique.
Afirmam os ímpios que o disparate é normal na Biblioteca e que o racional (e mesmo a humilde e pura coerência) é quase uma milagrosa exceção. Falam (eu sei) da “Biblioteca febril, cujos aleatórios volumes correm o incessante destino de transformar-se em outros e que tudo o que afirmam, negam e confundem como uma divindade que delira.” Essas palavras que não só denunciam a desordem mas também a exemplificam, notoriamente provam seu gosto péssimo e sua desesperada ignorância.
Com efeito, a Biblioteca inclui todas as estruturas verbais, todas as variações que permitem os vinte e cinco símbolos ortográficos, porém nem um só disparate absoluto. Inútil observar que o melhor volume dos muitos hexágonos que administro se intitula Trovão penteado, e outro A câimbra de gesso e outro Axaxaxas mlö. Essas proposições, à primeira vista incoerentes, sem dúvida são capazes de uma justificação criptográfica ou alegórica; essa justificação é verbal e, ex hypothesi, já figura na Biblioteca. Não posso combinar uns caracteres
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que a divina Biblioteca não tenha previsto e que em alguma de suas línguas secretas não encerrem um terrível sentido. Nada pode articular uma sílaba que não esteja plena de ternuras e temores; que não seja em alguma dessas linguagens o nome poderoso de um deus. Falar é incorrer em tautologias. Esta epístola inútil e faladeira já existe em um dos trinta volumes das cinco prateleiras de um dos incontáveis hexágonos – e também sua refutação. (Um número n de linguagens possíveis usa o mesmo vocabulário; em algumas, o símbolo biblioteca admite a correta definição ubíquo e perdurável sistema de galerias hexagonais, mas, biblioteca é pão ou pirâmide ou qualquer outra coisa, e as sete palavras que a definem têm outro valor. Tu, que me lês, estás seguro de entender em minha linguagem?)
A escritura metódica me distrai da presente condição dos homens. A certeza de que tudo está escrito nos anula ou nos afantasma. Eu conheço distritos em que os jovens se prosternam diante dos livros e beijam com barbárie as páginas, porém não sabem decifrar uma só letra. As epidemias, as discórdias heréticas, as peregrinações que inevitavelmente degeneram em banditismo, têm dizimado a população. Creio haver mencionado os suicídios, cada ano mais freqüentes. Quiçá me enganem a velhice e o temor, mas suspeito que espécie humana – a única – está por extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta.
Acabo de escrever infinita. Não interpolei este adjetivo por um costume retórico; digo que não é ilógico pensar que o mundo é infinito. Aqueles que o julgam limitado, postulam que em lugares remotos os corredores e as escadarias podem inconcebivelmente cessar – o que é absurdo. Aqueles que o imaginam sem limites, esquecem que contém o número possível de livros. Eu me atrevo a insinuar esta solução do antigo problema: A Biblioteca é ilimitada e periódica. Se um eterno viajante a atravessasse em qualquer direção, comprovaria ao cabo dos séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem (que, repetida, seria uma ordem: a Ordem). Minha solidão se alegra com esta elegante esperança. [4]

Mar del Plata, 1941

[1] O manuscrito original não contém algarismos ou maiúsculas. A pontuação está limitada à vírgula e ao ponto. Esses dois signos, o espaço e as vinte e duas letras do alfabeto são os vinte e cinco símbolos suficientes que enumera o desconhecido. (Nota do Editor).

[2] Antes, para cada três hexágonos havia um homem. O suicídio e as enfermidades pulmonares destruíram essa proporção. Memória de indizível melancolia: Às vezes viajei muitas noites por corredores e escadarias polidas sem achar um só bibliotecário.

[3] Repito: basta que um livro seja possível para que exista. Só está excluído o impossível. Por exemplo: nenhum livro é também uma escadaria, ainda que sem dúvida haja livros que discutem e negam e demonstram essa possibilidade e outros cuja estrutura corresponde a de uma escada.

[4] Letizia Alvarez Toledo observou que a vasta Biblioteca é inútil; em rigor, bastaria um só volume, de formato comum, impresso em corpo nove ou corpo dez, que constaria de um número infinito de folhas infinitamente grandes. (Cavalieri, no início do século XVII, disse que todo corpo sólido é a superposição de um número infinito de planos.) O manejo desse vademecum sedoso não seria cômodo: cada folha aparentemente se desdobraria em outras análogas; a inconcebível folha central não teria reverso.


Tradução: Alexandre Rabelo
Agosto de 2008

quarta-feira, 25 de março de 2009

Máximas Ínfimas




- Sou feliz e triste ao mesmo tempo, pois o tempo não existe.

- Tenho medo da morte quando temo a vida. Quando não tenho medo, não existo.

- Rezo para os grandes escritores e leio deus.

- Só me expresso quando estou vazio. Quando estou cheio, só sei morrer.

- Estendo a mão para me curar no amor que possa dar. Prefiro esse egoísmo à pretensão de salvar quem me salva.

- Ninguém me salva de mim. Prefiro ser meu pior inimigo para sempre precisar de um amigo.

- Se as pessoas fossem uma raça em extinção, talvez eu gostasse delas como gosto das baleias.

- Compreendo a juventude porque ela também não se compreende.

- Defender idéias é assassinar o tempo. Atacar idéias é suicídio.

- Troquei umas palavras com o silêncio, mas ele só me disse o que eu já sabia.

- Eu acerto para sobreviver e erro para viver.

- Se esqueço é para começar de novo. Se recomeço, é para me esquecer.

- Quando percebi que era preciso saber muita coisa, as coisas deixaram de existir.

- A injustiça me enraivece; a justiça me entorpece.

- Só mudo para ser o mesmo, e quero ser o mesmo para ser o outro.

- Eu digo dor com quem diz sorriso. Quando sorrio é por não ter o que dizer.

- Eu digo amor como quem diz ansiedade. Quando anseio é por não ter o que amar.

- Quem se arroga de ser louco descobriu a pior desculpa de todos os tempos. Quem se arroga de ser são, não descobriu nada.

- Uso o vaso sanitário para pensar. Os pensamentos eu uso para expelir fluídos.

- Ardo para aprender a respirar. Respiro para desaprender.

- A eternidade me conduz pois só nela me perco. O tempo não me diz nada pois só nele me acho, e não sou nada.

- Sinto-me só pois do contrário me sentiria inteiro. E só é inteiro quem conheceu tudo, inclusive a morte.

- Gosto muito de dinheiro, só não gosto de quem ele pode comprar. Mesmo assim, as compro quando posso, para desmascarar.

- Tenho esperança porque o desespero me cansa.

- Não sei expressar essas verdades prontas, por isso só as jogo. Quem sabe aí eu me invente por um dia ou mais.

- Desejo a paz como quem não deseja mais.