quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Sonho de Orfeu no Vale da Morte

ALÔ?... CÂMBIO? CONTATO?! MÃE?! PAI?! QUEM AMA?? ALÔ!!! S.O.S.


Esta é uma charada a cobrar, para aceitá-la continue na fila ou...


NÃO CONSIGO OUVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVV... ZZZZZZZZZZZZ!!! Não sei que sonho. De lugar nenhum, recebo a notícia de que na Terra predadores de todas as espécies correm por um deserto de resto tecnológico, no rastro da última guerra. Alguém me lembra de que nos cantos do universo expandido, as estrelas explodem em silêncio. Aceito um convite silencioso para me deitar na escuridão vazia. Ouço a paz.

Shhh... Ohmm... zzzz...
Seja bem vindo...
Você não está sozinho.
Esqueça seus perseguidores – cace...
Eu visitei o fim do universo, onde é só sonho sem lugar,
Sem fronteira, sem razão, sem saída, sem andar.
Retorno para lhe contar as histórias que viraram sonho.
Durma agora! Acorde para este sonho.
Conecte-se ao enigma. Siga-me. Pulse!


Não posso parar de correr! Tenho que me preparar, alcançar o abrigo! Os soldados não se cansaram no campo inimigo... E não restou campo amigo. Aqui, é cada um pelo próprio corpo... Em algum lugar, alguém nunca saberá que a guerra acabou. Em todo lugar, ninguém sabe de nada. Eu sei que naves piratas se escondem na fumaça tóxica. Legiões de sobreviventes sem família, pátria ou memória, reviram o deserto de escombros em busca de carniça. Profetizo para a minha sombra: VOCÊ É UM DELES! RESPIRE E VÁ. NÃO PARE PARA PENSAR. FUJA DAS CRIANÇAS-SEM-LÍNGUA – ABORTOS QUE VINGARAM E APRENDERAM A FALAR COM OS GEMIDOS DOS MORTOS. SÃO OS PIORES ASSASSINOS...

Conecte-se ao enigma! Pulse comigo.


Meus pés batem na terra árida um compasso inerte de fuga. O coração adormece. Quero me entregar.


Pulse. Ossos para o chão, carne para o céu!
Isto não é sonho, é ciência – lei e observação ao léu.
Quer experimentar?


Você sente sono. Acha os destroços de um avião carbonizado, parecido com a carcaça de uma baleia branca. Reconheço a coisa como um abrigo futuresco-saudosista. Desvendo que sonho quando sinto este cheiro de lembrança afundada onde quase me descubro. Duvido da realidade do sonho, mas um sono me bate como realidade e esqueço de sonhar: os músculos pesam, os pulmões deixam o ar sair, o coração sangra espaço, alivia-se, sonha com o lar. Está consciente. Segue com o tempo. Pulsa.

Não é só ciência, é religião também.
Entre e saiba o que não se observa na escuridão.
Sou seu guia entre dois mundos, perto de onde a luz escapa. Siga-me!
Deixe que eu sele seus olhos, cegando-os com delicadeza de areia. Durma agora...


O avião-baleia é invadido por uma espécie de cordão d’água, suspenso no ar como fio de cristal. Brilhante sob o luar vazado em listras pelas costelas da baleia, o fio mágico aponta para o meu rosto como um dedo de deus. Você diz por dentro: VOCÊ TINHA ESQUECIDO DEUS. E o dedo sem nome divide-se como língua de cobra e entra pelos meus olhos, sem fazer pressão. Alguma força preenche meu corpo e puxa o fio de volta à origem. Rasteiro, escorrego pelo rastro da guerra como ave de rapina. O lixo final, a natureza enfim devastada por fragmentos de objetos humanos: corpos, civilizações antigas e novas reviradas do inferno ao céu. Pedras, prédios, telas, robôs, crateras lunares. Filmo o apocalipse conectado ao fio de água. Peço ajuda ao fio para me afastar em direção ao céu. Elevo-me.

Não se preocupe. Deixa que eu leve a memória dos fatos...
Adormeça desde a pele. Desperte para a teia de luzes.


Sob um tímido luar, a areia quase invisível parece ganhar um brilho líquido – uma praia, o mar! Descubro: esta era a fonte que me puxava. Apesar da noite, bato em águas quentes. Dentro d’água, o fio que me guia vira uma trança de luzes douradas e prateadas que iluminam de azul a desgraça do último dilúvio. Alguém me sopra que os pólos foram incendiados. Deserto aquoso adentro, a megalópole submersa.


Pulse! Conecte-se ao enigma. Não olhe a face da morte pelas janelas dos prédios, deixe a cidade para os tubarões. O fundo virgem do oceano não está longe. Não há com o que se preocupar, todas as ocupações foram desfeitas. Escolha ser livre na eternidade do sem-mundo. Você navega e eu lhe mergulho. Acorde este corpo enquanto dura este sonho. A voz que lhe guia é a voz que lhe quer. Gostaria de experimentar o futuro?


Desço pela escuridão profunda do longe-de-mim. Aqui e ali, distingo conglomerados multicromáticos de luzes derretidas. Não sei se estou no vazio das profundezas do oceano, cercado por estranhos seres abissais, ou se vago pelo vazio do espaço, entre distantes galáxias perdidas. Do fundo mais fundo, julgo ouvir melodias fúnebres em doces vozes feminis, enquanto pressinto a voz masculina que me guia no silêncio pesado das águas negras. Minha cabeça é tragada para o fundo da areia, o resto de meu fardo passa a flutuar num balé às avessas. Não sinto nada, esqueço-me.

Não sou um canto de sereia, tritões não sabem entoar.
Sonhe para não se confundir, afunde para respirar.
O amor é onda futura que se funde em pedra pura.
Não há mistério, é só o tempero que misturo.


Esqueço que estou no fundo mudo dos desastres e sinto sono. Desmaio e começo a sonhar dentro do sonho marinho. Primeiro eu ouço.


Este é o tempo dos últimos sonhos. Antes de abrir os olhos, mantenha o coração na linha do horizonte. Sinta-se em casa. E não tema coisa alguma.


Qual deus descreveria o que vejo? Estou no centro de uma multidão de milhares de sobreviventes da última guerra, nus ou em farrapos, dançando desgovernados pelo deserto de pátria alguma. No ar de gazes vermelhos, aeronaves cruzam ataques que explodem máquinas no céu e corpos na terra. Ao meu lado, uma mulher ri histérica sobre as pernas que bate no chão por insistência, sem querer cansar. Um homem acalma o ritmo dos pés num transe louco que reza entrelábios. O cheiro do sexo predomina sobre o cheiro da morte. Os braços se procuram. Chove suor. À minha frente, um jovem se destaca com seus cabelos finos revoltos sob o vento da guerra, o olhar manso de sabedoria, a boca cheia de desejos – seu sorriso esconde uma inocência que a malícia de seus olhos denuncia. Sua roupa é de um tecido misto de plásticos e trapos pretos reciclados, cruzados e amarrados em caos ordenado por todo o contorno do corpo alto, até o pescoço. Veste um coturno gasto, antiquado. Não carrega nada nas mãos. Ambíguo, caminha devagar, quase sem decisão, como se não houvesse a dança da guerra, como se entardecesse sobre uma praia, como se a vida apenas começasse... Intuo que este rapaz é aquele que se diz guia, a voz que me assopra como intruso, e ele se confirma quando se faz ouvir sem abrir a boca, pelos olhos simplificados na verdade da hora urgente. Ao redor, o êxtase leva os corpos à ruína.


Estrangeiro em minha terra e desconhecido no estrangeiro, eu vigiei para não ser pego, cheguei aos campos de concentração nas colônias lunares, mirei os olhos secos de quem implora só mais um litro de ar. Para fugir, tive que cair até o fim do universo, limite de todo existir, fora do tempo que duram as maiores ilusões. Fora dos fatos quadrados ou em cacos, não pude salvar mais que um nome humano, nem meu nem de ninguém, mas que serve a todo aquele o ultrapassa. No deserto dos sonhos, cacei os perseguidores do nome e, desses todos, muitos eram deuses que nunca existirão. Como saí de lá e o que fiz para chegar aqui é história que não cabe em sonho. Digo apenas que amei para me inocentar e retorno para lhe contar. Se você se lembrar dos caminhos em que lhe conduzirei, será meu guia também.


Caio deitado. Acima de mim o céu estrelado sobre as costelas negras do avião-baleia. Ao redor, o deserto e seu nada. O tempo umedeceu. Minha cabeça está molhada de água do mar. Respiro aliviado, como se estivesse na pausa de um beijo. Em meus ouvidos reverberam ecos que já não sei se saem de mim.

Sou a voz do deserto, senti o amor do sem fim,
Retorno da eternidade para contar seus sonhos de mim.


Pouco a pouco, pulso por pulso, a voz retorna ao espaço incorpóreo. E antes de acordar, durmo pensando de cabeça na areia fria: COMO CONTAR OS GRÃOS DE UM SONHO ASSIM?

Iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiôêô!
IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIÔÊÔ...


Um chamamento vindo dos fornos do tempo me acorda. Abro os olhos num chão de asfalto rachado e vejo uma avenida larga amanhecer abandonada. As luzes artificiais estão quebradas, pendem dos fios como fardos de enforcados. Ao longe, ruídas pelos séculos, vejo duas fileiras de arranha-céus de uma alta tecnologia já antiquada. Fora isso, ninguém. Eu conheço este lugar: minha cidade natal – mas o tempo é outro. Sei que estou no futuro, a guerra passou por aqui. Estar no futuro não é uma surpresa para mim, estaria tudo no esquecimento do prazer se meus sentidos não entrassem em estado de alerta diante desse vazio suspeito. Fico de pé num salto. Existe uma leveza de criança neste corpo. Olho para mim e vejo pés fincados, mãos em posição de ataque, músculos quentes em pura definição, tingidos pelo trabalho sob o sol. Mantenho-me firme com o coração na boca. Assim, descubro-me belo. Sou uma versão mais delicada de mim, sem o peso das horas, suspenso na oportunidade da sobrevivência. O futuro não corre, parece preso num instante do passado. Ouço um zumbido se aproximar. Abelhas?! Tenho medo de abelhas porque elas não voam em linha reta. Olho para trás. Borboletando no ar com quatro penas brancas, duas asas, uma pedra do tamanho de um punho orbita ao meu redor. Sinto-me observado como se um sonhador gaiato pegasse carona no meu sonho. Sem aviso, a coisa traça uma fuga reta em direção à esquerda, onde pressinto uma rua escura, sem saída. Pisco os olhos e, pela força do pressentimento, vejo-me já no beco, onde consigo captar um relance da pedra voadora, descendo uma rampa que parece dar numa espécie de estacionamento. Tenho medo, mas sei que devo descer também, meus instintos confiam na pedra. Pisco de certeza e caio dentro do lugar. Teto baixo, concreto sobre concreto. No lado oposto ao que desci, sobe uma outra rampa em direção à visão de um céu de sol pleno, com verdejantes copas de árvores. No centro do lugar-concreto, um homem nu, ajoelhado numa das pernas, cabeça pensa, cabelo basto. Reconheço-o não sei de onde. A forma de seus grandes músculos expostos ressoa na memória, mas não se identifica. Olho para as mãos rústicas e reconheço as minhas próprias, mais calejadas pelo uso da força. O ser levanta uns olhos tristes para mim. Meus olhos! Por trás da sobrancelha esparsa, da barba cheia, dos muitos pêlos e suor, eu. E o eu sorri para mim escondendo intenções – não me desvendo. Ao invés, vejo-o levantar o que parece ser uma flauta descomunal, feita de um tipo de bambu selvagem. Vejo-o assoprar um zumbido longo que faz sair da ponta do instrumento um nevoeiro denso de abelhas. Elas giram em agonia e se derretem no ar como chuva de cera sobre minha versão encardida. Ele deixa-se cair macilento no chão e começa a torcer um canto rouco. Rápidos focos de luzes coloridas partem de todas as superfícies do concreto reinante, inundando-nos numa cama de gato mutante, numa pista de dança cibernética.

Ai meu deus, olha só onde acordei!
Fui eu que pedi, não peço outra vida – me ferrei.
A plenitude vai seguindo e você é o meu carimbo, eu sei.
Então por que eu fico triste se você abaixa os olhos?
Meu lábio cantarola quando toca aquele idílio:
Eu sou o mais certo à sua frente agora!
Preste atenção em quem te rodeia esta noite,
Hoje você trouxe aquele sol bem-vindo,
Mas eu não sinto nem preguiça de luar...
Quando toca o estribilho, meu coração até vai,
Mas o meu pé vai fugindo do outro pé, de mansinho.
Você quer que eu pegue leve, passe liso,
Mas eu não sinto nem preguiça de luar,
Esta noite é pra outras luzes, pode passar.
Tem uma coisinha que não me deixa dançar,
E eu sei que nada poderia ser mais amoroso.
Tem uma coisinha que não me deixa cantar:
Por que você não estoura, se não estou pra isso hoje?
É melhor eu me esconder enquanto você chora de mim...
Ando pelas caras e são todas caras,
ando pelas bocas e todas são poucas.
E não sinto nem preguiça...
Cidades brotam e tombam como pista que enche e esvazia,
E tudo que a gente faz é mudar e fingir que retornou para o lar.
E você tem todas essas luzes que cabem numa praia,
mas por que na sua frente eu não abro os olhos e os abraços?
Parado na vida, brinco de ter um objetivo:
Dizer pra todo mundo que seu nome é meu.
Eu só peço que você me ouça, enquanto eleva os braços livres:
Sei que se você sair por aí, estará como eu fui,
E eu não sinto nem vontade de luar...
Quando toca o agudinho, meu peito até respira,
Mas meu pé segue outro pé que quer sair.
Você me quer de ombro erguido, desfilando micos,
Mas eu não sinto nem fome de luar,
Esta noite é pra outras cruzes!
Não me deixe dançar e cantar,
Inclusive se nada mais puder me incluir.
Matei minha febre de luar, aprendi a suar.
Por que você não melhora quando não está comigo?
Vou me esconder até você rir de si, sinceramente.
Vou soprar uma fé que fará a lua virar carruagem,
Verei as formigas cativas do amor enquanto sigo viagem.
Sem dançar, fico quieto para receber seu pé no meu peito.
Deixe-me escorrer pelo seu canto,
Enquanto você corre pelas luzes além.
Mas aviso que não sinto nem preguiça de ficar!
Quando toca o estribilho, meu amor até vai,
Mas o calcanhar finca nesse coração mansinho.
Você quer que eu mude firme, muro pro seu furacão,
Mas não sinto nem a carícia do luar,
Esta noite é pra outras coisas, pode passar.
Parem de dançar e cantar!
Tem alguém que não quer fazer isso hoje...
Parem de dançar e cantar!
Por que você não arromba a pista sem dança?
Hoje ninguém vai cantar e dançar,
É melhor cair na cama que ver os seus olhos baixarem.


Entonteço com a visão da versão melada de mim. Uma náusea sobe à garganta sem convulsões, calma e persistente. Sem pavor, a vista escurece diante do meu duplo grotesco. Rendido no chão, ele parece inconsciente, desabrigado de qualquer sonho. Olho para a direita: na rampa que sobe ensolarada, a pedra voadora rodopia elipses. Olho para a esquerda: uma chuva fina cai sobre o fim da madrugada e, encostada na entrada do estacionamento-vórtice, uma doce-moça-cachos-de-mel, também nua, um pingo de ouro como gargantilha, risinho tenso, desejo embrulhado nas mãos entre pernas. Sei que ela apareceu pelo chamado da música. Meu coração dispara sem nome de terror, pavor, amor ou pânico algum. Vou até ela e simplesmente encosto meu desejo no seu e experimento sua boca de uma vez. Ela me empurra com os punhos leves e diz: VOCÊ BABA! E foge madrugada acima. Arrasto-me pelas suas pegadas, meus dentes crispam no ar frio do fim das horas: TENHO QUE PEGÁ-LA! Alavancando a flauta gigante, meu duplo escrachado nos segue, saltando distâncias superiores a vinte metros. Corro por um grande vazio de escombros de edifícios e arcos rachados de colossais viadutos. Salto e corro com a agilidade e precisão que meu novo corpo gracioso permite, mas perco o ritmo toda vez que ela olha para trás e sorri. Um helicóptero de guerra inclina rasantes e holofotes sobre nós. Entre pulos, meu duplo arreganhado gargalha guinchos de prazer. Tropeço e caio. Levanto-me e rastreio o cheiro dela. Nada, o sonho não tem cheiro, e eu não sei que é sonho. Sei que é desejo, e guio-me pelo movimento das coisas. Ouço gritos e lamentos. No meio da cidade destruída, um rio semi-morto barra o meu caminho. Alcanço a margem pouco íngreme, onde bandos de sobreviventes pranteiam objetos de outras épocas, que bóiam lúgubres em caldo contaminado. Na outra margem, uma plantação daquele bambu titânico flexiona em reverente choro. Consigo ver uma das hastes gigantes vazar mel pelas juntas. Ouço a risada de meu duplo folgazão atrás de mim. Torno-me e vejo-o encher-se de ar, esticado em cima de uma piramidal quina de prédio jogada ao acaso sobre o entulho. Ele sopra a flauta que magicamente faz soar a voz da lourinha fugida: AONDE SERÁ QUE EU ME ESCONDI? Entendo que ela virou música e fecho os olhos para me distrair. Acordo outra vez no estacionamento das bifurcações. Ainda sou belo. Meu eu carnavalesco ainda ri à minha frente e, como ele-eu, eu-ele porto uma flauta de bambu. Olho para a esquerda: a pedra que voa, jaz parada no ar, de penas eriçadas, no meio de uma chuva relampejante. Na rampa à direita, sob a luz do dia aberto, uma jovem branca de olhos ocultos em franja de seda negra. Veste uma bota plástica branca de salto ferroento, que lhe aperta até as coxas, e uma tira de couro branco envolvendo o pescoço alto, onde se lê em fina caligrafia de sangue: VIRGEM. Em seus braços, enroscam-se arabescos de serpentes e dragões tatuados em ampla escala de cores, misturando estilos artesanais, desde os nós mais primitivos até os mais modernos, industriais, retilíneos. Do canto do sorriso mais que rubro, escorre um filete de mel que a língua recolhe acanhada, só uma pitada. De repente, abre-se no teto baixo de concreto um fosso alto onde se gruda uma escada de mão enferrujada. Meu duplo simiesco se posiciona abaixo do buraco, tendo o bastão musical como eixo, e entoa: IEÔ-AAH! IEÁ-OHM... E, tomando impulso com o bambu salteador, parte num único pulo reto pelo poço aberto. A virgem vem até mim, prende os lábios nos lóbulos ao pé do meu ouvido e sussurra com voz robotizada: GUARDO O CANTO DE UM FOGO ANTIGO. E como aranha veloz, agarra-se ao sumidouro e o escala sem esforço, religiosamente sobre-humana. Fico a sós com pedra de olho oculto. Não sei se é sua muda observação ou se é a vibração colibrinesca de suas asas que me apavora, mas meu coração dispara, liberando uma força de medo que me faz preferir o amor da sacerdotisa cibernética a mais um instante com a coisa sem nome. Fecho os olhos para sonhar um atalho. Acordo sacudido por ventos uivantes. Estou no alto do maior arranha-céu, acima e abaixo as nuvens passam pela cidade abandonada antes da destruição. Na altitude de meu olhar, a mulher de olhos acortinados está equilibrada no parapeito de um prédio gêmeo. Ao meu lado, minha versão predadora atinge o terraço, sem fôlego ou foco. Rasteja-se até o parapeito e ensaia uma palavra na flauta: VOCÊ! E junto com o pedido persistente, escapa do bico do sonoro bambu um despejo de abelhas que escorrem mortas para o desfiladeiro de prédios. Com a franja furiosa rebatendo-lhe a face, a mulher faz um grito nos chegar numa pausa dos ventos: VOCÊ NÃO, TÍMIDO LIBERTINO! E se atira atrás das abelhas. Minha versão monstruosa enrola-se num choro infantil, empobrecendo sua potência em solucinhos magoados. Sinto que devo esperar a passagem de alguma frota de nuvens. Após um vento feroz secar seu lamento, ouço uma sobreposição de estrondos crepitarem da terra distante abaixo de nós. Então vejo: como se sua vida entregue fosse milagrosa semente, a virgem faz despontar do chão entre os edifícios gêmeos uma espécie de monolito de pedra branca, rutilante como mármore bruto, largo e toscamente arrendado na ponta como um falo de deus. Lembro do nome de deus com um arrepio. Meu duplo esgueira-se entre as correntes de ar e gruda as garras e pêlos no monolito faraônico. Sem ruído espetacular de catástrofe, a coisa erguida é atraída pelo céu azul, revelando abas de pedra que cortam os prédios vizinhos como lâminas. Salto para não me perder e, como numa aventura previsível, prendo-me na rabeira da crua aeronave que corta o céu da metrópole fantasma. Quando o vôo estabiliza-se entre os quatro cantos do horizonte, vejo meu lado animal deitar-se de barriga para cima, braços e pernas à disposição, imerso na ignorância de si e do mundo. Aderido à superfície de pedra, ele começa a vocalizar um cântico, sem notar o céu vermelho que talvez reconhecesse, e para onde somos dirigidos. Pisco os olhos, mas não consigo mudar de cenário.

Sou o abraço dos quatro ares, alinhados no teu tempo.
A disritmia desta carne cantante bate no pé dos caçadores,
Na fé dos calores, no teu sangue contente.
Esta membrana sem ossos ensaia um ritmo de estrela cadente,
Esquenta no dente, vibra teu nome cósmico.
Pois teu nome é o tremor dos terrores,
Terrosamente universal.
Deixa-me contar de uma vez, certa rosa:
A mais bela! – quem há de pôr mais verso?
Mas a chama da batalha congelou o botão e sua fome...
Ó, ser olho só! – esperança dura de ser pedra!
Orgulhoso, caminhar a pé para o fim de tudo,
Pois não há no mundo amor mais teimoso que o meu.
Abraça o céu comigo, leva o azul anil, neve o suor solar,
A tempestade veste rouge, o trovão já ruge...
Leva o azul que der, venha como vier, vire-me,
A noite já reage...
Guarda todo o verão, vigia-nos como o astro-rei, meu pai,
Seja minha até que o tempo pare – só então o sopro vai.
Ama, queima, clama – cama, beijo, drama!
Voa, esquece, plana – calma, quente chama.
Deixe-me ser o único clima a temperar teu vento veloz.
Antes que as estrelas nos queimem a pele,
O céu pede que a gente estacione.
Por quem arde o universo recolhido neste sonho?
Quem rastreia este verso florido e medonho?
Por que universo escolheste arder, enfim?
- Deita-te na pedra comigo e esqueça de invejar as estrelas!


Acima, o céu vermelho. Não sei as horas neste lugar. Meu gêmeo bruto está deitado de bruços no dorso do avião, cara amassada de pós-coito. Vejo-o apenas para ignorá-lo; não me importo com sua presença – para que mulher ele canta afinal? Eu atento para o movimento do jato de pedra que parece frear e virar um ângulo rumo à aterrissagem. Mas não há pista de pouso, de dança, ou terra que o valha. Avisto apenas o mar fechado em revoltos pretumes, como sonho de polvo. Para trás, não há mais cidade nem deserto de escombros, há apenas cegueira. Não me surpreendo quando a aeronave entra pela água. Não me surpreendo em ver a metrópole submersa de onde partimos. Caminhamos para o futuro. Num piscar úmido, sinto o objeto voador tocar uma plataforma. Abro os olhos. Não há mais água, apenas sua densidade envolvendo nossos corpos, explodindo em bolha, sendo vazada pelo nado de cardumes exóticos. Como se eu nadasse pelo ar, provoco um mergulho lento até o chão. O chão! Planície de placas brancas, quadradas, simétricas, até onde a vista alcança. Aqui o tempo é outro. Meu duplo grosseiro aparece à minha frente e diz, próximo ao meu rosto: VOCÊ POR AQUI? Eu repondo, soprando seu hálito para longe de mim: VOCÊ SABE QUE SIM! E, seguindo alguma sugestão sem origem, forço os dedos na fissura entre duas placas, tentando levantar uma delas. Um único movimento curto faz o quadrado descolar e flutuar na água invisível. Enfio a mão no buraco e tiro uma pedra. Viro para meu duplo e digo: É SÓ UMA PEDRA. Ele faz cara de quem entendeu demais ou de menos e diz: SÓ UMA PEDRA. Confio nele e, com toda minha força, atiro a pedra longe, tomando impulso do fundo da repulsa. Meu duplo começa a rir, primeiro discretamente, depois escancarado e, por fim, com os olhos arregalados em mim e mãos na barriga palpitando de delícia. Não entendo a causa de seu riso até ver a pedra atirada inchar-se suspensa. Como câncer, cresce pelas beiradas e de dentro pra fora, em rebuliço amorfo. Cresce até tomar a forma de uma baleia. Sim, numa rachadura uma boca se esgane e todo o ser ganha peles, carnes, dentes e garganta profunda. Maior que um transatlântico, um cachalote branco se aproxima de olhos fechados. De sua válvula sonora, emite uma vibração grave que faz todos os cardumes pararem no mar. Somos engolidos sem pressa: a língua do bicho puxando-nos o tapete, a boca bocejando antes de engolir. Por uma nesga de boca ainda tento divisar o avião que nos trouxe para, quem sabe, partir dali, mas este já desapareceu, sem surpresa. Escuridão profunda. Não é como se eu estivesse dentro de um bicho real. A carne treme, mas perco o medo da morte. Aqui eu vôo e ricocheteio numa caverna absolutamente oca, feita de carne viva, sem outras bifurcações ou saliências biológicas. Sei que, apesar dessa simplicidade interior, a coisa ainda é uma baleia temível. Acho estranha a liberdade de meu vôo nesta gruta orgânica e sinto, na seqüência, meus braços serem agarrados por duas mãos firmes. Sei que é meu duplo, embora não o enxergue. Tenho a confirmação de seu toque quando grita: CADÊ VOCÊ? Sei que não é a mim que ele procura, mas não sei quem seria. Do fundo da alma do cetáceo, ouço as mesmas sílabas, repetidas, embaralhadas e distorcidas no gozo fino e retardado de um eco: CAVOU... DESCEU... Meu duplo se aparta de mim. Não posso saber se é mesmo inocente eco, ou outra coisa mais ressoante. Ouço a voz enrouquecida de meu duplo ninfomaníaco cair na morna escuridão, modulando frases musicais para desmascarar seu imitador ou para seduzir seu novo objeto de desejo sem fim, que replica ora sim, ora nunca.

Ecoe, acode. Cata a mão que ronda e não sai.
Escoa, cose. Toca o canto de onda que ensaia.
Escolhe, acolhe. Toca a pele aonde ela enrola.
Decola, demora. Torna-me pó enquanto me ensinas.
A gente é o que dá pra ser, o que não dá só o prazer imagina.
Digo isso porque é sina: há vida apesar do amor, estou convencido.
E ela dita: segue-me nesta ida vencida, busca a pedra que vacina.
Tu, medo. Fricciono em transe mudo.
Tu, credo. Deslizo para o além.
Tu, sinto. E não aciono nome algum.
Tu, minto. É deus quem diz amém.
Heróico, erótico. Tenho essa mão que sabe caçar.
Heróico, erótico. Asso teu pão até a fome cansar.
Heróico. Nem só de palavrão se encanta a hora.
Erótico. Nem só de eco se canta a vitória.
A glória, agora.


Então, a válvula do bicho deixa entrar um cone palpitante de luz solar, que ilumina um par. Uma moça magra, de palidez cinzenta, cabelos curtos em disciplina militar, está nua, encarcerada nos braços de meu duplo que a retém junto a si, forçando o bastão musical contra sua cintura. Ela força os braços para se soltar; prende as garras na cabeça de meu clone, reto e feroz ele também. Ela quer gritar, mas sua língua sangra. Sinto um frio na barriga e sou atirado, assim como eles dois, para teto membranoso da coisa. A baleia cai. Seus músculos começam a virar pó durante a queda, seus ossos estão em brasa. Por trás da carcaça exultante de labaredas púrpuras, posso ver o deserto de terra seca craquelada. A noite tomba com ritmo frenético da queda, as estrelas riscando arcos no céu. Fecho os olhos antes do impacto. Pousamos como pena. Acordo com o corpo cansado de sonhar. Retornei para o abrigo-avião-baleia. Uma película de chama púrpura ainda adere aos farrapos brancos hasteados no alto do esqueleto, sem consumi-lo, entretanto. Fico de pé com a simples força da vontade. Aparentemente estou só, mas um sopro cruzado de brisas rasteiras corta-se contra minhas pernas, e parece avisar-me de algum perigo mais que humano. Assusto-me ao ver o vulto de meu duplo visceral presenciar-se ao pé da bandeira incandescente. Ele não me dá tempo para reagir. Assopra uma flauta comum, agora de metal bronzeado, que me paralisa. Os silvos do cano intricado atraem trovões e relâmpagos. E as notas baixas fazem chegar nuvens negras no céu alto – sólidas, fervilhantes como peste de abelhas. O duplo inumano salta ao meu perímetro. O céu se cala, embora imploda como tragédia total. E um braço do meu bicho-eu recolhe meus ombros, gélido como serpente aérea. A voz range ao meu lado, baixa e lenta, dublando entrada de mausoléu: SOMOS EU E VOCÊ AGORA... E ele se gira no próprio eixo, afetando farejar sinal de vida à distância. Olho junto e não vejo nada... Espera! Ele ri quando vejo algo revirar a terra de dentro para fora. Mais que algo, são vários pequenos montes que expurgam do solo como furúnculos, a cada dez ou vinte metros. Vejo supurar das infecções ctônicas, como ervas daninhas, tímidas mãozinhas de crianças.

A noite esfriou o deserto!
Você está só entre sombras de si.
O luar a pino está aberto!
Tudo o que nem se vê lhe arrepia em mim.
Você ajoelha para acordar!
Mas reza quando descobre que é pesadelo que não vai passar.
Você respira para abafar!
Mas se sufoca a beleza, arredio. Sua luta é tremer contra o frio.
Só o seu coração mexe indiscreto!
Você ouve a própria voz suspirar sua desgraça e rir do seu fim.
Você deseja um buraco secreto!
Mas a terra remexe sob seus pés e você olha para mim.
Aprendiz, o medo é dialeto só!
Você cega o sonho como os demônios que lhe espremem no pó,
Isto não é passatempo, é o seu nó.
Preste atenção, o mal espreita lento!
O conforto em ver o suplício dos sem-esperança não mingua.
Quem sonha triste alimenta a noite!
O consolo da escória está num olho faminto de criança-sem-língua.
Você quer que um forno lhe acoite!
Seria o momento de abraçar a pedra que o amor vinga.
Ela engana e iguala nossa sorte!
Amarro-lhe no meu sonho até que a manhã celebre sua arte,
Até o engasgo final sair em febre que parte.
Isso é suspense, dance sem pensar!
Ninguém vai lhe salvar dessa espera que nos sustenta.
Você está tenso, denso mais que o ar!
Não sabe se o que canto é luz, senso quente,
Ou se é pus que prenso de repente.
Pense! Suspense é passado que vaza e futuro que voa,
E eu condenso todos os pares no meu caos à toa.
Você duvida, suspende a certeza!
Veja se não sou mais forte que minha boca que prediz,
Meu peito bate com as cinzas dos primeiros mortos, sem raiz.
Dance! Pense sem olhar! Não tem mais jeito!
Acaricie o meu conselho e seja um meu juiz,
Seja o que sempre quis, proteja o que der, compre o que vier.
Meu sopro toca e meu toque sopra, abraço é bom assim.


A lua é levada para trás do horizonte. A hora não é mais que ponte para a morte. As crianças-criatura destroncam um caminhar não sei para onde. Sangrentas, começam a uivar nomes de pessoas que você ama. Sem hesitar, meu gêmeo olha para mim, vestindo a nudez como armadura – milênios de idade, lábios da mesma nossa infância, coração no olho, fixo como centro do universo. Conecto-me. Pulso. Miro em seu espelho nossa desgraça descarnada – a fome sem vida de velhas crianças. Não há mais como negar que estamos cercados. Virando as pupilas em delírio, meu duplo lascivo replica com jeito e voz de bode: SUSPENSE... INFÂNCIA... HERÓICO... ERÓTICO... TEU NOME É O TREMOR DOS TERRORES... E NÃO SINTO NEM PREGUIÇA DE LUAR... Cinzentas, secas, ásperas, as crianças nos alisam com unhas de pedra e dentes de barro. Parecem cegas. A vinte metros, meu gêmeo enrobustece o braço para cima, protegendo com as duas garras a flauta bronzeada. Súbito, ele abaixa o braço e atira o instrumento, que vira uma cobra negra com uma cabeça em cada ponta. Revesando-se, uma cabeça pica, a outra foge, até chegar a mim. Posso escolher entre morrer pela serpente ou pelas crianças famintas, cada vez mais exaltadas na sinfonia de nomes chorados. Meu outro eu, agora humano, divide-se entre o medo e a esperança. Sobro-me com o amor e piso na cabeça da serpente. Esta salta no ar e mistifica-se noutra flauta, agora de ouro reluzente. Sopro a decisão do sonho como cristalina vertente:
Invoco o ácido do odor mais que podre dos mortos inocentes!


Controlo o pânico de cem mil anos de guerra, à sua frente!
Não somos da raça dos que roubam túmulos –
Mãos de cemitério não prendem nossos pulsos!
Devolvo para vós o calafrio de meu suspense,
Pois não há quem dispense a lancinante chama
Que se segue ao frio e, dançante, calcina o mal,
nem amado mortal, nem imortal guia, nem pedra fria.


A lua reaparece e reafirmo minha ilusão: DURO COMO PEDRA. Então ela descola do céu, apaga o brilho e diminui até ser gema enquanto desce até nós, atraída pelos meus ecos. Conforme a esfera se aproxima, as crianças regressam para o ventre quente do deserto e meu duplo foge pelo plano selvagem, improvisando direitas e esquerdas. A pedra-lua rotaciona atômica sobre o pesadelo que se esvazia, com mais liberdade que aquela outra – a pedra com penas, a que me espionou até os confins desta terra de fatos dubitáveis. Vejo a pedra sem asas se debater, desvencilhar-se de nossos quereres, saltar para o infinito como noiva depois da aliança, leve apesar da brancura pesada. E imagino, antes de afogar este sonho na areia, o que ela me diria se, como um duplo meu, se passasse por mim, quatro vezes animal e apaixonada:

O bicho que, em seu canto, desarma o medo como esporte
Não brinca de fugir por asas de anjos divinos ou por dívidas de morte.


Volto para a praia do começo do mundo, mas sei que ainda estou no fim dos tempos. Sei que tenho uma missão a cumprir. Sei que devo esperar. Sei que devo receber o mistério. Não sei como sei das coisas. Tenho medo da verdade. Prendo a respiração até ficar cego e cair, pouco depois de avistar um navio aportar, espectro entre brumas.

Senhor deste mar novo, abra tua terra, recanto da dor.
Senhor do mistério-ovo, prepara tua guerra, teu canto de amor.


Avisto meu guia na beira da praia, sob a sombra de um navio suspenso. Reconheço a mesma roupa de tiras e trapos pretos, o mesmo cabelo girando no vento. Rezo baixo: ELE NÃO VAI FALAR COMIGO. Eu sei que estou aqui só para espreitar, sou como ave de rapina. Sei que ele tem uma missão que devo vasculhar. Vejo seus olhos calcularem calmamente o mapa desta terra, meu sonho. Ele veio para nos cantar um nome, eu sei, mas pressinto que caiu nesta praia como prêsa fácil, pronto para abandonar tudo. É a liberdade que chama – é o que seu sorriso preguiçoso parece dizer. Entretanto, flagro seu olhar ser capturado por uma visão maior. Vejo a boca que retinha firme um sólido ideal desabrochar-se em desejo por algum objeto. Tenho medo de olhar também, sei que se eu olhar para o que lhe cativou, meu próprio desejo interferirá na paisagem do sonho, abrindo e fechando percursos. Fecho os olhos para não sonhar, mas posso escutá-lo, com se sua voz viesse do meu peito.

Sem que eu me veja cantar, por trás dos olhos eu silencio um hino.
Eu canto o hálito de quem beijou o sonho que virou destino.


No meio do deserto, encontro-nos na monumental miragem de um vale verde, onde os contornos dos montes mais distantes desfazem-se em tempestade de areia. Sentada numa pedra, retida entre as raízes expostas de uma árvore cheia, a visão do amor olha para mim. Ela, a que veio do estrangeiro. Interfiro dizendo: VOCÊ! Serpentina, ela gira-se - ombros para dar - e olha para mim, mesmo estando recostada nos braços recatados de meu guia, que entregou o rosto na nuca forasteira. Estranho a familiaridade de sua beleza de estrangeira, os duros cabelos negros, a fria pele branca, a arrogância bruta do nariz, as sobrancelhas de cavaleira no horizonte selvagem, o pescoço forte de juventude pronta, a boca de princesa protegida quando sai para se perder pelos corredores da noite, morango furtado. Sinto o cheiro da paz entranhado em sua carne, e olhos, sim, olhos de promessas e desejos conciliados, olhos de fim da guerra, de fim dos tempos – olhos em mim. O sonho destilado em hálito paciente. Quero cegar-me para escapar da traição, mas o tempo acabou: um enxame de abelhas invade o sonho de mel. Envolvendo-nos em coro hipnótico, paralisam nossos movimentos, deixando-nos só com o pavor do que virá. Este terror, amplificado num efeito onírico, parece anunciar o nome da morte. Meu desejo, se ainda há algum, não consegue mais interferir. Um ondular delirante, que antes descrevia o seio da estrangeira, agora ocupa a espinha de uma serpente – ser mais íntimo do útero da terra. Aproxima-se dela por trás e não posso fazer nada. Sou pacote flácido. Enquanto isso, o belo guia, que antes cantava para abafar as ondas do mar, agora só excita a ira das abelhas com seu cego grito de dor. Ela sabe que não podemos salvá-la, sua respiração é de perdão, chora nossa miséria sem lágrimas. De uma curva a outra, falseando para não errar, a serpente chega à picada fatal. A estrangeira tomba e eu, chocado diante do corpo daquela de quem sempre precisei e que conheci tarde demais, não recolho forças nem para cair. Sincronizados à queda inesperada, todos os frutos de todas árvores do vale verde explodem sanguinolentos no chão. Absurdo, um cu imenso abre-se no seio da terra. Prendo a respiração para fugir do rasgo de miragem, mas caio logo atrás da estrangeira. Enquanto caímos, ouço o pranto do guia se distanciar em forma de verso.

Fresco filho do sol, eu cantava para completar a vida,
mas a vida calou no amor e o amor calou meu canto.
Agora sou servo dos ventos que ecoam anônimo pranto.


Cada vez mais distante, a abertura do cu gorgoleja ultrajante para o céu como a garganta do diabo. Se eu pudesse desejar algo antes do fim, diria: OLHE PARA MIM, ESTRANGEIRA! CAIA NO MEU DIALETO! Agarro-a com tudo que me resta de corpo. Eu estranho, afinal, por que eu, que apenas interfiro neste sonho guiado, agora sonho que esta outra pessoa é o maior, mais alto e mais antigo dos amores. Sei que fora do sonho não há ninguém assim. Por que não digo o que penso? Porque a queda é mais que humana. Ao cair, desaprendo mistérios, perco a força do abraço, sinto o corpo dela pesar mais sobre mim. Procuro seu olhar urgente. OLHE PARA MIM, ESTRANGEIRA! Suas pálpebras caem e, sob um último fio de luz, eu vejo olheiras negras serem irrigadas sob seus olhos, como cem anos de devassidão. Agora, o silêncio frio da escuridão total e o cheiro de esgoto. Seu corpo esfria, mas reage com esgares esparsos, lutando contra o fim antes da hora. Minha vida age só, retendo um sentimento em carne desfalecente. Virando séculos, não sei se continuamos a cair ou se flutuamos. De repente, do fundo tedioso da escuridão, começo a ouvir um barulho de panos batendo contra o vento. Sinto o roçar de um couro grosso e não posso negar: são asas gigantes de morcego. Fico quieto para ver se passa, mas sei que não acordarei. Sei que não largarei da estrangeira, nosso abraço fundamental é a única proteção possível. Sei que devo me preparar para o fim, mas não sei o que fazer e meu corpo não reage. Abraçado, sinto-me mais só do que nunca. Por que me foi dado um segundo para pensar? Sonho não se pensa, pesadelo se escapa, mas o enredo de meu amor louco continua. Um jato de chama púrpura queima a escuridão e vejo uma mulher de traços finos, verde pálida, sinuosa, olhos de ressaca. O jato de fogo luxuriante que ilumina nossos corpos sai de sua boca e modela-se por sua língua, que ricocheteia em êxtase. Imponente, uma única serpente negra desce-lhe raiz pelo crânio, como erupção às avessas. A cabeça da serpente se ergue e inclina até mim uns familiares olhos vermelhos, antes de exibir as prêsas de cristal turvadas de sangue por dentro, horrível transparência venenosa. O ser permanece no êxtase como se chicotadas de prazer o percorressem de cima a baixo. Por um momento eu duvido de que esta visão demoníaca valha continuar o sonho. Mas sei que se duvidar do monstro, também terei que duvidar deste abraço definitivo com a estrangeira reencontrada. Terei de acreditar que é apenas um sonho de amor. Assim, ao invés de duvidar de mim ou do inferno, prefiro desafiar o sonho a me derrubar em seus descaminhos, tornando-me quente para os desejos. Então, como se a força dessa fé torta tornasse mais nítida a monstruosidade que nos cerca, ouço a voz inumana da cabeça de cobra sibilar acima de seu altivo suporte humano:

Soberbo! Tu duvidas da queda e, como carcaça, a fêmea descarta!
Egoísta, abandonas com medo tua crença de amor e atira-nos o lixo...
Não é o amor que te morre nos braços como coisa farta,
És tu que não se vale, agradece ou rebaixa. Sê logo um bicho!


E furiosa ela sobe espumando sua chama funérea. Outra morcegóide surge do breu à nossa frente. De seus ouvidos saem duas serpentes que, ao redor de sua cabeça, disputam seus jatos musicais como fogo e gelo. Entre ofensas, elas gracejam perguntas e respostas uma para outra, encenando minha própria desdita:

Será de amor ou de medo o abraço dúbio deste amante?
- É ciúme! Teme que lhe vinguem o roubo do precioso diamante.
E que amor é esse que se apega como ave de rapina à carniça?
- Se fosse do mais alto, traria um canto do céu. É muda cobiça.
E que outras nódoas este aí imprime à bandeira branca que ostenta?
- A inveja do ladrão de sonhos, que não se arrepende nem se contenta.
E ele deverá fugir sem fim ou pagará o perdão em moeda?
- Que fuja de seu rancor, ressentido da inocência antes da queda.


Com uma das cabeças de cobra mordendo a outra, o ser nefasto arrasta suas asas para longe de nós, deixando–me novamente com a escuridão da queda e da inconsciência da amada. A nossos pés, pequenos grãos de luzes vermelhas começam a piscar. De repente, sob um comando secreto, centenas de pontos se acendem de uma vez, revelando-se como olhos atentos de finas serpentes, emaranhadas na cabeça de uma trigêmea das outras duas. Mais robusta do que suas irmãs, esta parece ter domínio total do próprio corpo, mantendo-se rija no ar, com exceção dos cabelos revoltos que enroscam múltiplos idiomas. Mas, como se eu estivesse próximo de adivinhar-lhe o mistério que a faz assim, ela retorce um espasmo violento e as serpentes alinham-se paralelas, hirsutas, curvando-se juntas em direção ao meu olhar, enquanto que, inversamente, cada parte do corpo da mulher parece agora obedecer a um desejo distinto, possuído por impulsos contraditórios. Espero o que tem a me dizer.
Que esperas que eu diga que case bem com tua loucura,


Se teu orgulho é defender um idioma próprio a que chamas amor?
Palavra repetida, obsessão, paranóia – onde te queres mais louco?
Não notas que o apego de um abraço não te põe na tarefa deste amor.
Então, que teus caprichos não coincidam tampouco com os do inferno,
Enquanto numa só carne não durar teu gosto moderno.


CHEGA! Eu quero gritar, mas meu corpo imóvel só consegue observar os cabelos pretos da estrangeira crepitarem das pontas até a raiz, como velas romanas sobre o crânio inconsciente. E sinto seus dentes descolarem da boca apertada em meu peito. VOCÊ ESTÁ VELHA!, eu digo com o pensamento. E ela responde: VOCÊ TAMBÉM ESTÁ VELHA, MINHOCA COVARDE! Não sei qual de nós dois é mais ilógico. Isto não é sonho que valha a pena. Quero acordar, mas meu desejo não interfere. Então, a queda se interrompe e paro no ar sem largar a coisa semimorta. Em suspensão, começo a questionar: ISTO NÃO É AMOR, NEM SONHO! O QUE É ISTO?! E como se eu tivesse previsto a resposta, ouço sem surpresa uma voz cristalina, não sei se de mulher firme ou de homem cheio de segredos. Primeiro, o ser indefinido limpa a garganta, depois, um escarro estoura no ar e cai na descida escura diante de nós. Andrógina, a voz se articula.



Não desejo discordar, mas se duvidas do próprio sonho, se não concordas com o próprio desejo, por que não te parte daqui e mata de vez a miragem que ora te fala? Até onde vai teu vício de amor para que tua boca, repleta, não escolha mais o corte fino da razão? Que parte de ti escolhe o que já quer se esquecer? Que força em ti reúne esta ilusão tamanha que te carrega até os limites da morte de toda carne iludida? Onde estás, enfim, se não se instala nem na ilusão do amor nem na ilusão do inferno, alma morna? Que deus sem palavras acessa o teu peito agora? Que versos despejas contra a fonte vertida da fé controversa? Reze ou saiba! Cante ou cale! Durma ou caia! Ame e morra, cobiçoso aborto de abutre!


Eu morro. Acordo noutro cenário, vivo e só. Duas pernas livres. Mas é ilusão, o sonho é o mesmo, o pesadelo é que mudou. Antes eu caía, agora desço as escadas circulares de algum poço úmido que não consigo enxergar. É melhor apoiar-me na parede à direita para não cair no fosso. Sem nenhuma razão, meus instintos me guiam pelo rastro improvável da estrangeira. De repente, sinto que os degraus transformam-se em rostos que pisoteio na espiralante descida. Ouço vozes familiares: ‘NÃO PISA NA MÃE, FILHO, EU E SEU PAI NÃO NOS SENTIMOS MUITO BEM HOJE...’, ‘É ASSIM QUE VOCÊ RETRIBUI TUDO O QUE FIZEMOS POR VOCÊ? PISANDO NA CARA DE SEU PRÓPRIO PAI?’ Rostos de amigos e amantes entoam em coro, conforme piso em seus narizes e bocas e olhos: EU SÓ QUERO O SEU BEM... NADA ALÉM DO SEU ÚNICO E EXCLUSIVO DIREITO... Sinto ameaças de perigo me inflamarem o corpo. Preciso me concentrar no caminho. Sei que já faz horas que desço degraus e a rotina da descida não me tira do medo. Ao invés, só mescla mais vertigem ao pressentimento de saber que o que virá será pior. Ouço-me justificar o anúncio frio das horas: É SÓ FOME! LOGO VOU ACORDAR E COMER. Ouço passos na escadaria acima, primeiro lentos, pesados como fardo antigo, depois cada vez mais determinados. Aperto o ritmo e minhas pernas tremem quando dezenas de pedras são atiradas em minha direção, como se uma multidão se reunisse para me apedrejar, mas ouço apenas os passos de dois pés mais a voz de uma única grande boca.

Se fome é o nome que dás ao último refúgio de tua fraqueza de amor, queira perdoar-me, mas devo dizer que é de sentimento que tu morrerás, sem ter braços para dar o que só se dá com pão.


As pedras que me atiram tornam-se rajadas de pão que me atravessam sem ferir. Viro para saber quem são as pessoas que me pretendem arruinado e vejo um único ser com dezenas de braços velozes como raios. Umas mãos seguram sacos de trigo, enquanto outras o moem. Outro punhado de braços amassa o trigo com cuspe e escarro que o bicho não pára de fluir. Acima da cabeça, braços sustentam um primitivo forno de pedra. As outras dezenas de mãos desempregadas, implacáveis, apressadas, furtam o conteúdo do forno como se competissem pelo golpe final que me tirará a vida. Atiro-me no fosso para ganhar a morte de outro jeito. Não quero acordar antes de arrebentar no chão. Se há um resto de mim, este resto é cansaço. Em queda livre, a matéria de meus dias cai pesada, esquecida do amor, esquecida do inferno, esquecida do sonho. O que resta de mim é sonho que se entrega antes da morte. Fecho os olhos e somo minha escuridão com o breu lá fora. Shhh. Ohhm. Zzzz.

Acorde! Volte para cá! Não é para estar aí agora!


Ouço a voz de meu guia como uma interferência distante. Abro uma fresta de olhos e verifico que estou deitado de bruços, metade da cara num cimento liso, branco, de que são feitas placas quadradas que revestem a eternidade vazia de uma planície. Na distância entre o que seria o céu e a terra, um sol brilha azulado, como fogo morto. Acima, a transparência sem ar nem nuvens que reina entre as estrelas. Não é a Terra. Não é outro planeta. Não é meu sonho, nem outra manifestação onírica. Não é outra dimensão. Aqui o tempo só existe em mim. Lá fora é um instante, ou algo entre um instante e outro. É simplesmente o Deserto de Lugar Nenhum, plenamente branco, vagamente futurista. Sem abrir muito as pálpebras, vejo à distância o que parece ser uma dessas feras primitivas que habitavam meu sonho infernal de segundos atrás. Ou foram milênios atrás? Sim, um descomunal dragão negro de várias cabeças – sete, treze, algum número arcano – aparece de longe neste lugar sem história. Uma das cabeças cospe um vigoroso jato de lava que forma uma rocha sólida no ar. Outra cabeça envolve a rocha meteórica num fogo verde que incandesce até ofuscar. Um jato de gelo apaga a luz e sua fonte, revelando um claro cristal. Uma cabeça se estende e derrama acima da rocha cristalizada uma espécie de fel que corrói e modela todo o interior do elemento, deixando-o como uma casca de ovo. Então, numa composição sinfônica, cada cabeça do dragão soma uma nota de seu veneno no recipiente mágico. Meus olhos pesam, mas antes de se fecharem posso ver – será isso mesmo? – formar-se no interior do cristal uma mancha rósea de luz que poderia ser alguma nova espécie em gestação, ou mesmo todo um novo universo sendo gerado. Ouço uma voz em minha cabeça.

Nem obra de deus nem dança do diabo – sou anjo de ninguém.
Nem homem, nem fera – nem eu me sonho no além.
Sem ser eu, sou demiurgo – por enquanto um nome teu.
É domingo e é descanso – olha o fogo que ninguém te prometeu.


Volto para a escuridão silenciosa e quente. Esqueço. Nada acontece. A voz do guia me chama.


Acorde! Volte para cá!


O mesmo frio na barriga de antes. Volto a cair na escuridão. Em meus braços, reencontro a estrangeira. Toco seu rosto: o mesmo viço da flor de suas horas, as pálpebras caídas, minimamente sensíveis, as narinas pulsantes, as almofadas quentes e úmidas dos lábios. À nossa frente, uma forma animalesca alada, uma junção apressada de vários animais em constante mutação. Uma pata de leão sangra para transfigurar-se numa serpente e, numa outra deformação, um braço humano força para nascer fera afora. Regendo a besta disforme, três cabeças sem rosto definido, massas liqüeformes de olhos, bocas e narizes nadando pela carne em efusão. Num sopro de quimera, as três cabeças se transformam nas trigêmeas morcegóides, a primeira com uma serpente, a segunda com duas, a terceira com suas centenas. Uma após a outra, porejam seus venenos em palavras.

- Sonhe então... Amolece tua carne como prêsa fácil!
- Perca-te no passado... Vive nos tempos de tua dor!
- Carregue o cadáver do amor pelos teus campos sem direção!


Antes que eu respire, as três cabeças se liquefazem. A cabeça do centro volta a vibrar seu elemento nauseabundo e assume a face cadavérica de um ancião. Restos de fios brancos caem de seu crânio pestilento até os ombros. De garras cravadas em feridas no crânio, um gordo corvo retinto de preto olha para o infinito. Sob os caídos olhos esbranquiçados, vê-se que o velho enxerga atrás da escuridão. Na boca, baba algum lamento cansado, algum fel que não se cansa de destilar séculos abaixo. Ainda que disformes, consigo reconhecer as outras cabeças que lhe fazem côrte. A da direita, pelo que intuo, é a mais bela e sombria das rainhas. O rosto à esquerda pertence ao líder que chora pedras. Mais não sei. Não ouso olhá-lo, mesmo de face informe, mas, de olhos fechados, pressinto o horror por trás de sua boca cerrada – a garganta regurgitando imagens proféticas de todas as calamidades num vendaval de sangue e areia. Sinto um hálito fétido perto de mim. Adivinho o velho do corvo.

Se não tens moeda certa para pagar por esta travessia,
Dá meia volta, agarra-te no arrependimento e toma tua via.
Neste porto, onde acaba a nostalgia, tua indecisão não tem posto.
Parta já com tua esperança, se ainda esperas ter um rosto.


E o bicho quimérico se desvira no ar, sumindo-se no seu resto de luz. A estrangeira também some de meus braços. Não sei se fugiu de mim, se foi raptada ou se nunca existiu. Não sinto saudades, nem sua ausência em meus braços, sinto apenas a suspeita de que, se cair, toparei com ela em alguma paisagem. Ventos gelados começam a revirar meu corpo. Tapas invisíveis, indolores, fazem-me girar na queda. Glóinnn... Acabo de cair! Silêncio. Descubro: sob minhas costas, uma espécie de superfície plasmosa absorve o impacto. Fico alguns segundos parado, na captura de algum indício onírico que me faça desiludir a tela deste sonho. Nada acontece. A superfície que me acolheu parece perfeitamente reta, uniforme. Olho para cima e percebo a escuridão ser invadida por emanações luminosas que vêm de baixo do chão que me protege, como se eu estivesse sobre um teto de vidro numa pista de dança. Viro para espiar. Meu coração acende e me põe de quatro patas para vislumbrar melhor. À minha direita, um rio tão largo que não se vê a outra margem. Das águas caldulentas, viscosas, escuras como o pior dos esgotos, emergem continuamente milhares de pedaços de corpos humanos que incham em contato com o ar, ganhando dimensões monstruosas. Garras mecânicas, feitas ao que parece de restos tecnológicos de diversas eras, recolhem os restos de gente, dobrando-se num sinistro balé aquático. Entre esta dança infernal, na superfície tempestuosa das águas mortas, grandes bolhas de gazes sulfurosos explodem chamas de todas as cores, conferindo uma estranha iluminação de festa ao espetáculo agourento. À minha esquerda, vejo uma explosão gigantesca abrir um buraco numa espécie de paredão escarpado que desenha a única margem visível do rio. Miraculosamente, as lascas explodidas reúnem-se no ar, girando rápidas num tornado organizador de esferas. Em seguida, umas após as outras, são devolvidas à cratera aberta de onde partiram, organizando, de lá até o imenso rio, uma espécie de rampa suspensa que recolhe uma torrente de sangue jorrado do mesmo buraco, como cachoeira maldita. No alto da queda, vejo despontar uma embarcação metalúrgica, pequena, enferrujada. Questiono-me sobre a força que a faz flutuar, mas esqueço-me quando consigo distinguir os pés da estrangeira, tatuados com sortilégios divinos, deitados no leito ferroso da pequena barca. Em pé, fazendo mover estranhos remos feitos de garras animalescas, aparece o velho raquítico com o corvo na cabeça. Tento cravar os dedos na superfície transparente que nos separa. Anestesiado aos horrores, o velho rema devagar, escorregando seu transporte pela trilha de sangue suspenso. Penso que vão continuar seu caminho pela superfície do imenso rio, e espero para ver que rumo tomarão. Mas surpreendo-me quando as águas do rio mecanicamente se cortam em duas partes sólidas, deixando escorrer pela fissura aberta uma rampa que desce profunda como um rio subterrâneo, escondido dentro do rio maior. A estrangeira e seu guia descem pelo caminho estreito, sem serem tocados por nenhum outro infortúnio, até onde meu olhar penetra a escuridão que lhes acolhe sem pressa. Ouço a voz da estrangeira ressoar no espaço, cortante.


Ai... Essa coisa de ser profundo me dá preguiça. E eu tenho coisas a fazer. Acender um cigarro, por exemplo. Já me basta o vício. Eu fumo para não ter dor na consciência. Sou podre e pronto. Estou aqui porque quis. Não agüento essa gente que se atormenta. Prefiro me preocupar com a floresta amazônica ou com a África. É mais bonito assim; a beleza faz cada vez mais sentido do lado de fora. É uma vontade de pôr a cara à tapa que só passa com cigarro. O resto de mim é desejo e explicação barata. O resto de mim é Deus. Gosto de conhecer as pessoas até um certo ponto. O ponto do orgasmo, digamos. Não dizem que você só conhece uma pessoa quando a faz gozar? Não devo nada a ninguém. Não sou dessas pessoas que pedem desculpa à vida depois do gozo. Continuo no ataque. A lei é a sobrevivência, isso se aprende neste lugar. Não tem tempo pra se arrepender, remorso é luxo de quem pode. Prefiro amar. Do meu jeito. Assim. E não venha me interromper. Seja livre lá fora se esse espaço não te cabe. Eu fui pra uma pista de dança, onde cabe todo mundo.



Entendo que fui eu que a perdi, lento, mole, perdido nas profundezas. Entendo que fui eu que inspirei a atitude egoísta que ela agora me cospe – e me encolho. Entendo que há alguém escrevendo este sonho e que este alguém só quer rir da minha cara. Meu peito escurece. Quero cair e não posso. Quero chorar, mas rezo palavras desconexas: eu amo, eu amo, eu amo... Quero dizer-me: é só uma coisa no coração do sonho... Mas um fluído dolorosamente real escorre por dentro, dissolvendo uma víscera na outra e não sei mais o que é coração, o que são pernas e o que é sonho. Estala na memória uma imagem da estrangeira nua. Sinto-me óbvio, idiota, mortal. Sinto um desejo inexorável irradiar da pele mais fina até os ossos do punho, sem se sustentar no coração. Cerro os dentes com força eqüina e sinto os olhos escurecerem sob a ação irreprimível dos puxões desse prazer insatisfeito. Aqui não! – quer gritar meu corpo teso. Seguro o desejo nos dentes, nos punhos, no ar e a coisa escorre sem piedade. Animalizado, sou escorrido para uma imagem da prêsa morta, intocável, retida em olhos apertados. Percebo a ilusão e rezo: ILUSÃO MEU DEUS! E o prazer desiludido transforma-se em pura dor cinzenta, ressentida de uma lembrança já mofada da estrangeira, a sombra de um sorriso obscuro atrás de meus olhos cegos, crispando-me numa vergonha humilhante e revoltada. Sem forças para negar o universo e suas leis, sem mistério para consolar, sem imaginação, minha garganta engole um seco POR QUÊ?! e meus olhos se turvam diante da visão idiota de meu inferno, lá embaixo, separado de mim com seus demônios diminutos... Sei que sonho. E esta certeza, ao invés de me consolar, só imprime mais realismo ao meu desespero de estar num turbilhão que nem atormenta nem salva. Fico lucidamente só com o desequilíbrio do meu corpo. Sobram-me sentimentos, humores, excessos. Sobro-me inteiro, massa disforme. Falta-me a estrangeira, molde primitivo do meu corpo. Privado da posse de meu ser até então acontecido, sou atravessado por uma perda ancestral, como se eu me descobrisse pobre mãe solteira de um ser natimorto. E, emperrado num instante desse pesadelo, desisto de reagir pela luta ou pelo luto e peço a não sei qual deus para me deixar rastejar em paz.

1, 2 ... 1-2-3-4
É hoje só, minha voz está longe de mim.
Ela vai por aí, pelos cantos foge do amor, foz do meu fim,
Mas aí aonde vai tua voz, parte vôo em qualquer canto.
Hoje vou seguir a minha voz, mas só se ela for por aí,
Se lavar o abraço, se levar um compasso,
Ser um silêncio como és pra mim.


As palavras, se são palavras, vêm do alto, de onde um dia houve luz. Não sei se é para mim que cantam, mas amanso. E tenho a revelação: é ele, o cantor dos mil e um sonhos, o navegante do fim dos tempos, o amante do amanhã, meu guia. Ergo-me no teto transparente de meu inferno para ouvir melhor.

Não vim aqui pelo amor, vim pelo seu nome-pessoa.
Amor é palavra que tem pressa – e você é promessa.
Vim aqui para deixar o amor para trás e lhe trazer em seu lugar,
Vim para lhe disputar perante a morte, durante a sorte que dispor.
Meu sonho é seu, pode ficar. Eu fico de sorriso fácil, pode contar.
Hoje invoquei o sol para secar as lágrimas, e elas eram pobres rimas.
E o sol - ah meu pai! - mandou a lua em seu lugar – irmã mimada.
Ela vem lembrar o que é secreto no que há de eterno:
É o que muda mas resta, o que em ilusão alguma está.
Tiro a máscara e me resta você, mistério profundo e profano querer,
Buraco aberto e triângulo reto, você sem nome, você com fome.
Hoje vim pra te tirar de onde ninguém sabe que está.
Meu passado não escolhe o que guardar como um rei, eu sei,
Mas como um guarda ele recolhe seu sorriso, assim maciço,
E prometo nunca mais, nunca mais me suspeitar,
Nem alimentar o que não vejo, ser indeciso, sorrir canino.
Não há truque algum, a mágica é caseira, começa no desejo,
conte até um.
Criança, o caminho é um só, mas é longo, é bom lembrar,
E este hino é só nosso começo confortável, o que vale arriscar.
Olhe para mim e suspire uma prece paciente, ciente,
Que eu assopro essa sombra para longe de nós, vá em frente.
Hoje acordei com os girassóis pedindo clemência ao sol e pedi paciência,
Paciência para guardar o que nos dá fome e prazer,
Paciência para lembrar o que o sonho quer esquecer,
Paciência para revelar o santo olho que me fez você,
Enquanto esqueço meu lugar e desço certo, reto,
Enquanto inspiro um espaço que meça tua alma,
Para ser alguém, um só alguém,
Que saiba cantar quando doente e calar no sol poente.
Um só alguém, vejo o sol congelar as infelicidades de todos os séculos,
Olho para cima e esqueço o que teu olho trai, minha mais que querida.
Eu e você podemos parar pra ver se a gente mente, se não desmente,
Podemos parar até nevar sangue, nem que seja eternamente.
Paciência, minha vida.


Concentro-me na voz como se ela viesse de mim, e espanto-me quando sinto minha boca mover-se pela voz do guia: PACIÊNCIA... E meu corpo acorda com pequenos estalos nas juntas, os membros saltam no ar, a nuca tomba, a respiração desata. Estou no corpo de meu guia, forte, equilibrado dentro dos nós e ataduras da roupa, descendo pela escuridão, mal percebendo as presenças das feras que me assustaram minutos ou milênios atrás. Todas as bestas agora abaixam a cabeça com humilde consentimento. Sinto o pulso firme do coração do guia, agora meu, jamais arrebatado por coisa alguma que não tenha o nome da estrangeira. Pulso: PACIÊNCIA ESTRANGEIRA, PACIÊNCIA... Finjo que não vejo o inferno, finjo que o sol amanhece em silêncio, e canto mudo.


Acorde do rio dos mortos, mulher da minha vida! Eu vim pra lhe trazer de volta! Não sou mais um, trago o sol sonhado da manhã, o trabalho de uma canção, a imitação de uma asa. Acorde com paciência, estrangeira. Venha! Traga só a paz e a ciência. Eu espero, não se esqueça... Esta noite eu desci aos infernos tentado a só fazer o bem. E foi difícil enxergar com tanta descrença ao meu redor. É como ficar parado numa pista de dança, e você sabe que eu não gosto disso. As caras não mudam, só os dias. E eu não vou mais por aí, porque é você quem eu quero. É só isso que faltava cantar: eu te quero. Sim, eu repito, eu insisto, eu irrito... O que é eu não sei, ninguém sabe, não dei nome. E só acredito se você despertar para mim esta noite, se não for tarde demais...


E o chão transparente que dava base ao meu corpo indeciso se parte em cacos e, incorporado ao coração de meu guia, caio em direção às águas do rio infernal. Não tenho tempo de olhar ou me preparar. Choco-me nas águas pretas. Sinto os cabelos de lânguidas almas de amantes lamberam o meu corpo. Ouço uma espécie de riso fino que esconde um choro e um choro grosso que esconde um riso histérico. É ela. Entre as águas lodacentas seu espírito murcho e pálido aperta a boca e firma os olhos, buscando da morte uma expressão que me repreenda pelo enorme atraso. Colo suas costas em meu peito, firmo minhas mãos em seu coração e aumento a velocidade de nosso nado sem rumo. Canto.


Não chore, estrangeira... Da escuridão sem breu do caos, onde só se destruía o indestrutível, nasceu o impossível, uma primeira pedra, a primeira criação, o primeiro e mais duro ato de amor, sem não, só canção. Não chore, estrangeira... Antes dos homens, era só essa escuridão sem forma onde caímos esta noite. Só depois a noite veio para ouvir nossas preces e sussurros e embriagar nossos caminhos. Chore, grite e berre se eu não fizer acreditar que é do céu o recado que trago suspirado. Somos apenas o que muda. Mudar é calar.


Chegamos ao fundo do rio. Paramos de nadar. Por um segundo, meu coração bate compassado com o resto de meu corpo, meu corpo com o corpo dela, seu corpo com o seu coração, nosso abraço com as ondas subterrâneas do oceano. Abaixo de nós, no fundo da areia movediça, revirada de pedaços de corpos e pálidas almas de amantes, abre-se um ralo de onde desponta uma enorme língua de serpente, que suga os corpos sem vida e as almas que gritam, choram e riem. Somos tragados.

Deus nos leve! o sol não nos esqueça esta noite!
a noite tenha piedade e nos aqueça!
Quando nesta casa entrei eu salvei a luz do dia.
Quando nesta casa entrei eu salvei minha Maria.
Vida. Morte. Verdade. Caminho duplo.
Cresço no céu estrelado e pago a sorte na terra farta.
Não chore, estrangeira!
Em sua boca mato a sede que matou o meu passado,
Em sua boca tiro meu canto do mundo,
E me arrependo dos assassinatos que nunca cometi.
Durma agora. Conecte-se. Pulse.


Caímos num redemoinho de corpos podres e almas viscosas. Eu a seguro firme pela cintura, mas ela se debate em meus braços, imersa no espetáculo de seu próprio medo, desconfiada até de si. Recebo tapas e socos. Ela consegue se soltar, mas agarro-a pelo cabelo, puxo-a pelo ombro e enlaço minhas pernas nas suas. Somos arremessados para uma praia. O céu está estrelado, com estranhas manchas avermelhadas abertas aqui e ali, no fundo das quais pulsam entorpecidas cintilações escarlates. O vento revira a areia com fervor místico. No fundo da praia, a selva selvagem - mata virgem, primeira morada – úmida demais, velha demais, fétida demais. Colocamo-nos em guarda, prontos como guerreiros, lado a lado como irmãos, próximos como amantes. Do fundo verde, chegam grunhidos do que parece ser uma matilha monstro. Uivos, latidos e rosnados invisíveis rodeiam uma velha que sai da mata empunhando a força mágica de duas enormes tochas. Quando chega à areia, o toque de seus pés faz com que o árido elemento se levante ao redor, aperfeiçoando cabeças de cachorros e lobos imperfeitos que clamam sua presença, uns raivosos, outros mansos. A velha vem: nua, peitos murchos, um tufo de cabelo branco no alto da cabeça, uma lua crescente pintada no meio dos olhos, as unhas vermelhas. Protegida pelo fogo, ela alterna gemidos, gritos surdos, urros apressados, trinares estridentes, palavras enterradas, enraizadas, mágicas fórmulas e despreocupadas incoerências. No meio de seu próprio caos, ela formula algum gesto displicente, como um repúdio a uma moscaria, e faz desaparecer os cães de areia.


Sai daqui, maldito pum da encarnação! A hora não é ainda! Os meninos já chegaram e eu não trouxe saia pra vestir. Pode vir, aventureira, a rainha quer lhe confiar. E você, moço bonito, falou, falou, falou pra quê? Abracadabra tua trilha, apressa o caminhar. Se parar de andar, eles mordem, igual à ratoeira pra bolsa de mulher que eu ganhei do presidente. Eu já falei, eu falo todo dia pros meninos: é melhor vacinar do que ter desgraça. É de graça, não tem fila e só dói a bunda. Xô daqui, bunda murcha! Eu tenho protocolo de acesso no DNA, autenticado no cartório de Trás-das-Pestes. Quem me segue ganha brinde, mas comida, cada um traz a sua, que eu não sou rica pra vagabundo. Esse eu não deixo nem recolher meu lixo. Prefiro guardar na bolsa e prender no cabelo! É xô! xô! xô! Encarnação maldita do fedido! Vocês dois me sigam, quero grudar vocês no meu livro da juventude, antes que escureça. A portona é pertinho. O caminho é comigo. Xô! Xô Xô! Infeliz cruzamento do destino!


De repente, num corte de continuidade do sonho, vejo-nos todos já dentro da mata. A velha vai à frente, abre o caminho com suas tochas, derrete as folhas e os paus como se fossem plástico. Atrás dela, seguem de mãos dadas a estrangeira e eu, em meu corpo original. De dentro de meu guia, eu assisto à cena como espírito flutuante sem braços ou pernas. A velha segue murmurando impropérios, lamentos, sermões e gemidos indecentes. Vez ou outra, gruda um papel numa casca de árvore e repete: PARA NÃO ESQUECER... Atrás dela, meu corpo e a estrangeira parecem não se importunar, seguem trocando afagos mínimos e lúcidos sorrisos silenciosos. Eu, incorporado no guia, saio recolhendo os bilhetes que a velha deixa em nosso rastro. Leio o primeiro em voz alta, sem ser ouvido por ninguém.

“era uma vez, era um desejo de boi”
dois tipos de queijo: 2 beijo, 2 tiro, 2 foi
1º – uma cerveja pro ano de depois
2º – um maço e um fósforo pro dono da foice


Como se a incoerência dos bilhetes ocultasse algum encanto mágico, vejo brotar, de onde tirei o primeiro, a silhueta negra de um homem que se levanta da sombra da árvore puxando uma mulher pela cintura. Assisto um contorno de mulher forçar pernas contra um forte tronco de homem, enquanto ela retém a cabeça dele em garras de gralha. Pego tudo pelo canto do olho, pois as sombras parecem fugir de meus relances, e retornam para as raízes de suas árvores tumulares. Sigo até um próximo bilhete.

Sinto saudades do tempo que te conheci...
“Amadamante espera”, 2 kg de feijão,
½ saco de sopro no ©


A sombra de uma mulher gorda aparece sentada no galho de sua árvore, batendo os pés no vento frio. Esconde-se rápida quando volto o olhar. Passo. Arranco um terceiro bilhete e imediatamente vejo cair desta árvore, a mais negra das três, a sombra de um pequenino casal de mãos dadas que se atira à minha frente e se dissolve na água brejenta. Leio.

ELAELE Um só beijo Um só vento Um só cabelo
Uma só ponte Uma só morte Uma só fonte ELELA


Abaixo a cabeça para esquecer, para sair do sonho triste. Então sinto a mão fria da velha, que estava tão longe, agarrar o meu braço por trás e soprar no meu ouvido, as unhas cravadas na carne.


A hora bateu! Não tem mais jeito, não tem mais fim... pum-tan-tin! Gostas de ver o casal, ela cabe no teu colo... olho-falo-como! Muita pressa pra chegar, muita prece pra voltar... vesgo-doisdo-záz! Pra achar tem cuspir, pum-xô-traz!


E antes que eu me arrepie com o transe louco de suas palavras, vejo um jato negro sair de minha boca sem dor ou sensação alguma. O vômito negro que sai de meu estômago corrói o chão em pequenos buracos que alargam cada vez mais e se unem num buraco maior, revelando uma espécie de céu enterrado, noturno, tomado de grossas nuvens carregadas de chuva. Temos pouco mais que um pé de chão para nos manter sem cair pelo céu que a terra dessa mata úmida encobria. Quedas abaixo, eu vejo um grande lago escuro de onde partem – ou para onde chegam – cinco afluentes sinuosos, um deles de fogo. Respiro torto com o presságio da queda final. Perco o equilíbrio e caio. Não sei se estou só ou se posso contar com alguém que vem logo atrás de mim, sombra de minha queda. Viro para gritar pela estrangeira e não beijo ninguém, apenas a visão paralisante da coisa imensa que me cuspiu, no avesso do buraco, e que engole todo o céu deste lugar fatal. Como descrever? Uma boca maior que mil estádios ocupa aberta todo o céu deste lugar. Os lábios são feitos de carnes e vísceras humanas. Vermelhas, roxas, amarelas, milhões de fibras e tripas entrelaçadas, pulsando inquietas como vermes humanóides. Uma argamassa confusa de ossos brancos, amarelos, agrisalhados, carbonizados, amontoa-se na imitação grotesca de uma arcada dentária humana, exposta em escárnio assustador. O céu da boca é uma abóbada profunda revestida de cabeças em carne viva embalsamadas num grito de horror. A garganta escura bafora uma espécie de hálito atômico que pulveriza toda a matéria sob seu alcance, igualando tudo a um monte de cinzas desclassificadas, poupando apenas o lago imóvel e meu corpo desolado. Atinjo as águas sem choque. Em todo o volume das águas vejo surgirem lentas bolhas de ar, dentro das quais formam-se precipitadamente miragens de cidades em chamas, assassinatos múltiplos, crimes irreveláveis, que se consomem e desaparecem de novo. Nado em direção ao fundo do lago. Bolhas explodem em contato com meu corpo, interrompendo catástrofes, queimando meu corpo como águas-vivas. Consigo ver um par de tênis conhecido, preso em algum fardo, sim, conheço esta calça jeans, conheço o peito sob a camiseta preta. Reconheço a estrangeira, de ponta cabeça, pescoço dentro da areia, como eu em outro sonho – eu me lembro. Beijo suas mãos que procuram meu rosto como concha. Um ronco alto faz o sonho tremer. Sinto ela me chutar por trás e fazer gestos com a mão para que eu suba até a superfície. O QUE VOCÊ QUER?, eu grito, mas ela permanece na mesma atitude e eu obedeço. Sei que não há outra coisa a fazer. Num átimo chego até superfície e tateio a margem. A terra está quente. Olho para cima e a boca maldita sorri de lábios fechados, puxando a ironia num canto. Um amarelo olho de gato abre-se no céu e desaparece num piscar. A boca abre-se num riso despreocupado. Fala com uma voz de criança de sete anos.


Chegaste até o fim, pois. Não sabes por que sonhaste até aqui, nem o que sonhas, nem se é sonho e o que é sonho. Surdo para si, não ouvirás o que eu possa dizer. Eu sei, ninguém pediu para ter certeza de nada, e não tens olhos para enxergar a pedra que há em tudo. Ninguém te pediu fé em deus algum. E o amor é duvidoso. Sempre. E não pediste para estar aqui. E todas as preces que foram feitas no caminho agora não te servem de nada. Tua amada, onde está? Presa num sonho melhor que o teu, onde nem podes imaginar. E por ela esqueceste de tudo e de todos. Esqueceste o próprio nome. Seguiste cego para o fim da linha atrás da presença ausente de uma estrangeira. Quiseste ver a face dos anjos como se também o sonho te dotasse de asas. Pois bem, ergue de vez o teu orgulho e te esborracha no primeiro desejo que fizeres. Esta terra é seca, não tem ares para asas, não é como vossa terra, em que tendes a guerra para distração. Para não julgares que não te credito um só fio de humanidade, deixarei que escolhas livremente o fio de teu destino. Vês estes cinco rios ao teu redor: um já conheces, é o que traz os novos visitantes e o único que deságua no lago que ousaste cair. É o rio da tristeza, que ainda dá alguma esperança. Os próximos são os de tua escolha, e levam por caminhos sem retorno. O primeiro que te ofereço é o rio das lamentações, onde poderás ter a ilusão de que a estrangeira sempre te quis e que foste tu quem sempre erraste com ela. Mas se te acreditas mais corajoso, então segue para o rio do ódio, onde poderás viver na ilusão de tua inocência, culpando eternamente a estrangeira por te teres perdido. Se ambos os martírios não te parecem fortes o bastante para lavar teus pecados de amor, escolhe o rio do esquecimento, onde vagarás na paz inconsciente dos vegetais, que se multiplicam sem sabor. E se nenhuma das vias ainda te atrai, sobra-te o rio de fogo, onde o puro elemento criador consumirá eternamente tua pequena vontade humana para sempre insatisfeita. Escolhe e vai!


A boca imensa cerra-se e deixa entrever atrás de si um céu de estrelas cadentes. Meu coração quer saltar. Se isto é verdade, que a verdade me leve. O sonho treme. Não consigo sair. Vejo as águas turbulentas dos cinco rios disputarem a minha atenção. Sei que tenho que fazer uma escolha, mas não me lembro qual. Sei que devo sentir medo, mas sinto saudades. Sei que, para encontrar a linha de chegada devo me lembrar da linha da partida. Algo em mim quer lembrar algo, alguém, umas palavras. Abro a boca.

Sou filho da Terra e do Céu Estrelado, o meio é minha via.
Dá-me de beber da fonte da Memória, onde se guarda o que me guia.


E como se as palavras tivessem o dom de tornar mais firme a minha presença, respiro fundo e caio dentro de meu próprio corpo, entregue ao calor que o sonho envia. E como se uma única força rejuvenescedora passasse de vez pelo sonho trazendo novo alento, sinto-me confortado ao ver imergir das águas do lago uma bela mulher vestida de esfuziantes teias negras, boiando inconsciente na própria desgraça. Não expressaria vida alguma por baixo da pele, tingida pelo branco unificador da morte, não fosse um fremir das pálpebras, não sei se magoadas pela podridão das águas de que se levanta, ou se cansadas por algum choro ancestral que lhe teria corroído a visão nítida das coisas. Toma o fôlego brusco de quem quer se libertar das ondas de um pesadelo, mas sua voz vem de baixo do lago, confusa, liquefeita, como se cada sílaba estourasse das bolhas de ar, antes ou depois da ordem do pensamento. Tento recompor o que diz.


Ó homem, esposo meu, esta noite mudarás tua canção e tua canção mudará esta noite que nunca foi tua. Acorde para um sonho-irmão... Ninguém desce ao fim de um sonho senão para resgatar o fundo da história, a face oculta da lua, que por trás de todo olho arde. Ninguém desce até o infinito da morte, senão para imitar o sol que se despede toda tarde. Um dia, subiste ao meu encontro no cio da primavera. E eu, como retribuição, reservei-te o inverno como promessa de verão. Por que gana de amor nunca te contentaste, nem soubeste amar, ó homem meu? Este outro homem, arrogante decerto, trouxe em seu canto a conciliação da sombra com a luz, já não sabe onde dói e onde ama, por isso não lhe dói resgatar o pobre amor de outra alma perdida. Deixa que parta, que leve a carcaça da amada, se esta ainda lhe corresponder. E tu, cantor de estrelas e delírios, se tua bem amada por ventura te seguir, vossa saída é livre e nada mais vos perturbará. Se olhares para trás, se duvidares que ela te cumpre a promessa e segue, a perderá para sempre em nosso mundo e além. Mas, se sobreviverdes a vossas próprias súplicas, sereis contados entre os amantes do futuro. E de nenhum outro falso fruto de amor desejareis uma réplica.


Abaixo a cabeça. E o sonho se dissolve, deixando sobrar a meus pés, onde fora o lago, apenas um vale seco e fundo. O céu está calmo. Nos cantos do universo expandido, as estrelas explodem em silêncio. No lado oposto do vale da morte, avisto a estrangeira parada. Olha com olhos de quem não sabe o que faz ali, mas olha pra mim, enfim, único ser vivente. E olha sem olhar, sem amor ou desamor que falseie a expressão de seu assombro original. Sinto como se tivéssemos onze anos e a hora apertada nos convidasse à novidade do sexo. Sinto que na Terra predadores correm pelo deserto tecnológico no rastro da última guerra. Apresso-me. Dou um salto titânico que atravessa todo o vale e me põe frente ao hálito da estrangeira. VOCÊ VEM?, eu respiro em sua boca. ONDE É?, ela revira os olhos em dúvida. Ouço um estrondo vulcânico. Olho para trás e vejo o vale afundar-se em chamas. PARA TRÁS A ENTREGA COVARDE! PARA FRENTE O DESERTO E A GUERRA! SIGA-ME, CONECTE-SE, PULSE! Digo essas palavras e selo com um beijo, o primeiro, apressado mas bem cuidado, voraz na descoberta, mas atento ao segredo, bem acolhido em terra selvagem. Deixo meu coração num beijo de cinema e começo a correr em direção ao deserto. Pulso cada passo em direção ao próximo. Sou um sonho que canta na escuridão, sem olhar para trás. Sou o guia de minha luz forasteira que corre atrás de mim. Canto.

O segredo da sombra corre para a manhã silenciosa,
O enredo da luz tomba quem caminha e não goza.
É mais que humano o deserto que meu corpo tem que vencer,
É mais que multidão a estrangeira que devo convencer.
Se eu tivesse no estômago dois goles de sonho para amanhecer,
Eu fingiria melhor o que a fuga nem me exige ser.
Dá-me tua água, indica tua régua, dita tua regra,
Deixa-me entender que é um fraco quem te carrega.
Hoje olho para frente, eu guardei a arma para a batalha de amanhã.
Ó bem, fica rente na subida e não me tenta com alma de maçã!
A manhã expõe suas cruzes, lá vem a guerra das luzes na saída.
Aqui, dois sós...
Muda de idéia comigo esta noite, dá-me essa graça de sol,
Sou só eu agora - distante serpente.
Amanhã tua platéia estará na grande praça, diante das lentes,
Onde o fogo venenoso ameaça a traquéia como doce de sal!
Amanhã as vísceras dos desligados estarão expostas,
Amanhã os jornais gritarão escandalizados como resposta,
Amanhã a gente foge, caça, rouba, goza, rola, come, se agasalha,
Amanhã a gente salta pro futuro sem pátria,
E sobrevive para contar a história que nos valha.
Agora, a lua some com a chuva e inspiro tua fome nua,
Única – estou em teu espaço.
Vamos, a tempestade crua come a batida de teus passos,
e só consigo ouvir o que vem do céu.
Eu só roubo versos de quem canta todo o universo,
Mas esta noite invento meu próprio reverso,
para quem sonho andar aqui por perto.
Esta noite eu me lembro de todas as canções de todos os corações,
Meu correr estica as cordas de todos os dons e ressoa todas as orações:
- Qual é a graça que me segue?
Muda de idéia comigo esta noite!
As luzes da cidade já nos chamam atrás do horizonte...
Mas falta um monte, não minto, não vejo fim depois do fim –
Só sei de uma ponte - guarda o fôlego para depois de mim.
Se estiveres comigo, deixa que eu cante por dois:
- Qual é o sonho que me cega?


O SONHO QUE ME CEGA, eu repito lúcido e desperto noutro cenário. À minha frente, uma larga ponte de ferro cruza um desfiladeiro, no país do vale verde, onde a estrangeira foi picada e começou minha jornada. Três mulheres de tailleur rouge e écharpe noir recebem as pessoas na entrada da ponte, vendando os olhos dos homens e amordaçando as bocas das mulheres. Elas comandam: TIREM AS ROUPAS E NÃO OLHEM PARA TRÁS! As pessoas obedecem apressadas e correm para atravessar a ponte, ao fim da qual milhares aglomeram-se numa turba diante de um alto portão do mesmo ferro grosseiro. No caminho, alguns tropeçam na própria ansiedade e caem pelas amuradas baixas nos lados da passagem, feitas de inconstantes cabos de aço. Outras pessoas, homens todos, viram-se para olhar antes de serem vendados e assistirem ao espetáculo de suas amadas esturricarem em chamas, derreterem no gelo, sublimarem em bruma rasteira ou, secas, ruírem em ritmo agonizante como relógio de areia. Preciso acreditar que a estrangeira me segue e ir tomar meu lugar na fila de indigentes e desesperados. Levanto os braços e atiro-me no leito da multidão que me arrasta até a entrada da ponte. Uma das mulheres de vermelho, uma loura, sorri para mim com a objetividade de uma aeromoça, aperta o pano preto atrás de meus olhos e diz: NÃO SE APRESSE... E BOM RETORNO! Eu agradeço e saio procurando os passos devagar, pisando pés, tateando corpos na escuridão. Ouço apelos perdidos como uivos solitários: ‘NUNCA MAIS ETERNAMENTE!’, ‘TEU NOME ANTIGO AFOGA EM MEU PEITO!’, ‘VEM MEU SONHO, A JUVENTUDE PASSA!’. E eu grito: SE VOCÊ EXISTE MESMO ESTRANGEIRA, ACORDA DO MEU SONHO E ME SALVA! Uso as mãos para agarrar a realidade das coisas. Como as minhas, umas mãos tocam meu corpo em busca de alguém, outras me convidam para a lascívia anônima. Meu desejo se multiplica e, insensato, sai à busca de um repouso que substitua o corpo da estrangeira. Procuro cabelos e peitos, depois abraços e bocas. Perco-me no labirinto dos prazeres até encontrar um beijo infinito que me conecte a ela na escuridão. Entre choques de prazer e espasmos musculares, um estrondo metálico e um ranger de portas. Silêncio geral. Sinto-me na plenitude do sonho. Aceito que é sonho e entrego-me despreocupado à curiosidade de ver o final de minha travessia. Quero ver o corpo que me deu prazer enquanto eu lutava para trazer o amor. Tiro a venda: em meus braços, a estrangeira. Olha assustada como se não fosse a mais bela, como se eu roubasse o segredo de seu fogo. Então ela baixa o olhar e tudo ao nosso redor vira areia – as pessoas que corriam para a glória, o portão de pedra e a cidade de cristal escondida atrás dele, a própria ponte que nos sustenta. Ficamos suspensos no ar sobre o desfiladeiro. Ela diz: EU NOS PERDÔO. E cai para fora de todos os sonhos. Meu corpo é um caixão pesado. Fecho os olhos como quem martela pregos e sinto meus pés afundarem na areia – e sinto o vento estapear centenas de grãos em meu rosto. Abro os olhos para avaliar a sobra do pesadelo ou o desencanto do sonho: só eu, o deserto e o sol quase lá – a noite cedendo à transparência ilógica do dia. Olho para direita de onde parte o som de um drapejar humilde. Reconheço meu primeiro abrigo, meu novo lar, a carcaça de avião fantasiada de destroços de baleia, com um trapo branco dançando numa saliência alta. Encostado num canto, meu guia. Sigo até ele, ajoelho-me e, fundo, choro a cara na terra. Ele espera e sorri, enquanto lasca paciente uma pedra. Seu sorriso é um idioma que eu entendo, antes de acordar de um sonho de tantas línguas.

Comida é redondo minério – partida, retorno e mistério.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

cotidiano


Estar vivo. Ter de render alguma homenagem ao céu, manter-se sobre os pés. Temer a escuridão da terra, baixar os olhos. Morrer para si e para o outro. Manter o organismo operante. Rastrear o desejo pelo corpo. Como se fosse passado, como se fosse a juventude perdida num jardim suspenso. Controlar o vício do prazer. Deixar que apenas o coração esteja, teimar na respiração. Descansar as horas no leito babado. Acreditar que o amor é amanhã e depois esquecer. Orar pelo simples medo. “Onde está, senhor? Onde estará o que me condena e redime?” Ser fio só, luz veloz universo frio adentro, procurando um deus para se render. Criar Deus na simples pronúncia de um nome. Nomes milenares em faces de anjos que beijo quando calo todos os nomes de deus. Ser bicho, osso erguido, pó soprado. Ser a simples Criação na esperança de um sonho sem seitas, seiva errante entre concreto armado. Estar vivo num cruzamento, atar olhares, catar juras. Entregar recados da espécie. Calar agora.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

OS GUERREIROS DE NINGUÉM - um conto chinês

Uma homenagem a Guy de Maupassant
Sei que a história que tentarei relatar da forma mais simples possível parecerá de todo inverossímil. Não posso considerar-me alguém que foi gratificado com dotes literários. Sei também que este relato parecerá mero produto de uma mente em devaneio, mesmo porque serei obrigado a ocultar certos detalhes que decerto contribuiriam para tornar esta história merecedora de mais crédito. A simples necessidade de manter o meu nome oculto revestirá esta narrativa com uma máscara imperfeita de mistério; máscara, aliás, muito melhor utilizada por autores de outras épocas. Mas eu não sou um autor; o que relato de fato me aconteceu. Se eu conto esta história sem revelar-me por completo é porque não posso mais guardar este segredo que todos os dias me lembra de sua existência, mesmo no silêncio da carne. Só hoje compreendo que talvez eu não tenha sido o único. Há, quem sabe, toda uma dinastia milenar de anônimos que, sem pedir, foram estigmatizados pela mesma experiência que eu. É para que estas pessoas que escrevo esta história. Se chegarem a essas páginas, que não se sintam sozinhas. Já faz três anos que me vi enredado nesta estranha série de eventos, e ainda hoje minha razão duvida de sua veracidade, não fosse pela marca indelével deixou em mim, como logo ficará explícito.

Aos trinta anos de idade eu podia ser considerado o que se chama ‘homem de sucesso’. Aos vinte e dois anos eu concluía com grande êxito meus estudos universitários que me garantiram o título de engenheiro eletrônico. Logo fui contratado por uma das maiores empresas de informática, e aos vinte e sete anos eu já havia conquistado o que muitos passam a vida toda para conquistar e, na maior parte das vezes, não conseguem. Aos vinte e oito eu contraíra um feliz casamento com uma jovem publicitária de sucesso. Todos nos consideravam um casal de sorte e desfrutávamos desta bem-aventurança de todas as formas possíveis. Tínhamos muito amigos e nunca éramos dispensados de qualquer evento social. Por mútua decisão, planejávamos gerar a nossa progenitura só quando tivéssemos consumido toda a nossa juventude num luxo que se abria cada vez mais diante de nós. Éramos, como se diz, um casal perfeito, fruto de um casamento realizado a um só tempo por amor e por conveniência.

Aos trinta anos meus superiores me julgaram confiável e impetuoso o suficiente para que eu representasse nossa empresa no exterior. Eu e minha esposa já conhecíamos vários países da Europa, as cidades imprescindíveis da América do Norte, e colecionávamos uma ou duas aventuras nos Andes. Mas eu nunca tivera a menor pretensão de visitar a China. Eu guardava uma impressão respeitosa, mas quase indiferente deste país milenar. Quando me avisaram que a minha primeira viagem como representante internacional seria para a China, eu não soube muito bem o que pensar. Limitei-me a comprar um guia de viagens. Não tinha muito tempo para percorrer os vastos territórios chineses, e nem pretendia. Eu visitaria a Grande Muralha e uma ou duas curiosidades instaladas nas proximidades de Pequim. Eu sabia pouco ou quase nada sobre a cultura chinesa. Conhecia sua impressionante tecnologia e tinha ouvido alguma lenda absurda de que a Grande Muralha seria a única construção humana visível da lua.

Durante o vôo planejei toda a minha estadia. Decorei algumas frases essenciais em chinês e assinalei em meu guia de viagens algumas informações que me preveniriam de roubos e outros acidentes.

O avião aterrissou numa noite quente e perfumada. Parti imediatamente para o hotel e estendi-me na cama para aliviar-me um pouco do peso do fuso horário. Durante todo o dia seguinte cumpri minhas obrigações profissionais de forma tão eficiente que nem merecem serem relatadas. Uma nova reunião estava marcada para dali a dois dias, o que me daria tempo para fazer algumas compras e visitar a Muralha. A cidade estava cheia de turistas, principalmente americanos e japoneses. Consultei a recepcionista do hotel para informar-me sobre como eu deveria proceder para visitar a muralha. Felizmente o hotel estava preparado para encaminhar-me para uma visita guiada, o que me poupou trabalho e me deixou muito satisfeito. O guia informou-me que devido à alta temporada, um passeio pelo trecho mais visitado da muralha, chamado Ba Da Ling, precisava ser agendado com três dias de antecedência. Como eu não dispunha deste tempo, e por julgar que um muro é apenas um muro, pedi ao guia que me indicasse um outro ponto da muralha. Ele apresentou-me três ou quatro alternativas. Por fim, decidi-me por um trecho apelidado de Grandes Ventos, ou Mutianyu, instalado em altos cumes que recaem sobre vales profundos, recheados de grandes árvores antigas, e famoso por seu aglomerado de três torres que formam uma espécie de palácio no alto de um dos pontos da muralha. A cada cem metros, torres de observação velam a paisagem. A Passagem de Mutianyu, como é conhecida, foi reconstruída durante a dinastia Ming. Como se localiza aproximadamente a setenta quilômetros a nordeste de Pequim, no condado de Huairou, eu marquei a visita para logo depois do almoço, o que me permitiria descansar um pouco. Mas eu não esperava por uma longa peregrinação. O guia já havia me informado de que a muralha agora de dispõe de serviço de teleféricos que conduzem as pessoas para o alto da muralha. O folheto turístico ainda revelava que para as crianças havia sido montado um tobogã que descia da muralha pelo encosto da montanha.

No dia seguinte, após um almoço rápido e uma hora de viagem, durante a qual fui obrigado a ouvir em três línguas diferentes a longa história da construção da muralha, finalmente eu alcancei o meu destino. Confesso que não senti grandes emoções. As máquinas fotográficas e o burburinho dos americanos e japoneses não me permitiam vivenciar em silêncio toda aquela solidez ancestral. Pensei nos soldados que, há centenas de anos atrás, consumiram suas vidas no alto daquelas torres na espera de um inimigo que nunca vinha. Talvez esses soldados, tão minimizados pela grandiosidade daquela construção e dos vales sem fim, conhecessem a verdadeira dimensão da existência humana. Depois de pensar nessas sentinelas anônimas, não quis mais saber da muralha. Informei ao guia que eu estaria no ônibus no horário combinado e, aliviado, apartei-me de meus companheiros provisórios e desci em direção ao centro da cidade de Huairou. De volta ao conforto da terra, pensei que nem todos deveriam ter o direito de subir ali e vigiar de forma tão displicente aqueles vales dominados pela Grande Muralha, inclusive eu próprio.

Na região de central de Huairou estendia-se um grande galpão antigo, talvez uma reminiscência do passado maoísta. Por toda a extensão desse galpão inúmeras portas se abriam para a rua. Por essas frestas se entrevia um interior apinhado de pequenas barracas cercadas por uma multidão de turistas que buscavam algum belo souvenir da muralha. Os comerciantes gritavam uns mais alto que os outros para cativar a atenção dos possíveis compradores. Resolvi entrar e percorrer as galerias estreitas que se formavam ao acaso da distribuição aleatória das barracas. Tudo era vendido ali, exceto talvez algo realmente útil. Os turistas eufóricos também gritavam uns para os outros. Venha ver isto... Venha ver aquilo...

Num canto, uma cena estática chamou a minha atenção. Um pequeno senhor chinês de pele queimada – talvez o sobrevivente de algum acidente doméstico – estava sentado num banco baixo de madeira com uma folha de papel sobre o colo e um pincel numa das mãos. Parecia muito concentrado. Em pé, a sua frente, uma linda mulher o observava em silêncio. Não parecia curiosa, desconfiada, encantada, ou coisa que o valha. Estava simplesmente em silêncio, quase triste, quase paciente. Apenas observava. Num dado momento esboçou um leve movimento com a cabeça para afastar dos olhos seu cabelo escorrido e loiro. Aproximei-me.

Parei do lado da moça e tentei ver o que o homem pintava. A princípio meus olhos divisaram um grande borrão negro de detalhes mínimos. Depois pude ver uma mulher no centro, de longos cabelos lisos, sob o alto de uma das torres da muralha. Pequenas borboletas exameavam a atmosfera. Apesar de ocupar o centro do desenho, a mulher não parecia ocupar maior destaque que as borboletas. Apenas a torre se impunha sobre todos os outros objetos diminutos e transitórios.

- Gosta do desenho? – disse a mulher dirigindo-se a mim em bom e velho português com um leve meneio de cabeça. Seu olhar era quase chinês.
- É muito bonito. E que paciência... – eu disse.
Ela sorriu em concordância.
- Como você sabia que eu era brasileiro?
- Eu dei uma camisa igual a sua para o meu marido – ela disse com extrema graça.
- Então você e minha mulher devem ter se cruzado na mesma liquidação...
Ela riu. O velho permanecia absorto em seu trabalho.
- É você no desenho? – eu quis saber.
- É sim... Este senhor é incrível. Ele pede para que você diga um lugar em que se sinta bem, e desenha esse lugar.
- Pelo visto você gostou muito da muralha.
- É... É impressionante...
- E as borboletas?
- Ele me disse que cada um vê a muralha de um jeito, e me perguntou como eu me senti enquanto estava lá. Eu disse que tinha me sentido como uma borboleta... Na verdade, eu acho que ele deve estar cansado de desenhar as pessoas na muralha...
- É verdade – eu me limitei a dizer.
- É a primeira vez que você vem à China?
- É sim... É um país impressionante – eu comentei de forma genérica. A verdade é que eu ainda não tinha uma opinião formada sobre tudo aquilo. – E você?
- Eu sempre venho...
- Trabalho?
- É – ela disse sem acrescentar maiores detalhes.
- Eu também. Qual é o seu nome?
- Ma...

Antes que ela pudesse completar seu nome, fomos surpreendidos por um estranho evento. O velho, que até então parecia não ter desviado os olhos de seu desenho, levantou-se com um único movimento brusco e agarrou com força o braço de um menino para quem emitiu algum vitupério antes de livrá-lo. O menino correu para dentro da multidão. Depois o velho disse alguma coisa em chinês para ela, que respondeu com visível alívio. Em seguida, ele voltou a concentrar-se no desenho.

- O que aconteceu? – eu quis saber.
- Esse menino tentou levar a minha bolsa, mas esse senhor foi mais rápido.
- Nossa! Como ele percebeu o menino?
- Os chineses são muito discretos.

Alguns segundos depois o velho segurou o pincel com seus dentes apodrecidos e, com as mãos livres, enrolou rapidamente o desenho, atando-o com uma fita vermelha. Entregou-o à moça que agradeceu muitíssimo e lhe devolveu uma quantidade mais do que razoável de dinheiro. O velho curvou a cabeça várias vezes, sempre com muita ênfase. Sua pele retorcida esticava na região da nuca. Quando a moça estava prestes a ir embora, ele suspendeu a despedida com um gesto de mão. Ela calou-se esperou. De um saco velho e sujo que mantinha debaixo do banco, ele retirou um envelope impecavelmente branco onde se podia ver algumas letras maravilhosamente caligrafadas. Ela recebeu o envelope com uma curiosidade atenta. O velho disse algumas palavras enquanto sorria com os olhos apertados. Num dado momento, ele apontou em minha direção. Ela olhou para mim, depois para ele, sorriu e despediu-se com derradeiro aceno de cabeça. O velho não olhou mais para mim. Senti-me deslocado, mas logo em seguida ela dirigiu-se a mim, enquanto nos afastávamos dali:

- Você recebeu um convite...
- Convite? – eu repeti sem entender.
- É... Ele me agradeceu várias vezes por eu ter pago mais do que o combinado pelo desenho. Eu lhe expliquei que eu só queria recompensá-lo por ter impedido que minha bolsa fosse roubada. Mesmo assim ele me convidou para uma festa... E disse que eu poderia levar meu amigo. Ou seja, você.
- Obrigado. Que tipo de festa é essa?
- Acho que tivemos muita sorte. É uma festa muito especial. A cada cinco anos alguns membros de sua comunidade têm permissão para realizar uma cerimônia milenar de primavera na muralha. Será amanhã à noite. Acho que será uma experiência imperdível. Quer ir?
- Por que não? - eu respondi, sem avaliar muito bem no que este privilégio me privilegiaria.

Eu associava este tipo de experiência a um espetáculo folclórico que apenas expressa as idiossincrasias remanescentes de uma cultura popular já agonizante. Folclore era para mim uma palavra associada a valores ultrapassados que nada diziam sobre a minha própria vida. Na minha condição de cidadão metropolitano bem-sucedido, politicamente correto, eu afetava respeito por este tipo de manifestação popular apenas por julgá-las importantes para a afirmação da identidade dos grupos que as realizam, mas, no fundo, eu encarava este tipo de festa como uma tentativa vã de ressuscitar crenças mortas. Se a muralha ainda se mantinha em pé, é porque era feita de pedras, e não de crenças. Mas a despeito de minhas próprias crenças, eu aceitei o convite de bom grado por reconhecer a qualidade estética que esta festa prometia, afinal, seria instalada num cenário luxuriante. Além disso, eu contava com excelente companhia.

- Aqui diz que devemos estar lá às dezoito horas – disse minha conterrânea, após verificar o conteúdo do envelope.
- Combinado... Então, até amanhã.
- Até amanhã.

Cumprimentamo-nos com um leve aperto de mãos e, embora eu não tivesse ainda um rumo definido, parti na direção oposta à dela. Enquanto caminhava para o ônibus eu pensei nesta estranha solidariedade que se estabelece entre conterrâneos que se encontram na condição de estrangeiros. Depois me lembrei mais uma vez da quieta solidão das antigas sentinelas da muralha. Entretanto, quando cheguei no ônibus, só consegui pensar no cansaço de minhas pernas, tão exigidas pela Grande Muralha. Sentei no meu confortável assento, produto da mais alta tecnologia, e adormeci. Nem me lembrei de que minha bela conterrânea havia partido sem dizer seu nome...

No dia seguinte, ainda com meu relógio biológico desregulado, acordei em torno do meio-dia, almocei algo leve no restaurante do hotel, e logo comecei a tomar as providências para meu novo encontro com a Passagem de Mutianyu. Os ônibus para Huairou saíam apenas na parte da manhã, o que me obrigou a alugar um carro e comprar um mapa. Cheguei aos arredores da muralha pouco antes das seis horas. O horário de visitação já estava encerrado e não havia mais ninguém, salvo alguns vigilantes noturnos. Agora é muralha quem precisa ser vigiada. Ainda tentei usar o teleférico, mas como era de se supor, suas atividades também estavam encerradas. O acesso à muralha agora só poderia ser feito à moda antiga, ou seja, mediante uma escalada de, no mínimo, quinhentos metros altura. Procurei a trilha que me permitiria subir sem que eu me perdesse na floresta densa e escura. A trilha estava selada por um guardião vestido com uma leve túnica de seda branca. Estava prostrado entre duas bandeiras altas, uma vermelha e outra branca, que ricocheteavam do alto de bambus que cediam ao vento daquela noite. Tentei explicar-lhe que eu fora convidado para a tal festa, mas de nada adiantou. Ele parecia não entender uma palavra em inglês. Nesse instante, quando eu estava pronto para desistir, fomos interrompidos pela minha conterrânea que estava mais bela do que nunca. Por uma feliz coincidência, ela também estava vestida de branco, com um vestido que lhe descia até os joelhos. Calçava sandálias leves de couro cru e seus cabelos esvoaçavam livremente, presos na fronte por pequenas libélulas prateadas de olhos vermelhos.

- Pensei que eu não iria chegar a tempo – ela disse um tanto esbaforida, e logo entregou o envelope ao guardião que nos permitiu passar após ter-nos provido com uma daquelas lanternas de papel vermelho.

Eu não disse nada. Apenas sorri um tanto atordoado por aquela beleza que seria difícil de suportar, não fosse equilibrada por extrema delicadeza.

- O cheiro dos pessegueiros e das ameixeiras é delicioso – ela disse com um leve suspiro.
- É – eu disse.
- A natureza é surpreendente, não é? Quem diria que essas flores brancas se transformariam em belas ameixas vermelhas, enquanto que essas pequenas flores rosas, quase vermelhas, viram pêssegos dourados?
A trilha era sinuosa como a própria muralha. Algumas pessoas dizem que é um dragão que se estende pelos altos cumes. Senti-me um tanto embriagado. Se eu abrisse a boca, certamente iria dizer alguma asneira. Felizmente minha companheira não parava de falar.

- Você sabia que nas fundações da muralha estão enterrados alguns trabalhadores que se acidentaram durante a construção da muralha? – ela continuou.
- O guia disse alguma coisa a respeito, mas eu não prestei muita atenção.
- Existe uma bela história que conta que uma moça atravessou o país para se encontrar com seu amante que trabalhava na construção da muralha. Depois de meses de viagem ela finalmente chegou ao seu destino, ansiosa para reencontrar seu bem-amado. Alguém lhe disse que seu marido havia morrido já fazia vários meses. Ela ficou enlouquecida e emitiu um grito tão feroz que fez ruir todo o trecho já construído da muralha. As pedras caíram sobre ela, enterrando-a viva próxima ao túmulo de seu amado. Não é lindo?

Na verdade, naquele momento aquela história pareceu forte demais aos meus sentidos. Mesmo assim, eu concordei com ela. Por uma fresta aberta entre os galhos das árvores eu pude ver de relance um trecho da muralha. Uma das torres havia sido decorada com bandeiras brancas e uma torre seguinte com bandeiras vermelhas, ambas semelhantes àquelas que encontramos no início da trilha.

Por fim chegamos a uma pequena passagem, no interior de uma das torres que dá acesso ao alto da muralha. Fomos recebidos por duas adolescentes igualmente vestidas em seda branca. Fomos encaminhados para o centro da passarela de cem metros que interligava as duas torres decoradas. Várias pessoas já se encontravam ali quando chegamos. Eram dezenas de chineses vestidos humildemente. Eram camponeses de todas as idades. Pude avistar até mesmo uma mãe com seu bebê adormecido no colo. Todos estavam apoiados nos parapeitos da muralha e, como eu, portavam lanternas. Aparentemente nós dois éramos os únicos ocidentais ali presentes. A passarela, cuja largura entre um parapeito e outro era de aproximadamente cinco metros, estava vazia. Algumas moças percorriam-na servindo os convidados com uma bebida alcoólica forte e doce que não consegui identificar, mas que sorvi com gosto. Todos pareciam muito animados. Alguns riam, outros entoavam cânticos suaves. Esperamos talvez uma meia hora antes que qualquer coisa acontecesse. Vez por outra os bambus que sustentavam as bandeiras no alto das torres soavam seu canto melancólico. Ou teria sido o vento?

De repente, o som de um forte gongo, vindo da torre vermelha, ressoa por todo o espaço. Todos silenciam. Este som é logo seguido por um outro, vindo da torre branca. Duas notas fortes e agudas são emitidas por um conjunto de flautas de bambu. Os camponeses apagam suas lanternas. Faço o mesmo. Somos absorvidos, quase que totalmente, na mais absoluta escuridão, não fosse pela tênue luz da fina lua crescente e por algumas estrelas esparsas. Pelos portais das torres, à nossa esquerda e à nossa direita, saem duas comitivas enfileiradas simetricamente. Uma espécie de bumbo, de som oco e surdo, começa a compassar a caminhada lenta e pontual de uma comitiva em direção à outra. A comitiva da torre vermelha é composta exclusivamente de homens, enquanto que a branca compõe-se de homens e mulheres. Os brancos estão trajados com túnicas de seda dessa cor que lhes vêm até os pés. Cada um porta uma lanterna vermelha, presa num fino bambu, como grandes sóis acima de suas cabeças. À frente desta comitiva branca segue o velho desenhista queimado. Ele usa uma túnica mais pesada, preenchida com borboletas e libélulas esverdeadas, ricamente tecidas. Suas mãos estão suspensas no ar e seguram um pincel preto. A luz das lanternas tinge toda a cena. Do lado oposto, vêem-se homens com túnicas semelhantes, mas vermelhas. Estes portam lanternas brancas, o que realça ainda mais o brilho de suas roupas. Quem encabeça esta comitiva é um homem com uma terrível máscara de dragão. As ventas brancas de seu focinho parecem espumar. Sua túnica vermelha exibe um dragão sinuoso tecido em tons de verde que parece arder nas chamas do brilho vermelho da seda. Suas mãos estão atadas com uma fina corda branca.

Ao bumbo são acrescentados o gongo e as flautas, num ritmo lento. As comitivas param a uns vinte metros uma da outra. De cada lado estendem-se três filas quase intermináveis de pessoas. De repente, o velho e o dragão emitem um berro distinto e todos se ajoelham e abaixam suas cabeças ao mesmo tempo. Silêncio total. O bumbo retumba. Pequenos sinos marcam seus passos. Três crianças que assistem ao espetáculo começam a chorar. Minha companheira parece enfeitiçada. Pausadamente, o velho se aproxima do dragão. Uma moça ajoelha-se entre os dois e porta uma bandeja onde se pode divisar um pote quadrangular cheio de tinta vermelha, uma rosa branca e uma espécie de punhal. O velho embebe o pincel na tinta e num gesto brusco, ressaltado pela batida forte do gongo, traça um risco vermelho de um extremo a outro no pescoço do ator que representa o dragão. O velho se afasta. O dragão se inclina lentamente para frente até que a máscara caia de sua cabeça. O ator está suado e visivelmente alterado. Seus olhos vasculham uma outra realidade. Com cuidado, o velho pega a rosa branca e deixa pingar quatro gotas de tinta em seu interior. Em seguida, quebra o galho cheio de espinhos e o estende a meio do caminho entre ele e o dragão. De pés descalços, o velho avança apenas um passo e mantém-se firme em cima do galho espinhoso. Algumas gotas de sangue começam a escorrer pelos veios das pedras que pavimentam a passarela da muralha. Ainda em forma de botão, as pétalas são colocadas na boca do dragão. Este não mastiga nem engole a rosa. O velho saca o punhal e com um único gesto rompe a corda que atava as mãos do dragão. Subitamente, os olhos do homem que representa o dragão voltam de seu alheamento e recebem todo aquele instante presente com serenidade. Abaixa a cabeça e, cerimoniosamente, entrega a máscara de dragão ao velho, que a ergue no ar. Neste momento, todas as pessoas que assistiam em silêncio, e que possivelmente já conheciam o desfecho do espetáculo, começam a clamar em direção ao velho. Gritam, choram, agitam os braços. O velho é isolado da multidão que corre afoita em sua direção por alguns homens de branco e vermelho dispostos em círculo ao seu redor. Minha companheira e eu nos mantemos à distância. Só se vê uma máscara suspensa no meio de uma barreira humana. De repente, o velho abaixa a máscara. Seus guardiões se ajoelham mantendo a formação circular. A multidão vai-se acalmando e só restam um ou dois lamentos dispersos no ar. Quando tudo parece quieto o suficiente o velho exclama algo que mobiliza quatro homens, dois de vermelho e dois de branco. Eles parecem vir em nossa direção. Pergunto à minha companheira se ela entendeu o que o velho dissera. Sem desgrudar os olhos desses quatro homens, ela diz próximo ao meu ouvido:

- Ele disse: “Tragam o escolhido!”

Mal ela termina de falar, eu sou cercado pelos quatro homens que me agarram pelos braços e pelas pernas. Antes que eu pudesse me dar conta do que estava acontecendo, lanço um último olhar para minha companheira. Ela não parece surpresa. Olha-me com olhos de quem quer dizer que não tem nada a dizer e baixa o olhar. A multidão agita-se de novo. Eu grito, debato-me no ar, mas tudo que eu faço para me desvencilhar daquilo é em vão. Sou levado até o velho. Colocam-me de pé em frente a ele e mantêm-me imobilizado pelos braços. Eu fico um pouco mais calmo. Aquilo poderia não passar de uma encenação. O velho olha bem nos meus olhos e diz num inglês carregado:

- Os guerreiros de ninguém viram que o dragão mora sozinho com você. Sua ira é grande. Seu corpo arde nas chamas que saem de sua própria boca. Ele quer engolir o fogo, mas não consegue. Ele quer sair, dominar os ares, mas sua ira é cega. Os guerreiros de ninguém vão libertá-lo pela força do fogo e dos Grandes Ventos.

Enquanto diz isto ele mantém o olhar fixo em mim, sem a menor das oscilações. Olha sem nada pedir. Está calmo. Ele conhece o meu destino dali em diante. Eu me sinto totalmente indefeso, vítima de algum grande mal-entendido gerado pelo fanatismo religioso. Sem palavras, sem forças, e quase sem fôlego também, eu olho para o velho e vejo em seus olhos que ele guarda o segredo de minha morte. Mesmo assim consigo balbuciar algumas palavras:

- O que vocês vão fazer comigo?
Ele não responde de imediato. Molha o dedo na tinta vermelha e risca meus lábios de cima a baixo. E diz:
- Os guerreiros de ninguém são guerreiros do silêncio. Mas você pode falar, se quiser...
- Peça para eles me soltarem... – eu digo, mas ao invés de me responder, meu algoz emite alguma instrução em chinês.

Meus olhos são vendados com uma fina écharpe de seda branca... Pétalas são colocadas em minha boca. Eu as cuspo. Colocam de novo e me apertam com mais força. Engulo as pétalas. Engasgo. Servem-me água. Começo a gritar de novo, mas meus gritos são incompreensíveis para todos, salvo para minha compatriota que talvez ainda assista a cena. Seguram a minha cabeça e colocam a máscara do dragão em mim, como posso perceber pelas formas. Sou carregado ao som de flautas e pratos e bumbos. As pessoas gritam. Sinto que me levam para um ambiente interior. Subimos escadas. Estamos numa das torres. Após outro lance de escadas, sinto o vento com mais força do que antes. Eu fui encaminhado para um dos pontos mais altos daquela geografia sinuosa, no terraço de uma das torres da Grande Muralha.

Ninguém fala nada. Deitam-me no chão, no que parece ser uma espécie de tatame. Aos poucos sinto o cheiro de incenso vindo de ventos à minha esquerda. Fico nesta posição não sei por quanto tempo. Se eu tento me mexer, logo algumas mãos fortes impedem meus movimentos. Fico nesta situação até que, pouco a pouco, os ruídos da multidão vão se distanciando até que reine apenas o ruído frio e persistente do vento. Meu destino final, seja ele qual for, tarda a acontecer. Um vazio negro aniquila toda a visão de meu futuro e vejo-me diante do meu nada. Quero rezar, mas não consigo. Eu nunca havia precisado de deus até então. Ali, em cima das fronteiras de um império já extinto, eu tento imaginar deus, mas neste instante nada é tão desconhecido para mim quanto deus. Eu, que nunca acreditei no que quer que fosse, que sempre tratei com escárnio a mais leve superstição, de repente vejo-me refém de um dos mais incompreensíveis e negros enredos produzidos pela mente cega de alguns místicos. Será sobre o meu corpo que aquele velho insano irá vingar seu rosto deformado pelas chamas? Muitas possibilidades sucedem-se em minha cabeça e todas elas anunciam a minha morte. Começo a tremer inteiro. Sinto cada fibra de meu corpo. Nunca eu tive uma consciência tão grande de meu próprio organismo. Nunca meu pensamento esteve tão grudado à minha carne. Meu corpo parece ter vida própria, uma vida que quer esgotar suas últimas reservas de energia no único movimento que me é permitido: o de tremer. Paro de gritar. Se eu gritar, talvez eu desperdice meus últimos sopros. Alguns herdeiros de uma das civilizações mais antigas devolveram-me para a minha condição animal.

Não possível descrever tudo o que senti e pensei durante esses momentos. Os pensamentos me devolviam para a certeza da minha carne. Minha carne buscava alguma solução impossível nos meus pensamentos. De uma hora para outra, toda a minha vida pregressa pareceu um grande absurdo que me conduzira para o maior absurdo de todos: esta situação a que ora eu me via enredado, sem possibilidade de volta. Por que eu fora o escolhido? Fora escolhido para quê? O que aquele velho vira em meus olhos que eu nunca conseguira ver?

De repente, ouço uma leve batida no gongo. Algumas mãos se atiram sobre mim e começam a tirar minhas roupas. Eu tento resistir, mas apenas grito, rendendo-me ao inevitável. Minhas pernas são dobradas e abertas, como se eu fosse preparado para um parto. Mais uma vez ouço o som do gongo. Meu corpo já não oferece nenhuma resistência. Meus intestinos apenas expulsam seus dejetos sem qualquer força de minha vontade. Com um pano úmido, limpam-me meticulosamente. Uma espécie de óleo perfumado é derramado em fio sobre todo o meu corpo. Todo este zelo será apenas o prenúncio de uma profanação hedionda do meu corpo? Começo a chorar. Subitamente, recebo um estranho toque que reverbera por todo o meu corpo. Algo como uma mecha de cabelo, ou melhor, como as cerdas de um pincel, tocaram aquela região entre os órgãos sexuais e o ânus, aquele território ignorado que alguns chamam de “terra de ninguém”. Sem pressa, o pincel percorre delicadamente cada ponto deste território vazio, para onde até então a consciência nunca tinha enviado suas sentinelas.

Nunca me senti tão vulnerável. Este ponto indiscreto do meu corpo abria sem resistência uma porta para todo o meu ser. Cada vez que o pincel completa seu movimento circular sobre este portal aberto em meu corpo, é como se meu coração fosse esmagado por mãos gélidas. Eu quero alhear-me de meu destino, mas o movimento das cerdas é tão lento, preciso e sem significado que eu não consigo ignorá-lo. Além do mais, envolto neste silêncio absoluto, sem saber quantas pessoas há ao meu redor, nada resta além dessa pequena, mas profunda intervenção no meu corpo. Eu me esqueço até dos Grandes Ventos. Pouco a pouco meu choro cedi e, entre um soluço fraco e outro, eu me vejo completamente entregue a um torpor para além do entendimento humano. Com que delicadeza insidiosa se mascara esta tortura... O tempo, enovelado nas voltas incessantes do pincel, parece perder sua consistência. Eu caio no peso desta eternidade dolorosamente repetitiva.

Horas se passam sem que o movimento sequer se altere. O mundo parou e só o pincel do velho continua a agir. De repente, eu próprio estou reduzido a este único ponto até então invisível. Eu todo sou a terra de ninguém. Todo o resto do meu corpo parece existir unicamente para que este movimento aconteça. Até minha respiração acostuma-se às voltas do pincel, e é por ele cadenciada. Só então percebo que minha mente silenciara. Não há mais dor. É a morte, talvez. Então a morte é essa coisa quieta?

Mas o silêncio dura pouco. É a vida ainda, e o que era dor transformou-se insensivelmente num prazer sem nome. O que era frio parece quente. Pressinto que a lua me observa com atenção e paciência. Minha imaginação começa a emergir do breu para onde havia sido atirada pelo medo. Eu sei exatamente onde estou. Ao meu redor, cada detalhe da natureza passa a ocupar o seu justo lugar. Nunca a muralha esteve tão presente sobre os cumes sinuosos. O pincel parece agora desenhar o mapa do universo inteiro na terra de ninguém. É como se fios vermelhos saíssem dos pontos tocados pelo pincel e fossem atados às estrelas. Eu me sinto suspenso e, mesmo entorpecido, guardo a forte sensação de habitar pela primeira vez o espaço de meu próprio corpo. Minha alma se transformou no meu corpo.

Talvez por terem percebido que eu começo a esboçar um sorriso, o pincel pára e me traga de volta para a realidade dura do chão da muralha. Eu apenas aguardo. Sem qualquer aviso, sinto uma picada úmida na mesma região. Depois outra e mais outra. Não sinto dor, nem prazer. Será o início da minha mutilação? Eu apenas gemo como se quisesse anunciar em vão que sim, eu ainda quero viver. As picadas continuam tão cirúrgicas quanto as pinceladas. Minhas pernas, até então adormecidas, começam a formigar nos braços de meus algozes. Algum tempo depois as picadas cessam. Sinto um hálito nauseabundo de uma cabeça próxima à minha. Derramam sobre a minha boca uma espécie de chá amargo. Finalmente, soltam meus braços e minhas pernas, mas eu mal posso me mexer. Devo ter ficado assim por cerca de meia hora até que um sono pesado lança seu véu sobre mim...

Quando acordei, vi que estava dentro de meu carro, nas proximidades de Huairou. Já era de manhã, mas não havia ninguém nas ruas. As picadas ainda doíam, mas eu estava vivo. O fundo da minha calça estava manchado de sangue já escurecido. Meu primeiro impulso foi o de tirar a calça e verificar o que havia sido feito em mim. Foi quando vi pela primeira vez a estranha tatuagem... No meu território sem nome, os guerreiros de ninguém haviam tatuado um pequeno dragão vermelho, cheio de arabescos. De sua boca, saía uma língua serpenteante, e na ponta da língua estava pousada uma pequena borboleta. Ambas as criaturas pareciam um mesmo e único ser.

Voltei para o hotel ainda entorpecido. No caminho, observei que a realidade parecia incrivelmente mais rica de detalhes do que jamais fora. Vomitei algumas vezes, mas não consegui aliviar uma náusea que ainda hoje me consome quando tudo parece tão completo e sem sentido.

Não consegui mais realizar minhas obrigações profissionais. Aleguei alguma desculpa e, ainda que temeroso, voltei para Mutianyu para tentar encontrar alguém que pudesse me explicar o que me havia acontecido. O velho não desenhava no galpão, e os guardiões diurnos da muralha diziam nada saber sobre os guerreiros de ninguém. Só depois eu pensei que minha bela companheira havia contribuído para o meu dúbio destino.

Quando cheguei ao Brasil, e me reencontrei com minha esposa, tentei explicar-lhe o que me sucedera. Mas ela não me compreendeu. Ela me disse que hoje em dia a extração de tatuagens deixa poucas marcas. Neste momento, eu percebi que não a conhecia.

No trabalho, todos notaram que eu estava mais silencioso e queriam saber a razão. Mas que razão eu poderia lhes dar? A experiência a que eu fora submetido acontecera fora dos domínios da razão. Aos poucos, passei a recusar todos os prazeres provisórios aos quais eu estava até então acostumado e, por fim, passei a viver cada vez mais isolado.

Deixei minha esposa e meu emprego promissor e instalei-me numa casa simples nos arredores da cidade. Os ambientes cheios de detalhes causam-me fobia, fico com os sentidos superexcitados. Agora me ocupo apenas na criação de um jardim, cujas flores vendo em troca de meu sustento. Ao fim de cada dia, eu me sento em frente a um grande espelho instalado em meu quarto e observo meu estigma.

Tenho estudado tudo o que posso sobre a cultura chinesa, mas não sei se terei tempo para descobrir, finalmente, se o que recebi dos guerreiros de ninguém foi uma benção ou uma maldição. Sei apenas que os dragões vivem pela eternidade afora, enquanto que as borboletas, uma vez libertas de seu casulo, vivem a tolice de seu destino por apenas dois dias.

Novembro de 2004


LILIANA CHORANDO - Julio Cortázar em tradução minha

Menos mal que é o Ramos e não outro médico, com ele sempre houve um pacto, eu sabia que chegado o momento ele me diria, ou pelo menos me deixaria compreender sem dizê-lo por inteiro. Isto custou ao pobre quinze anos de amizade e noites de pôquer e finais de semana no campo, o problema de sempre; mas é assim, na hora da verdade e entre homens isto vale mais que as mentiras de consultório coloridas como as pílulas ou o líquido rosa que gota a gota me entra nas veias.

Três ou quatro dias, sem que ele me diga eu sei que ele se ocupará para que não haja isso que chamam agonia, deixar morrer como um cão, para quê; posso confiar nele, as últimas pílulas serão sempre verdes ou vermelhas mas dentro haverá outra coisa, o grande sonho que desde já o agradeço ainda que Ramos fique olhando para os pés da cama, um pouco perdido porque a verdade lhe vacilou, pobre velho. Não diga nada a Liliana, por que a faremos chorar antes do necessário, não te parece? Para Alfredo sim, para Alfredo pode dizer para que vá fazendo um pouco de trabalho e se ocupe de Liliana e de mamãe. Che, e diga a enfermeira que não me tire aquele remédio, é o único que me faz esquecer o cheiro além de tua eminente farmacopéia, claro. Ah, e que me tragam um café quando eu pedir, esta clínica leva coisas tão a sério.

É certo que escrever me acalma um tempão, talvez seja por isso que tem tanta correspondência de condenados à morte, vai saber. Inclusive me diverte imaginar por escrito coisas que só foram pensadas nessas que se atolam na garganta, sem falar das lágrimas; vejo-me nas palavras como se fosse outro, posso pensar qualquer coisa desde que em seguida a escreva, deformação profissional ou algo que se empenhe em abrandar as meninges. Somente me interrompo quando chega Liliana, com os demais sou menos amável, como não querem que eu fale muito eu deixo para eles contarem se faz frio ou se Nixon vai vencer McGovern, com o lápis na mão os deixo falar e até Alfredo se dá conta e me diz para continuar, agir como se ele não estivesse, pegar o diário e ficar quieto um tempo. Mas minha mulher não merece isso, ela eu escuto, para ela sorrio, e me dói menos, aceito-lhe esse beijo um pouquinho úmido que volta uma vez ou outra ainda que a cada dia eu me canse mais que se aproximem de mim e devo lastimar-lhe a boca, pobre querida. Há que dizer que a coragem de Liliana é meu melhor consolo, ver-me já morto em seus olhos me tiraria o resto da força com a qual posso falar e devolver algum de seus beijos, com a qual sigo escrevendo apenas se ela já foi e apesar da rotina das injeções e das palavras simpáticas. Nada se atreve a meter-se com meu caderno, sei que posso guardá-lo debaixo da almofada, ou na mesa à noite, é o meu capricho, tenho que deixá-lo já que o doutor Ramos, claro que tenho que deixar, assim se distraí.

Ou será segunda ou terça, e o lugarzinho entre de quarta ou quinta. Em pleno verão a Chararita estará um forno e os rapazes vão passar mal, vejo Pincho com essas calças cruzadas e com as ombreiras que tanto divertem o Acosta, que por sua vez terá que vestir terno ainda que lhe custe e o rei do campo pondo-se gravata e paletó para acompanhar-me, isso será grande. E Fernandito, o trio completo, e também Ramos, claro, até o final, e Alfredo levando pelo braço Liliana e mamãe, chorando com elas. E será mesmo, sei como me amam, como lhes vou faltar; não irão como fomos ao enterro do gordo Tresa, a obrigação partidária e algumas férias compartilhadas, cumprir rápido com a família e mudar-se de volta para a vida e o esquecimento. Claro que terão uma fome bárbara, sobretudo o Acosta, que para guloso não lhe falta nada; ainda que lhe doa e maldigam o absurdo de morrer-se jovem e em plena carreira há a reação que todos conhecemos, o gosto de voltar a entrar no metrô ou no carro, de tomar uma ducha e comer com fome e vergonha ao mesmo tempo, como negar a fome que segue pelas noites, o cheiro das flores do velório e os intermináveis cigarros e passeios pela vereda, uma espécie de desquite que sempre se sente nesses momentos e que nunca me neguei porque teria sido hipócrita. Gosto de pensar que Fernandito, o Pincho e Acosta vão juntos a um bar, é seguro que irão juntos porque também o fizemos quando o gordo Tresa, os amigos têm que seguir um tempo, beber um litro de vinho e acabar com umas besteiras; caralho, é como se eu os estivesse vendo, Fernandito será o primeiro a fazer uma piada e tragar um peixe com meio filé, arrependido porém tarde demais, e Acosta o olhará de relance, mas o Pincho já terá soltado o riso, é uma coisa que não sabe agüentar, e então Acosta que é um cordeiro de deus se dirá que não tem porque se passar por um exemplo diante dos rapazes e se rirá também antes de prender um cigarro. E falarão muito de mim, cada um se lembrará de tantas coisas, a vida que nos foi juntando os quatro apesar de sempre cheia de buracos, de momentos que não compartilhamos e que assomaram na memória de Acosta ou do Pincho, tantos anos e broncas e amurros pesados. Custará a eles se separarem depois do almoço porque é nesse momento que o outro voltará, é hora de ir para suas casas, o último, definitivo enterro. Para Alfredo será distinto e não porque não seja duro, ao contrário, porém Alfredo vai se ocupar de Liliana e de mamãe e isto nem Acosta nem os demais podem fazê-lo, a vida vai criando contatos especiais entre os amigos, todos tem vindo sempre em casa mas Alfredo é outra coisa, essa cercania que sempre me fez bem, seu prazer de ficar conversando com mamãe sobre plantas e remédios, seu gosto de levar o Pocho ao zoológico ou ao circo, o solteirão disponível, pacote de masitas e sete e meio quando mamãe não estava bem, sua confiança tímida e clara com Liliana, o amigo dos amigos que agora terá que passar por esses dois dias engolindo as lágrimas, no melhor caso levando Pocho para seu quintal e voltando em seguida para estar com mamãe e Liliana até o último. Ao fim e ao cabo ele vai tocar, ser o homem da casa e agüentar todas as complicações começando pela funerária, isto tinha que passar justo quando o velho anda pelo México ou Panamá, vai saber se chega a tempo para agüentar o sol das onze na Chacarita, pobre velho, de maneira que será Alfredo quem levará Liliana porque não creio que a deixem ir com mãe, a Liliana do braço, sentindo-a tremer contra seu próprio tremor, murmurando tudo que murmurei para a mulher do gordo, a inútil necessária retórica que não é consolo nem mentira nem sequer frases coerentes, um simples estar aí, que é tanto.

Também para eles o pior será a volta, antes há a cerimônia e as flores, há todavia o contato com esta coisa inconcebível cheia de alças e dourados, da frente alta à cava, a operação limpidamente executada pelos do ofício, porém depois é o carro de volta e sobretudo a casa, voltar a entrar em casa sabendo que o dia vai estancar-se sem telefone nem clínica, sem a voz de Ramos alargando a esperança para Liliana, Alfredo fará café e dirá que o Pocho está feliz no quintal, que ele gosta dos filhotes e joga com os peõezinhos, terá que ocupar-se de mamãe e de Liliana porém Alfredo conhece cada rincão da casa e é seguro que ficará velando no sofá de meu escritório, ali mesmo onde uma vez estendemos Fernandito, vítima de um pôquer no qual não tirou nenhuma carta, sem falar dos cinco conhaques compensatórios. Faz tantas semanas que Liliana dorme só que talvez o cansaço possa mais que ela, Alfredo não se esquecerá de dar sedativos a Liliana e a mamãe, estará a tia Zulema repartindo os lençóis, Liliana se deixará ir pouco a pouco ao sonho nesse silêncio da casa que o Alfredo terá fechado conscientemente antes de ir atirar-se no sofá e prender outro dos cigarros pois não se atreve a fumar diante de mamãe pela fumaça que a faz tossir.

Enfim, há isso de bom, Liliana e mamãe não estarão tão sós ou estarão nessa solidão entretanto pior que a parentela orelhuda invadindo a casa; falará tia Zulema que sempre viveu no piso de cima, e Alfredo que também tem estado entre nós como se não estivesse, o amigo com chave própria; nas primeiras horas talvez não será menos duro sentir irrevogavelmente a ausência que suportar um tropel de abraços e de grinaldas verbais, Alfredo se ocupará de pôr distâncias, Ramos virá um tempo para ver mamãe e Liliana, as ajudará a dormir e deixará pílulas para tia Zuleima. Em algum momento será o silêncio da casa às escuras, apenas o relógio da igreja e a buzina distante porque o bairro é tranqüilo. É bom pensar que será assim, que abandonando-se pouco a pouco a um torpor sem imagens, Liliana vai estirar-se com seus lentos gestos de gata, uma mão perdida na almofada cheia de lágrimas e água de colônia, a outra junto à boca em uma recorrência pueril antes do sonho. Imaginá-la assim faz tanto bem, Liliana dormindo, Liliana no fim do túnel negro, sentido confusamente que hoje está cessando para voltar depois, que essa luz não será a mesma que golpeava em pleno peito, enquanto a tia Zulema abria o guarda-roupa de onde saía o negro em forma de roupa e de dobras mesclando-se sobre a cama como um rabo de pranto, um último, inútil protesto contra o que ainda teria que vir. Agora a luz da janela chegaria antes de nada, antes que as lembranças soltas no sonho e que só confusamente se abririam até a última masmorra. Sozinha, sabendo-se realmente sozinha nesta cama e neste cômodo, neste dia que começava em outra direção, Liliana poderia chorar abraçada à almofada sem que viessem acalmá-la deixando-a gotejar o pranto até o final, e só muito depois, com um semisonho de engano retendo-a no útero dos lençóis, o buraco do dia começaria a encher-se de café, de cortinas corridas, da tia Zulema, da voz do Pocho telefonando do quintal sobre os girassóis e os cavalos, um bagre pescado depois de rude luta, um espinho na mão mas não era grave, lhe haviam posto o remédio de don Contreras que era o melhor para essas coisas. Já Alfredo esperando na sala com o diário na mão dizendo-se que mamãe havia dormido bem e que Ramos viria à doze, propondo-lhe de ir à tarde ver o Pocho, com esse sol valia a pena correr até o jardim e numa dessas podiam até levar mamãe, faria-lhe bem o ar do campo, o melhor seria passar o final de semana no jardim, e por que não todos, com o Pocho que estaria tão contente tendo-os ali. Aceitar ou não dava na mesma, todos sabiam e esperavam as respostas que as coisas e o passo da manhã iam dando, entrar passivamente num almoço ou em um comentário sobre as verduras, pedir mais café e contestar o telefone que em algum momento tiveram que conectar, o telegrama do sogro no estrangeiro, um choque estrepitoso na esquina, gritos e apitos, a cidade aí fora, às duas e meia ir com mamãe e Alfredo ao quintal porque numa dessas um espinho na mão, nunca se sabe com os meninos, Alfredo tranqüilizando-as no volante, don Contreras era mais seguro que um médico para essas coisas, as ruas de Ramos Mejía e o sol como uma chapa fervendo até o refúgio nos grandes cômodos e corredores, o mate das cinco e o Pocho com seu bagre que começa a cheirar porém tão lindo, tão grande, que pelejou tirar-lhe do arroio, mamãe, quase me corta a cabeça, te juro, verá que dentes. Como estar folheando um álbum ou vendo um filme, as imagens e as palavras umas atrás das outras remexendo o vazio, agora verá que é o assado de tira de Carmem, senhora, levezinho e tão saboroso, uma salada de lentilhas e pronto, não falta mais nada, com o calor mais vale comer pouco, trarei o inseticida porque é a hora dos mosquitos. E Alfredo aí calado mas o Pocho, sua mão palmeando o Pocho, os vejo a sós o campeão de pesca, amanhã vamos juntos e numa dessas quem te disse, me contaram de um camponês que pescou um de dois quilos. Aqui embaixo o ar está bem, mamãe pode dormir um pouco no sofá se quiser, don Contreras tinha razão, e já não tem nada na mão, mostra-nos como sabe montar no filhote, olhará mamãe, olha-me quando galopo, por que não vem conosco pescar amanhã, eu te ensino, vai ver, um sol vermelho e os bagrezinhos, a correria entre o Pocho e o menino de don Contreras, o puchero ao meio-dia, e mamãe ajudando de qualquer jeito a pelar os frangos, aconselhando sobre a filha de Carmem que estava com essa tosse rebelde, a siesta nos cômodos desnudos que cheiravam verão, a obscuridade contra as persianas um pouco ásperas, o entardecer debaixo do guarda-sol e a bomba contra os mosquitos, a cercania nunca manifesta de Alfredo, essa maneira de estar aí e ocupar-se de Pocho, de que em tudo fora cômodo, até o silêncio que sua voz rompia sempre a tempo, sua mão oferecendo um jarro de refresco, um pãozinho, ligando o rádio para escutar o noticiário, as plantações e Nixon, era previsível, que país. O fim de semana e na mão de Pocho apenas uma marca de espinha, voltaram a Buenos Aires numa segunda muito temperada para evitar o calor, Alfredo os deixou na casa para ir receber o sogro, Ramos também estava em Ezeiza e Fernandito, que ajudou nessas horas do encontro porque era bom que tivesse outros amigos na casa, Acosta à nove com sua filha que podia jogar com o Pocho no andar da tia Zulema, tudo se ia dando mas amortigado, voltar atrás mas de outra maneira, com Liliana obrigando-se a pensar nos velhos mais que nela, controlando-se, e Alfredo entre eles com Acosta e Fernandito desviando os tiros diretos, cruzando-se para ajudar Liliana, para convencer ao velho de que descansasse depois de tamanha viagem, indo-se de um a um até que somente Alfredo e a tia Zulema, a casa calada, Liliana aceitando uma pílula, deixando-se ir à cama sem haver aflorado uma só vez, dormindo quase de golpe como depois de algo cumprido até o fim. Pela manhã eram as correrias de Pocho na sala, arrastar as sandálias do velho, a primeira chamada telefônica, quase sempre Clotilde ou Ramos, mamãe queixando-se do calor ou da umidade, falando do almoço com a tia Zulema, às seis Alfredo, às vezes Pincho com sua irmã ou Acosta para que o Pocho jogue com sua filha, os colegas do laboratório que reclamavam a Liliana, tinha que voltar a trabalhar e não ficar encerrada na casa, que o fizesse por eles, estavam com falta de químicos e Liliana era necessária, que viesse ao meio-dia em todo caso até que se sentisse com mais ânimo; Alfredo a levou pela primeira vez, Liliana não tinha vontade de dirigir, depois não quis ser incômoda e sacou o carro, às vezes saía com o Pocho à tarde, o levava ao zoológico ou ao cinema, no laboratório lhe agradeciam que lhes tivesse dado uma mão nas novas vacinas, um surto epidêmico no litoral, ficar até tarde trabalhando, tomando gosto, uma correria em equipe contra o relógio, vinte caixonas de ampolas para Rosário, conseguimos, tarefa, o Pocho no colégio e Alfredo protestando, ensinam a aritmética de outra maneira a esses meninos, me faz cada pergunta que me deixa tenso, e os velhos com o dominó, nos nossos tempos era diferentes, Alfredo, nos ensinavam caligrafia e olhe a letra que tem esse menino, aonde vamos parar. A recompensa silenciosa de olhar para Liliana perdida em um sofá, uma simples olhada por cima do diário e vê-la sorrir, cúmplice sem palavras, dando a razão aos velhos, sorrindo desde as orelhas. Mas pela primeira vez um sorriso de verdade, desde dentro como quando foram ao circo com o Pocho que havia melhorado no colégio e o levaram para tomar sorvete, para passear pelo porto. Começavam os grandes frios, Alfredo ia com menos freqüência à casa porque havia problemas sindicais e tinha que viajar às províncias, às vezes vinha Acosta com sua filha e aos domingos o Pincho ou Fernandito, já não importava, todo mundo tinha tanto a fazer e os dias eram curtos, Liliana voltava tarde do laboratório e dava uma mão ao Poncho perdido entre os decimais e a bacia do Amazonas, ao final e sempre Alfredo, as regalias para os velhos, essa tranqüilidade nunca dita de sentar-se com ele perto do fogo já tarde e falar em voz baixa dos problemas do país, da saúde de mamãe, a mão de Alfredo apoiando-se no braço de Liliana, te cansas demasiado, não está com a cara boa, o sorriso agradecido negando, um dia iremos ao jardim, este frio não pode durar toda a vida, nada podia durar toda a vida ainda que Liliana lentamente retirasse o braço e buscasse os cigarros na mesinha, as palavras quase sem sentido, os olhos encontrando-se de outra maneira até que de novo a mão escorregando pelo braço, as cabeças juntando-se e o largo silêncio, o beijo na testa.

Não havia nada a dizer, havia ocorrido assim e não havia nada a dizer. Inclinando-se para lhe acender o cigarro que lhe tremia entre os dedos, simplesmente esperando sem falar, acaso sabendo que não haveria palavras, que Liliana faria um esforço para tragar o fumo e o deixaria sair com um queixar, que começaria a chorar afogadamente, desde outro tempo, sem separar a cara da cara de Alfredo, sem negar-se e chorando calada, agora somente para ele, desde tudo o outro que lhe compreenderia. Inútil murmurar coisas tão sabidas, Liliana chorando era o término, o limite de onde ia começar uma outra maneira de viver. Se acalmá-la, se devolvê-la à tranqüilidade fosse tão simples como escrevê-lo com as palavras alinhando-se num caderno como segundos congelados, pequenos caroços do tempo para ajudar o passo interminável da tarde, se somente fosse isso mas a noite chega e também Ramos, incrivelmente a cara de Ramos observando os exames recém terminados, buscando-me o pulso, de uma hora para outra, incapaz de dissimular, arrancando-me os lençóis para olhar-me desnudo, apalpando-me o lado, com uma ordem incompreensível à enfermeira, um lento, incrédulo reconhecimento que assisto atento, quase divertido, sabendo que não pode ser, que Ramos se equivoca e que não é verdade, que só é verdade o outro, o prazo que não me havia ocultado, e irritação de Ramos, sua maneira de apalpar-me como se não pudesse admiti-lo, sua absurda esperança, isto não me fará crer nada, velho, e eu forçando-me a reconhecer que o melhor é assim, que numa dessas vai saber, olhando para Ramos que se endireita e volta a rir e solta ordens com uma voz que nunca lhe havia ouvido nesta penumbra e nesta masmorra, tendo que convencer-me pouco a pouco de que sim, de que então vou ter que pedi-lo, apenas se for até a enfermeira vou ter que pedir-lhe que espere um pouco, que espere pelo menos que seja de dia antes de dizer a Liliana, antes de arrancá-la deste sonho no qual pela primeira vez não está mais só, nesses braços que a apertam enquanto dorme.

Tradução: Alexandre Rabelo

quinta-feira, 26 de julho de 2007

CAIO CAI-SE

A queda de Ícaro - Henri Matisse -1943

O desespero não é o desespero. É a oportunidade do amor, do gesto novo.

Caio caiu. Quando viu os truques que moviam suas ilusões, já era tarde demais. Tarde demais para recuperar o passado. Um a um os truques que lhe davam prazer envelheceram, envileceram, perderam a cor. O brilho da beleza se escondeu em outro lugar, numa espécie de reservatório particular, a fonte da imaginação. O brilho da beleza revelou-se no pulso sem controle, na entrega impensada do simples corpo. O brilho da beleza também incendiou os vícios, tornando-os uma face ofuscante de deus. A carne, enfim, tornada revelação. O coração como mestre, o amor como guia, a alma como resultado. Mas isto foi depois da queda.

Enquanto caía, Caio emplumou-se orgulhoso de medo, respiração de ninguém, de coitado. Parou no ar e ninguém o acolheu. Suspirou alto para crer vantagens de si perante os outros. Quase desaprendeu de sorrir. Ocupou-se em construir a máscara perfeita para o que julgava ser sua dor. Tornou-se mais carinhoso do que de costume, rendendo-se a melancólicas saudades, espremendo as lembranças felizes, parando o olhar numa beleza incerta, esvanecente. Segurou o queixo numa queixa firme e assim ficou até o fundo da preguiça quando, enfim, no ato impensado de pensar, acreditou no óbvio das coisas, no silêncio puro do agora. Soube perdoar, soube aceitar-se, soube ver o peso do mundo nos objetos ao redor, caindo sólidos sobre suas ilusões, sobre sua ordem invertida. Passou a correr no sentido do tempo, conforme o desejo e a angústia, a fome e a sede, a preguiça e o sono, o sonho e a revelação de milênios ancorados na noite trevosa.

Mas tinha coisas a fazer. Enquanto caía, lembrava-se com pavor de obrigações, compromissos, dívidas que lhe sugavam do excesso de suas fantasias. E enquanto obrigava-se a viver, tal como o mais genérico dos homens, a vida o convencia de mansinho, sem maiores choques, noutro lugar, longe do emaranhado dos fatos, perto do sonho da verdade. Para seguir o seu sonho, Caio passou a obedecer a todos, treinou a humildade, seguiu os conselhos, praticou o silêncio. Estudou o que não podia, trabalhou o que não queria, comeu o pão que o diabo – mais preocupado com catástrofes maiores - esqueceu de amassar. Treinou sua rebeldia destilando-a suavemente pelos cantos, como um gato que passa. Seguia com seu olhar de horizonte de pedra, que só quebrava ao menor olhar curioso de alguém. Então sorria o mistério, cada vez mais discretamente, sem o desperdício da juventude.

Desse jeito conservava-se criança, brincando de errar, casando gestos, sem autoridade, vagando pelas ruas, pelos quartos, passeando pelo tempo, sem hora nem dever nem compromisso a não ser consumir-se no instante de cada coisa, abstrato, distanciado dos assuntos humanos, envelhecendo sem saber até ser tarde demais para sofrer com isto – ou cedo demais para chegar ao desespero final da morte de toda consciência, a queda final.

Caio caiu quando imaginou que o desespero fosse algo que ele não desejava imaginar. O que desejava então? Uma pergunta sincera, enfim. Ohou para o seu corpo após a queda e, parado na oportunidade do desejo, se levantou e, pelo gesto, atirou-se no abismo do amor.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

PARTIDAS, PARTIDOS

To the Future Lovers
Um dia – creiam-me, irmãos! - fiei-me em crer na união dos corpos em fé. Era o sonho do amor. Ardiloso, ardi-me. – E vi o fundo dos bichos, que é da mesma matéria dos sonhos. E no fundo da alma, julguei ter descoberto o mistério da ciência - luz divina! E diante da revelação, ajoelhei-me – sem fé, sem amor, sem trabalho. Pura excrescência da Natureza. E depois, nada. – Apenas o cheiro vago das estrelas... Perdi todos os nomes que me eram caros.
Agora, a Razão. Sim, eu creio! Enfim, tomo um partido; tenho a fé dos idiotas. Pena que o prazer me busca – a morte das palavras, nomes, ideais. Como para não amar. – Ah! O Amor! As penas! Quase me fazem acreditar novamente nas palavras... Mas, não estou aqui para isto; não quero istos, ruídos. Já disse: é a Razão, o Partido. Eu creio! – é meu medo quem me faz repetir. Repetir-se, repartir-se: é para momentos assim que procuramos o vício – repetição suprema, pura de intenções veladas.
Sou viciado em momentos – é o instinto, talvez. Uso a memória para repetir-me, para não cair no abismo da incerteza. Medo de escuro. – pobre criança alucinada! Não devo esquecer que já tenho pêlos no cu. Para os idealistas isto é o fantasma da velhice; para idiotas como eu é a simples boca grotesca da morte. Mas, coitado! – o instinto sopra em meus ouvidos como vozes santas – o cu é tão natural... Sai de retro, instinto! Tens um nome para minha razão: Natureza... Ha! Ha! Ha! Não tenho cu, acreditem-me! Sou o Orgulho da Espécie. Sei ser idiota até o fundo da alma. Alma – eu creio – e com este isto, retorno ao amor, ao Ideal.
O prazer acabou, irmãos. Sonho com o mesmo fraterno vício de sempre: o prazer mais solitário que qualquer ser humano. Sou egoísta, para mim – amar é não ser. E ser é o que restou. As mãos e o coração eu doei ao trabalho da vida. Sim, a vida é lá fora! – esta é a voz da razão. E para cá retornamos, irmãos. Juntos! Somos Um na Razão e debaixo das cobertas, quando muito. Lá fora o caos é outro. E caos não é coisa má. – jura a Ciência da Física. Não temeis, partidários do Bem! Senão, juro em nome dos átomos que não sou bom nem mau; sou idiota, quem há de negar? Os de pouca fé? Os loucos? – Ah, loucura... chamei-te vício um dia. Agora passou. Arrependo-me do pecado. Haveria como se arrepender senão de pecados?
Ah, cristandade! Não te esqueço jamais. No princípio era o Logos, o Verbo – determina o evangelho. Eu aprendi a lição. Estou pronto para assumir minha inépcia em ser livre. Nasci para ser seguidor, e sigo por aí. – Como haveria de ser livre quem proclama a liberdade? Tenho inveja dos ratos, seguidores por obstinação. Não das formigas, que trabalham para sobreviver. Não sei estocar reservas, forças. Não sei entregar só o corpo; entrego tudo. Sou pronta entrega. Podem me comprar, mercadores – irmãos. Aproveitem enquanto o martírio me orgulha.
Espero com um cigarro aceso – sou o prenúncio das chamas infernais. Duvidas, Razão? Olhe bem para o meu encanto, meu desvio. Não sei caçar dinheiro. Escolhi ser pobre para ser puro. E não há nada mais paralisante que a pureza invicta. Um orgasmo, pelo amor de Deus! – que já sinto impulsos de ser sedutor, e minha palavra não serve a esta função. Aqui embaixo, no desejo, a coisa é bem outra, mais séria. Na boca eu permito o riso – é isto que me vês fazendo, possível leitor. E que riso é esse? O do idiota, oras! De que outra forma a razão camuflaria o desejo? Resposta: falando com voz de santo – não temeis o amor!
Ah, ratinhos... Se eu verdadeiramente soubesse ser um dos vossos... Mas que eu me cale; devo soar como um produto atraente. Afinal, sou inábil para vender outra coisa que não eu próprio. Sou minha única propriedade. Afora isto, nada sou, é escusado repetir. Não é pena, é ciência. Não sei ser mercador; isto é para Rimbaud (informe-se). Acho mais ajuizado ser pop star, ofuscante, negro de tanta luz. É preciso estar atento para ser pop. É preciso consumir a própria luz para brilhar. – Nada de nobres ambições. Nada de revolta. Simples martírio. O dinheiro venceu a burguesia. Voltamos a ser todos filhos de um mesmo pai. - Vinde a mim as criancinhas! Tenho o prazer para quem não der conta da verdade.
Conto a história da Verdade: um dia desejei a Arte. Criei todas as imagens, as belas e as mortas. Quis dar salvação pela forma, consolo pelo deslumbre da crítica. Mas – disse-me a última musa que me visitou – a Arte não é forma e pensamento: é corpo. Este corpo! – E por esta razão, tão carnal, o mais certo é ser pop star, encerrado na autoglorificação que exalta a espécie inteira. Uma vaidade superior para a redenção de todas as demais. Assumamos este acordo entre a natureza e a história. Foi Lennon, mais famoso que Cristo, quem disse: o sonho acabou. Como não acreditar? E salve Madonna, puta redentora!
Não tenho saudades do tempo em que eu, criança fabulosa, defendia uma causa. Agora é só o temor de Deus, a abertura do cu para o mistério das partículas ocultas aos olhos da ciência classificadora. Cansei de julgar por medo, para recolher restos de amor. Não falo a ninguém. Aqui o jogo é outro, sem destinatário. Escrevo, quem sabe, para os africanos, mais perto do sol e da fome, isentos da palavra que nunca os salvará.
Para vós, orgulho do ocidente, meus irmãos de raça, deixo a revelação crua de minha idiotice – para vocês que ainda se guiam para um belo e ideal Destino. Eu trabalho apenas pela sobrevivência da palavra morta. E não se iludam a meu respeito: não amaldiçôo a vida – para quê? – a morte já é, desde muito, personagem central em nosso drama tecnológico, científico, iluminado.
Agora deixo a Razão de lado. Partido, parti para parte alguma. Agora é a hora. O resto, ilusão, mito, resto. Despojo-me da habilidade da ilusão. Salto para o fim. E vos aguardo de braços abertos, solidário como nunca houve igual, do alto de meu egoísmo, pronto para a rendição da prostituição eterna. – O cu do universo continua a se expandir.
Homens, deixai de ser homens! Para as estrelas! To the stars! A história não nos salva mais; seus conselhos foram esterilizados pela ciência. A fome geral aboliu a luta de classes. Retornemos à inocência do primeiro assassinato, motivado pelo pão da terra. Foi este ato primordial, não nos iludamos mais, que tornou necessária a invenção do amor – este medo de ser estrela. Chega dos olhares melancólicos dos amantes em direção ao céu. A lua já foi pisada pela Razão, não há como voltar atrás. O Destino Manifesto corre adiante. Inventemos novos vícios – o vício puro do fogo eterno num corpo entregue de todo o coração.
Mas – quem sou eu para proclamar desventuras? Não tenho esta coragem: sou idiota e amo. Sei como é fácil amaldiçoar a Razão. Repito como um gago viciado: vinde a mim as criancinhas! Vinde com coragem! Só não me chame de Amor.
Sim, irmãos! – Minha reza é uma fuga aos vossos princípios. Sou fraco, dilacerado, mas não como vós, partidários partidos. Minha revolta é de carne, de estrela, de verdade, de vida lá fora. Com toda a licença.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Graça em pista olímpica

Escravos vestindo Helena. Alexandre/Páris à direita. Eros acima.

O senhor não me ouve direito; inquieta uns traçados de expressão, e logo desfaz o olhar, resignado ao de fora. Ouça-me, peço, em respeito à educação - rápida, loquaz, sobrevivente de guerra. A hora não nos dá tempo a dividir, a contar-nos. É um corre.


Era segredo, mas agora não faz tanto silêncio. Tem mais o burbúrio insolente de revolta vencida, verdade rendida; o som das coisas que se desconheceram em nome de um bem igualmente esquecido. Nem reteve a tarja do mistério a enfaixar a luz dos olhos, a pôr em manchete. Ganha um sem-nome, e por tal desfalecença, pede justiça. Não por mim, que falo em nome do não-sei, mas por quem sabe quem. Não fosse assim, seria caso de polícia – a força escorraçando as palavras; mas aqui, sem medo da morte, a coisa vira outra, quase indigente, indiferente ao olhar vigilante. Tampouco é caso para suspeitas, senhor, é caso de ouvir mesmo; o lábio penso de assombro sincero.

Ao final, não vamos exagerar, a coisa toda era um corpo estendido e um copo quebrado. Houve risadas, não se deve esquecer, algumas damas aplaudiram por baixo das calcinhas, dois seguranças apertaram o passo, pretos, retos, mas não foi caso de levantarem o braço. Na madrugada, na pista escorregadia pelo excesso dos bêbados, a coisa morria-se naturalmente. Fim de feriado não se pesa às leis escritas; guarda-se para o dia seguinte, na esperança de que a memória vingue o desejo despedaçado - o sentimento de que um dia de cinzas não basta. É preciso que os corpos antes reunidos, expectadores do que julgaram ser espetáculo, recuperem-se na arrogância de vencer uma noite, por meio de uma crença que os torne portadores da história do outro, a qual comentam amorosamente, para dela se esquivarem, ou mordazmente, iludidos, para forçarem uma participação sua no grande enredo. Tímida na origem, a história ganha drama e ressaca. Ao final, insisto, restaram dois corpos sós, ou melhor, um corpo e um copo.

Houve quem prestasse atenção desde o início, mas a juventude, o senhor sabe, é coisa que não cabe em lugar. Eram muitos corpos no início, e eles estavam dispersos, como na Criação, embora nenhum dos impressionados tenha demonstrado fervor religioso; ao invés, sortearam apostas profanas sobre os acusados – apocalípticos hormônios. Cada qual alimentava uma fantasia sua, versões para um mesmo motivo: a atração universal dos corpos. Era simples o fato, mas quis o acaso que na boca dos bem-vindos a coisa ganhasse conotações mitológicas; trans-além.

Na ausência profunda vista nos olhos de um dos corpos do triângulo central, ousaram identificar uma síndrome de Helena de Tróia. Para quem guardaria o olhar frio? Por que seu amor iniludido despejava-se transparente, entre promessas e carícias furtadas, entre dois homens que se conheciam inimigos naturais? O fogo de Helena teve de consumir-se na guerra, os sensatos gostaram de lembrar; era bela como a glória dos homens mortos pela espada. Não era mortífera por ser bela, clamaram os paradoxistas, era bela por ser mortal, vítima da própria natureza; e assim amavam-na e viam a flor de suas horas perecer desperdício, insanidade, simples consumir-se no alto da torre. As cinzas nos olhos de Helena... lembraram com calafrio após o feriado; entregue a todos os amores na noite da fogueira final, certa do bem que fazia enquanto a batalha fosse maior. Beijava uns na frente dos outros enquanto girou pela pista de dança, mas não suspeitou que um de seus pretendentes não fosse guerreiro de fé, mas sim o introspectivo Narciso, apartado das águas abismais para a grande arena.

Narciso era outro caso, que quiseram incluir na história, embora sua vaidade superior lhe dissesse que era Helena quem invadia o seu espetáculo particular. O certo é que ambos eram estrangeiros – era das sombras da cidade que sua guerra tirava o alimento. Narciso levava comitiva, que o protegia da roda dos prazeres. Não neste corpo! - diziam comovidos, e ao seu redor se comportavam como fluído lago. Narciso, chamavam-no às escondidas, como o outro grego, de tempos nobres. Como o antigo, este de agora não suportava o que não se parecesse com sua própria beleza, até que a própria fonte da beleza secasse e restasse o lago de águas informes como sustento final de sua ambição; a emoção pura de não professar fé. Nos primeiros anos, não custa lembrar, Narciso olhava para o lago com movimentos sincopados, pescoço de galinha, há que ser preciso, trocando de ângulos como trocaria de pele um camaleão perdido num orquidário. Seu reflexo retornava os olhos inflamados e a boca cuspia razões frias, enrugadoras: belo! onde está isso?o que é isso? isto?! O que vêem que não vejo, ou antes, o que só eu vejo? E lá se via, até não se descobrir mais e deixar-se abater pela simples suavidade da grama. Até o dia que todos sabem. Afogado. Os moralistas falaram algo a respeito da vaidade que o engolira. Os psicólogos insinuaram uma imersão no eu dissolvido, um retorno ao princípio obscuro que a lucidez tentara desvendar em vão. Um poeta, mais aprazível, disse em voz alta: Ainda construiremos um mundo que saiba acolher sua beleza sem finalidade! Razões e sensibilidades à parte, ninguém esteve lá para saber – até esta noite...

Narciso deu de cara com Helena; ele, de olhos vítreos, parados no fundo do lago, ela, de olhos apertados na fogueira de soldados; ela do alto da torre, ele do fundo da lama. Para lhe sorrir, Narciso primeiro precisou encontrar seu reflexo nos difusos olhos de Helena.Viu o que não queria ver, ou o que desejava no fundo de sua morte: sua imagem turva, acastanhada, enlameada pelos mais profanos desejos, pura carne, isenta dos tormentos da beleza que Helena só retinha nos lábios finos, entre dentes. Ela, experimentada, saciando-se na certeza do troféu ainda não conquistado, suspirou tranqüilamente, dorso de um lado, como a oferecer seu leito sem comprometer-se com as exigências dos costumes. Pouco mais de dois encontros, enlaçaram-se, e pouco mais se deu. Lutaram como fogo e água, pela nobreza de seu elemento. Orgulhosos de si, secaram-se. Viram a face das Moiras a anunciar que daí em diante ‘ai de seus caminhos’. Narciso vomitou a lama presa no estômago; Helena consumiu-se na encruzilhada escura dos risos, não sem antes presentear sua prêsa com uma pedra branca, aliança ambígua de fidelidade natural e dependência forjada.

Quiseram os deuses – assim podemos interpretar a história, independentemente de tuas crenças, senhor – fazer uma pequena intervenção neste caso, pois qual explicação daríamos a tão inumano desfecho, nós que aqui estamos para disso falar e dissolver os preconceitos? Aqui vem a graça da coisa, e não de outro lugar.

Graça, disse um filósofo daqueles carrancudos, é estado de movimento equilibrado, sem falta nem excesso; desgraçados os lerdos e afetados. E a beleza está no movimento, ouvi dizer num dos bares deste canto da vida. Um acento neste devaneio alcoólico nos permitiria dizer que belo é o bailarino, de graça equilibrado entre os movimentos decididos, hercúleos, e os olhos abismados de desrazão. Belo é o palhaço, de graça esborrachado entre as puríssimas intenções e a inadequação profunda de seus movimentos. Melhor que o fruto da graça, só mesmo o amor, grita por fim um bêbado. E aqui aparece Eros, filho da beleza e da graça, duplamente palhaço e bailarino. Chegou na pista de dança não se sabe como, de cabelos raspados, em oferenda a sua mãe, Afrodite, dona da Beleza Superior - se assim me faço entender, foi assim mesmo que me contaram, embora eu não saiba a causa. E trazia as flechas ocultas, revelando-se aqui e ali como o perfume das flores. Não foi demais para que o desvendassem; a guerra enfurecida entre as tribos explodia em dança na pista.

Conta-se que em sua lição mundana, após cortados os cachos, foi-se refugiar no coração do país para encontrar a terra do homem de sábias palavras. Lá dispensou as asas e fez-se de romeiro, palmilhando securas, olhos de não-sei-querer, sorriso de água fresca, desatendido do amor, atento aos dramas lentos da eternidade. Fez-se homem primeiro, antes de entrar na história; firmou saúde, fincou os pés, arvoreceu. Na terra batida, para preservar seus encantos de atiçador, fez escola com as musas. Onde as asas não mais lhe coçavam, aperfeiçoou gracejos de comediante, imprimindo-se principescas delicadezas, espiralantes contornos, entusiasmática adesão. Também passou a fumar, o maldito, imiscuiu-se nos ares venenosos desta cidade; empinava o cigarro onde antes apontava a flecha.

As setas do afeto... Senhor, permita-me neste ponto falar de poderes; para não apascentar as fés muitas, preservarei neste assunto, impositivo para o simples curso da história, a mesma frivolidade com que falo de deuses, pois que o amor – poder de quem se trata – neste ponto da vida, desafiado de antenas, soma vozes de delírios incompatíveis. Ao sabor do gosto, desemaranhemos os fios. Assumamos a voz suplicante do fiel que assistiu a todo o culto por detrás da multidão:

- Ô sinhozinho Amô... Que barriga lhe deu de querê escondê as frecha? Vim de longe e ofreci duas vela e duas frô, e Santantônio já passô ou nem chegô, nego... Feliz dos coitado que viram o milagre e partiram na fé. Nóis que num vimu espera ocê, minino bandido. Oro pro outro minino, o Zizúis, pra ele ti guiá nos atiro, fio. Nóis vimu o que ocê fez, dotozinho dos prazeres.

Porque Eros – é bom esclarecer, meu senhor – caiu na doideira de amar sem vez, a direito e a torto. Dizem que caiu na pista; num trombo se imolou na própria ponta - não é culpa; é gente que se acotovela pra desatar. E o fogo róseo que antes lhe animava a seiva divina, de um dentro pra um fora, passou então a lhe queimar a pele, do vento para o mais completo acaso do sangue. É mistério que não se disseca, só se relata, veio dizendo o povo do circo, atento a todo e qualquer despertar; e com isso nem inibiu-se a vontade do doido. Juntou o fazer amar com o fazer querer-se e saiu a trabalhar pela união dos interesses, agora seus também. Quixotesco, saiu a caçar ordenanças, parte que vamos omitir, senhor; não é lícito supor sentidos para as aventuras que o deus busca na terra.

Não se sabe se a essa altura, terrena decerto, Eros fosse capaz de distinguir deuses e monstros. Certo é que logo topou com a encruzilhada de Helena; que logo o notou, que logo o atendeu, eternamente sinuosa entre a fila de pretendentes. Como os demais, qui-lo a seus pés; ultrajou-o no olhar, impôs honras e desonras pautadas em leis estrangeiras. Entretanto, por intuição divina ou traquejo mundano, Eros recolheu-se a uma posição superior, de onde – quem saberá? – passou a assistir o espetáculo que se travava entre a indigna e o cadáver de Narciso. Eros viu quando o afogado e Helena cruzaram juntos seu caminho com olhares de alcova, as pálpebras delirantes como borboletas à beira da morte. Narciso lhe sorriu mais fundo; do fundo de suas águas turvas talvez tivesse pressentido ajuda celestial. Lembro-me de que as ninfas que lhe faziam comitiva suspiraram orações pelo seu corpo encalhado:

- Salve Eros, que dá prazer à união da espécie; que devolve aos homens a sua condição entre-humana; que dá boca aos prazeres; que escorre a incerteza; que descobre a loucura; que insatisfaz a sede; que reclama a fome; que se retira antes do triste gozo. Olhai por Narciso, que veio da terra estrangeira onde buscastes a paz no silêncio das palavras; que não teve a beleza aceita e abdicou do mundo; que fadou-se ao amor sombrio de Helena, como sombrias eram águas que esponjaram sua carne vibrante. Salve Eros, senhor dos encontros, cantor dos contornos!

Senhor, meu senhor, que ouve a meia-boca esta história em que me intrometo e invento deuses, repito o que todos sabem: Eros deu colo e prazer. Sustentou os ombros de Narciso sobre o cadáver de Helena, humilhada por injúria própria. E podemos dizer, com a ousadia de quem rouba a palavra, que teria sido Narciso quem estendeu o braço e disse:

- Quem és tu, força da juventude, pele de regaço? Pulsa e pensa? Como andaste até aqui sem afetar-te da própria beleza? Que palavras nobres são essas que empunho ao pé do cadafalso? Por que razão fora de mim – os rasgos em teus olhos dirão - voltam-me as perguntas, meu jovem? Olho seco para minha despedida, retorno da flor fria, busco meu lugar nos costumes dessa gente, no mundo dos homens, na pista de dança. Caio para o céu, invertido na vaidade, rasteiro de razões. Esqueço-te para cumprir-me, por ora. Esta noite quebrarei os espelhos...

E assim, Narciso recolheu-se ao seio da terra em busca de secura; o fim das interrogações. O que renasceu de lá, só um Tirésias, sábio cego, poderia adivinhar e propor: deixa-me ver o que nem os cegos podem ver.

Eros, danado, impaciente como o desejo de ser novo, paciente como o sacrifício a que se entregara, respondeu sorriso com sorriso, dente por dente; e continuou sua trilha - não tinha tempo a contar-se. Vez por outra ainda ouviu o eco de Narciso, como linha cruzada, ou gêmea-encruzilhada: ouça o meu não-sei; saiba-me que te devoro.

Eu falei de um copo quebrado, mas isso foi o que perceberam. Houve mesmo um, espatifado no canto da pista de dança, próximo ao corpo submerso de Narciso. Primeiro espelho quebrado? Vingança de Helena? Zombaria de Eros? Caberia a nós decidir, senhor? Do lado de cá, a gente inventa uma história de deuses e mortais para preencher os boatos lá fora; e nos boatos ficamos, quietos, amuados, preenchendo indecisões; puxando os cabelos como quem não sabe se render. Ousaríamos nos aproximar dos protagonistas e, antagônicos, dizer: tomem vergonha nessas caras; isto aí não é um nada! Bem, o que posso dizer afinal? Ficamos na história, enquanto outros, na simples glória... Isto não é moral, é coceira de gente pobre, senhor. Eu adverti no começo: aqui não tem pêlo em ovo.

Terminamos sobranceiros – e agradeço o ouvido são. Fiquemos no devaneio, onde nomes e objetos não se dão. Amoitados, imaginemos beijinhos e carícias, se assim nos sustentamos da inveja. Caso não, voltemos para nossas dúvidas tolas de razão: será que seria bom se se queressem? Se é no sonho que se formula a atração dos corpos, a decisão dos amantes, só meus leitores dirão, senhor; os deuses não se influenciam por tão pequena monta - mas se eu lhes ajudar, pisco um sorriso a quem vier avisar. Perdoe-me a arte da alcovitaria; não tenho panca de sedutor - falei só de graça, meu senhor.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Dança Bandida


Para o Leo, que me venceu no Super Trunfo

“O poeta é um ladrão de fogo”.
Rimbaud

Eu já fui assaltado vinte três vezes, na proporção de um por ano, e só me tiraram cinco reais. Aprendi a fazer as contas para o pai, a reconhecer documentos e acordos tácitos. Sei contabilizar a minha vida, falo com orgulho. Só fico calado se me abordam com arma de fogo ou faca caseira. Não sou bobo, prefiro ser palhaço em cena, exposto com consciência, mesmo que esta consciência seja um silêncio. Quando sou palhaço a palavra some, dentro e fora de cena, e eu deixo ela sumir sem choro nem vela, tenho fôlego para ser bobo por inteiro, e não tenho medo de desmanchar no silêncio: aprendi a ficar erguido com muito balé e quando caio sou ator. Improviso e sobrevivo.
O que eu acho bonito é o que aconteceu num desses improvisos. Havia comida no palco vazio. Entre a comida, uma coca-cola alienígena. Um dos atores fez um furinho na garrafa, tão sem querer, e aquela espuminha foi rompendo o plástico devagar, num jato bem fininho e ácido, até ganhar uma força tão grande que tudo que estava ao redor ficou endemoniado como se deve. O acaso uniu o lixo e o gozo. Não esquecerei, nem deixarei de falar disso, até porque teve aquela outra cena em que entreguei desejo, beijo, amor e sexo, dois anos que pareceram duas horas, tanto que quando vi já era outro espetáculo. O que eu fiz depois dos aplausos não te conto, não é hora para contabilizar o passado. Próxima cena!
Esta noite bateu um desejo de querer saber porque estou num espetáculo que não tem nada a ver com aquele outro, onde eu entreguei tudo. Quis saber quem eram essas pessoas que se roubam à noite, pelos corredores esfumaçados onde a juventude goza. Entre essa gente, tinha gente que já vi na minha platéia. Cuidei para ter a cautela de saber quem era amigo e quem era ladrão, não quis perder mais do que cinco reais. O resto de mim eu arrisquei. O amor eu sei dar de graça, já falo logo, porque graça eu tenho na medida, salvo meu cabelo que amassa sob a pressão de um leve sonho, mas isso eu resolvo lavando. Tudo. Os loucos eu deixo em paz. Sorrio para quem me oferece leite com chocolate e rio quando é pouco o mistério que me oferecem. Rio pra não perder a postura dupla de palhaço e bailarino, meu mistério maior. E eu falo tudo porque falar faz bem, mesmo às seis horas da manhã quando o amigo pede ajuda e o desejo descansava quieto com o sono. E essa noite eu falei tudo e tanto. Quis dar nome aos bois, reconhecer os demônios que não sabem brincar. Porque são tantas coisas e alguém ainda veio me dizer que essas coisas todas são frias referências, quando eu quero saber do que dá calor de fato. Chega de ser assaltado pra viver uma emoção. Preferi entrar na cena desta noite, sem saber se fui como palhaço ou bailarino.
Só tremi um pouco e escorri um certo gelo quando escreveram na minha barriga, quase no final da noite. Isto aconteceu longe dos corredores, num quarto precisamente quadrado, sob o olhar crítico de uma gata no cio. Levaram-me e eu me deixei ir. Andarilho, topei com a imagem de Rimbaud, ladrão vendedor de armas de fogo e poeta errante, um século depois da morte ainda perdido num porta-retrato, como eu na lembrança do espetáculo anterior. Preciso reler Rimbaud, eu disse para me entrosar com meu próprio mistério. Aí tomaram-me nas mãos, como se eu fosse mais palco do que gente, e aí escreveram por mim a próxima cena. Da pele toda, roubaram-me uma depressão que tenho entre o coração e o estômago, e que faz barulho quando é invadida. Fiquei quieto sentindo as letras vazarem sobre o suor e abri os olhos de fininho para ver o que acontecia ao redor do meu buraco. Pra não ser roubado é preciso estar, em primeiro lugar, com os olhos abertos.
E vi: era eu que acontecia. Era eu que me espiava sendo escrito. As armas de fogo, se as havia, estavam debaixo da cama. Depois, ainda quieto, espiei a insônia de quem me sobrou no fim da noite. E sorri sem medo quando descobri que não iriam me acordar às seis da manhã para discutir o amor, e que só queriam me cobrir da noite finda, porque já era de manhã e eu havia aceitado tudo, até o sol iluminando corpos pálidos de tanta noite e tanto espetáculo.
No dia seguinte, tudo estará claro, eu sonhei antes de dormir: os bois terão nome e seu histórico será exposto na internet para quem quiser ver, como meu buraco protocolado em ponta de caneta bic. Quero aplausos. Dançarei na saída sem nenhum prejuízo, só uma camisa amassada. No bolso, guardo cinco reais e alguns cigarros que sobraram. É preciso ter pelo menos uma esperança de fogo para os ladrões possíveis. E guardarei uma última dúvida (privilégio permitido a quem espantou os ladrões pros buracos certos): preciso reler Rimbaud, esse ladrão que era frio, mas talvez fosse quente.

ALESP08MAI07