domingo, 12 de abril de 2009

um gato preto

As amoras estavam frescas, o creme de baunilha era quase natural; só a calda não era de açúcar mesmo, mas de outra coisa melosa, perigosa no mínimo. Meus dedos suportam menos o pegado do doce que a língua salivada. Limpo-me como gato.
Passa um gato. De verdade e preto. Dos olhos verdes de pescar tua maior fraqueza. Você se defende e respira fundo. Não demonstra medo, tão pouco come o doce. O gato avança um metro, para de novo e fixa o olhar. Eu digo, fixa o olhar, o mesmo... Antes, enquanto ele caminhava como um assassino ou mensageiro do pior, deixei de ver um gato e vi ali uma besta primordial, gostaria que fosse de uma terra quente no Egito, mas era coisa até então mais deconhecida que noite trevosa, impressão que só se dissolveu quando o gato voltou a ser gato, e me olhou. Então, decidi que, eu também, eu também deveria voltar a ser gente, a levar jeito para a coisa. Pus a mão no queixo, a pensar ante os olhos do ser. Não demorou muito para que eu fraquejasse e suspirasse fundo. O gato só mexeu alguns bigodes, quase insinuando um sorriso de sarcasmo, mas não se dignando a tanto. Decidi ser gente olhando com o olhar cansado de quem finge ser essa coisa pessoa. Fingia para disfarçar que eu e o bicho éramos o mesmo ser, parados na expectativa daquele instante, sem desejo, sem posse, igualmente indiferentes, amorosos e prontos para o silêncio.
Cansamo-nos após alguns segundos. O gato virou e eu também, sem competição, uma trégua perpetrada pelo reconhecimento mútuo de uma irmandade de solidão.
Como eu queria que ele falasse... Cheguei a crer que sabia dizer ao menos o essencial, mas o guardava sob o olhar para torturar-me na dúvida cruel. Por que eles tem de ser tão constantes, ainda que permeáveis? Se ele praticava esta magia oculta, eu havia de apelar para alguma invenção de telepatia. Em suma, em minha gana de conquistar o mistério daquele gato, eu fantasiei, com a fé de um louco, que seria capaz de ler seus pensamentos. E assim o fiz.
Mas, antes de reproduzir o que lhe descobri, se assim for necessário, devo confessar que conheço o motivo íntimo da existência dessa minha fé cega em alucinações comunicativas: eu tinha que sair o quanto logo daquela padaria. As putas já tomaram conta do pedaço e o pecado do doce passara da hora de morrer. A boca salva só mais uma fruta, a última amora. Mas a urgência, a urgência era uma só: você matara alguém. Sim, você matou alguém - ainda bem que revelou num certo ato falho, num movimento inconsciente da glote.
Há um minuto, sentia-me capaz de equilibrar o golpe duro do machado com a suavidade do creme de baunilha e calda púrpura. Um luxo inexplicável que não me colocaria numa situação mais vil que a de ter a consciência obcecada por uma total falta de escrúpulos.
Certamente, você obedeceu algum senso de justiça bem argumentado. Entretanto, fez-se o senhor do silêncio, de mãos limpas, só os dedos pegajosos, tintos de um vinho inesquecível. Agora você é mais um, pode ser esquecido.
Você empunha o garfo sentindo-se uma miniatura de Poseidon, certo e obsoleto. Arma as pontas afiadas contra o doce, disposto a aceitar a realidade concreta do prazer possível. Mais urgente que sua mão, o ser emite um estridente rancor que enche seu peito de pavor e letárgica melancolia. Ao redor do bicho arrepiado, o mundo do balcão da padaria e das mesas na esquina da avenida parou de falar, em respeito à sentença decisiva e poderosa daquele gato preto. E quando você olha, num piscar, num hesitar da inspiração, o bicho, claro, havia desaparecido. Sorte, azar ou acaso, você agradece e respira melhor. Que se vá com seus segredos! E eu? Conto os meus? Contei a história do gato preto, ao menos.
E tem a segunda história, mais terrível, mais absurda, mais atroz, se se quiser. O que me cabe é registrá-la. Julguem por si mesmos se este é o melhor lugar para relatar este estranho evento, pois, ao que me parece, e é horrível admitir, esta segunda história revela a primeira, a do grito do gato, tão bem como se as duas estivessem misteriosamente enredadas por uma lógica tão arbitrária quanto evidente.
O fato é que, quando cravei o garfo no doce, finalmente, tão próximo da normalidade quando poderia estar, esquecido até mesmo de que eu jogara no lixo da esquina, minutos atrás, embrulhado em papel de jornal como se fosse nada, o dedo anelar de minha vítima. (Não usei o machado para outra finalidade - cabe-me acalmar alguns nervos. Envenenei-o e pronto.) Agora, eu dava com um coisa acomodada debaixo do creme de baunilha, da calda sanguínea: sim, lá estava ele, o dedo anelar de meu opositor.
Por ora, não sei se devo acreditar que já me perseguem, que fui flagrado e torturar-me-ão até o fim, ou se devo atribuir este joguete maldito a algum ser invisível capaz de dominar os gatos e os mortos. Minha angústia é constante - minha âncora de sobrevivência. Pensei, por um momento, em reclamar com o padeiro, em pedir meu dinheiro de volta, para distrair-me, como se aquele dedo não fosse comigo. Mas, saí sem correr riscos. Não paguei o doce, e deste crime arrependo-me eternamente.
Na rua, não tive mais que um minuto dessa vida: à minha frente, um táxi refreia brusco, emite o agudo som de auge dramático numa derrapada e passa por cima de um volume pesado. O gato. Que não se mexe. Que antes mesmo - assim meus sentidos quiseram ver - estava duro como se fosse morto.
- Já estava morto - confirma uma contundente profissional, enquanto, por baixo da mini-saia, alivia o elástico da calcinha na virilha.
Você pensa: será que um primeiro veículo o teria matado antes? Neste caso, porque não houve nenhum burburinho, um último esganiçar de agonia, um lamento de mulher?
Era melhor não pensar mais.
Você toma o táxi assassino.
- Para onde? - o taxista sintetiza com cumplicidade de propaganda de pasta de dente.
Você só é capaz de responder:
- Tem algum lugar em que não exista gatos?
O homem sorri felino. Você se acomoda no banco, reencontrando a anatomia apropriada, funga quase descontente mas com a preguiça de quem pede paz. Concede a vida ao homem, e por incrível que pareça, adormece todos os ódios. Sim. Dorme e tem o mais belo dos sonhos. Que é melhor não contar. Ninguém daria crédito a um assassino. Ninguém dormiria de noite.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

A Invenção de Morel e Marienbad

Finalmente! Li A Invenção de Morel , de Adolfo Bioy Casares, escritor argentino, parceiro entranhado de Borges. Este livro me rondava há meses, recomendado por uma amiga, enquanto falávamos de Jorge Luis. Já o filme Ano Passado em Marienbad, de Alain Resnais, também me fora altamente indicado na mesma época, por outro amigo. Mas, eu não sabia que o filme vinha do livro e só o soube depois de assistí-lo, semana passada, quando decidi encarar a obra original, que li ontem numa sentada. Feliz coincidência, lapso de tempo, fruto do acaso ou sábia sincronicidade, ainda mais por essas obras refletirem tão profundamente essas temáticas temporais.

Do livro, tenho uma edição em espanhol, mais barata que a tradução. Até me emprestaram a tradução, mas devolvi sem ler. Não queria me aventurar ainda. Dava medo a afirmação de Borges de que "não parece uma imprecisão ou uma hipérbole qualificá-la [a obra] de perfeita." Seu julgamento apoia-se no fato de Adolfo Bioy produzir uma história intricada com enredo mínimo, e assim temos as descrições mais ou menos fragmentadas segundo a acuridade de visão do narrador-personagem, o "fugitivo da lei".

Outro atributo ressaltado por Borges é a capacidade de seu amigo em sintetizar de forma harmômica as querelas eternas entre clássicos e modernos. O narrador caótico reencontra a civilização na ilha em que se refugia, sobretudo encontra um enorme museu, ou hotel, onde vários franceses snobs desfilam sua frieza intencional uns para os outros numa grande encenação. A trama foi construída como num romance policial (como os muitos que escreveria com Borges, ambos sob o pseudônimo de H. Bustos Domecq); um estilo já clássico, e neste caso as peripécias são dadas pelas nuances interiores do narrador. Com sentido de urgência e surpresa, seguimos atentos suas paranóias, como a de ser descoberto, seu amor nunca suficientemente declarado, ao que presume, pela bela e fria Faustine, e acima de tudo, suas descobertas em torno da invenção de Morel, o "tenista barbudo". Este segredo máximo, limite do mistério nesta narrativa, é o que nos simboliza, afinal, o propósito do sutil jogo de realidades repetidas, sóis duplos, estações do ano sobrepostas, fusão entre memória e desejo, fenômenos que tornam cada vez mais movediça a realidade. Basta dizer que a resolução antecipa cinquenta anos de história... Talvez porque Buoy Casares também seja um desses autores preocupados com a eternidade. E o que seria de nós vivendo numa eternidade apenas imaginada pelo homem? Responde Morel: "eu poderia ter-lhes dito, ao chegar: viveremos para a eternidade. Talvez tivéssemos arruinado tudo forçando-nos a manter uma contínua alegria. Pensei: Qualquer semana que passemos juntos, se não sofrermos a obrigação de ocupar bem o tempo, será agradável."

Fazendo humor da angústia, construindo uma eternidade possível e comovente, esta obra nos leva a buscar por Morel, o gênio louco cuja lógica é tão insana quanto perfeita, e por Faustine, seu pólo oposto, a pura e silenciosa voz do mistério, com sua frieza sorridente, estabelecida à força entre prazeres cansativos e tédios inevitáveis. E nossa busca é a do narrador, que constrói a história enquanto a inventa ou tenta explicar, entender, amar, sobreviver, escolhendo memórias, projetando desejos.

O filme de Alain Resnais foi feito quase vinte anos depois da publicação do livro, e é a própria obra-prima idealizada por Morel em sua invenção. Na tela, acompanhamos a repetição da perfeição calculada, vemos dissolverem os limites entre memória, desejo, realidade, sonho, ilusão, alucinação, lucidez, perdidos entre o que de fato teria acontecido ano passado em Marienbad, o que se passa agora, a gente parada em desejos do que é possível e impossível de ser feito, planejando uma eternidade enquanto se teme a morte.

No livro, temos ainda a vantagem de ver a história pela perspectiva do fugitivo da lei, observando à distância este palácio encantado, tentando até se envolver, mas preso à sobrevivência, obrigado a revelar sua própria história e identidade ocultas no exercício de desvendar a invenção de Morel/Resnais. Sua descoberta da eternidade sonhada torna-se cada vez mais claramente um aprendizado da morte.

O filme é mais sombrio, seu labirinto não tem ponto de fuga, nem após os créditos finais. No livro, a jornada é mais esperançosa, como, por exemplo, quando o narrador conclui, para fazer calar suas angústias: "Está ese camino: vivir, ser el más feliz mortal."

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Pequena Ficção / One Landing Morning

Evening at the window - Chagall

Dois experimentos a partir do mesmo motivo...

Pequena Ficção


Começou com uma palavra, não mais. Ela disse “simples” na ponta da língua, eu disse “sempre” na ponta do lápis. Se você quer ter tudo, tem que trabalhar muito. Artigos de luxo e dor nas costas. “Ó pobre burguês a reclamar”, eu disse já para quebrar a possibilidade dela me chamar de “auto-indulgente”, esta palavra fina que ambos acataram de suas formações cristãs, o pai dele católico, o dela espírita. “Amanhã haverá talvez um concurso de miss na televisão”, ela diz. “E o que tenho a ver com isso?”, você responde. “Você não acha engraçado?”, ela ri.
Mas ele não pôde responder, pois logo entrou pela janela um saco de lixo preto, amarfanhado. Era coisa do acaso, do vento ou de ambos. Dentro havia um pássaro gritando, pedindo por socorro, preto no sangue, bico para cima, cores ao vivo.
Entreti-me em seu olhar antes da atitude de salvá-lo. Ela, atrás da cama, esperou com suas chinelas verdes de pano, nem um passo a frente, nem um passo atrás. O que faríamos? O que eu faria? Olhei o bicho no saco, seu estado, e nada. Não se mexia mais. “Não sei como se ouve coração de pássaro”, eu disse. Ela disse: “Não preciso do seu cinismo agora.”
“Ela não me quer mais”, você pensa, e deixa o pássaro quieto. Amanhã será talvez. Mas a preguiça fez com que ficássemos ali. Era melhor do que brigarem com os pais. Era melhor que beijar na boca. Ela se senta na cama, as mãos pensas sobre o colo, um sorriso no rosto, um ar de aleluia.
Ele tirou os sapatos pretos, deixou-os lustrando ao lado do ninho de plástico, arrastou-se de fininho até a cama e deixou de existir, sem dó nem piedade.
Dormiram.Viveram juntos.

One Landing Morning
One day, when days was crowded ones
An the roses was sold around the corners,
A small and smart boy came slowly from the road.
Pissed the grass, laid down all over the rest
And dreamt about a dream under the rain.

The train was coming fast,
The food was at its best,
My baby just don’t care,
Lying like a cat,
Just for fare… But –
I see a fly in my wine,
And the winter is wide in the air.
The wings spreads fractions of vibrations on the red surface.

She’s not decided to live or die.
She does not think in anything.
She’s drunk for the three of us or she just tries.
She talks to me in a language I can breath.
I want to say ‘I’m fine for today’,
But she stops playing.
‘I know I’m gonna be sleeping soon”,
I said before wake up.

terça-feira, 31 de março de 2009

lapsos da eternidade


Assim que sintonizo um pensamento certo, só espero adormecer o mais rápido possível e cair na irrealidade profunda dos sonhos. Não porque considere que o inconsciente seja mais nobre que a consciência, mas porque detesto me embriagar de mim mesmo. Porque sei que a certeza me vence onde o medo me usurpa. Assim, espero contradizer meus pensamentos com sonhos de origem desconhecida.

Mas, quando sonho bem, também desejo voltar a pensar adequadamente o quanto logo. Não chega a ser um propósito, pois também não me agrada esta ansiedade de sempre preferir estar um passo à frente de mim mesmo; sei e sinto que é bom contentar-se no instante presente, perfeito e imperfeito, completo e ausente. O que me agrada é assumir uma contradição. Mas isto também, nem sempre. Tenho medo de mim na maior parte do tempo, por isso me movo para frente, mas é justamente aí, no movimento progressivo, que a contradição reaparece, contraditoriamente. Já quando confio-me demais, sinto uma preguiça quase eterna, sem vontade de expandir ainda mais o universo.

Quero, sobretudo, aprender a nascer e morrer sem perder tempo, embora saiba que quando me perco no tempo dos homens, torno-me, ainda assim, alguma coisa que cabe neste mundo, meu e nosso.

Enfim, a paz é uma guerra constante; o riso, um choro; cada banalidade, uma sabedoria; cada significado, um espanto mudo e sem sentido. E pronto. Agora sim podemos jogar este texto no lixo e fingir que foi apenas sonho difícil de lembrar. Isto não é conselho nem presente de grego. Entenda assim: a compaixão me move onde a raiva me falha. E vice-versa. E viva o verso.

Diálogo incompleto entre um jovem de 20 e outro de 30


"Não sou jovem o suficiente para saber tudo"
Oscar Wilde


20 - Se estou na idade da liberdade, isto é, aberto à realização de qualquer sonho, por que o passado me prende, aliando-se ao medo de experimentar? Por que devo escolher o que sou, baseado no que fui?

30 - Você diz que é livre, mas para você a liberdade apenas começa. É um ideal ainda. Vai escolher a liberdade no ato de responsabilizar-se pelas próprias escolhas. Vai acreditar, justamente, que é livre para escolher. Aos poucos, a maior parte dos sonhos possíveis parecerão ilusões, por conta da necessidade de aplacar uma fome cada vez mais material. O espírito parecerá pobreza. Embora eu próprio tenha de assumir que volto a buscar o espírito, e o resto do invisível, nos despojos da carne.

20 - Você é tão dramático quanto eu. Corre atrás de certezas duvidosas, enquanto sondo por dúvidas certeiras.

30 - As certezas são atalhos. E se você não quer ser mais um servo da matéria, precisará de uma urgência que só as verdades proclamadas podem trazer. Você ainda tem o benefício de viver no tempo da poesia, espontaneamente. Eu luto para não esquecer o que sonhava aos vinte anos, por não conseguir ser espontâneo naquela época. Sei que, como antes, continuo desejando o tempo todo. Mas agora tenho menos medo de agir, o que torna as transgressões de outrora menos excitantes hoje. Cada vez faço um esforço maior para me interessar por coisas e pessoas, embora tenha menos preconceitos. Ao mesmo tempo, luto para me desapegar de coisas e pessoas às quais me acomodei.

20 - Você e eu somos iguais: continuamos a desejar um grande amor e a cartada certa. E isto não tem idade.

(janeiro/09)

quinta-feira, 26 de março de 2009

A BIBLIOTECA DE BABEL - Jorge Luis Borges

By this art you may contemplate the variation of the 23 letters...
The Anathomy of Melancholy,part. 2, sec. ii, mem. iv
***
O universo (que outros chamam a Biblioteca) se compõe de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no meio, cercados por varandas baixíssimas. De qualquer hexágono se vêem os pisos inferiores e superiores: interminavelmente.
A distribuição das galerias é invariável. Vinte prateleiras, sendo largas cinco por parede, cobrem todos os lados menos dois; sua altura, que é a dos andares, excede apenas a de um bibliotecário normal. Uma das faces livres dá para um apertado saguão, que desemboca em outra galeria, idêntica à primeira e a todas. À esquerda e à direita do saguão há dois gabinetes minúsculos.
Um permite dormir de pé; outro, satisfazer as necessidades finais. Por aí passa a escada espiral, que se abisma e se eleva até o remoto. No saguão há um espelho, que fielmente duplica as aparências. Os homens pretendem inferir deste espelho que a Biblioteca não é infinita (se fosse realmente, para quê esta duplicação ilusória?); eu prefiro sonhar que as superfícies polidas figuram e prometem o infinito... A luz procede de umas frutas esféricas que levam o nome de lâmpadas. Há duas em cada hexágono: transversais. A luz que emitem é insuficiente, incessante.
Como todos os homens da Biblioteca, viajei em minha juventude, peregrinei em busca de um livro, acaso o catálogo dos catálogos; agora que meus olhos quase não podem decifrar o que escrevo, me preparo para morrer a umas poucas léguas do hexágono em que nasci. Morto, não faltarão mãos piedosas que me atirem pela varanda; minha sepultura será o ar insondável; meu corpo submergirá profundamente e se corromperá e dissolverá no vento engendrado pela queda, que é infinita.
Afirmo que a Biblioteca é interminável. Os idealistas argumentam que as salas hexagonais são uma forma necessária do espaço absoluto ou, pelo menos, de nossa intuição do espaço. Raciocinam que é inconcebível uma sala triangular ou pentagonal. (Os místicos pretendem que o êxtase lhes revela uma câmera circular com um grande livro circular de lombada contínua, que dá toda a volta das paredes, porém seu testemunho é suspeito; suas palavras, obscuras. Este livro cíclico é Deus.) Basta-me, por ora, repetir o ditado clássico: A Biblioteca é uma esfera cujo centro cabal é qualquer hexágono, cuja circunferência é inacessível.
A cada um dos muros de cada hexágono correspondem a cinco prateleiras; cada prateleira encerra trinta e dois livros de formato uniforme; cada livro é de quatrocentas e dez páginas; cada página quarenta linhas, cada linha umas oitenta letras de cor negra. Também há letras no dorso de cada livro. Essas letras não indicam ou prefiguram o que dirão as páginas. Sei que esta inconexão, algumas vezes, pareceu misteriosa. Antes de resumir a solução (cujo descobrimento, apesar de suas trágicas projeções, é quiçá o fato capital da história) quero rememorar alguns axiomas.
O primeiro: A Biblioteca existe ab aeterno. Desta verdade, cujo corolário imediato é a eternidade futura do mundo, nenhuma mente racional pode duvidar. O homem, o imperfeito bibliotecário, pode ser obra do acaso ou de demiurgos malévolos; o universo, com sua elegante dotação de prateleiras, de tomos enigmáticos, de infatigáveis escadarias para o viajante e de latrinas para o bibliotecário sentado, só pode ser obra de um deus. Para perceber a distância que há entre o divino e o humano, basta comparar estes rudes símbolos trêmulos que minha falível mão garatuja na capa de um livro, com as letras orgânicas do interior: pontuais, delicadas, negríssimas, inimitavelmente simétricas. [1]
O segundo: O número de símbolos ortográficos é vinte e cinco. Essa comprovação permitiu, há trezentos anos, formular uma teoria geral da Biblioteca e resolver satisfatoriamente o problema que nenhuma conjectura havia decifrado: a natureza informe e caótica de quase todos os livros. Um, que meu pai viu em um hexágono do circuito quinze noventa e quatro, constava das letras MCV perversamente repetidas desde a linha primeira até a última. Outro (muito consultado nesta zona) é um mero labirinto de letras, porém a página penúltima disse Oh tempo tuas pirâmides. Já se sabe: por uma linha racional ou uma reta notícia há léguas de insensatas cacofonias, de miscelâneas verbais e de incoerências. (Eu sei de uma região cerrada cujos bibliotecários repudiam o supersticioso e vão costume de buscar sentido nos livros e o equiparam ao de buscá-lo em sonhos ou em linhas caóticas da mão... Admitem que os inventores da escritura imitaram os vinte e cinco símbolos naturais, porém sustentam que esta aplicação é casual e que os livros nada significam em si. Esse ditame, já veremos não é de todo falaz.)
Durante muito tempo se acreditou que esses livros impenetráveis correspondiam a línguas pretéritas ou remotas. É verdade que os homens mais antigos, os primeiros bibliotecários, usavam uma linguagem bem diferente da que falamos agora; é verdade que umas milhas à direita a língua é dialetal e que noventa pisos acima, é incompreensível. Tudo isso, repito, é verdade, porém quatrocentas e dez páginas de inalteráveis MCV não podem corresponder a nenhum idioma, por mais dialetal ou rudimentar que seja. Alguns insinuaram que cada letra podia influir na subseqüente e que o valor de MCV na terceira linha da página 71 não era o que pode ter a mesma série em outra posição de outra página, porém esta vaga tese não prosperou. Outros pensaram em criptografias; universalmente essa conjectura foi aceita, ainda que não no sentido em que a formularam seus inventores.
Há quinhentos anos, o chefe de um hexágono superior [2] deu com um livro tão confuso como os outros, mas que tinha duas folhas de linhas homogêneas. Mostrou seu achado a um decifrador ambulante, que disse que estavam redigidas em português;outros disseram que em iídiche. Antes de um século pôde-se estabelecer o idioma: um dialeto samoiedo-lituano do guarani, com inflexões de árabe clássico.
Também se decifrou o conteúdo: noções de análise combinatória, ilustradas por exemplos de variações com repetição ilimitada. Esses exemplos permitiram que um bibliotecário de gênio descobrisse a lei fundamental da Biblioteca. Este pensador observou que todos os livros, por mais diversos que sejam , constam de elementos iguais: o espaço, o ponto, a vírgula, as vinte e duas letras do alfabeto. Também alegou um fato que todos os viajantes confirmaram: Não há na vasta Biblioteca, dois livros idênticos.
Dessas premissas incontroversas deduzo que a Biblioteca é total e que suas prateleiras registram todas as possíveis combinações dos vinte e tantos símbolos ortográficos (número, ainda que vastíssimo, não infinito) ou seja, tudo o que é dado expressar: em todos os idiomas. Tudo: a história minuciosa do porvir, as autobiografias dos arcanjos, o catálogo fiel da Biblioteca, milhares e milhares de catálogos falsos, a demonstração da falácia desses catálogos, a demonstração da falácia do catálogo verdadeiro, o evangelho gnóstico de Basilides, o comentário deste evangelho, o comentário do comentário deste evangelho, a relação verídica de tua morte, a versão de cada livro em todas as línguas, as interpolações de cada livro em todos os livros, o tratado que Beda pôde escrever (e não escreveu) sobre a mitologia dos saxões, os livros perdidos de Tácito.
Quando se proclamou que a Biblioteca abarcava todos os livros, a primeira impressão foi de extravagante felicidade. Todos os homens se sentiram senhores de um tesouro intacto e secreto. Não havia problema pessoal ou mundial cuja eloqüente solução não existisse: em algum hexágono. O universo estava justificado, o universo bruscamente usurpou as dimensões ilimitadas da esperança. Naquele tempo se falou muito nas Vindicações: livros de apologia e de profecia, que para sempre vingavam os atos de cada homem do universo e guardavam arcanos prodigiosos para seu provir. Milhares de ambiciosos abandonaram o doce hexágono natal e se lançaram escadarias acima, urgidos pelo vão propósito de encontrar sua Vindicação. Esses peregrinos disputavam nos corredores estreitos, proferiam obscuras maldições, se estrangulavam nas escadarias divinas, lançavam os livros enganosos ao fundo dos túneis, morriam despenhados por homens de regiões remotas. Outros se enlouqueceram... As Vindicações existem (eu cheguei a ver duas que se referem a pessoas do futuro, a pessoas talvez não imaginárias) mas os buscadores não recordavam que a possibilidade de que um homem encontre a sua, ou alguma pérfida variação da sua, é computável em zero.
Também se esperou então o esclarecimento dos mistérios básicos da humanidade: a origem da Biblioteca e do tempo. É verossímil que esses graves mistérios possam explicar-se em palavras: se não bastar a linguagem dos filósofos, a multiforme Biblioteca produziria o idioma inaudito que se requer e os vocábulos e gramáticas desse idioma. Faz já quatro séculos que os homens fatigam os hexágonos... Há buscadores oficiais, inquisidores. Eu os vi no desempenho de sua função: chegam sempre rendidos; falam de uma escadaria sem degraus que quase os matou; falam de galerias e escadarias com o bibliotecário; vez por outra, tomam o livro mais próximo e o folheiam, em busca de palavras infames. Visivelmente, ninguém espera descobrir nada.
À desaforada esperança, sucedeu, como é natural, uma depressão excessiva. A certeza de que alguma prateleira em algum hexágono encerrava livros preciosos e de que esses livros preciosos eram inacessíveis, pareceu quase intolerável. Uma seita blasfema sugeriu que cessaram as buscas e que todos os homens embaralhavam letras e símbolos, até construir, mediante um improvável dom do acaso, esses livros canônicos. As autoridades se viram obrigadas a promulgar ordens severas. A seita desapareceu, mas em minha infância cheguei a ver homens velhos que largamente se ocultavam nas latrinas, com uns discos de metal em um cubículo proibido, e debilmente imitavam a divina desordem.
Outros, inversamente, creram que o primordial era eliminar as obras inúteis. Invadiam os hexágonos, exibiam credenciais nem sempre falsas, folheavam com fastio um volume e condenavam prateleiras inteiras: a seu furor higiênico, ascético, se deve a insensata perdição de milhões de livros. Seu nome é execrado, porém aqueles que deploram os “tesouros” que seu frenesi destruiu, negligenciam dois fatos notórios. Um: a Biblioteca é tão enorme que toda redução de origem humana resulta infinitesimal. Outro: cada exemplar é único, insubstituível, mas (como a Biblioteca é total) há sempre várias centenas de milhares de fac-símiles imperfeitos: de obras que não diferem senão por uma letra ou uma vírgula. Contra a opinião geral, me atrevo a supor que as conseqüências das depredações cometidas pelos Purificadores, têm sido exageradas pelo horror que esses fanáticos provocaram. Urgia neles o delírio de conquistar os livros do Hexágono Carmim: livros de formato menor que os naturais; onipotentes, ilustrados e mágicos.
Também sabemos de outra superstição daquele tempo: a do Homem do Livro. Em alguma prateleira de algum hexágono (raciocinaram os homens) deve existir um livro que seja a cifra e o compêndio perfeito de todos os demais. Algum o teria percorrido e seria análogo a um deus. Na linguagem desta zona persistem ainda vestígios do culto desse funcionário remoto. Muitos peregrinaram em busca d’Ele.
Durante um século cansaram-se em vão pelos mais diversos rumos. Como localizar o venerado hexágono secreto que o hospedava? Alguém propôs um método regressivo: Para localizar o livro A, consultar previamente um livro B que indique a localização de A; para localizar o livro B, consultar previamente um livro C, e assim até o infinito... Em aventuras dessas, tenho prodigado e consumido meus anos. Não me parece inverossímil que em alguma prateleira do universo haja um livro total [3]; rogo aos deuses ignorados que um homem – um só, ainda que tenha sido há mil anos! – o tenha examinado e lido. Se a honra e felicidade não são para mim, que sejam para outros. Que o céu exista, ainda que meu lugar seja o inferno. Que eu seja ultrajado e aniquilado, porém que em um instante, em um ser, Tua enorme Biblioteca se justifique.
Afirmam os ímpios que o disparate é normal na Biblioteca e que o racional (e mesmo a humilde e pura coerência) é quase uma milagrosa exceção. Falam (eu sei) da “Biblioteca febril, cujos aleatórios volumes correm o incessante destino de transformar-se em outros e que tudo o que afirmam, negam e confundem como uma divindade que delira.” Essas palavras que não só denunciam a desordem mas também a exemplificam, notoriamente provam seu gosto péssimo e sua desesperada ignorância.
Com efeito, a Biblioteca inclui todas as estruturas verbais, todas as variações que permitem os vinte e cinco símbolos ortográficos, porém nem um só disparate absoluto. Inútil observar que o melhor volume dos muitos hexágonos que administro se intitula Trovão penteado, e outro A câimbra de gesso e outro Axaxaxas mlö. Essas proposições, à primeira vista incoerentes, sem dúvida são capazes de uma justificação criptográfica ou alegórica; essa justificação é verbal e, ex hypothesi, já figura na Biblioteca. Não posso combinar uns caracteres
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que a divina Biblioteca não tenha previsto e que em alguma de suas línguas secretas não encerrem um terrível sentido. Nada pode articular uma sílaba que não esteja plena de ternuras e temores; que não seja em alguma dessas linguagens o nome poderoso de um deus. Falar é incorrer em tautologias. Esta epístola inútil e faladeira já existe em um dos trinta volumes das cinco prateleiras de um dos incontáveis hexágonos – e também sua refutação. (Um número n de linguagens possíveis usa o mesmo vocabulário; em algumas, o símbolo biblioteca admite a correta definição ubíquo e perdurável sistema de galerias hexagonais, mas, biblioteca é pão ou pirâmide ou qualquer outra coisa, e as sete palavras que a definem têm outro valor. Tu, que me lês, estás seguro de entender em minha linguagem?)
A escritura metódica me distrai da presente condição dos homens. A certeza de que tudo está escrito nos anula ou nos afantasma. Eu conheço distritos em que os jovens se prosternam diante dos livros e beijam com barbárie as páginas, porém não sabem decifrar uma só letra. As epidemias, as discórdias heréticas, as peregrinações que inevitavelmente degeneram em banditismo, têm dizimado a população. Creio haver mencionado os suicídios, cada ano mais freqüentes. Quiçá me enganem a velhice e o temor, mas suspeito que espécie humana – a única – está por extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta.
Acabo de escrever infinita. Não interpolei este adjetivo por um costume retórico; digo que não é ilógico pensar que o mundo é infinito. Aqueles que o julgam limitado, postulam que em lugares remotos os corredores e as escadarias podem inconcebivelmente cessar – o que é absurdo. Aqueles que o imaginam sem limites, esquecem que contém o número possível de livros. Eu me atrevo a insinuar esta solução do antigo problema: A Biblioteca é ilimitada e periódica. Se um eterno viajante a atravessasse em qualquer direção, comprovaria ao cabo dos séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem (que, repetida, seria uma ordem: a Ordem). Minha solidão se alegra com esta elegante esperança. [4]

Mar del Plata, 1941

[1] O manuscrito original não contém algarismos ou maiúsculas. A pontuação está limitada à vírgula e ao ponto. Esses dois signos, o espaço e as vinte e duas letras do alfabeto são os vinte e cinco símbolos suficientes que enumera o desconhecido. (Nota do Editor).

[2] Antes, para cada três hexágonos havia um homem. O suicídio e as enfermidades pulmonares destruíram essa proporção. Memória de indizível melancolia: Às vezes viajei muitas noites por corredores e escadarias polidas sem achar um só bibliotecário.

[3] Repito: basta que um livro seja possível para que exista. Só está excluído o impossível. Por exemplo: nenhum livro é também uma escadaria, ainda que sem dúvida haja livros que discutem e negam e demonstram essa possibilidade e outros cuja estrutura corresponde a de uma escada.

[4] Letizia Alvarez Toledo observou que a vasta Biblioteca é inútil; em rigor, bastaria um só volume, de formato comum, impresso em corpo nove ou corpo dez, que constaria de um número infinito de folhas infinitamente grandes. (Cavalieri, no início do século XVII, disse que todo corpo sólido é a superposição de um número infinito de planos.) O manejo desse vademecum sedoso não seria cômodo: cada folha aparentemente se desdobraria em outras análogas; a inconcebível folha central não teria reverso.


Tradução: Alexandre Rabelo
Agosto de 2008

quarta-feira, 25 de março de 2009

Máximas Ínfimas




- Sou feliz e triste ao mesmo tempo, pois o tempo não existe.

- Tenho medo da morte quando temo a vida. Quando não tenho medo, não existo.

- Rezo para os grandes escritores e leio deus.

- Só me expresso quando estou vazio. Quando estou cheio, só sei morrer.

- Estendo a mão para me curar no amor que possa dar. Prefiro esse egoísmo à pretensão de salvar quem me salva.

- Ninguém me salva de mim. Prefiro ser meu pior inimigo para sempre precisar de um amigo.

- Se as pessoas fossem uma raça em extinção, talvez eu gostasse delas como gosto das baleias.

- Compreendo a juventude porque ela também não se compreende.

- Defender idéias é assassinar o tempo. Atacar idéias é suicídio.

- Troquei umas palavras com o silêncio, mas ele só me disse o que eu já sabia.

- Eu acerto para sobreviver e erro para viver.

- Se esqueço é para começar de novo. Se recomeço, é para me esquecer.

- Quando percebi que era preciso saber muita coisa, as coisas deixaram de existir.

- A injustiça me enraivece; a justiça me entorpece.

- Só mudo para ser o mesmo, e quero ser o mesmo para ser o outro.

- Eu digo dor com quem diz sorriso. Quando sorrio é por não ter o que dizer.

- Eu digo amor como quem diz ansiedade. Quando anseio é por não ter o que amar.

- Quem se arroga de ser louco descobriu a pior desculpa de todos os tempos. Quem se arroga de ser são, não descobriu nada.

- Uso o vaso sanitário para pensar. Os pensamentos eu uso para expelir fluídos.

- Ardo para aprender a respirar. Respiro para desaprender.

- A eternidade me conduz pois só nela me perco. O tempo não me diz nada pois só nele me acho, e não sou nada.

- Sinto-me só pois do contrário me sentiria inteiro. E só é inteiro quem conheceu tudo, inclusive a morte.

- Gosto muito de dinheiro, só não gosto de quem ele pode comprar. Mesmo assim, as compro quando posso, para desmascarar.

- Tenho esperança porque o desespero me cansa.

- Não sei expressar essas verdades prontas, por isso só as jogo. Quem sabe aí eu me invente por um dia ou mais.

- Desejo a paz como quem não deseja mais.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Desejo e Ilusão


" 'Assim como o fogo é envolvido pela fumaça, um espelho pela poeira, e o feto no ventre materno pelos tegumentos que rodeiam o embrião, assim também a compreensão é envolvida pelo desejo. A inteligência superior (jñana) do homem - que intrinsicamente é dotado de perfeito discernimento (jñanin) - está cercada por este eterno inimigo, o desejo, que assume todas as formas possíveis e que é um fogo insaciável. As forças sensoriais (indriya), a mente (manas) e a faculdade de compreensão intuitiva (buddhi), são todas consideradas sua morada. Por meio delas o desejo atordoa e confunde o Possuidor do corpo, velando sua compreensão superior. Portanto, começa por sujeitar os órgãos dos sentidos e mata este maligno, o destruidor da sabedoria (jñana) e da realização (vijñana). As forças sensoriais são superiores [ao corpo físico]; a mente é superior aos sentidos; a compreensão intuitiva, por sua vez, é superior à mente; e, superior à compreensão intuitiva, aquieta firmemente o eu por meio do Eu [sa: o Possuidor do corpo, o Eu], e mata o inimigo que tem a forma do desejo [ou que assume qualquer forma que lhe agrade] e que é difícil vencer.'

'Ao contemplarmos os objetos dos sentidos interiormente, visualizando-os e ponderando-os, criamos apego a eles; do apego nasce o desejo; do desejo surgem a cólera e as paixões violentas; da paixão violenta, o atordoamento e a confusão; do atordoamento, a perda da memória e do autodomínio consciente; desta perturbação, ou ruína do auto-controle, advém o desaparecimento da compreensão intuitiva; e da ruína da compreensão intuitiva vem a ruína do próprio homem.'

A técnica de desapego ensinada pelo Bem-aventurado Krishna na Gita é um espécie de 'caminho do meio'. Por um lado o devoto deve evitar o extremo de se apegar à esfera da ação e a seus frutos (a busca egoísta de propósitos pessoais, com avidez de aquisição e posse), e pelo outro, deve-se evitar cair, com o mesmo cuidado, no extremo da vazia abstinência de toda espécie de ação. O primeiro erro é aquele proveniente do comportamento normal do ingênuo ser mundano, propenso à atividade e ansioso pelos resultados. Isto leva apenas a uma continuação do inferno da roda dos renascimentos: nossa costumeira e inútil participação no sofrimento inevitável que acompanha o fato de sermos um ego. Enquanto o erro oposto é o da abstenção neurótica; o erro dos ascetas absolutos - como os monges jainas e ajivika - que se entregam à vã esperança de que é possível livrar-se dos influxos cármicos simplesmente através da mortificação da carne, fazendo cessar todos os processos mentais e emocionais e matando de fome ao corpo. Contra essas coisas, a Bhagavad Gita apresenta uma concepção mais moderna, mais psicológica e espiritual: Age! porque, na verdade, agirás não importa o que faças, mas consegue desapegar-te dos frutos! Dissolve assim o amor-próprio de teu ego e com isto descobrirás o Eu! O Eu não se preocupa nem com a individualidade interior (jiva, purusa) nem com o mundo exterior (a-jiva, prakrti)."
Filosofias da Índia - Heinrich Zimmer

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

carta a jovens rebeldes

David e Golias - Caravaggio


Tenho conversado cada vez mais com jovens rebeldes, dos mais diversos tipos de inadequação. Quanto mais conheço suas necessidades, mais percebo que o que desejam é um ouvido paciente para exercitarem o galope selvagem de suas contradições, sem censura. Por outro lado, procuram corpos como se estes fossem apenas ouvidos.
Todos assumem ser a arte o interesse mais verdadeiro. E todos têm medo e buscam em minhas palavras, na boca que as emite, uma razão corajosa e louca para realizarem seus sonhos inconfessáveis de expressão, prazer, poder, paz. Sabem-me como alguém que lhes incentivará o desvario calculado, com o benefício da dúvida, da ambigüidade, do mistério, magia, todas as palavras grandes que os homens se inventam para se cercar de importâncias. Comigo querem falar sobre o amor, começo e meio e fim. Querem falar sobre loucura, responsabilidade, impulso, sexo, pessoas, bichos, poesia, tempestade, festas, filmes, dramas, mantras. Sobre terra, céu e mar. Revelam-se como eu, tímidos, inseguros, covardes, melancólicos, tristes, sombrios. Uns desdenham a palavra deus, outros a palavra amor. Armam-se de palavras para alcançar algum gozo, preenchido de idealidades outras, sonhos de carne inconfessáveis, nos mais diversos estilos musicais.
Pensei em escrever uma carta a todos estes jovens rebeldes, com a intenção de expressar possíveis relações sobre assuntos que vejo serem mais repetidamente evocados. Também falo com a intuição de que lhes fará algum bem sentir que suas questões mais presentes são reais para uma coletividade maior, embora eu me dirija a uns tantos rebeldes em específico, mas sem ferir suas individualidades, e sim tentando desvendar o que possa ser superior à nossa solidão, dita existencial.
Reparo que quanto mais tomamos parte em experiências extremas, segundo nossos próprios critérios, mais dizemos, sentidamente, a palavra solidão. Pois conhecer abismos nos individualiza. E sigo dizendo que é uma questão de tempo, paciência, delicadeza, segurando nos dentes as rédeas dos próprios impulsos, sabendo que todos queremos convencer ou confundir nossos pares, cheios demais de desejo para já trabalharmos na disciplina consciente do equilíbrio justo entre dor e prazer. Todos queremos confessar algum grande crime de amor, para nos sentirmos superiores a nossas próprias palavras.
Os mais ousados expressam-se através das artes. Plásticas, literárias, teatrais, cinematográficas, musicais. Primitivas e ancestrais, futuristas e cósmicas. Arrogam-se de conhecer a realidade dura da pedra, do dinheiro, do poder e do interesse. Afirmam sentimentos fugazes em nome das últimas verdades de que se armaram, em sua leitura convulsiva do mundo. Eu sigo dizendo: a arte mais básica é a da respiração, mas, sendo jovens, conscientizamo-nos disto apenas durante um beijo.
No fundo, o que eu poderia dizer de verdadeiro, com valor de lei, de acordo com minhas reais atitudes? Este parece ser nosso problema mais crucial ainda. A medida entre palavras e atos. Ora sou incerteza, ora homem, ora coisa. Não quero dizer que o consolo da razão garante a felicidade, mas saber escolher é sobreviver melhor.
E há que se ouvir os sonhos, onde estão as conexões mais antigas, mais próximas de nosso ser primordial, as conexões mais comuns, mesmo as que um sonho faz crer que sejam inéditas. Há que se navegar pelos sonhos, no medo, na idéia de que há luz e escuridão. Mas, acautelem-se na hora de brincar com fogo! Quem brinca com fogo realmente faz xixi na cama. E já acorda com medo, um pouco mais queimado, com a pele mais insensível e a vista mais ofuscada. O fogo é para ser reverenciado, mas não como um ídolo, e sim como o emblema mesmo do mistério superior à vida de um homem, este ser nascido no tempo. Cada elemento simples e eterno deve emanar constantemente seu poder sobre a fraqueza e força de um homem.
Devemos nos entregar ao simples jogo de crer que há um mistério para fora de nós mesmos, deve haver um mistério maior que este que enxergamos em outro homem ou mulher. Deve haver algo além das palavras amor e deus, um outro sopro sutil indefinido e quase inaudível. Senão, a matéria e suas leis, sempre tediosamente arbitrárias, mortais...
A revolta é a atitude de imaginar uma realidade superior à nossa, pela leitura intencional dos sinais que nossa realidade mais concreta parece apresentar. Pois se toda crença é vã, que possamos estar ao menos conscientes de que construímos nossas vidas como uma ficção, uma história para se contar, e ainda assim que possamos dar cada vez mais crédito a nós mesmos. Devemos ser honestos e assumir quem são os homens de quem roubamos nossos argumentos. Se não dermos forma à revolta, ela nos mata.
Meu partido é a capacidade de criar histórias, ficções, fantasias onde o cotidiano se revele sobrenatural, convidando-nos a mergulhar até o fundo da ilusão para perceber seu caráter de máscara, simulacro, pele morta. A magia dos fogos universais não pode ocultar senão um silêncio, que é de cada um e de todos. Para estarmos atentos a nossas relações com o mundo, para aventurarmo-nos com certa segurança, é preciso termos como porto este silêncio incognoscível, esta curiosidade franca e latente.
Toda história, em nossas vidas ou fora delas, sempre retorna ao silêncio que a originou. Não há verdade mais eterna que o silêncio. Há apenas testemunhos aos quais podemos nos agarrar com a justificativa da fé, sejam esses testemunhos obras de pastores ou poetas, criadores de sons e imagens, cientistas ou feiticeiros.
Se nossa revolta nos impele às vezes a desdizer os mestres antigos, sejam estes professores, amantes, poetas ou estrelas, sejam velhos amigos solitários, por que então gastamos nosso tempo e palavras em desdizê-los? Por que não dizemos, enfim, apenas o que desejamos? Eu sei... Porque não há nome que nos emule... Ainda queremos viver de segredos, mesmo quando sabemos ser mais saudável e divertido expor com coragem nossas contradições. Eu sei, temos de nos mostrar como soldados, fortes, preparados, inocentes da própria hipocrisia.
O fato é que estamos sempre fazendo jogo duplo, triplo, quádruplo, como acrobacia que nos permitisse atender a nós mesmos, de um lado, e aos nossos desejos, tão estranhos a nós mesmos. Somos livres, mas queremos possuir a liberdade do outro, se possível. Seria melhor assumirmo-nos frágeis, selvagens, flexíveis, úmidos. Melhor seria respirar e rir. Melhor seria criar ou calar.
Já no fim desta carta, tendo dado forma ao que a observação mostrou ser o mais urgente, sinto alguma rebeldia se lançar estômago acima, tentando caluniar inutilmente o que acabo de escrever. Mas uns outros lados meus, chiaroscuros, se contentam, sem auto-complacência, implacavelmente.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Stalker - Tarkovsky


“Quando o homem nasce, é fraco e flexível;
quando morre é impassível e duro.
Quando uma árvore nasce, é tenra e flexível;
quando se torna seca e dura, ela morre.
A dureza e a força são atributos da morte;
a flexibilidade e a fraqueza são a frescura do ser.
Por isso, quem endurece, nunca vencerá…”